Descaso

A morte do torcedor atleticano André Lopes, na última quarta-feira, atropelado quando saia do Eco-Estádio após a vitória do Atlético (4-0) sobre o Roma, é mais uma demonstração do descaso dos organizadores do futebol local, cada vez menos preocupados com o bem-estar e a segurança do torcedor e muito mais em tapar os buracos que os mesmos se encarregaram de abrir. Infelizmente, esse buraco agora é ocupado por um jovem de 21 anos, que apenas queria acompanhar seu time do coração, mas sofreu com a falta de planejamento de quem liberou e confirmou o evento sem garantir segurança.

A faixa acima é um protesto de moradores e torcedores que perderam um amigo por pura falta de compromisso e planejamento. O conceito do Eco-Estádio é criativo e digno de nota. É feito para comportar a torcida do Corinthians-PR. Até o jogo desta quarta, o recorde de público era o jogo J. Malucelli 3-2 Coritiba, em 2008: 2.173 pessoas. Já um volume substancial de torcedores. O novo recorde foi estabelecido pelo Atlético, tem exatamente 1201 pessoas a mais, mais de 50% do público anterior: 3474. Com 17 mil sócios o rubro-negro dificilmente arrastará menos pessoas a campo do que o volume de quarta-feira. E pelo Facebook, único meio de contato com Mário Celso Petraglia desde que ele assumiu o Atlético, o presidente do clube anunciou:

A média de público do Corinthians-PR em 2011 foi de 383 pessoas, quase 10x menos do que se espera em público médio nos jogos do Atlético desde o anúncio acima. A liberação do estádio feita pensando no público médio do Timãozinho está dentro da normalidade; até mesmo o esquema de segurança, elaborado para um público tão diminuto, está de acordo. Para o Atlético, não. A movimentação é maior, desde o volume de torcedores e ambulantes até os profissionais de imprensa e da organização, mobilizados em maior número dado o apelo popular do Furacão.

E de quem foi a culpa pela morte de André Lopes? Cheguei a ler uma absurda troca de acusações clubísticas, como se Coritiba ou Paraná tivessem relação com a fatalidade – que, aliás, poderia ter acontecido num domingo de sol, com um visitante do Parque Barigui, já que não existe passarela na BR 277 – por não terem chegado a um acerto com o Atlético. Oras!, Coxa e Tricolor estavam quietos em suas casas, um ainda indignado pela maneira com a qual recebeu a imposição (ainda em processo judicial) de empréstimo do Couto Pereira, outro contabilizando o que vale/merece/precisa nas propostas pelo uso da Vila, já descartada. Atribuir culpa a esses clubes no acidente é desrespeitar a família e ignorar que o caso ainda está pendente de solução.

O Atlético, co-organizador do evento (que é da FPF) mostrou que cumpriu sua parte ao apresentar um ofício pedindo segurança a Polícia Rodoviária Federal com dois dias de antecedência:

A Rádio Banda B trouxe a público o documento acima. Aqui, o primeiro sinal de descaso: avisada, a PRF não  percebeu a relevância do evento. Ou, no mínimo, subestimou a importância de coordenar a entrada e a saída de 3,5 mil pessoas em uma rodovia. E o faz de novo: fará um teste hoje num jogo de menor apelo, entre Corinthians-PR x ACP. Pode ter a impressão de que o esquema já é satisfatório.

A Gazeta do Povo estampa que a PRF pode proibir os jogos do Atlético no Eco-Estádio. Diz Anthony Nascimento, inspetor da corporação: “Vamos avaliar se há uma forma para adequar o local para a travessia segura dos torcedores. Se não chegarmos a um consenso, a PRF vai pedir que o evento não seja realizado naquele estádio.” Como você viu acima, esse não será o único jogo do Furacão no Eco-Estádio, segundo o presidente rubro-negro. Após a tragédia (que poderia ter mais de uma vitima, diga-se) a PRF pode mesmo entender que não tem capacidade para fazer a segurança em jogos de grande porte na praça do Timãozinho. E então volta a tona o problema do Atlético: onde o clube jogará enquanto seu estádio está em reforma para atender à Fifa e à cidade na Copa 2014? Minha opinião está nesse link, mas em suma: foram cinco anos para pensar nisso e nada foi feito. Mais descaso.

Fato é que nessa semana o comitê paranaense esteve no Rio, reunido com a Fifa, apresentando as fórmulas de conclusão do estádio. Um nó que passa pela cessão de títulos urbanos de Curitiba (o potencial construtivo) ao Atlético, que os repassará ao Governo do Estado como garantia do financiamento via FDE. Aqui, cabe uma pergunta: entre os R$ 4 bi disponibilizados pelo PAC da Copa – a principal razão da briga de Curitiba pelo Mundial – não cabe orçar uma passarela na região?

Vamos seguir analisando o quadro num todo. É fato que o Atlético está sem opções para mandar seus jogos e que o Governo e a Prefeitura não mexeram um dedo para ajudar na solução, bem como há rompimento entre as diretorias do Trio de Ferro, pelos motivos já conhecidos. Mas há outra conta que pode ser feita: o CAP pagou ao Corinthians-PR R$ 20 mil de aluguel de campo, como está no borderô disponível no link. Como já citado, o Atlético tem cerca de 17 mil sócios. Cada um pagando R$ 70 mensais, enquanto o valor atribuído em borderô é de R$ 10. Claro, o sócio tem acesso a todos os jogos, o valor serve para cobrir as despesas dos ingressos – promocional para sócios – ao longo de um mês. Em fevereiro, por exemplo, o Atlético terá, contando o jogo com o Roma, quatro jogos em casa. A despesa, portanto, será de R$ 40, com R$ 30 ficando para o clube. A tarifação da FPF e da arbitragem, entre outros, entra na conta que o clube tem como prejuízo: R$ 9165,91.

No entanto, arredondando os números, 13.500 sócios estimadamente ficaram de fora do jogo, supondo ainda que estejam com a mensalidade em dia. São R$ 945.000,00 por mês, que certamente não cobrem o pedido público do Coritiba por jogo (R$ 250 mil) mas que possibilitaria um acordo mais justo e rentável entre as partes, sem a necessidade da justiça. Ou ainda na Vila Capanema, talvez não pelos R$ 30 mil oferecidos, talvez não pelos R$ 120 mil pedidos pela diretoria paranista. Resta ainda uma pergunta: apelando para o coração dos associados, o quanto a diretoria do Atlético vê ser necessária uma retomada de negociações? Quem sabe até aproveitando o embalo da nova campanha de marketing do Coxa, “Amo minha terra, torço pelo meu Estado”, que prega união e amor as coisas do Paraná – e pode dar um passo real fora de campo.

Aqui, não verso sobre a disputa judicial entre FPF e Coxa; essa opinião já foi emitida acima e foi a grande mola do desgaste. E a novela segue uma vez que a resposta do STJD, que sairia quinta, ficou pra sexta e passou o final de semana sem aparecer. E quando vier poderá causar até mais problemas do que soluções.

Um deles: entre os jogos de fevereiro no Janguito Malucelli, está o Atletiba de 22/02, uma quarta de cinzas. O estádio não tem iluminação e como antecipou Amilton Stival, vice-presidente da FPF, poderá receber torcida única no jogo.

Quem sofre é você, torcedor. É a família de André Lopes, para qual nenhuma das linhas acima servirá como consolo ou reflexão; é o consumidor, tratado para cima e para baixo como objeto, mas quase sem nenhum direito; é o cidadão, que acredita em um futuro melhor, mas vive sob a sombra do descaso dos governantes – que, não se esqueça, esse ano precisarão muito de você em outubro.

5 comentários sobre “Descaso

  1. Ta tudo errado!! Tudo desgovernado. Por birra e inveja dos comandantes dos outros clubes de Curitiba, o torcedor atleticano está à mercê de orgãos públicos deficientes. Precisa acontecer mais oq para q algo seja feito? Onde estão os responsáveis? Ninguém assume nada… Prefeitura, Estado, federação, CBF, Fifa…? estão todos atrás da moita, só esperando a Copa chegar para sair de lá e desfrutar dos benefícios. Tudo às custas do CAP e sua torcida. Sou favorável q o CAP e sua torcida façam um boicote ao campeonato estadual. Essa merda não vale nada mesmo…

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  2. Tem gente que só conhecem o tal do FAX, já perceberam?

    Convivamos com a nossa (total falta de) capacidade.

    Aos familiares do André e seus amigos, os meus sentimentos.

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  3. Napo, excelelnte texto! Acho que nessa situação todos estão errados. Mas arrisco dizer que 60% da culpa é de MCP. O modo que conduziu e a imposição que fez, resultou nesse impasse da falta de estádio que o Atlético sofre. Não podemos dizer que o Coritiba e o Paraná não tem suass parcelas de culpa, mas são pequnas. O primeiro por se sentir coagido diante de uma situação ditatorial e que não quis negociar e o segundo pedindo um valor abusivo pela estrutura do estádio.
    É claro que todos gostariamos que a nossos clubes pudessem se ajudar em questões assim. Somos ainda muito amadores e atitudes assim só mostram nossa postura pequena. Porém para se analisar o presente é sempre preciso olhar para o passado.

    Até 1999 as negociações entre as diretorias era melhor. O Atlético e o Paraná usavam o Couto periodicamente para jogos grandes e nos clássicos contra o Coritiba a curva inteira poderia ser ocupada por suas torcidas. Então veio a inauguração da Arena. O espaço destinado a torcida adversária na baixada era ridícula. Pequeno e desconfortável (até hoje a torcida adversária precisa se empilhar entre os cordões de isolamento) e o famoso ponto cego que não se resolvia nunca. É claro que o Coritiba deu o troco diminuindo o espaço no Couto. Ainda na era Petraglia outros casos lamentáveis ocorreram como a final de 2005 na baixada (ou 2000, não estou certo) quando foi cortada a água e a luz do vestiário do Coxa no intuito de criar um clima intimidador. Outra situação ridícula foi a final de 2008 em que o campeão não foi autorizado pelo então presidente MCP a dar a volta olímpica e erguer a merecida taça…. Estas atitudes tacanhas criou um clima de animosidade entre os clubes.
    Por estas questões acima, todos tem sua parcela de culpa, mas o CAP (ou melhor, MCP) é o maior culpado. É muita ingenuidade de alguns atleticanos não se lembrarem e nem mencionarem os fatos ocorridos acima e naõ perceberem que isso reflete ainda nos dias de hoje.
    Infelizmente, MCP está colhendo o que plantou…
    O que poderia ser feito? O cap renegociar com o Paraná e jogar na Vila. Não creio que o Atlético irá mandar todos os seus jogos no Janguito, a pressão será grande.
    Abraços!

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  4. É o tipo de situação e que a rivalidade deve ser deixada de lado, pergunto o CAP atravez de seu presidente não poderia chegar a um acordo com o PRC e arrumar a vila olimpica para seus jogos ?

    Digo, o PRC emprestaria a VO ao CAP, ele por sua vez reformaria a praça e deixaria apta para jogos;

    Mas ai vem aquela pergunta;

    Porque o MCP quer ser o dono de tudo ???

    E a FPF esta é inesistente, sempre disse e repito com os atuais atos dela temos saudades do moura.

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