Paulo André: “O futebol brasileiro vai de mal a pior”

Paulo André, cabeça pensante no futebol brasileiro

Passada a eliminação do Cruzeiro na Libertadores, a última entre as seis que os brasileiros viveram nessa edição, um dos principais articulistas de um movimento de renovação no futebol brasileiro aceitou o convite do blog para falar do futuro do esporte número um no país. O zagueiro Paulo André, ex-jogador de Guarani, Atlético Paranaense e Corinthians, mudou de endereço, mas não de pensamento. Atualmente no Shanghai Shenhua da China, Paulo André defende que o Bom Senso FC, movimento do qual faz parte, não sumiu e sim mudou de estratégia. Não vê legado da Copa além dos estádios e sentencia: o futebol brasileiro quebrou. Leia a entrevista:

Napoleão de Almeida: A Copa está chegando, esse é um ano eleitoral. Difícil desassociar. Mas, noves fora as jogadas políticas, a Copa trouxe ou trará, para os profissionais do futebol, alguma melhoria efetiva? Como você vê a realização da Copa aqui na posição de quem faz o espetáculo?

Paulo André: Acredito que os novos estádios, apesar de tudo, serão o único legado estrutural que a Copa deixará. Isso fará com que a transmissão dos jogos e a experiência do torcedor que frequenta estádios no Brasil melhore bastante. Mas no fundo, e é triste assumir isso, acho que o Brasil apenas mostrou a sua cara, a sua falta de organização e de planejamento históricos e sua mania de tentar resolver tudo com o jeitinho. Decisões políticas e não técnicas fizeram com que perdêssemos a chance de acelerar o desenvolvimento de políticas públicas que impactassem diretamente no dia dia dos brasileiros que viverão aí (porque estou na China) após o dia 12 de julho.  As prioridades da população ficaram evidentes nas manifestações populares de junho do ano passado. A nós, resta devemos cobrando transparencia, eficiencia e punição caso seja constatada corrupção.

NA: Você faz parte do Bom Senso FC, mas o movimento parece ter perdido força com a sua saída do Brasil. Acaba que ficou a imagem de que você era a cabeça do movimento. É uma premissa verdadeira? Onde estão os demais, uma vez que os pedidos e sugestões a CBF parecem não ter tido efeito?

PA: O Bom Senso continua forte e trabalhando, a ponto de ter influenciado os rumos e as alterações promovidas pelo Dep. Otávio Leite no texto do Proforte. Sete das nossas 8 demandas de Jogo Limpo Financeiro estão comtempladas na proposta. Ou seja, encontramos outros caminhos para fugir da inoperancia e do desinteresse da CBF que, irritantemente, mantem sua política de tentar distrair e enfraquecer as demandas do movimento por meio do desrespeito aos principais atores do futebol nacional. É triste ver como tratam esse patrimônio do povo brasileiro que vai de mal a pior a cada ano que passa.

NA: Certa vez, em entrevista aqui ao Terra, o presidente do Atlético Paranaense, seu ex-clube, ironizou o movimento Bom Senso FC dizendo o seguinte: “Interessante eles (jogadores) se articularem agora, pois sempre quando precisa-se de uma renovação de contrato, nenhum conversa comigo. Mandam seus representantes”. É notória a presença dos empresários no futebol. Há quem diga ainda que só mudou o “dono” do jogador: do clube para o empresário. Como você vê essa crítica e por que o jogador raramente se faz representar?

PA: Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Admiro o Presidente Mario Celso Petraglia mas acredito que ele tenha sido infeliz nessa declaração. As negociações entre atletas e clubes não são simples e um representante, muitas vezes, se faz necessário para evitar desgastes importantes nesse tipo de discussão. É muito simples regularizar e fiscalizar as pessoas que querem ser empresários ou donos de “pedaços” dos atletas. Basta vontade política da CBF, dos clubes e de uma legislação mais específica. Mas aonde é que os dirigentes vão ganhar dinheiro se fecharmos com fiscalização e transparência essa torneira de compra e venda de jogadores? Há interesses obscuros de todos os lados nessa história. Não é tão simples assim. E outra coisa: Aos empresários só foi possível entrar nesse jogo porque os clubes, mal geridos, gastaram mais do que podiam e começaram a vender parte de seus bens. Do jeito que está não tem mais volta, virou uma zona.

NA: Teremos mais jogadores da MLS na Copa do que jogadores atuando no Brasileirão. Da mesma forma, o público médio nos EUA é maior do que o nosso aqui. Quando deixamos de ser o País do Futebol, perdendo até para um país em que o ‘soccer’ é o 5º ou 6º esporte na preferência popular?

PA: É o que temos falado nos últimos tempos. Na primeira reunião do Bom Senso com a CBF, o Juninho Pernambucano e o Seedorf foram claros nesses pontos e pediram que o Marin e o Marco Polo tomassem providencias. Os jogadores já perceberam, os treinadores já sabem, os outros países continuam vendendo um produto melhor que o nosso. Mas o pior cego é aquele que não quer ver. O Sr. Marco Polo del Nero e o Sr. Marin estão apostando todas as suas fichas no sucesso da seleção brasileira nesta Copa do Mundo. Gostaria que eles viessem a público e explicassem qual é o projeto para o nosso futebol. Como eles fortalecerão os clubes? Como eles internacionalizarão as marcas? Mas é impossível tocarem nesses assuntos porque desconhecem a solução. O talento brota da terra e os “poderosos” o exploram a torto e a direito. E enquanto isso acontece, nenhum clube brasileiro se classificou para as semi finais da Copa Libertadores. Isso é possível? Mesmo tendo uma receita 2 ou 3 vezes maior do que qualquer clube sul americano, ficamos de fora. O que mais precisa acontecer?

NA: O ‘Fantástico’ deste último domingo revelou um esquema de cambistas para ingressos da Copa. Antes, o ‘Olé’ da Argentina já havia denunciado um esquema que envolve organizadas. É muito dinheiro rolando. O torcedor está longe dos estádios, os jogadores são pouco ouvidos, os cartolas de clubes argumentam que o voto não é qualificado na escolha de uma presidência de confederação. Quem, afinal, é o dono do futebol brasileiro?

PA: O grande vilão é o estatuto da CBF que potencializa a força das “inuteis” federações. A maioria dos presidentes das federações se eterniza nos cargos e não fará nada para mudar essa realidade. É só ver os 5 vices da CBF que acabaram de se eleger. A quanto tempo cada um deles está no cargo? Para eles o importante é permanecer lá. Ninguém quer saber da capacitação dos treinadores e dos gestores, de medidas para trazer a paz aos estádios, de um novo calendário para o futebol nacional, do jogo limpo financeiro, da formação de atletas, da melhoria do nível técnico dos campeonatos, etc.. E assim vamos vivendo nessa ditadura mascarada. E a Globo, habilidosamente, se aproveita da fraqueza e do medo dos presidentes de clubes para controlar financeiramente o futebol.

NA: Ainda sobre torcidas organizadas: na final da Copa Itália, um incidente com os Ultras quase impediu a realização do jogo entre Napoli e Fiorentina. Jogadores tiveram de pedir permissão para começar a partida. Pelo visto, não é um problema exclusivo do Brasil. Qual o panorama que você encontrou na China? Quais as diferenças de organização para cá, por exemplo? E mais: vocês do Bom Senso FC têm/tiveram contato com atletas em outros países com problemas parecidos, como a Itália, para troca de experiências?

PA: Acho que a China é um caso a parte devido ao aspecto político do país. Se formos nos espelhar em alguém, devemos copiar o modelo inglês que quase erradicou a violência nos estádios de futebol no país. Fizeram isso há mais de 20 anos, obtiveram sucesso. O que estamos esperando? Com as novas arenas e sem uma nova regulamentação, verdadeiras catástrofes poderão acontecer.

NA: Estádios sem alambrados na Copa. Vocês, jogadores, se sentirão seguros para jogar nesse formato em partidas de clubes? Especialmente após o episódio do CT do Corinthians?

PA: Acho que falei sobre isso em respostas anteriores. Se não surgir um plano emergencial para esse caso, a impunidade, costumeira no país, ocasionará uma grande catastrofe. Clubes, Federações, torcidas, poder público e governo devem enfrentar seus demonios e arrumar a casa. Mas em ano de eleição isso será impossível. Ninguém mexerá nesse vespeiro.

NA: Por falar em seu ex-clube, quando da queda de produção do Corinthians em 2013, na sua visão, isso aconteceu por que o time atingiu o topo? Existe ciclo e validade no futebol profissional? Ou o problema foi outro?
PA: Acho que há uma complexidade em um grupo de futebol profissional que pouca gente consegue explicar. É como um organismo vivo que sobrevive em constante adaptação. Quando se acomoda, corre riscos de não evoluir. Se todos os envolvidos ou pelo menos os que lideram não se prepararem para os perigos e dificuldades do dia seguinte, as coisas começam a sair do eixo. Resumindo, faltou capacidade para antecipar os problemas e se preparar para o futuro de forma menos traumática.

NA: Nessa linha, pergunto: o Brasil está preparado para perder a Copa em casa? 

PA: O futebol não passa de um jogo, de um esporte apaixonante. Torço pela Seleção e espero que os jogadores tenham sabedoria para aguentar a pressão que será gigantesca. Para mim, o importante é ver a seleção jogar o verdadeiro futebol brasileiro, que alegra e encanta o mundo todo. O resto é consequencia.

NA: Roberto Dinamite é o único ex-jogador que ocupa um cargo de presidente em um dos grandes do Brasil – e podemos até contestar a gestão dele. Você se vê nesse perfil? Gostaria de ser presidente de algum clube? Qual? E como se preparar para isso?

PA: Não sei o que será de mim amanhã. Desisti de pensar nisso. Vivo um dia de cada vez. Uma coisa é certa, independente do que eu decidir fazer, irei me preparar da melhor forma possível. Platini, Cruiff e tantos outros ex-jogadores alemães são referencias de pós atletas bem sucedidos além dos gramados.

NA: Ituano campeão paulista. Em conversas com jogadores e o técnico deles, percebi que o grande segredo do time foi ter salários em dia; desde quando a obrigação se tornou trunfo?

PA: Hahaha, nem me fale um negócio desse. Esse buraco é mais fundo do que voce imagina. O futebol brasileiro quebrou.

NA: Como vê a situação do Guarani, clube que te formou na base?

PA: Com tristeza. O Guarani sempre apostou em suas categorias de base para superar os grandes desafios. Na atualidade, Edu Dracena, Renato, Elano, Jonas, Mariano e tantos outros foram formados no Brinco de Ouro. Mas o clube não soube lidar com as alterações da lei Pelé, foi mal assessorado, mal gerido e fracassou na última década. É preciso ter os pés nos chão e recomeçar do zero. Repetindo os mesmos erros não se chegará a lugar nenhum.

NA:  Tendo jogado em vários centros no Brasil, você vê, no modelo atual, “risco” de Espanholização no futebol brasileiro? É possível que dentro de algum prazo tenhamos dois ou três clubes apenas disputando títulos por aqui? E a palavra risco é a mais adequada mesmo?

PA: Não acredito que isso aconteça no Brasil. Mas acho que os clubes médios e pequenos devam se unir para evitar esse cenário. O modelo ingles e o frances de divisão de receita da TV me parecem os mais justos e, de certa forma, premiam o mérito da boa gestão e do resultado esportivo. O povo brasileiro não vai para o estádio para ver um espetáculo, vai para ver o seu time ganhar, ser campeão. Se essa possibilidade se tornar quase impossível, o futebol europeu vai ganhar ainda mais aficcionados no Brasil.

Alex 1000 jogos: o Top 5

Idolatrado pelos turcos, amado por palmeirenses, cruzeirenses e coxas-brancas, respeitado por todos os outros, Alex completará nesta quarta-feira 1000 jogos como profissional. O adversário será o J. Malucelli, pelo Campeonato Paranaense. Desde que estreou, em 1995, Alex foi protagonista em vários jogos. O blog se propõe a lembrar alguns, num Top 5 dos mais importantes.

#5: 13 de dezembro de 1995, Coritiba 3-0 Atlético, Série B

Com apenas 18 anos, o menino nascido em Colombo realizava seu grande sonho: jogar uma partida decisiva contra o maior rival do seu time do coração. E Alex brilhou. Com o Coxa precisando da vitória para se juntar ao Furacão na elite brasileira em 1996, Alex conduziu o time a um 3 a 0 incontestável. Abriu o placar e deu assistência fundamental para que Pachequinho, então o grande ídolo do clube na época, fechasse a contagem. O Coritiba estava de volta à Série A do Brasil após uma sequência de anos difíceis.

#4: 16 de maio de 2012, Fenerbahçe 4-0 Bursaspor-TUR, Copa da Turquia

O Fenerbahçe não vencia a Copa da Turquia há 29 anos. Alex tratou de acabar com essa escrita em um jogo com atuação de gênio. Além de dar o passe para três gols, fechou a conta deixando o seu também. Campeão turco três vezes, faltava a taça da Copa do currículo do meia que, não a toa, ganhou até estátua dos fanáticos torcedores do Fener.

#3: 8 de junho de 2003, Flamengo 1-1 Cruzeiro, Copa do Brasil

Era o jogo de ida da final da Copa do Brasil. O Maracanã estava lotado, com aquela atmosfera pró-Flamengo. O Cruzeiro já havia ganho o Campeonato Mineiro e começava a mostrar que ninguém o alcançaria no Brasileirão. Mas a Copa tinha outro regulamento, outro formato. Com um inesquecível gol de letra, Alex colocou a Raposa na frente. O Flamengo empataria, mas o resultado com gol qualificado deu a tranquilidade que o Cruzeiro precisava para conquistar o segundo dos três títulos daquele ano (3-1 no Mineirão), com inúmeras atuações de gala de Alex.

#2: 26 de maio de 1999, Palmeiras 3-0 River Plate-ARG, Copa Libertadores

O Palmeiras estava embaladíssimo. O time de Roque Júnior, Oséas, Paulo Nunes e Marcos, entre outros, havia despachado o Corinthians na fase anterior. Em Buenos Aires, o River fez 1-0. No jogo de volta era preciso vencer sem levar gols. O jogo no Parque Antartica começou tenso, mas Alex, com um golaço de fora da área, tratou de acalmar as coisas para o Palestra. Roque Júnior faria o segundo e o River se lançaria ao ataque. Um gol eliminaria o Palmeiras. Mas Alex, de novo, tratou de por os pingos nos is, fechando o placar. O Palmeiras avançaria até a final, na qual seria campeão sobre o Deportivo Cali, da Colômbia.

#1: 26 de janeiro de 2013, Coritiba 1-1 Colón-ARG, Amistoso

Um jogador que tem estátua na Turquia, campeão da América pelo Palmeiras, do Brasil pelo Cruzeiro, com inúmeros golaços com as camisas verde, azul e amarela – também da Seleção – teria como jogo principal na carreira um amistoso de pré-temporada, no qual nem gol fez? A resposta é sim. Com todo esse currículo e procurado pelos dois clubes nos quais mais brilhou no Brasil, Alex optou por voltar ao clube do coração. Não se tratava de dinheiro, de jogar ou não a Libertadores. Alex queria jogar no Coritiba. Recusou, educadamente, todas as propostas e voltou ao Coxa. O jogo com o Colón teve alguns lampejos do velho Alex e por pouco não acabou em derrota. Não importava; para toda uma geração, o que realmente importava era ver Alex de volta no Coxa. Algo que tem mais peso que dinheiro ou mais valor que muitas conquistas: um ídolo que optou pelo seu clube por um desejo sincero. Alex confirmou ser o que é naquele 26 de janeiro.

O ano de Adriano?

Adriano nos festejos de fim de ano: ponto final na interrogação?

A Seleção Brasileira tem um grande ponto de interrogação no ataque. Depois da Copa das Confederações, a lesão de Fred, a recusa de Diego Costa, a queda de produção de Jô e a instabilidade de atacantes como Leandro Damião, Robinho e outros deixaram o técnico Felipão e a torcida em alerta. A tentativa de Adriano voltar o futebol no Atlético pode ser uma solução. Pode? Ele próprio tem um grande ponto de interrogação para elucidar. No período de folga, festejos com a família no Rio e ausência depois de confirmar presença no jogo festivo de Zico no Maracanã.

Adriano tem jeito? É a pergunta que fiz para João Ricardo Lebert Cozac, presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia no Esporte:

“Confesso que olho com estranheza a proximidade de Adriano com o Atlético Paranaense. O atleta, que já teve ótimas oportunidades no Flamengo e Corinthians, demonstrou que os fatores que mobilizam sua atenção e dedicação são diferentes dos exigidos no mundo da bola. Adriano está mais perto da Vila Cruzeiro – dos amigos de infância – do retorno às coisas mesmas. De toda forma, vale a reflexão sobre essa nova possibilidade que o futebol oferece ao jogador.

No campo motivacional, vale frisar que ninguém consegue “instalar” necessidades quando não existe um apelo íntimo e real para a execução adequada de uma tarefa ou, até, no desenvolvimento e manutenção de uma profissão. Por mais que se diga por aí que a questão do Adriano é psicológica – de nada vai adiantar o empenho do Atlético – se ele próprio não assumir que precisa de ajuda.

Chega uma hora que os apelos extra-campo são mais fortes e, se o atleta não consegue equilibrar a vida pessoal com a profissional, o resultado tende a ser catastrófico. Especialmente num esporte de alto rendimento como o futebol que exige uma preparação esportiva (física, técnica e mental) acima da média. Além disso, a pressão e expectativa da torcida dificultam ainda mais a força de reação interna que lhe é solicitada a todo instante.

Não consigo imaginar o Adriano acordando cedo para treinar, ficar preso nos hotéis durante as concentrações e, acima de tudo, cuidar do corpo e ficar longe das baladas. Há outras coisas que fazem mais sentido a ele. E não é de hoje. O Corinthians errou ao trazê-lo para a capital paulista. Estive na Itália uma semana após a rescisão de seu contrato com a Roma e o que escutei por lá a seu respeito em nada se diferencia do que ouço por aqui. Noitadas, mulheres, bebidas, sobrepeso e falta de comprometimento.

É um panorama muito ruim para a convivência e harmonia do time. Um atleta que recebe uma fortuna como Adriano e não consegue se manter em forma – pode representar, se não houver um comando técnico/comportamental adequado da situação, uma variável danosa ao senso coletivo e de coesão do grupo. Já atuei como psicólogo do esporte em diversos clubes do país e posso atestar que essas diferenças nos salários dos atletas costuma ser terríveis para a esfera coletiva. Sempre houve, há e haverá vaidade no futebol – e fora dele. É preciso cuidado para não pisar em campo minado e, reforço: tenho dúvidas sobre a disponibilidade interna (e externa) de Adriano para continuar jogando futebol.

Torço, de verdade, para que a contratação da equipe paranaense contribua – de alguma maneira, com a saúde física e mental do atleta.  Do contrário, a situação ficará como a de adolescente desobediente que cabula uma aula atrás da outra para ir ao shopping. Chega uma hora em que os pais terão de assinar o boletim escolar do filho e aí, amigos, não tem jeito:  é bronca e castigo na certa!

Adriano já é homem formado e sabe o que quer da vida neste momento. E assim o fará.

De um jeito, ou de outro, certo?”

Os muitos “micos” por Diego Costa

Site da CBF anunciou convocação dando destaque a jogador incerto

Quem errou no caso “Seleção x Diego Costa” é a pergunta que muitos se fazem no Brasil após o anúncio de que o atacante recusou oficialmente o convite para defender a Amarelinha. Entre tantos julgamentos pessoais, equívocos nas ações e erros de análises, a conclusão é bem direta: todos erraram.

A começar pela CBF. A imagem acima mostra o quanto a confederação confiava no poder de sedução da camisa mais vitoriosa do Mundo para que o sergipano optasse por defender seu país de nascença na Copa em casa. Uma chamada simples para a convocação de quinta tinha como principal destaque o agora desafeto. A CBF queria o jogador, mas pecou ao deixar em aberto a possibilidade de a convocação ser apenas uma jogada para evitar o reforço da Espanha. Faltou tato com Diego, que vem se destacando mais que qualquer outro atacante brasileiro, exceção à Neymar.

Acredito que Felipão tenha conversado com Diego Costa pessoalmente antes de divulgar seu interesse em convocá-lo. É uma análise, não uma informação. Mas se não o fez, errou. A Espanha é tão favorita quanto o Brasil para a Copa, Felipão tem histórico de fechar seus grupos de atletas sem muitas mudanças – quem deixou Romário de fora, convenhamos, não deve ter muito pudor em fazer o mesmo com Costa – e pode não ter passado a confiança necessária ao jogador para que ele optasse pelo Brasil. Por fim, Felipão falou em patriotismo; bem, alguns já lembraram que ele dirigiu Portugal contra o Brasil em amistosos e também numa Copa em que a Seleção disputava. Esse conceito é muito relativo.

E é por isso que deve se respeitar a decisão de Diego Costa: quem pode obrigá-lo a gostar do Brasil, a sentir orgulho pelo Brasil, quando fez toda sua vida na Espanha? Diego tem suas razões, mas também errou. Errou na avaliação de que não poderia ser útil ao Brasil como poderá ser para a Espanha. Hoje a Seleção carece de atacantes. Fred está machucado, Jô não vem sendo o mesmo da Copa das Confederações, Hulk e Neymar não são jogadores de área, Leandro Damião está em baixa e Pato… bem, Pato é Pato. Diego teria lugar certo na Seleção, pelo menos numa análise técnica atual. Precisaria de uma boa conversa com Felipão – e quem pode nos garantir que isso aconteceu, que Diego fechou com o técnico e acabou voltando atrás?

Por fim, erra a Fifa ao permitir essas constantes participações de jogadores de outras nacionalidades em seleções de países onde não nasceram. O conceito de seleção nacional difere de clube. Pressupõe a aferição da qualidade técnica de cada nação, diferente do que acontece em clubes. E a Espanha, claro, quer se beneficiar da qualidade brasileira. Se nacionalizar não é tão complicado, basta vontade política. É possível que além dos 14 jogadores brasileiros que podem enfrentar o Brasil na Copa 2014, vejamos muitos outros casos – aguardem a Copa do Catar em 2022 para vermos a seleção local. Claro, deve haver exceções: filhos criados e nascidos em outros locais, por exemplo. Mas essa é uma regra que poderia ser revista e que, enfim, fecha o ciclo que mancadas e micos que esse episódio expôs.

Pato treinou assim. Mas esse não é o problema.

Pato: o problema não é o pênalti

Fico com o testemunho da repórter do Terra Camila Srougi, que na terça-feira (22) acompanhou o treino do Corinthians ao vivo aqui no Terra: Alexandre Pato treinou cobranças de pênalti exatamente como cobrou contra o Grêmio. E o problema, todos sabem, não é a cobrança, o jeito ou a eliminação.

Camila viu, mas não pôde filmar, a pedido de Tite. Pato cobrou no treino exatamente da mesma maneira que no jogo, quando Dida pegou. Os goleiros eram Danilo e Walter, que no jogo pegou duas. A bola entrou, conta Camila, que ainda comentou com o cinegrafista do Terra, Josué Rabelo: “Que marra!” No geral, as cobranças de Pato não foram boas. Perdeu mais que acertou, batendo uma ainda na trave. Mas ninguém o recriminou no treino, da forma como o crucificam agora.

O problema, repito e explico, não é a perda. É a apatia.

Alexandre Pato foi a contratação mais cara da história do futebol brasileiro. Marcou aquilo que pode ser o início de uma era na contramão do que estamos acostumados, com craques saindo e voltando só próximos a aposentadoria. No entanto, sua postura apática em entrevistas, como se a vida passasse ao largo de seus olhos, como se nada realmente importasse, é o que faz com que se tente crucificar Pato nesse momento, especialmente em um clube inflamado como é o Corinthians. Pato parece não ter sangue, parece não ter sentimentos. E é isso que incomoda na realidade.

O Corinthians é o atual campeão do Mundo, não nos esqueçamos. É também o clube brasileiro que mais fatura, que mais recebe, que mais movimenta dinheiro. Pressupõe-se que não possa perder. Mas pode. Do outro lado estava o Grêmio, que dispensa apresentações. Futebol é assim e ao condenar Tite, Pato e outros pelo “fracasso” do Timão, é preciso entender que outros 19 clubes na Série A também trabalham – sim, com menos recursos, mas é isso que gostamos no futebol, não?

Achar um “culpado” pela eliminação do Corinthians passa também pela presunção de que o clube paulista iria ganhar tudo. Já ganhou, o ciclo acabou, isso está cada dia mais claro. O problema, para os corintianos, é que o ícone escolhido para revitalizar as ambições do clube vive como se não tivesse nada a ver com isso. Como se estivesse assistindo um filme ruim numa sala de consultório de dentista, apenas esperando sua vez chegar. Pato ganhou fama e dinheiro muito cedo; títulos também. Vive o mal das novas gerações, automatizado, vitima até de um media-training que o coloca como um boneco falante de frases prontas.

Pato não é um demônio, como querem pintar hoje, após a perda de um pênalti que, sim, ele treinou como bater. Pato apenas é a apatia em forma de alto investimento no futebol. Pode acordar para a vida a partir de agora, quando é cobrado de todos os lados. Pode tentar ser o protagonista que se espera, salvar a vaga que deve perder na Seleção – cá entre nós, nem deveria ter a chance pelo que vem rendendo – para o ótimo Diego Costa.

Ou pode seguir como está, vendo a banda passar, até encerrar a carreira em algum clube de segunda linha, mergulhado no ostracismo.

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Fenômeno Alex internacionaliza o Coritiba

Imagine o amigo leitor a seguinte situação: Zico é na verdade Zeki, nome turco que significa “astuto, inteligente”. Revelado no Trabzonspor, Zeki chega ao Fla e faz tudo o que fez com a camisa flamenguista. Depois, retorna ao país de origem, para jogar pelo clube de coração, deixando a mesma legião de fãs que até hoje comemoram o “natal” no dia 2 de março. Imaginou?

Pois em termos relativos é o que acontece com Alex no Coritiba. Loucos por futebol, os torcedores do Fenerbahçe – que disputam o posto de maior torcida da Turquia com o Galatasaray – seguem acompanhando (e consumindo) Alex na volta dele ao Brasil, a ponto do Coritiba planejar um modelo de associação a ser lançado no exterior nos próximos 30 dias, para faturar com a paixão turca.

Alex tem estátua e causou comoção na saída de Istambul. Seis vezes campeão nacional pelo Fener e segundo maior artilheiro do clube, deixou “órfãos” no país. Agora, distantes do ídolo, fazem o possível para ficar mais perto. A LigTV, canal esportivo turco, transmitu quatro dos cinco jogos do Coxa no Brasileiro ao vivo; para se ter uma ideia, no Brasil, o clube teve um jogo exibido em TV aberta e outro em TV fechada como exposição “livre” – todos os jogos passam no sistema PPV. Mas esse não é o único, nem o mais importante, sinal de prestígio do Coritiba na Turquia.

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Alex recebe equipe do "Survivor": prêmio de reality show

A imagem acima mostra Alex recebendo a equipe do programa “Survivor”, da StarTV, em sua casa em Curitiba. O reality show isola sete participantes numa ilha e os coloca nos mais diversos desafios, parecidos com o extinto “No Limite” da TV Globo. Os finalistas tinham como um dos prêmios uma viagem ao Brasil para conhecer pessoalmente Alex.

O fenômeno de mídia turco faz com que o Coritiba ganhe na carona do seu camisa 10. Nas arquibancadas do Estádio Şükrü Saraçoğlu, casa do Fener, já se vêem camisas e faixas com o símbolo do clube brasileiro:

O site oficial do Fenerbahçe há muito já tem tradução para o português, dada a grande procura de coxas, palmeirenses e cruzeirenses pelas notícias de Alex; agora o inverso deve acontecer. O Coritiba ainda não colocou o seu site em turco, mas tem na sua página oficial no Facebook um registro de audiência altíssimo na Turquia, por vezes, maior até que no Brasil, conforme a notícia. E lançará nos próximos trinta dias um plano de sócios voltado ao público turco.

“O sócio turco terá duas modalidades: o Classic, que pagará 9,90 euros/mês, com todos os benefícios de qualquer outro sócio de R$ 9,90, mas com o benefício de ver 4 jogos no ano sem pagar entrada. Se ficar por um ano, recebe ainda um DVD; e o Premium a 19,90 euros. E se permanecer assim por 12 meses ou se pagar a vista recebe os mesmos produtos e mais uma camisa oficial autografada pelo Alex”, explica Paulo Cesar Verardi, diretor de marketing do alviverde, que completa: “Os 100 primeiros vão receber a camisa autografada pelo Alex. E depois estenderemos a outros países.”

Há alguns meses um torcedor turco adquiriu de uma só vez, em visita ao Brasil, 80 camisas do Coritiba. A encomenda continha até o nome do primeiro ministro turco, Recep Tayyip Erdogan. Cada camisa custa em média 180 reais. O Coxa até pensou em distribuir o material diretamente na Turquia, mas esbarrou no atendimento de seu fornecedor de material esportivo, a Netshoes, que faz a relação com a Nike. Verardi, que tem um largo histórico no Grêmio e também foi do marketing do rival Atlético, admite que nunca viu nada igual com um jogador no exterior. No entanto, é cauteloso ao falar da expansão do clube fora do País. “Mais importante que isso, é o que ele representa no mercado brasileiro. Antes da Turquia está o mercado brasileiro, a torcida do Coritiba, com poderio financeiro.”

Não é o que pensa Alev Aydin, uma fanática torcedora do Fenerbahçe de 34 anos. Alev tem tudo o que se refere a Alex: camisas, cachecóis e até o quarto todo decorado nas cores do clube, com a foto do ídolo. “Ele é uma lenda”, conta, descrevendo seu sentimento como a “de um irmão que mora longe”. Alev ficou tão triste com a saída de Alex do Fenerbahçe que pediu demissão e passou quatro meses em casa, sem falar muito. E já se sente tão coxa-branca como qualquer polaco nascido na Barreirinha. “Estou animada em ser a primeira a participar”, disse, anunciando que irá conhecer Curitiba em setembro. “Pra mim, o Coritiba já é mais forte, pois pode contar com os milhões de torcedores do Fenerbahçe também.”

*Colaborou o leitor Itamar Rocha

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Alex para presidente

Alex, em discurso para a torcida do Coritiba: politizado (Imagem: AI Coritiba)

A entrevista de Alex à Radio 98 de Curitiba repercutiu em todo o Brasil. Durante a semana comemorativa do tetracampeonato estadual, não foram poucos os cronistas nacionais que fizeram questão de elogiar o meia pela conquista – cito aqui os colegas André Kfouri (ESPN BR/Lance) e Mauro Beting (Band) entre eles. Alex não marca só pela qualidade técnica, mas porque é um dos poucos a falar o que pensa. E tenho a impressão que falará ainda mais quando se aposentar.

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Em meio a euforia pelo título estadual, Alex teve que explicar – mesmo estando ausente do jogo –  os 1-4 sofridos em Manaus para o Nacional, pela Copa do Brasil. O atual bi-vice-campeão da Copa ficou em situação delicada para tentar seguir na competição justamente no ano em que um dos maiores ídolos do clube (o próprio) está de volta e um time “milionário” foi montado, com Deivid, Botinelli, a manutenção de Rafinha, e outros menos badalados. “Somos fracos mentalmente”, disse o camisa 10 coxa-branca, dando a entender que faltou concentração no Amazonas. O preço pela empolgação do tetra paranaense pode ser caro.

A própria conquista pode ser ilusória. Alex não pode dizer com todas as letras, até para não diminuir o próprio feito, mas ao dizer que “o futebol paranaense inexiste”, criticando o desempenho nacional das equipes e a pouca força do campeonato, assume que o time fez apenas a obrigação em ser campeão – o que não tira o mérito da conquista – e que preocupa para o Brasileirão que vem aí. Alex ainda disse que “o Londrina teve uma sobrevida” e sequer citou o Paraná, grande algoz no início da carreira. Sinal de que vê – corretamente – o Paranaense como um grande “par ou ímpar”. Ao menos é o vencedor desta disputa.

O meia, ao criticar a falta de acerto para sequer se jogar os grandes clássicos em um estádio maior, vai em choque contra a própria diretoria. Afinal é dela – e, claro, da do rival Atlético – que saem os desacertos. Experiência de quem jogou no futebol europeu, onde o futebol é tão paixão quanto aqui, mas é muito mais rentável. Bons negócios são bons negócios. Talvez aposentado e dirigente, Alex alugaria o Couto Pereira ao rival e faturaria com isso. Talvez Alex veja o futebol como ele é, sem deixar de ser o maior exemplo de coxa-branca devotado, recusando até a Libertadores para ser campeão no clube.

Não poupou nem a própria torcida: como é possível que o Coritiba, com um dos maiores parques associativos do País (cerca de 30 mil sócios) não tenha uma média de público superior a 12 mil pessoas? Outra coisa que Alex não pode falar – ainda – é que certamente o torcedor está enjoado de estaduais longos, fracos e com fórmulas mirabolantes. 

Por isso lanço a campanha “Alex para presidente”. Com a experiência de quem jogou e conhece o negócio como poucos, pode ser a voz que mude o futebol brasileiro daqui pra frente. Ele no Coritiba, Rogério Ceni no São Paulo, Seedorf no Botafogo e alguns poucos mais que se arriscam a sair do lugar-comum nas entrevistas. Será a grande chance de vermos os discursos na prática e, quem sabe, livrar o futebol brasileiro de alguns ransos. Será que deixam?

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Zico e Romário selam a paz entre lembranças e risos

Romário, Zico e as assessoras de imprensa: paz entre os craques

Zico era o maior ídolo do futebol brasileiro quando Romário dava seus primeiros passos no futebol. O primeiro é Deus no Flamengo; o segundo, já marcava época no Vasco quando o Galinho rumava para o Japão. A Seleção reservou histórias diferentes para os dois. Zico é aquele que a Copa perdeu – azar dela, dizem. Romário é aquele que ganhou a Copa. E ganharia outra, talvez, não fosse o corte que muitos atribuíram a Zico em 1998. Ali, o ponto de ruptura entre os donos do futebol brasileiro entre 80 e 90.

O corte foi parar na porta do banheiro de um antigo empreendimento de Romário, o Café do Gol. E na justiça. Os ídolos passaram anos rompidos. Até essa sexta-feira.

Romário aceitou um convite feito ainda no ano passado pelo Galinho, para que o Baixinho estivesse no programa de Zico no canal de TV Esporte Interativo. Nada passou batido no papo. Do corte de 1998 à política da CBF e a atuação como deputado; da Seleção de Felipão às polêmicas com Pelé. Zico e Romário falaram, riram e selaram a paz – até mesmo com uma declaração direta do Baixinho ao Rei do Futebol.

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A inauguração do Maracanã, que conseguiu a proeza de excluir dois de seus maiores ícones, esteve no papo. Ao chegar na emissora para gravar, o deputado foi recebido com festa pelo apresentador. Nada de tensão: ambos ja haviam se falado muito por telefone. A imprensa, quem diria, sempre criticada pelos jogadores como fazedora de polêmicas, foi peça fundamental. Romário disse que não perdoava Zico pelo corte de 98, até assistir ao programa de Galvão Bueno no SporTV, Bem Amigos, com o Galinho negando a autoria. Foi o que bastou para a reaproximação.

Zico e Romário falaram de política, da CBF e seus futuros diretores, e de Pelé. Como bom meio-campo armador, Zico tentou intermediar um papo – e até uma pelada! – entre o Baixinho e o Rei. A resposta de Romário? Seria sacanagem do blogueiro contar. Melhor esperar o programa, ainda sem data pra ir ao ar. 

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Semente

Seedorf pode ser traduzido, livremente, como semeador. E ninguém no futebol brasileiro mereceu mais um título nos últimos anos que o meia holandês (nascido no Suriname, essa região sul-americana que ignoramos por completo) do Botafogo, campeão carioca por antecipação. Seedorf significa uma nova era no futebol brasileiro. Basta que os colegas dele assim queiram.

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Meu primeiro contato (impessoal) com o galático alvinegro foi em Botafogo x Grêmio, ainda no Brasileirão 2012. Não sei quem, mas alguém fez um lançamento daqueles dos mais quadrados para o meia, em sua estreia. Daqueles que parecem a mais pura sacanagem, só para testarem o físico do colega – quem já jogou, sabe. Seedorf foi. Correu até o limite. Aos 36 anos (já tem 37), chegou na bola como muitos meninos do Brasileirão que se aproxima não chegarão. Ao olhar pra grande área, ninguém o acompanhou. Seedorf foi numa bola que outros desistiriam. Os colegas assim o fizeram.

Ele então prendeu a bola, esperou a aproximação do ataque. O lance deu em nada. O jogo terminaria 0-1 para o Grêmio e o Botafogo seguria seu turno de altos e baixos. Seedorf não. Passou a dar as cartas, opinando e criticando comportamentos, calendário, atitudes. Virou celebridade. Recolocou o Botafogo na mídia.

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Em 2013, Seedorf passou a liderar o time. Chega ao primeiro título no Brasil, já na reta final da carreira, com muito a ensinar. É atuante sem ser agressivo, é exemplo em campo num mundo que exige badalação. Vestiu a camisa do Botafogo como muitos não faziam há anos.

Seedorf planta um exemplo. Uma semente, como o próprio nome sugere, do que pode e deve ser o futebol brasileiro, dos atletas para o publico, dos clubes para a mídia: ético, correto, campeão.

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Grandes “traíras” do futebol brasileiro

Nessa semana três “traíras” sacudiram o futebol mundial. Van Persie, guardou três no jogo decisivo do Manchester United contra o Aston Villa, levantando a taça do Inglês pela primeira vez, na primeira temporada do holandês nos Red Devils depois de sete anos no Arsenal. E Mario Götze não tirou o pé e ajudou Lewandowski a brilhar contra o Real Madrid, um dia depois do anúncio da transferência dos dois para o grande rival do Borussia Dortmund, o Bayern de Munique – que pode ser adversário na decisão da Champions.

E no Brasil? Quantos “traíras” já brilharam no rival? O Blog preparou uma seleção de 11 grandes viras-casacas no futebol brasileiro.

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Goleiro: Rafael Cammarota

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O primeiro “traíra” escalado é Rafael Cammarota. Bicampeão paranaense pelo Atlético em 1982/83, no memorável time de Assis e Washington, o goleiro disputava posição com Roberto Costa no Furacão. Fez parte da campanha semifinalista do Brasileirão em 1983, quando podia ter sido campeão brasileiro com o Rubro-Negro. Não foi e virou a casaca para conquistar o maior feito do Coritiba, rival atleticano: o título brasileiro de 1985. Rafael fez história no Coxa, sendo decisivo em vários jogos, em especial na semifinal com o Atlético-MG. Voltaria ao Atlético para ser campeão paranaense – na reserva – em 1990.

Lateral-direito: Nelinho

"Traíra", mas querido pelas duas grandes torcidas mineiras

O lateral que conseguiu chutar a bola pra fora do Mineirão, tamanha a força do chute, também tem no currículo a troca de camisas entre rivais. Carioca, Nelinho chegou ao Cruzeiro nos anos 70 e esteve no memorável time celeste campeão da Copa Libertadores de 1976. Entre uma Copa do Mundo e outra pela Seleção, passou a defender o Galo, pelo qual levantou seis canecos mineiros – todos contra o Cruzeiro.

Zagueiros: Mauro Galvão e Edinho Baiano

Gaúcho normalmente é Inter ou Grêmio; Mauro Galvão foi os dois

Revelado pelo Inter, foi campeão brasileiro invicto com apenas 18 anos em 1979, além de ganhar um tetracampeonato gaúcho. Chamou a atenção o suficiente para defender a Seleção Brasileira nas Olimpíadas de 1984 e Copa 1986. Natural de Porto Alegre, resolveu tentar a vida no Rio de Janeiro, onde defendeu Bangu, Botafogo e Vasco. Rodou também pela Suíça até virar a casaca: em 1996, voltou ao Rio Grande, agora para defender o Grêmio. O rival do time que o revelou é também – segundo atribuem – o time de infância de Galvão, que conseguiu ser campeão brasileiro e da Copa do Brasil pelo Tricolor.

Edinho Baiano: "poligâmico" e multicampeão

Edinho Baiano não chegou à Seleção, mas fez parte do supertime do Palmeiras-Parmalat nos anos 90. Deixou a capital paulista para encontrar seu grande amor: o Paraná. Não o Paraná Clube somente, mas todos os times de Curitiba. Edinho Foi tetracampeão paranaense pelo Tricolor, quando fez a primeira troca: deixou o Paraná e foi para a Baixada. Pelo Furacão, foi campeão estadual em 1998, acabando com um jejum de 8 anos. Foi para o Japão, faturar alguns dólares, mas a saudade dos paranaenses apertou e voltou para o Coritiba, em 2002, por quem foi campeão paranaense no ano seguinte. Pra não desagradar ninguém, ainda defendeu o Londrina – mas não levantou taça pelo Tubarão.

Lateral-esquerdo: Roberto Carlos

Um santista bem palmeirense que gosta do Corinthians

Dizem que o time de infância dele era o Santos. Mas depois de aparecer bem no União São João, o lateral Roberto Carlos (lembre-se do sotaque da bela italiana do comercial nos anos 90…) foi ser palmeirense. Viveu tempos áureos no clube, com um bicampeonato brasileiro e outro paulista. Rodou o Mundo, entre Internazionale, Real Madrid e Fenerbahçe e voltou para fazer parte da retomada corintiana. O projeto de internacionalização Timão, com ele e Ronaldo, fez alguns palmeirenses torcerem o nariz, enquanto era bem recebido no Corinthians. No final, após a eliminação na Libertadores 2011, acabou deixando o clube depois de supostas ameaças de torcedores.

Volante: Tinga

"Tinga, teu povo te ama!" - mas qual deles?

Apelidado Tinga por ser do Bairro Restinga, em Porto Alegre, Paulo Cesar Fonseca do Nascimento já ouviu até cantarem samba-enredo para ele nos estádios gaúchos. Mas é mais um na lista dos “traíras”. Começou no Grêmio em 1997 e conquistou duas Copas do Brasil (97/01) até deixar o Brasil para defender o Sporting de Portugal. Ao voltar, deixou o Tricolor de lado e foi ser Colorado – muitos dizem que é seu clube de infância – ganhando o título da Libertadores 2006 pelo Inter. Poderia ter ganho também um Brasileirão, mas parou num erro do árbitro Márcio Rezende de Freitas, que não deu um pênalti claríssimo em cima dele em um jogo decisivo com o Corinthians.

Meias: Paulo Henrique Ganso e Carlinhos Bala

Ganso é Paulo e São Paulo, mas têm outros santos na parada

PH Ganso era o grande amigo de Neymar. Juntos, aprontavam nos gramados do Brasil numa lua-de-mel que parecia não ter fim. Foram campeões da Libertadores 2011, Copa do Brasil 2010, Tri Paulista… quem poderia imaginar que esse triangulo amoroso iria acabar em rivalidade? Pois Ganso se machucou e passou apenas a ver o antigo parceiro brilhar. Se continuaram amigos fora de campo, dentro dele, Ganso optou por sair da sombra de Neymar e foi para o São Paulo. No primeiro encontro, ganhou moedas e aumentou sua coleção de palavrões. Mas, passado um tempo, já até tem título pelo Tricolor: a Copa Sul-Americana 2012.

Um Don Juan da bola

Carlinhos Bala começou (e terminou) sua odisséia pelos três grandes de Pernambuco no Santa Cruz, em 1999. Embora ainda esteja em atividade, o Don Juan do Recife futebolístico não deve voltar a vestir nenhuma das três camisas que usou, beijou e deixou boas lembranças e muitas polêmicas. Quatro vezes campeão pernambucano (2 pelo Santa, 2 pelo Sport), rodou pelo Recife todo entre algumas saídas. A de maior destaque, no Cruzeiro em 2006. Anote bem a trajetória de Bala no Recife: começou no Santa, foi emprestado ao Náutico, voltou ao Santa, saiu de Recife, voltou para o Sport, foi para o Náutico em seguida, saiu de Recife, voltou ao Sport, deixou a cidade novamente e voltou para o Santa Cruz. Ufa!

Atacantes: Reinaldo, Tuta e Emerson Sheik

"Foi só um lance... não teve amor...", dizem depois do flagrante

Haverá quem considere injustiça colocar o Rei Reinaldo na lista dos “traíras”. Mas serão os mesmos que jamais vestiram a camisa do Cruzeiro, como a foto acima mostra. Reinaldo é quase Deus no Galo, sendo o maior artilheiro da história do clube, com 255 gols (contando só o profissional). Foi sete vezes campeão mineiro e duas vezes vice-brasileiro. Saiu do Galo para rápidas passagens por Palmeiras e Rio Negro. Até que retornou à Minas… defender o Cruzeiro. Foram apenas dois jogos e nenhum gol – já estava machucado seriamente, o que abreviou a carreira dele aos 31 anos. Reinaldo estava sem clube e contou em entrevista no ano passado que “foi uma honra e um desafio”, lamentando apenas não estar em melhores condições na época. 

Tuta alegrou e calou atleticanos e coxas-brancas

Tuta defendeu 22 clubes em sua carreira com 18 títulos, mas foi em Curitiba que virou referência e até propaganda. Campeão paranaense em 1998 contra o Coritiba, encerrando um jejum do Atlético desde 1990, com direito a artilharia do campeonato, Tuta caiu nas graças dos atleticanos e foi para o Venezia, da Itália. Lá, viveu uma história incomum, ao fazer um gol em uma partida contra o Bari, quando foi repreendido pelos próprios colegas, que possivelmente tinham outros interesses. Girou por Vitória, Flamengo, Palmeiras e Coréia até voltar à Curitiba. Foi campeão paranaense novamente, desta vez em papéis inversos: pelo Coxa contra o Furacão. Num jogo de superação, o Coritiba segurou o poderoso Atlético de Jadson, Washington e Dagoberto com um 3-3, com dois gols dele. Na comemoração, fez o gesto acima, que ganhou outdoors na cidade em campanha de marketing do Coxa.

Sheik pode até amar o Fla, mas curtiu legal com o Flu

Emerson Sheik é Flamengo declarado, mas isso não o impediu de pular a cerca e ganhar o Brasileirão pelo Fluminense. Campeão Brasileiro pelo Rubro-Negro em 2009, ficou pouco tempo no clube de infância, por questões financeiras. Depois de uma rápida volta ao Catar (a origem do apelido), em 2010 passou a defender o Fluminense. Foi dele o gol do título brasileiro e a lua-de-mel com os tricolores era infindável. Mas acabou na Libertadores 2011, quando foi flagrado cantando uma música da torcida do Fla no ônibus do Flu, a caminho do jogo com o Argentinos Jrs. Dispensado, foi acolhido no Corinthians – que preferiu nem saber do passado dele no São Paulo, onde começou a carreira…

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