Polêmica: clássico carioca gera resistência em Recife

Itaipava Arena: nenhuma das cores de Pernambuco no domingo (foto: divulgação)

Revolta de um lado, comemoração de outro. Desde essa quinta estão à disposição do torcedor pernambucano os ingressos para o grande clássico de domingo. Não, não se trata de nenhum jogo entre as três principais forças locais, Sport, Santa Cruz e Náutico – o “dono” da Arena. É sim o clássico Vovô, Botafogo e Fluminense, marcado para São Lourenço da Mata, região metropolitana do Recife. Será o primeiro grande clássico da Arena… Pernambuco. Alegria para os torcedores dos times do Rio na região, revolta daqueles que apoiam o futebol local.

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O jogo entre Botafogo e Fluminense fez com que a partida do único clube pernambucano com contrato com a Arena fosse antecipado. Náutico e Ponte Preta duelam no sábado, um dia antes do jogo entre os cariocas. Os torcedores locais se rebelaram, não importando a camisa. O Santa Cruz jogará também no domingo, no Arruda, contra o Cuiabá, pela Série C do Brasileiro. Um movimento intitulado Movimento Popular Coral, da torcida do Santa, lançou um desafio: colocar mais gente no Arruda que na Arena. Em entrevista ao jornalista Leonardo Mendes Jr. um dos líderes do MPC, Lucas de Souza, disse que os rivais se uniram na ideia de descredibilizar o duelo carioca: “Deslocaram o jogo do Náutico para sábado para dar vaga a esse Botafogo x Fluminense só com intenção financeira e de fazer os nossos torcedores torcerem por times de fora. Os pernambucanos sempre foram resistentes a times de outros estados e agora a revolta foi grande e rápida. A própria administração da Arena ficou surpresa pela reação. Conseguiram provocar uma rejeição das três torcidas. Vamos por mais público no Arruda para desmoralizar esse clássico carioca.”

A administração da Arena sentiu o golpe, mas justificou a ação. Ainda sem contratos com Sport e Santa – que não pretendem sair de suas casas – a ideia é buscar toda a renda possível com o novo estádio. Segundo informações do jornalista Cássio Zirpoli, “na parceria público-privada, o governo do estado terá que suprir o rombo no faturamento anual caso a receita da temporada seja abaixo de 50% da previsão inicial, de R$ 73,2 milhões, segundo aditivo assinado em 21 dezembro de 2010.” Os valores do aluguel para o jogo com mando do Botafogo ainda não foram divulgados, mas os ingressos custam entre R$ 30 e R$ 60, sendo que o sócio do Botafogo pode pagar 50% do valor. Nos jogos do Náutico, que está trocando os Aflitos pela Arena, o desconto ao associado é de 30%.

Em um estudo recente divulgado pela Pluri Consultoria, o Estado de Pernambuco ficou em 5o lugar entre os mais resistentes a “invasão” de torcedores de outras praças. Cerca de 60% da população prefere os times locais, índice maior que de praças tão fortes quanto, como Bahia e Paraná, e atrás apenas de quatro estados, pela ordem: Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Habitualmente vista em jogos de times do sudeste na região, a faixa “Vergonha do Nordeste” expõe um pouco a rivalidade inter-estadual entre os torcedores locais e os que vem de fora. Nada que incomode o pessoal de torcidas como a “ReciFogo” e “ReciFlu”, que devem contar com reforço de simpatizantes dos mesmos clubes nas cidades da região.

A imprensa local entrou na briga. Na capa do SuperEsportes, portal de notícias da região, o fórum de discussão provoca: “Quem for à Arena domingo é Pernambubaca?” No blog de Zirpoli, uma enquete aponta rejeição de 70% das três torcidas a ideia de receber jogos “forasteiros”. Dos 30% favoráveis, 9% são torcedores do Náutico, em tese, os maiores interessados. Os tricolores, com ou sem reforço dos torcedores de Sport e Náutico, pretendem por três vezes mais torcedores no Arruda que o número presente na Arena. E a discussão deve continuar: em Pernambuco já se comenta que Flamengo x Grêmio, na 16a rodada em 25/08, deve ser jogado na Arena. Sem poder usar o Maracanã e nem o Engenhão, o Flamengo mandará o jogo desta mesma rodada, contra o Coritiba, em Brasília – onde os times locais praticamente não têm vez. 

E você, o que acha disso tudo?

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O Santa merece o Brasil

O Santa Cruz é tricampeão pernambucano de futebol. Bateu o Sport, como já havia feito ano passado. E retrasado. E nos seis jogos entre os rivais, quatro vitórias tricolores. O Santa já retomou o Pernambuco para si; falta o Brasil.

Longe dos holofotes nacionais desde 2006, quando foi o lanterna da Série A, o Santa Cruz comeu o pão que o diabo amassou. Mas parece ter reencontrado seu rumo. De fato, é até injustiça dizer que o Santinha passou tanto tempo longe da mídia. Foi carregado por seu povo em muitos desses anos de dificuldade, quando chegou a despencar para a Série D. Literalmente carregado: ignorando a divisão, o torcedor coral conseguiu a 39a média de público do Mundo, a 1a no Brasil, a frente do campeão da Libertadores, o Corinthians, por exemplo. Seus 36,9 mil torcedores por jogo foram mais fiéis que os torcedores da Roma, Juventus, Porto e todos os outros times sulamericanos – incluindo Flamengo e Boca.

Mas, em campo, o Santa não respondia.

Até que o clube começou a se reorganizar. Arrumou o Arrudão, longe ainda do ideal, mas melhor estruturado. Manteve uma linha de trabalho, que passou por Zé Teodoro e chegou a Marcelo Martelotte, com o goleiro Tiago Cardoso se tornando ídolo em Recife, com Denis Marques reencontrando seu bom futebol, com a diretoria de Sylvio Ferreira arrumando o clube. Mas falta algo.

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O Santa Cruz merece o Brasil. Um clube tricampeão pernambucano, Estado representativo no futebol brasileiro, não pode ficar escondido na Série C nacional. É difícil competir no mercado de hoje, com disparidade de renda, patrocínios milionários e concorrência desleal na base. Mas um clube que tem rivais em divisões acima e manda dentro de Pernambuco há três temporadas pode mais. O Santa Cruz precisa ao menos estar na Série B em 2014, entendendo o seu desafio de crescer e marcando presença, para deixar de ser só “o clube que leva mais gente aos estádios” e passar a ser um adversário que incomode os grandes do País também em campo.

  • “O Santa é lindo!”

Era 1999 e eu, ainda acadêmico de Publicidade, sequer pensava em cursar também jornalismo. Mas já gostava de futebol. E em um congresso de comunicação em Maceió, resolvi ir ao estádio assistir CRB x Santa Cruz, no Rei Pelé, pela terceira rodada da Série B daquele ano. No comando de ataque do Santa, Grafite – aquele mesmo.

Não me recordo porque cargas d’água, mas eu e alguns amigos resolvemos desafiar a regra número um de qualquer torcedor sadio em campo desconhecido: ao invés de irmos na torcida da casa, ousamos entrar nos visitantes. Aderimos a massa do Santinha.

O jogo não estava lá essas coisas. O CRB era melhor na partida e o Santa era um amontoado em campo. Não demorou até que o time da casa fizesse 1-0. O gol, de fato, parece que incendiou ainda mais a numerosa torcida coral presente ao estádio. Maceió fica a apenas 265km do Recife. A galera foi em peso. E passava raiva.

Lá pelos 30 do segundo tempo, um lance raro do Santa no ataque resultou em pênalti. Vibração intensa. É aquele momento em que as classes sociais se misturam: rico abraça pobre, branco abraça negro, não há distinção sexual ou qualquer outro tipo de preconceito. É o que faz o futebol ser o que é. “É pênalti pro Santa!!” berrou do meu lado um senhor barbudo, já desfalcado do zagueiro central e do ponta direita entre seus dentes, com um hálito não tão leve que indicava o grau de empolgação. “O Santa é lindo! O Santa é lindo!”, gritava, esperançoso pelo empate. Grafite pegou a bola.

O coração bateu mais forte. O gol é aquele momento especial. Me peguei torcendo pelo Santa Cruz. “O Santa é lindo”, insistia o amigo, já quase naquela intimidade que dispensa o “senhor” antes das frases. Em campo, Grafite colocava a bola na cal e dirigia-se até a meia lua, mãos na cintura.

Grafite foi pra bola.

Andou um, dois, três passos. Olhou para o goleiro. Armou o chute. Tropeçou. Pegou mal na bola. O goleiro defendeu sem dificuldades.

A expressão do Barba (já estavamos como velhos amigos) foi mudando lentamente, na medida do desenrolar da jogada. Da euforia à decepção. Minutos depois, o CRB faria 2-0. O Santa – e Barba – voltariam ao Recife vencidos. Mas nunca derrotados.

No fim do ano, Barba ficou mais alegre: o Santa foi vice-campeão da Série B e voltou à elite nacional.

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Fracassocracia

Cartolas de futebol em federações estaduais não são conhecidos exatamente por sua genialidade e competência. Mas o Campeonato Pernambucano de 2013 se superou.

Não bastasse a primeira fase com nove clubes que foi na verdade um grande torneio amistoso – em especial para o Náutico, que venceu a fase que premiava o campeão com uma vaga na Copa do Brasil 2014, mas já tem a vaga pelo ranking nacional – as semifinais escancararam duas falhas grotescas, que premiam a incompetência.

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A primeira delas é por conta de uma interpretação literal do texto do artigo da Fase Final, parágrafo 4o, 2o asterisco. Lá, ipsis literis, está: “Caso uma associação/equipe seja o 4o colocado ao termino do Campeonato (…) e essa associação/clube estiver participando de uma competição nacional de divisão superior à Série D, essa vaga passará para a associação/clube 5o. colocado e assim sucessivamente”. Por isso, caso o Ypiranga chegasse à decisão, sendo vice-campeão, veria a vaga da Série D ir para o 5o colocado, já que estaria eliminando o Sport, que está na Série B. Precisando perder os dois jogos para assegurar calendário nacional, o Ypiranga fez “bem” sua parte na primeira partida, em casa, ao perder por 1-5.

A segunda é mais corriqueira, mas nem por isso menos inusitada: caso o Náutico devolva o placar exato de 1-0 no jogo de volta com o Santa Cruz, a decisão para quem irá a final será pelo número de cartões levados por cada time e, em último caso, sorteio. Enquanto a final prevê terceiro jogo – sem contar o saldo de gols – a semi não prevê nem pênaltis ou partida extra para o desempate.

Em tempo: vice-campeão da primeira fase, o Central de Caruaru pode tentar pleitear a vaga do Náutico na Copa do Brasil, já assegurada também mesmo com um eventual terceiro lugar no campeonato. E o próprio Ypiranga pode fazê-lo, pois será no mínimo 4o colocado.

Tudo muito confuso, com clubes chiando para todos os lados. Mas há um detalhe: todos assinaram o regulamento.

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Náutico paga pelo calendário ruim

Santa Cruz vence o primeiro clássico: Timbu não supera grandes (Foto: CNC)

Renatinho fez o gol solitário do Santa Cruz e o time coral saiu na frente do Náutico nas semifinais do Pernambucano 2013, logo após o lance da foto acima. Tudo normal dentro de um clássico, em que qualquer resultado que não seja goleada é aceitável. Nem tanto para o Náutico, que, derrotado pela terceira vez em um jogo com os maiores rivais, já percebe que o ano será longo.

A semana já teve a eliminação precoce na Copa do Brasil, quando ficou no 1-1 com o CRAC-GO depois de perder o jogo de ida por 1-3. O Timbu se juntou à Portuguesa como os únicos times da Série A ao caírem na primeira fase do mata-mata nacional. A perda foi rápidamente absorvida pela oportunidade de se disputar a Copa Sul-Americana no segundo semestre. Desde 1968, quando foi vice da Taça Brasil contra o Palmeiras e caiu na fase de grupos com o próprio, além dos venezuelanos Deportivo Portuguës e Deportivo Galícia, o Timbu não joga competições internacionais. Mas, nesse ritmo, corre o risco de sequer passar da fase nacional.

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Ao perder mais uma vez para o Santa Cruz, o Náutico somou a terceira derrota em clássicos no estadual. Depois de um primeiro turno onde chegou a propagar que tinha o “melhor ataque do Brasil”, a realidade chegou aos Aflitos. Sem jogar a Copa do Nordeste, por um desempenho ruim no Pernambucano 2012, o time sente os grandes jogos.

A primeira constatação foi do ex-técnico Vagner Mancini, ainda no comando do Timbu, assumindo o desempenho ruim nos clássicos. Enquanto Sport e Santa Cruz (mesmo com campanhas abaixo da crítica) enfrentavam os grandes da região, o Náutico navegava em águas calmas em um primeiro turno que não teve valor algum (o semifinalista Ypiranga foi o 7o entre nove times na fase). Se os Regionais podem ser a solução para os grandes clubes fora do eixo Rio-São Paulo sobreviverem, quem ficar em um estadual mal-planejado pode pagar ainda mais caro.

Único representante de Pernambuco na elite brasileira em 2013, o Alvirrubro vai ser apontado pela opinião geral como favorito à queda. E nem há como contestar muito, com os números apresentados. Silas, o novo técnico, ainda pode dar a votla por cima e chegar à decisão, quiçá ser o campeão da temporada. Mas enquanto o alerta do mau desempenho na Copa do Nordeste já acordou Sport e Santa, o Timbu já perdeu uma competição nacional e está atrás nas semis do Pernambucanão.

Mancini fala sobre o calendário

Veja entrevista do ex-técnico do Náutico, Vagner Mancini, sobre a necessidade de técnicos e jogadores opinarem na montagem do calendário brasileiro:

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  • Outra semifinal

Em Caruaru, o Sport fez 5-1 pra cima do Ypiranga e garantiu-se na decisão (ou alguém acredita num 0-5 Ypiranga na Ilha do Retiro?) com direito à virada no placar. A goleada chamou a atenção para um ítem do regulamento do campeonato.

Se uma improvável goleada acontecer em um dos clássicos da decisão, o time vencedor não tem vantagem alguma, sendo obrigado a, em caso de derrota simples no outro jogo, fazer uma terceira partida pela título. 

Perfeito para combinar com o inutilizado primeiro turno. 

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