Um foco de resistência ao futebol moderno em Salvador

Galícia e Ypiranga lutam por um lugar ao Sol de Salvador (Foto: Flikr Ypiranga/Erik Salles))

por Gustavo Castelucci*

18 de maio de 2013. 15 títulos estaduais em campo. 837 ingressos vendidos. Renda de R$16.740. O Estádio de Pituaçu estava vazio por um lado, mas se levarmos em conta que os gloriosos Galícia e Ypiranga estão na segunda divisão há tempos, foi um bom público. O Ypiranga, por exemplo, passou três anos sem disputar competições na categoria profissional. Voltou em 2010 mas o acesso bateu na trave por dois anos. O Galícia está na mesma luta. Licenciou-se em 2002 e voltou em 2006. Foi vice da segunda divisão em 2007, mas ficou com o grito preso na garganta, já que só um clube subia àquela época. Na fila vi o Secretário de Saúde do Estado, Jorge Solla, anônimo, sozinho, esperando a vez para comprar ingresso.

À beira do campo de um lado estava Cleibson Ferreira, o “Luxemburgo do Nordeste”. Do outro Rodrigo Chagas, ex-lateral direito de Vitória, Corinthians, Cruzeiro e da Seleção Brasileira. Antes só trabalhava com a base, mas recebeu a oportunidade de crescer e aparecer ao lado de um coordenador técnico também emergente: Paulo Isidoro, uma das engrenagens da máquina palmeirense de 1994. Um presente do amigo e presidente do Ypiranga, Emerson Ferreti. Aquele mesmo, herói da conquista da Copa do Brasil pelo Juventude em 1999. Emerson que passou os 90 minutos na arquibancada nervoso com o jogo, gritando e motivando os atletas, reclamando quando necessário, e vez ou outra interagindo com os torcedores do clube.

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Ambientação feita, é hora de falar do jogo. Para o grande público 22 jogadores desconhecidos. Para os baianos, algumas figuras conhecidas do futebol baiano como o veterano Totinga, de 37 anos. O nível técnico, como esperado, não foi dos melhores. Mas se queixar do último Clássico de Ouro, nesse quesito, seria um absurdo. Jogo recheado de emoções com uma expulsão, bola tirada em cima da linha, gol de falta, linha de passe e gritos de olé. O Mais Querido venceu o Azulino Granadeiro por três a zero com gols de Stefan, Diego e Fernando.

O melhor disso tudo foi estar nas arquibancadas. O que senti talvez seja algo parecido com o que meu pai sentia quando ia ao Brinco de Ouro assistir um jogo do Guarani na década de 50. Torcedores de outros clubes (com direito a Bahia e Vitória lado a lado), pipoca, sorvete, casais e até famílias tranquilas, com um olho no jogo e outro nas crianças que corriam e brincavam nas arquibancadas. No meio do primeiro tempo chega um vendedor de água mineral (a cara do atacante Souza, do Bahia) oferecendo um refresco para o sol poente, e, em meio às ofertas, se aproxima da gente e fala: “Olhe, o zagueiro do Ypiranga, o três, é meu sobrinho. Joga muito! Fez a base toda na França. Fique de olho”. Um minuto depois lá estava ele fazendo propaganda de Elinei novamente.

Ouvidos apurados e olhos atentos. À minha frente duas garotas, com 16 anos talvez (mulheres e menores de 12 anos não pagavam ingresso), reclamavam do camisa 17 Darlan. “Esse Robinho é maluco. Toda vez que entra é isso. Uma correria retada e perde a bola”. Alguns lances de arquibancada acima um cidadão sem camisa berrava no telefone com algum amigo: “Bahia já era! Eu agora sou Ypiranga, rapaz”. E não é que tomou gosto pelo time mesmo? Não demorou para ouvi-lo esbravejando quando algum jogador errava um passe. Fim de jogo, e quando subia as arquibancadas lá estava a família de Stefan, orgulhosa, acenando e exibindo a camisa 30 do Rapid Bucareste, onde jogou em 2012. O entardecer de sábado terminou com uma cerveja gelada na saída do estádio e a bela imagem de torcedores de Galícia e Ypiranga voltando pra casa juntos. Conversando. Uma celebração do que é o futebol em sua essência.

*Gustavo Castelucci é jornalista e apresentador da TVE Bahia em Salvador e amigo do blog

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