O outro lado de Anfield Road

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Anfield Road é um dos estádios mais míticos do futebol mundial. A casa do Liverpool, que nesse final de semana abriga o derby da cidade contra o Everton, é conhecida pela pressão nos adversários causada pela fanática torcida vermelha. “You´ll never walk alone”, uma música de 1945 que, em seu refrão, diz que “você nunca andará sozinho”. É o que está no portão de entrada de Anfield. Mas não é o que se vê no bairro, abandonado em quase todo o entorno do estádio, com afixação de cartazes como o da foto acima. Por conta de “abandono de projeto” (dereliction by design, como consta no cartaz), quase todos os vizinhos simplesmente abandonaram suas casas ao redor do estádio e hoje brigam contra o Liverpool FC e a prefeitura da cidade para serem indenizados. A foto abaixo ilustra bem a “cidade fantasma” ao redor de Anfield:

Portas fechadas em plena tarde de terça: Anfield é um bairro-fantasma
Portas fechadas em plena tarde de terça: Anfield é um bairro-fantasma

A briga começou em 1996, quando o Liverpool decidiu ampliar seu estádio, melhorando o padrão em relação a outros da Premier League. O conselho da cidade – leia-se prefeitura – deu apoio e começou então o processo de compra das casas. A própria prefeitura adquiriu alguns imóveis em benefício do clube. Próximo a Anfield está o Stanley Park, que seria integrado ao complexo novo com o apoio da cidade. O Everton, outro time da cidade, também seria beneficiado de certa maneira. O parque Stanley separa os estádios de ambos (Goodson Park de Anfield) com 1km de distância. Nem todos os donos, porém, aceitaram os valores. A partir dali instaurou-se uma guerrilha econômica.

Cerca de 10 proprietários não fecharam negócio e impediram o clube e a prefeitura de levar adiante o projeto nos últimos 18 anos. Dentro do direito de propriedade, eles entendem que a oferta não é boa suficiente para fechar negócio. No entanto, com as demais casas compradas – e desocupadas – o bairro foi ruindo. As pessoas que fecharam negócio foram deixando suas casas, as lojas foram fechando as portas. O bairro se tornou fantasma.

Uma associação de moradores que permanece com a posse das casas protesta contra a forma “vampiresca” com a qual a cidade e o clube pressionam para a desocupação total da área. Do outro lado, uma região grande de Liverpool – uma cidade de 450 mil habitantes – está completamente parada, atrasada em seu desenvolvimento, o que causa revolta em outros moradores. Discute-se inclusive a construção de um novo estádio para o Liverpool dentro do Stanley Park, como solução para o impasse. Além dos custos da nova obra, o Liverpool e a cidade podem ainda ter que arcar com indenizações que giram em torno de 500 mil libras por casa, em avaliação sobre a perda de receita pela falta de uso das casas.

No último dia 31 de maio as partes se reuniram, mas não firmaram um acordo. A prefeitura deu indícios de que pode fechar acordo com três dos proprietários dissidentes. É um avanço, mas que pode ainda estar longe de ser a solução para o caso.

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Curiosamente, o período da discussão sobre Anfield marca também o declínio do domínio dos Reds no futebol inglês. Até 1996 o Liverpool era o maior campeão inglês, com 18 conquistas (a última na temporada 1989-90). De lá para cá, e já durante a discussão, viu o Manchester United, então com 11 conquistas, ultrapassar o número de taças e se tornar o rei da Premier League, com 20 títulos.

Sábado, quando milhares caminharem rumo a Anfield para ver o duelo entre Liverpool e Everton, o bairro deixará de ser fantasma, ao menos por 90 minutos. Depois, Anfield voltará a estar sozinho, apesar da mensagem em seu portão.

 

Em Dublin, vai ter Copa e vai ter copo

Os irlandeses não são conhecidos mundialmente por sua excelência no futebol. São apenas três participações em Mundiais, com o incrível feito de ter chegado às quartas-de-final da Copa em 1990 sem ter vencido um jogo sequer (foram 4 empates com Inglaterra, Egito, Holanda e Romênia até a derrota para dona da casa Itália por 0-1). Mesmo assim, eles adoram futebol. E ainda não perdoaram o árbitro sueco Martin Hansson pelo erro que os eliminou da Copa de 2010, nas eliminatórias européias contra a França.

"França rouba", diz a pichação no estádio do Bohemians

Festivos, os irlandeses armam seus bares para ver o Mundial e boa parte adotará o Brasil como time para torcer. Apesar das ligações com a Inglaterra, não há uma simpatia – nem uma confiança – geral nos “Three Lions” (verdadeiro apelido do time inglês, e não ‘english team’), ao contrário do que acontece com os clubes ingleses. E mesmo tendo o futebol gaélico e o rugby como esportes mais populares, os irlandeses não perdem a chance de uma festa. Logo…

A admiração pelo futebol brasileiro também se deve à Sócrates. O Doutor atuou apenas uma partida pelo Garfoth Town, já nos anos 2000, depois de aposentado, mas o suficiente para deixar todos na região – Dublin está há apenas 1h de viagem de Garforth – com histórias para contar. É comum ver irlandeses com camisas com o rosto de Sócrates.

Um pouquinho de Brasil

As ligações com o Brasil também se dão pelo número de brasileiros vivendo na cidade. Isto porque a Irlanda é um dos raros países que permitem que se estude inglês e se possa trabalhar enquanto acontece o curso. Isso serve de porta de entrada de muita gente na Europa. Pessoas que tentam aprender a lingua mais falada no planeta e, principalmente, ganhar a vida em Euro. No entanto, em virtude de fraudes no sistema, vários brasileiros enfretam situação difícil na cidade atualmente.

As dificuldades e a Copa são um belo motivo para voltar. Quem não o fizer, no entanto, não ficará sem Copa. Apesar do fuso-horário (são 5 horas a mais no momento), vários bares devem abrigar os torcedores brasileiros na expectativa pelo Hexa. Um deles é o D-One, cujo dono é brasileiro. O bar já é ponto de encontro brazuca em Dublin e serve pratos como coxinha, pastel, feijoada e, claro, caipirinha. Além disso, exibe os jogos do Brasileirão.

Amigos como os rubro-negros Pedro Oliveira e Alison Karas se reunem lá para ver seus times. O primeiro é Sport, o segundo, Atlético Paranaense. Na expectativa de ver os jogos da rodada – tinha Atletiba e Sport x Corinthians – foram ao D-One. Na tela, Santos x Flamengo. Ao menos o sinal 4G realmente funciona na Europa. Alison apelou para o PFC Online, recurso oferecido pela Globosat, e viu o clássico paranaense na tela do… celular.

Alison apelou para a telinha e acabou premiado: deu Atlético sobre o Coxa

Pedro, por outro lado, insistiu com o garçom para que ao menos uma das telas do bar saísse do duelo entre Peixe e Fla para ver seu Sport contra o Timão. Demorou, mas conseguiu – há tempo de ver alguns corintianos se aproximarem para acompanhar o jogo, tudo na maior paz, como sempre deveria ser. Para azar de Pedro, o Sport esteve num péssimo dia e acabou encaixotado pelo Corinthians, 1-4.

Pedro e o jogo pelo radinho, via web

Bom para molhar a garganta

Dublin é conhecida por ser a cidade do U2, de vários castelos e da ótima cerveja Guinness – que também edita o Livro dos Recordes. Visitar a fábrica da cerveja tipo Stout é parada obrigatória. 

Portal da felicidade, esta é a entrada do Tour da Guinness

São sete (!) andares com um museu com a história da cervejaria inaugurada em 1759, o processo e a história de fabricação, a importância da marca para a Irlanda, uma experiência de sabores e cheiros, o aprendizado de como servir a cerveja (e o porquê daquela bolinha dentro das latas) e a melhor visão de Dublin, no Gravity Bar, de onde você pode ver, entre outras coisas, o Aviva Stadium, casa da Seleção Irlandesa. O passeio custa entre 6 e 17 Euros, dependendo da faixa de idade. É a cerveja mais consumida na cidade, num dos exemplos de orgulho local.

Quase gaúchos

Dublin se orgulha da excelência da Guinness, valoriza o comercio local – é comum ver faixas em restaurantes e mercados dizendo que “aqui se vende carne irlandesa” – mas, no futebol, a preferência é pelos clubes ingleses, especialmente Liverpool e Manchester United, e pelo Celtic, da Escócia. Os escoceses contam com enorme torcida na cidade, tudo em virtude do catolicismo, religião de 11 entre 10 irlandeses. Reds e Devils ganham adeptos pela proximidade e pelos desempenhos favoráveis. Azar dos times de Dublin.

Bohemians, Athletic St. Patricks e Shamrock Rovers são os clubes de Dublin. Nenhum usa com frequência os dois principais estádios da cidade, o Aviva e o Croke Park – este muito usado pelo rugby e pelo futebol gaélico. A maior rivalidade é entre os Bohs e os Rovers. Ambos têm seus estádios, acanhados, para menos de 10 mil pessoas. O do Rovers é na verdade um estádio público, arrendado pela equipe, e muito mais moderno e confortável.

Os Rovers também são os mais bem sucedidos na cidade. Seu último orgulho foi a disputa da Liga Europa 2011/12, edição transmitida ao vivo aqui no Terra. O orgulho não se deu pelos resultados e sim pela turnê internacional contra Rubin Kazan da Russia, PAOK da Grécia e Tottenham da Inglaterra. Em campo, seis derrotas na fase de grupos, com 4 gols pró e 19 contra. O estádio ainda tem um enorme painel com o mapa da Europa e o logo da Liga, assim como um pequeno museu, cujo destaque, além das taças locais, é a placa abaixo, na referência ao duelo inaugural contra o Real Madrid, derrota por 0-1.

Pequenas glórias, pequenas alegrias no futebol irlandês

Os nomes de times mais esquisitos da Liga Europa

Lyon e Tottenham se enfrentam na Liga 2012/13: nada é o que parece

A fase de grupos da Liga Europa vai começar! E o Terra irá transmitir todos os jogos até a decisão, a partir desta quinta-feira. Portanto, é hora de conhecer os clubes que formam essa charmosa competição, que abriga grandes clubes ao mesmo tempo em que dá espaço para equipes de menor porte. Na edição 2012/13, o Chelsea bateu o Benfica na final e comemorou o título. Nesta temporada, enquanto aguardam os clubes que saem da Liga dos Campeões para a disputa da outra competição continental européia, será possível se divertir e se surpreender com alguns clubes de toda a Europa. 

Apresento então alguns nomes que você nunca imaginou que seriam de times de futebol.

Olympique Lyonnais

Nada demais: são apenas os olímpicos lioninos, gentílico de quem nasce em Lyon, na França. Na verdade, o que chama mais a atenção aqui é o fato de quem pouca gente chama o clube pelo nome correto, optando mais pelo nome da cidade, Lyon. Seria o mesmo que chamar o Atlético Mineiro apenas de “Minas” ou “Atlético Minas”.

Tottenham Hotspur

Os Esporas Quentes da Fazenda do velho Tota é um clube voltado para a literatura – pelo menos é o que conta a etimologia. Fundado em 1882 originalmente Hotspur (Espora Quente) FC, em virtude do personagem de Shakespeare Harry Hotspur, incorporou o nome do bairro Tottenham para diferenciar-se de outro Spurs. O bairro, por sua vez, ganhou o nome por constar no Doomsday Book do Rei Guilherme I – uma espécie de censo britânico de 1000 D.C. – como uma região rural cujo dono chamava-se Tota.

Bordeaux

Ou, para os patrícios portugueses, Bordéus, o que nos induz a uma pequena confusão com “bordel” ou, no popular, zona, prostíbulo. Na verdade, a cidade de Bordeaux tem origem numa fundição de ferro, Bordigala em aquitano, lingua do século III A.C. O clube, a exemplo do Lyon, tem outro nome – usado até no site oficial: Girondins (Girrondã), que seria algo como “ginastas”. Assim, o Bordeaux é, na verdade, o Clube dos Ginastas da Fundição de Ferro. Graça e força em um nome só.

Swansea City 

Esse é fácil e o escudinho ajuda: Associados da Cidade do Cisne do Mar Futebol Clube. Swansea é uma cidade portuária no País de Gales, no Reino Unido. Disputa a Liga Inglesa assim como outros 5 clubes galeses, uma vez que a Liga do País de Gales só foi fundada em 1992. As ligas são integradas somente na FA Cup, a Copa da Football Association, a CBF do Reino Unido. Gales tem sua própria seleção de futebol, mas se une ao Reino Unido nas Olimpíadas.

PAOK

Clube Atlético dos Cidadãos de Tesalonica retirados de Constantinopla. Isso é o PAOK, que faz menção à expulsão dos gregos residentes na hoje chamada Istambul, na Turquia, já no século 20, quando da queda definitiva do Império Bizantino. A expulsão dos gregos aconteceu em 1920 e o clube foi fundado em Tesalonica, 2a maior cidade grega, em 1926, apenas seis anos depois.

Dnipro Dnipropetrovsk

O rio Dnieper ou Dnipro

Dnipro, ou Dniepre, é um rio que cruza a Rússia, a Bielorussia e a Ucrânia, país sede do clube e da fábrica de metalurgia Petrovsky, cujos operários formaram em 1918 um time de futebol. Petrovsk faz menção a Piotr ou Pedro, em russo e ucrâniano. Logo, o FC Dnipro é na verdade o Clube de Futebol dos Operários da Metalurgica Pedro do Rio Diniepre.

Trabzonspor

Mais um fácil de desvendar: “Spor” é Esporte e Trabzon, o nome da cidade. Completando com o Kulubu, temos o Trabzon Esporte Clube. Foi território grego e pertencente ao Império de Trebizonda.

Maccabi Haifa / Maccabi Tel-Aviv

Maccabi, em Hebraico, quer dizer coragem ou vitória. Haifa e Tel-Aviv são cidades de Israel. Logo, temos aqui os xarás do baiano Vitória. Ambos são FC, ao contrário do EC do brasileiro.

Sheriff Tiraspol

Outro caso em que o nome da cidade ganha mais evidência que o do clube. Tal qual o América Mineiro – que é na verdade América Futebol Clube – o Sheriff se chama FC Sheriff. Fundado em 1997, seu nome faz referência ao primeiro patrocinador, uma companhia de segurança da Moldávia, país que compunha a antiga URSS.

Chornomorets Odessa

Odessa é o nome da cidade ucraniana que abriga o clube, próxima de um lago que secou e abrigou por muitos anos um grande vale. Nele, atletas amadores jogavam futebol e ficaram conhecidos como os “Homens do Mar Negro” – ou Chornomorets, em ucraniano. Logo, temos aqui o FC Homens do Mar Negro de Odessa.

Ludogorets Razgrad

Sediado em Razgrad, na Bulgária, o Ludogorets Clube de Futebol Profissional faz menção à região de Ludogorie, conhecida por ser uma região de floresta selvagem. O nome, Ludogorets, significa Floresta Louca. Pela imagem, não dá pra discordar.

Shakhter Karagandy

O time do Cazaquistão ganhou notoriedade ao sacrificar um carneiro em oferenda à possibilidade de eliminar o Celtic na fase de play-offs da Liga dos Campeões. Não deu – pobre carneiro. O nome, assim como o quase xará de Donetsk, da Ucrânia (questão de sotaque) signifca Mineiro. Temos então o Futebol Clube Mineiros de Karagandy, cidade de 500 mil habitantes no país que também era parte da URSS.

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O jeitinho argentino pra não matar o futebol

Torcida do Boca ignorou lei com a ajuda do adversário

Torcedores violentos – daqui pra frente chamados de bandidos – e cartolas “geniais” perderam a primeira batalha pelo fim do futebol na Argentina. No melhor estilo brasileiro, os hermanos deram um belo drible na lei que chegou ao cúmulo de proibir, primeiro a torcida visitante, depois que não-sócios vejam os jogos do Campeonato Argentino (leia clicando).

É bem verdade que os seguidos episódios de violência no país vizinho levaram a essa decisão. Apenas sócios do clube mandante podem assistir aos jogos nos estádios. Rapidamente, todos chiaram; os pequenos, porque perderão em arrecadação ao receberem os grandes; estes, por sua vez, por não ter suas fiéis e numerosas torcidas ao seu lado. Pelo menos é o que todos acharam.

“La mitad más uno”, como é conhecida a torcida do Boca Juniors, a maior da Argentina, deu um “rrreytigno” (favor pronunciar para melhor compreensão) de não abandonar a equipe em Córdoba, no jogo da última quarta (07/08) contra o Belgrano, pela 2a rodada do “Torneo Inicial”. Com o apoio da diretoria do Belgrano, foi criada uma modalidade de “sócios temporários”, com emissão de carteirinha e tudo mais. Exatos 5390 “novos sócios” se juntaram às fileiras do Belgrano nos dias das vendas dos ingressos, pagando, cada um, 70 pesos.

O volume foi tão acima do esperado que a Associação de Futebol Argentina, fingindo que nada sabia, teve que mudar o jogo de local. A partida saiu da casa do Belgrano, o Estádio Alberdi, com 28 mil lugares, para o Estádio Mário Kempes, para 57 mil pessoas. O público, não confirmado em borderô, foi de mais de 30 mil pessoas. 

O Boca venceu o jogo de virada, 2-1. Sem espaço para vibrar, a cantarolante torcida xeneize teve de comemorar calada os dois gols, como você pode perceber nesse vídeo da TV Missiones:

Não há previsão de mudança na norma baixada pelo Governo Argentino. Lá, como cá, prefere-se tapar o Sol com a peneira e matar o cachorro ao invés de tratar as pulgas.

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O 8-0 do Barcelona expõe todas as feridas do futebol brasileiro

Aranha caído: com ele, o futebol de clubes do Brasil

Não se pode aceitar com tanta naturalidade que o Barcelona tenha feito 8-0 no Santos. Nenhum grande clube brasileiro – diria até que nenhum que dispute a Série A – pode levar oito gols e entender, com humildade, que o Barça é poderoso demais. Especialmente um clube com a história e a camisa do Santos.

Sabe-se que o Santos está longe dos seus melhores momentos. Tem um time titular envelhecido e enfraquecido com a saída de Neymar – justamente para o Barcelona. Mas o Santos é um dos principais clubes do Brasil. Do futebol mais vitorioso do Mundo, o que revela mais talentos, o que mais ganhou jogos e títulos na história desde que a bola é redonda. Perder para o Barcelona é aceitável; perder de 8 e aceitar, não. Para nenhum time brasileiro.

Tão ruim quanto, embora muito menos impactante, foi ver o São Paulo “comemorar” a derrota para o Bayern de Munique por “apenas” 2-0. O placar não foi maior porque o São Paulo é melhor que o Santos – embora, vejam, perdeu no confronto direto no Brasileirão. Mas tem jogadores mais cascudos, mais ambientados e que não sentiram o mesmo impacto que os atletas santistas ao visitar um poderoso europeu. 

Santos e São Paulo deveriam ter vencido Barça e Bayern? Há que ser realista: não conseguiríam, hoje. Talvez o Atlético Mineiro, campeão da Libertadores, consiga fazer frente ao Bayern no fim do ano, jogando como Inter, São Paulo e Corinthians jogaram contra Barcelona, Liverpool e Chelsea: como o time menor. Jogando consciente de suas limitações, marcando duro e aproveitando os erros. Esse é o quadro realista. 

Mas por que raios os clubes brasileiros, soberanos na América, não conseguem fazer frente aos Europeus a ponto de uma das principais camisas do País ter sido sumariamente humilhada no Camp Nou? Porque o futebol brasileiro não se importa com seus clubes.

Falta à CBF uma diretoria de clubes. Aquilo que muita gente chama de Liga, com ou sem racha com a atual direção. Um grupo que faça com os clubes o mesmo que é feito com a Seleção. Falta intercâmbio. Falta enxugar os Estaduais, permitindo que jogadores e técnicos possam ir à Europa ou mesmo até a vizinha Argentina fazer uma boa pré-temporada.

Falta fazer com que chineses, coreanos e japoneses saibam que Neymar era do Santos, Zico foi do Flamengo, entre outros, e se interessem tanto pelos brasileiros quanto pelo Manchester United, ajudando-os no aumento de receitas. 

Falta valorização interna. A distância aberta para o Barcelona é a mesma, por exemplo, que se tenta criar internamente, quando se paga mais em cotas de TV para alguns, desequilibrando o campeonato. O que já acontece na Espanha, que tem o Barça como um dos dois pólos, mas que tem um “país”, a Catalunha, trabalhando para si. Não o que acontece na Alemanha, do multi-campeão Bayern, que vê em Borussia Dortmund, Schalke 04, Bayer Leverkusen, Hamburgo e alguns outros rivais reais na briga pelo título nacional.

Por mais dolorosa que possa ter sido a goleada sofrida pelo Peixe, ela deve ser discutida abertamente por quem se importa com o futebol brasileiro. Santos, São Paulo e outros devem ir mais vezes ao exterior, como o Atlético Paranaense foi no começo do ano, disputar um torneio na Espanha em detrimento do Estadual. Como Cruzeiro e Fluminense fizeram nos EUA, durante a Copa das Confederações. Devem ir, interagir, vender sua marca, estudar mercados, ver novos jogadores. Devem contar também, principalmente, com a ajuda da CBF, desde repensar o calendário e a distribuição de renda até a conseguir que os clubes visitem esses mercados mais frequentemente.

Vai acontecer? Não sei. Depende da boa vontade de quem comanda o futebol brasileiro. Já as goleadas continuarão acontecendo, se nada disso for repensado.

  • Outro lado

Se a distância entre os brasileiros e os principais europeus ficou escancarada na derrota do Santos para o Barcelona, nas Américas, a economia do País está fazendo a diferença. Mesmo com todas as mazelas já citadas, pelo quarto ano seguido, o campeão da Libertadores é brasileiro; pelo nono ano seguido um brasileiro esteve na decisão, sendo que em 2005 e 2006 a final foi entre dois brasileiros. Nos últimos 21 anos – período que compreende também a consolidação do Plano Real – apenas em três ocasiões a final não teve ao menos um clube brasileiro. Do São Paulo de Telê ao Galo de Cuca, apenas em 1996, 2001 e 2004 a decisão deixou de ter um brasileiro, vagas que foram ocupadas pelos gigantes argentinos Boca (duas vezes) e River, América de Cali e Once Caldas da Colômbia e Cruz Azul do México.

Durante esse mês alguns clubes europeus visitaram a América invertendo o intercâmbio. Foram oito jogos com Porto de Portugal e os espanhóis, Sevilla e Atlético de Madrid visitando Nacional do Uruguai, Estudiantes de La Plata, Barcelona de Guayaquil, Deportivo Anzoátegui da Venezuela, Atlético Nacional da Colômbia, Universidade Católica do Chile e Sporting Cristal do Peru. No placar geral, 5 vitórias européias, 2 americanas e 1 empate. É difícil o exercício de colocar os brasileiros no comparativo. É possivel imaginar que se os três europeus ficassem apenas pelo Brasil, tivessem resultados piores. Mas é subjetivo e a realidade mais próxima é imaginar os brasileiros acima dos vizinhos, no nível dos médios europeus e abaixo dos grandes. Tanto é que o São Paulo acabou derrotando o Benfica, vice-campeão da Liga Europa.

É um posicionamento de mercado bom o suficiente para o que representa o futebol brasileiro?

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Por que os brasileiros torceram contra a Espanha

Isabella é uma das minhas grandes amigas – uma das mulheres mais bonitas que conheço. Aquela beleza bem brasileira: pela morena, cabelos cacheados, corpo cheio de curvas. Foi minha caloura na faculdade e, depois de um tempo, resolveu tentar a sorte em Madri. Já se vão alguns bons anos. Lá, conheceu Albert, um andaluz (se apresenta assim mais que espanhol) torcedor do Bétis, gente fina. Desse amor nasceu Théo, recentemente. Albert sabe que os brasileiros não são “monos” – ou macacos.

Juan é pai de um grande amigo, Daniel – e outros dois filhos, Carla e André – frutos de um relacionamento com Íria, uma brasileira. Juan deixou Madri ainda criança, fugindo da Guerra Civil Espanhola. Refugiou-se em Curitiba. Torcedor do Atlético de Madri, tem bandeiras espanholas pela casa e se emocionou quando, em uma das minhas andanças pelo Mundo, ganhou de presente um singelo chaveirinho dos Colchoneros. Juan tem coração espanhol, mas mais tempo de Brasil que de Espanha na vida. E sabe que os brasileiros não são macacos.

Leia também:

Hulk contra o Mundo

Conheça o Taiti, menos inofensivo do que parece

Contagem refressiva para o legado

Generalizar é errado. Foi o que dois ou três fizeram via Twitter, sentados confortavelmente em suas poltronas na Espanha, para ofender os brasileiros. Uma leitura que denota, de fato, que a educação espanhola vai de mal a pior, pois esboça uma visão de gente de certo poderio financeiro. Pessoas que nutrem preconceito pelo que não conhecem – e desconhecem muito, pois um dos ilustres desconhecidos sequer sabe que por aqui se fala português, lingua irmã e vizinha dos espanhóis. Mas isso não é geral: em todo planeta temos os bons e os maus. Não seria diferente por lá. A agressão – que ganhou repercussão exagerada no Brasil – tentava explicar “porque os brasileiros estavam torcendo contra a Espanha”. “Inveja”, “medo” e outras explicações tão vazias quanto o congresso em véspera de feriado.

Manchete do Ás: Brasil com medo da Espanha?

Muito disso partiu, vejam só, dos colegas de imprensa de lá. Imprensa que acusa a imprensa brasileira de plantar notícias para desestabilizar a Fúria – ou La Roja, como dizem por lá. Será? Será que as notícias das confusões nos hotéis em Recife e Fortaleza são invencionices baratas para mexer com o ambiente espanhol? Se sim, vale dizer: partiram de lá mesmo:

Manchete do Mundo Deportivo: primeiro jornal a noticiar a confusão

Foi no “Mundo Deportivo”, de Barcelona, que saiu a informação do “roubo” de mil euros. A assessoria de imprensa do hotel emitiu nota logo em seguida, negando o fato. A Espanha não prestou queixa na delegacia, abrindo mão do direito de investigação. Talvez as contas feitas apontaram que mil euros, cerca de 1% do salário da imensa maioria dos jogadores, não compensava o desgaste de confrontar o hotel e, quem sabe, revelar o que houve naquele dia. Em Fortaleza, prevendo confusão igual, o outro hotel que abrigou a Fúria logo proibiu a entrada de qualquer visitante que não estivesse autorizado. Informação apurada pela equipe do Terra Brasil, que sabe que esse assunto tem impacto na imagem do País no exterior, o que justifica a pauta. Caso abafado novamente. Menos pela imprensa espanhola, que confronta a brasileira, querendo dar aula de jornalismo.

Não tem muita moral para isso. Talvez estejam medindo os colegas brasileiros pela única régua que tem. Os jornais espanhóis são extremamente partidários. Jogam junto – como Felipão gostaria de ver aqui: o Marca é Real Madrid, o Mundo Deportivo é Barcelona. É da cultura deles, separatista e bairrista. Temos coisas parecidas aqui, mas não com a mesma intensidade. Curiosamente, enquanto os espanhóis cobram a imprensa brasileira por ser partidarista, Felipão cobra por não ser. Vá entender.

E porque, afinal, os brasileiros torceram contra a Espanha? Primeiro que isso é uma meia-verdade: 9 entre 10 brasileiros queriam o confronto com a Fúria. O Brasil precisa ser testado. Não disputa eliminatórias, o que o derrubou no ranking da Fifa. Sobre a Itália, foram dois confrontos recentes. Era melhor pegar um adversário diferente. O que aconteceu no Castelão foi o mais básico do futebol: o público abraçou o “mais fraco”. A Itália, segunda maior campeã mundial, levou 4-0 da Espanha na Euro, não tinha Balotelli, estava jogando no limite. E quase passou. Itália que, diga-se, é uma das grandes rivais do Brasil: duas finais de Copa, eliminação em 1982 e uma larga história de confrontos.

A Espanha não. A Fúria merece todo o respeito pelo time que tem, mas é um “novo rico” no futebol mundial. Acabou com sua imagem de fracassos apenas em 2008. De lá pra cá vem impressionando, mas também não enfrentou o Brasil nestes anos todos. Desde 1999 os times não jogam entre si – o Brasil não era penta e a Espanha sequer tinha ganho seu único mundial. Aliás, aí vem uma nova distorção no que se lê na Espanha: o Brasil, pentacampeão do Mundo, berço de talentos que vivem enebriando os espanhóis, de Evaristo a Neymar, teria medo de enfrentar a Fúria em casa? Acho improvável.

Sequer a comparação com o Maracanazzo do Uruguai cabe. O grande trauma brasileiro naquele ano foi tomar a virada após comemorar no vestiário, o que qualquer livro de história conta – é só estudar. Foi uma queda do salto. Mas foi também o impulso para que o Brasil passasse a levar a sério, como em 1958, 62, 70, 94 e 2002. Perder a decisão no domingo não mudará nada para o Brasil. Todos sabem que o time está em formação.

Mas, e a Espanha? Se perder, após a acachapante derrota do Barcelona para o Bayern de Munique, terá sua escola de futebol colocada em xeque. Perderá para um time em formação. Perderá um título que não tem. E terá que explicar muita coisa que está em aberto. A Espanha sim, tem o que perder no domingo. Dia em que, com todas as letras, o Brasil torcerá sim contra a Espanha: com a camisa mais vitoriosa do futebol ao lado dos brasileiros.

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O que o Mundo está falando da Copa das Confederações

O evento-teste da Fifa vai começar e o Brasil vive uma onda de protestos sociais, na expectativa de uma repercussão internacional, já que todos os olhos do planeta estão voltados ao País. No entanto, não é o que se vê nas manchetes deste sábado, pré-estreia da Copa das Confederações, nos principais jornais esportivos do Mundo. Nenhuma nota ou preocupação em destaque – ao menos antes da competição começar.

Argentina

Nossos vizinhos estão fora da Copa das Confederações, mas não deixam de opinar. “Toda sorte para o Brasil” é a manchete do Olé, que brinca com o tabu de que nunca uma seleção que venceu a Copa das Confederações ficou também com o caneco do Mundial no ano seguinte. Bem, há sempre uma primeira vez.

Uruguai

Os uruguaios ainda não estão 100% voltados a Copa das Confederações. A grande preocupação do Ovación Digital está na busca por uma vaga no Mundial: com sete pontos, a Celeste garante ao menos a vaga na repescagem. Olhos em 2014.

Espanha

O Marca, principal jornal esportivo espanhol, segue a linha de se preocupar mais com o Real Madrid que com a seleção local. Tanto é que a principal manchete é com o uruguaio Luis Suárez dizendo que “valerá o mesmo” se marcar ou não no encontro entre Celeste e Fúria.

Itália

Na Gazzeta Dello Sport, a preocupação é com Mário Balotelli, que com uma contratura, pode ficar de fora da estreia contra o México.

México

Chicharito Hernandes, do Manchester United, é o destaque do Central Deportiva, caderno de esportes do El Universal, que fala da preocupação da Itália com o artilheiro.

Japão

No Japão, o destaque do Daily Sports Online é a declaração de Neymar sobre os principais jogadores japoneses, Honda e Kagawa.

Nigéria

Nada de repercussão sobre a quase-desistência da Nigéria na Copa das Confederações: página virada, a expectativa do The Guardian Nigéria é para o duelo com o Taiti: “Sonhos do Tahiti contra as Super-Águias”.

Taiti

No Le Dépéche, a manchete é: “Todas as atenções para o Taiti”. Pelo menos é essa a impressão que eles têm da primeira grande competição do país, que se rotula como “peixe-pequeno”.

Alemanha

Um dos principais países do mundo do futebol, a Alemanha dá pouco destaque para a Copa das Confederações (a quem chama de ‘mini-copa’), mas questiona: “Porque o Taiti e não nós?”, discutindo a ausência da seleção local nesta competição – e os motivos disso.

Inglaterra

Um dos mais ácidos jornais do mundo, o The Sun da Inglaterra, passa longe dos problemas sociais brasileiros ao falar da Copa. A manchete faz um apanhado do que há de melhor e, para desgosto de Carlinhos Brown, agradece a ausência de Vuvuzelas e afins no “carnaval do futebol”.

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