E quem paga a conta pelas Organizadas?

Difícil de se identificar os responsáveis?

A pergunta é direta, simples e objetiva: quem paga a conta pelos prejuízos causados aos clubes e à sociedade pelas nominadas “Torcidas Organizadas”?

Nesta semana, Cruzeiro, Atlético Paranaense, São Paulo e Goiás entraram para a lista de clubes que terão prejuízos materiais e técnicos por conta de meia dúzia de arruaceiros que se escondem sob o símbolo das torcidas “organizadas”, como se fossem intocáveis. E talvez sejam: não pagam a conta de nada, por mais que sejam facilmente identificados individualmente. Ninguém é preso ou punido. A conta estoura no torcedor comum e no próprio clube, que de fato é quase tão culpado quanto, pois acaba dando guarida.

Ou é mentira que várias diretorias Brasil afora dão espaço aos “organizados” por conta de apoio político? Pode ser em forma de ingressos, cargos no clube ou tolerância com os chamados protestos por conta de desempenho. Os organizados fazem parte das vidas dos clubes, normalmente de maneira negativa.

Ok, virão aqui os defensores das TOs e lembrarão que boa parte da festa parte deles, que “estão ao lado do clube onde ele joga” (nunca é demais lembrar que uma passagem de avião em dia de semana é artigo de luxo), que alimentam a magia dos estádios e tudo mais. Bem, há algum fundamento e generalizar é errado. Assim como em todas as classes, há os bons e os ruins. Nas TOs, também. Há gente de bem, interessada apenas em fazer festa e curtir seu clube. Mas ao serem coniventes com os seguidos episódios de violência e confusão, os bons dão guarida aos maus. Assim como um dirigente de clube é responsável pela sua gestão, os organizados deveriam se responsbilizar pelo todo. Não o fazem.

“É impossível ter controle de uma multidão”, dizem. Fato. Mas é possível faturar com ela. A grande receita das organizadas vem da vampirização das mesmas em cima da marca do clube. São as camisas que vendem, por exemplo, a custo mais baixo que os (caros) uniformes oficiais, que dão verba aos comandos. Isso sem que se repasse um centavo aos cofres dos clubes, que invariavelmente aceitam essa situação pelos interesses já citados.

E se o São Paulo, em uma recuperação espetacular com Muricy, acabar rebaixado à Série B por ter perdido o direito de mandar seus jogos no Morumbi? Ou o Atlético perder sua vaga na Libertadores por não poder jogar mais em Curitiba, ou então o Goiás, que perdeu seu direito de decidir a Copa do Brasil no Serra Dourada? Pior: se o Cruzeiro ver seu título ameaçado pelo prejuízo técnico de não jogar em Belo Horizonte em partidas decisivas?

Soltos por aí, os arruaceiros seguem tomando conta do futebol. E quem paga a conta? Você, é claro.

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Descaso

A morte do torcedor atleticano André Lopes, na última quarta-feira, atropelado quando saia do Eco-Estádio após a vitória do Atlético (4-0) sobre o Roma, é mais uma demonstração do descaso dos organizadores do futebol local, cada vez menos preocupados com o bem-estar e a segurança do torcedor e muito mais em tapar os buracos que os mesmos se encarregaram de abrir. Infelizmente, esse buraco agora é ocupado por um jovem de 21 anos, que apenas queria acompanhar seu time do coração, mas sofreu com a falta de planejamento de quem liberou e confirmou o evento sem garantir segurança.

A faixa acima é um protesto de moradores e torcedores que perderam um amigo por pura falta de compromisso e planejamento. O conceito do Eco-Estádio é criativo e digno de nota. É feito para comportar a torcida do Corinthians-PR. Até o jogo desta quarta, o recorde de público era o jogo J. Malucelli 3-2 Coritiba, em 2008: 2.173 pessoas. Já um volume substancial de torcedores. O novo recorde foi estabelecido pelo Atlético, tem exatamente 1201 pessoas a mais, mais de 50% do público anterior: 3474. Com 17 mil sócios o rubro-negro dificilmente arrastará menos pessoas a campo do que o volume de quarta-feira. E pelo Facebook, único meio de contato com Mário Celso Petraglia desde que ele assumiu o Atlético, o presidente do clube anunciou:

A média de público do Corinthians-PR em 2011 foi de 383 pessoas, quase 10x menos do que se espera em público médio nos jogos do Atlético desde o anúncio acima. A liberação do estádio feita pensando no público médio do Timãozinho está dentro da normalidade; até mesmo o esquema de segurança, elaborado para um público tão diminuto, está de acordo. Para o Atlético, não. A movimentação é maior, desde o volume de torcedores e ambulantes até os profissionais de imprensa e da organização, mobilizados em maior número dado o apelo popular do Furacão.

E de quem foi a culpa pela morte de André Lopes? Cheguei a ler uma absurda troca de acusações clubísticas, como se Coritiba ou Paraná tivessem relação com a fatalidade – que, aliás, poderia ter acontecido num domingo de sol, com um visitante do Parque Barigui, já que não existe passarela na BR 277 – por não terem chegado a um acerto com o Atlético. Oras!, Coxa e Tricolor estavam quietos em suas casas, um ainda indignado pela maneira com a qual recebeu a imposição (ainda em processo judicial) de empréstimo do Couto Pereira, outro contabilizando o que vale/merece/precisa nas propostas pelo uso da Vila, já descartada. Atribuir culpa a esses clubes no acidente é desrespeitar a família e ignorar que o caso ainda está pendente de solução.

O Atlético, co-organizador do evento (que é da FPF) mostrou que cumpriu sua parte ao apresentar um ofício pedindo segurança a Polícia Rodoviária Federal com dois dias de antecedência:

A Rádio Banda B trouxe a público o documento acima. Aqui, o primeiro sinal de descaso: avisada, a PRF não  percebeu a relevância do evento. Ou, no mínimo, subestimou a importância de coordenar a entrada e a saída de 3,5 mil pessoas em uma rodovia. E o faz de novo: fará um teste hoje num jogo de menor apelo, entre Corinthians-PR x ACP. Pode ter a impressão de que o esquema já é satisfatório.

A Gazeta do Povo estampa que a PRF pode proibir os jogos do Atlético no Eco-Estádio. Diz Anthony Nascimento, inspetor da corporação: “Vamos avaliar se há uma forma para adequar o local para a travessia segura dos torcedores. Se não chegarmos a um consenso, a PRF vai pedir que o evento não seja realizado naquele estádio.” Como você viu acima, esse não será o único jogo do Furacão no Eco-Estádio, segundo o presidente rubro-negro. Após a tragédia (que poderia ter mais de uma vitima, diga-se) a PRF pode mesmo entender que não tem capacidade para fazer a segurança em jogos de grande porte na praça do Timãozinho. E então volta a tona o problema do Atlético: onde o clube jogará enquanto seu estádio está em reforma para atender à Fifa e à cidade na Copa 2014? Minha opinião está nesse link, mas em suma: foram cinco anos para pensar nisso e nada foi feito. Mais descaso.

Fato é que nessa semana o comitê paranaense esteve no Rio, reunido com a Fifa, apresentando as fórmulas de conclusão do estádio. Um nó que passa pela cessão de títulos urbanos de Curitiba (o potencial construtivo) ao Atlético, que os repassará ao Governo do Estado como garantia do financiamento via FDE. Aqui, cabe uma pergunta: entre os R$ 4 bi disponibilizados pelo PAC da Copa – a principal razão da briga de Curitiba pelo Mundial – não cabe orçar uma passarela na região?

Vamos seguir analisando o quadro num todo. É fato que o Atlético está sem opções para mandar seus jogos e que o Governo e a Prefeitura não mexeram um dedo para ajudar na solução, bem como há rompimento entre as diretorias do Trio de Ferro, pelos motivos já conhecidos. Mas há outra conta que pode ser feita: o CAP pagou ao Corinthians-PR R$ 20 mil de aluguel de campo, como está no borderô disponível no link. Como já citado, o Atlético tem cerca de 17 mil sócios. Cada um pagando R$ 70 mensais, enquanto o valor atribuído em borderô é de R$ 10. Claro, o sócio tem acesso a todos os jogos, o valor serve para cobrir as despesas dos ingressos – promocional para sócios – ao longo de um mês. Em fevereiro, por exemplo, o Atlético terá, contando o jogo com o Roma, quatro jogos em casa. A despesa, portanto, será de R$ 40, com R$ 30 ficando para o clube. A tarifação da FPF e da arbitragem, entre outros, entra na conta que o clube tem como prejuízo: R$ 9165,91.

No entanto, arredondando os números, 13.500 sócios estimadamente ficaram de fora do jogo, supondo ainda que estejam com a mensalidade em dia. São R$ 945.000,00 por mês, que certamente não cobrem o pedido público do Coritiba por jogo (R$ 250 mil) mas que possibilitaria um acordo mais justo e rentável entre as partes, sem a necessidade da justiça. Ou ainda na Vila Capanema, talvez não pelos R$ 30 mil oferecidos, talvez não pelos R$ 120 mil pedidos pela diretoria paranista. Resta ainda uma pergunta: apelando para o coração dos associados, o quanto a diretoria do Atlético vê ser necessária uma retomada de negociações? Quem sabe até aproveitando o embalo da nova campanha de marketing do Coxa, “Amo minha terra, torço pelo meu Estado”, que prega união e amor as coisas do Paraná – e pode dar um passo real fora de campo.

Aqui, não verso sobre a disputa judicial entre FPF e Coxa; essa opinião já foi emitida acima e foi a grande mola do desgaste. E a novela segue uma vez que a resposta do STJD, que sairia quinta, ficou pra sexta e passou o final de semana sem aparecer. E quando vier poderá causar até mais problemas do que soluções.

Um deles: entre os jogos de fevereiro no Janguito Malucelli, está o Atletiba de 22/02, uma quarta de cinzas. O estádio não tem iluminação e como antecipou Amilton Stival, vice-presidente da FPF, poderá receber torcida única no jogo.

Quem sofre é você, torcedor. É a família de André Lopes, para qual nenhuma das linhas acima servirá como consolo ou reflexão; é o consumidor, tratado para cima e para baixo como objeto, mas quase sem nenhum direito; é o cidadão, que acredita em um futuro melhor, mas vive sob a sombra do descaso dos governantes – que, não se esqueça, esse ano precisarão muito de você em outubro.

Debate: violência e torcidas

Em um dos especiais de final de ano, o Jogo Aberto Paraná debateu a violência no futebol. A participação das torcidas organizadas nas brigas, o controle – ou descontrole – emocional motivado pelo futebol, a ação e métodos da polícia e a compreensão do tema foram debatidos no programa, que contou com a presença do historiador Luiz Carlos Ribeiro, mestre da UFPR, e do capitão Márcio Maia, da PMPR.

Acompanhe o debate e opine mais abaixo!

Opinião:

A principal arma da democracia contra a violência é o debate de idéias. É a partir da compreensão dos nossos problemas que podemos entender necessidades e resolver as questões. Esse espaço se propõe a isso, diariamente.

Estamos vivendo uma época de debate intenso e acalorado sobre a possibilidade de mando de campo do Atlético no Couto Pereira. Em meio a muitas opiniões apaixonadas, confesso que me surpreendi com a resposta dos leitores do blog sobre o tema do post abaixo: supondo que a FPF requisite via Justiça o Couto para que o Atlético jogue, os Atletibas deveria ter torcida única? O tema, provocativo e diante de uma suposição ainda pendente na justiça, teve maioria de resposta – a meu ver – positiva.

Setenta e dois por cento dos leitores acreditam que a tolerância e a convivência são os melhores caminhos e, por isso, os clássicos não devem ter torcida única; 28% são mais temerosos e acreditam que o controle da violência seria mais fácil com apenas uma torcida no campo.

O exemplo na resposta da enquete tem que ser posto em prática. A tolerância não deve ficar só no discurso: tem que ser exercida. Assim sendo, o debate deve se manter em alto nível, sem acusações ou ofensas, para que cheguemos a um denominador comum, pacífico.

Utopia? Talvez.

#Atletiba348: O que você está fazendo para evitar violência?

Ok, aconteceu o que todos esperávamos: o Atletiba 348 valerá muito. O Atlético joga a vida e ainda conta com Atlético-MG e Bahia para ficar na Série A, vaga que ocupa há 16 anos; o Coritiba só depende de si para ir a sua terceira Libertadores e, de quebra, rebaixar seu grande rival, na casa adversária. Tensão é o que não vai faltar.

Durante a semana, o Jogo Aberto Paraná perguntou: o que você fará para evitar violência no clássico? Conversamos com diretores de torcidas organizadas e a polícia. E, ao menos por ora, há muito mais um jogo de empurra do que ações concretas. Convido-o a ver o vídeo abaixo, refletir e dar o pontapé nas discussões acerca daquele que pode ser o Atletiba mais importante de todos os tempos: