Abrindo o Jogo – Coluna no Jornal Metro Curitiba de 02/05/2012

A rivalidade

O Atlético reencontra o Cruzeiro hoje, na Copa do Brasil, quase cinco meses depois de ser rebaixado na Série A do Brasileiro em disputa direta com os mineiros. Historicamente aliados – inclusive com torcidas organizadas amigas – os dois clubes vivem um momento conturbado na relação. O Furacão foi prejudicado por um erro de arbitragem no jogo entre as equipes em Minas (1-1) quando teve um gol anulado que poderia livrá-lo da queda. Após fracassar por conta própria e perder para o América-MG (que recebeu incentivo financeiro do Cruzeiro e da FMF para vencer por 2-1) ainda viu a vitória no Atletiba 348 (1-0) não adiantar nada, já que o Cruzeiro venceu o clássico mineiro por 6-1 sobre o Galo, até então a melhor defesa do 2º turno. O jogo criou uma aura suspeita, nunca apurada, de que houve manipulação de resultados. A começar pelo fato de os clubes terem o mesmo patrocinador, que detém o direito de mais de 13 jogadores de ambos os times. Na internet, a torcida atleticana lançou campanha pela “honra” do clube nessa eliminatória. O jogo promete.

O procurador

O site oficial do Atlético trouxe a informação de que o procurador do TJD-PR Glaucio Josafat Bordun, que denunciou cinco jogadores do clube por confusão no Atletiba 350, seria sócio do Coritiba, quase que atribuindo a denuncia a esse fato. Ora, caso típico de clubismo exacerbado, como se o restante dos membros do TJD não tivessem também seus clubes do coração. O advogado do Atlético no caso (que consta em súmula feita pelo árbitro Antônio Denival de Moraes), Domingos Moro, é conselheiro vitalício do Coritiba. E aí? A ação dele muda nesse caso? Não. Há que se confiar no caráter e na qualidade profissional das pessoas. O procurador está no papel ao denunciar os jogadores, o que nem de longe significa puni-los: isso caberá aos auditores. Que também têm seus times.

Reforços

Finalistas do Paranaense, Atlético e Coritiba começam a se mexer para as Séries A e B do Brasileiro. O Coxa já apresentou o volante Sérgio Manoel, ex-Mirassol-SP. Também deve trazer outros dois volantes: França, do Noroeste-SP e Chico, do Palmeiras, ex-Atlético. O elenco alviverde tem hoje nada menos que sete volantes; quem sai? Precisava de outros? Já o Atlético deve apresentar nessa semana o atacante Fernandão, ex-Palmeiras, 25 anos, típico jogador de área. E ainda pode trazer o zagueiro Diego Sacoman, que está na Ponte Preta, mas pertence ao Corinthians.

Maratona

A coluna foi finalizada antes da estréia do Paraná na Série Prata, ontem à tarde. O primeiro jogo dos três jogos até domingo. Haja fôlego!

Descaso

A morte do torcedor atleticano André Lopes, na última quarta-feira, atropelado quando saia do Eco-Estádio após a vitória do Atlético (4-0) sobre o Roma, é mais uma demonstração do descaso dos organizadores do futebol local, cada vez menos preocupados com o bem-estar e a segurança do torcedor e muito mais em tapar os buracos que os mesmos se encarregaram de abrir. Infelizmente, esse buraco agora é ocupado por um jovem de 21 anos, que apenas queria acompanhar seu time do coração, mas sofreu com a falta de planejamento de quem liberou e confirmou o evento sem garantir segurança.

A faixa acima é um protesto de moradores e torcedores que perderam um amigo por pura falta de compromisso e planejamento. O conceito do Eco-Estádio é criativo e digno de nota. É feito para comportar a torcida do Corinthians-PR. Até o jogo desta quarta, o recorde de público era o jogo J. Malucelli 3-2 Coritiba, em 2008: 2.173 pessoas. Já um volume substancial de torcedores. O novo recorde foi estabelecido pelo Atlético, tem exatamente 1201 pessoas a mais, mais de 50% do público anterior: 3474. Com 17 mil sócios o rubro-negro dificilmente arrastará menos pessoas a campo do que o volume de quarta-feira. E pelo Facebook, único meio de contato com Mário Celso Petraglia desde que ele assumiu o Atlético, o presidente do clube anunciou:

A média de público do Corinthians-PR em 2011 foi de 383 pessoas, quase 10x menos do que se espera em público médio nos jogos do Atlético desde o anúncio acima. A liberação do estádio feita pensando no público médio do Timãozinho está dentro da normalidade; até mesmo o esquema de segurança, elaborado para um público tão diminuto, está de acordo. Para o Atlético, não. A movimentação é maior, desde o volume de torcedores e ambulantes até os profissionais de imprensa e da organização, mobilizados em maior número dado o apelo popular do Furacão.

E de quem foi a culpa pela morte de André Lopes? Cheguei a ler uma absurda troca de acusações clubísticas, como se Coritiba ou Paraná tivessem relação com a fatalidade – que, aliás, poderia ter acontecido num domingo de sol, com um visitante do Parque Barigui, já que não existe passarela na BR 277 – por não terem chegado a um acerto com o Atlético. Oras!, Coxa e Tricolor estavam quietos em suas casas, um ainda indignado pela maneira com a qual recebeu a imposição (ainda em processo judicial) de empréstimo do Couto Pereira, outro contabilizando o que vale/merece/precisa nas propostas pelo uso da Vila, já descartada. Atribuir culpa a esses clubes no acidente é desrespeitar a família e ignorar que o caso ainda está pendente de solução.

O Atlético, co-organizador do evento (que é da FPF) mostrou que cumpriu sua parte ao apresentar um ofício pedindo segurança a Polícia Rodoviária Federal com dois dias de antecedência:

A Rádio Banda B trouxe a público o documento acima. Aqui, o primeiro sinal de descaso: avisada, a PRF não  percebeu a relevância do evento. Ou, no mínimo, subestimou a importância de coordenar a entrada e a saída de 3,5 mil pessoas em uma rodovia. E o faz de novo: fará um teste hoje num jogo de menor apelo, entre Corinthians-PR x ACP. Pode ter a impressão de que o esquema já é satisfatório.

A Gazeta do Povo estampa que a PRF pode proibir os jogos do Atlético no Eco-Estádio. Diz Anthony Nascimento, inspetor da corporação: “Vamos avaliar se há uma forma para adequar o local para a travessia segura dos torcedores. Se não chegarmos a um consenso, a PRF vai pedir que o evento não seja realizado naquele estádio.” Como você viu acima, esse não será o único jogo do Furacão no Eco-Estádio, segundo o presidente rubro-negro. Após a tragédia (que poderia ter mais de uma vitima, diga-se) a PRF pode mesmo entender que não tem capacidade para fazer a segurança em jogos de grande porte na praça do Timãozinho. E então volta a tona o problema do Atlético: onde o clube jogará enquanto seu estádio está em reforma para atender à Fifa e à cidade na Copa 2014? Minha opinião está nesse link, mas em suma: foram cinco anos para pensar nisso e nada foi feito. Mais descaso.

Fato é que nessa semana o comitê paranaense esteve no Rio, reunido com a Fifa, apresentando as fórmulas de conclusão do estádio. Um nó que passa pela cessão de títulos urbanos de Curitiba (o potencial construtivo) ao Atlético, que os repassará ao Governo do Estado como garantia do financiamento via FDE. Aqui, cabe uma pergunta: entre os R$ 4 bi disponibilizados pelo PAC da Copa – a principal razão da briga de Curitiba pelo Mundial – não cabe orçar uma passarela na região?

Vamos seguir analisando o quadro num todo. É fato que o Atlético está sem opções para mandar seus jogos e que o Governo e a Prefeitura não mexeram um dedo para ajudar na solução, bem como há rompimento entre as diretorias do Trio de Ferro, pelos motivos já conhecidos. Mas há outra conta que pode ser feita: o CAP pagou ao Corinthians-PR R$ 20 mil de aluguel de campo, como está no borderô disponível no link. Como já citado, o Atlético tem cerca de 17 mil sócios. Cada um pagando R$ 70 mensais, enquanto o valor atribuído em borderô é de R$ 10. Claro, o sócio tem acesso a todos os jogos, o valor serve para cobrir as despesas dos ingressos – promocional para sócios – ao longo de um mês. Em fevereiro, por exemplo, o Atlético terá, contando o jogo com o Roma, quatro jogos em casa. A despesa, portanto, será de R$ 40, com R$ 30 ficando para o clube. A tarifação da FPF e da arbitragem, entre outros, entra na conta que o clube tem como prejuízo: R$ 9165,91.

No entanto, arredondando os números, 13.500 sócios estimadamente ficaram de fora do jogo, supondo ainda que estejam com a mensalidade em dia. São R$ 945.000,00 por mês, que certamente não cobrem o pedido público do Coritiba por jogo (R$ 250 mil) mas que possibilitaria um acordo mais justo e rentável entre as partes, sem a necessidade da justiça. Ou ainda na Vila Capanema, talvez não pelos R$ 30 mil oferecidos, talvez não pelos R$ 120 mil pedidos pela diretoria paranista. Resta ainda uma pergunta: apelando para o coração dos associados, o quanto a diretoria do Atlético vê ser necessária uma retomada de negociações? Quem sabe até aproveitando o embalo da nova campanha de marketing do Coxa, “Amo minha terra, torço pelo meu Estado”, que prega união e amor as coisas do Paraná – e pode dar um passo real fora de campo.

Aqui, não verso sobre a disputa judicial entre FPF e Coxa; essa opinião já foi emitida acima e foi a grande mola do desgaste. E a novela segue uma vez que a resposta do STJD, que sairia quinta, ficou pra sexta e passou o final de semana sem aparecer. E quando vier poderá causar até mais problemas do que soluções.

Um deles: entre os jogos de fevereiro no Janguito Malucelli, está o Atletiba de 22/02, uma quarta de cinzas. O estádio não tem iluminação e como antecipou Amilton Stival, vice-presidente da FPF, poderá receber torcida única no jogo.

Quem sofre é você, torcedor. É a família de André Lopes, para qual nenhuma das linhas acima servirá como consolo ou reflexão; é o consumidor, tratado para cima e para baixo como objeto, mas quase sem nenhum direito; é o cidadão, que acredita em um futuro melhor, mas vive sob a sombra do descaso dos governantes – que, não se esqueça, esse ano precisarão muito de você em outubro.

O dono do Atlético

Eleições atleticanas: uma vitória da participação

O dono do Atlético recebeu 4759 votos na eleição 2011. Não, leitor, eu não errei a conta: o dono do Atlético é o sócio.

A eleição atleticana ficará marcada como a primeira realmente democrática em um clube de futebol do Paraná – e vale um capítulo a parte. Os paranistas, que reclamaram da diferença entre o sócio olímpico (o verdadeiro sócio) e o sócio torcedor (que, na realidade, compra um “season ticket”) que o digam. Os atleticanos foram às urnas com mais de 50% de votos dos 7680 possíveis.

Mário Celso Petraglia não é o dono do Atlético, diga-se. Até posa-se como fosse – e hoje está referendado para tanto. Isso não o exime de explicar as denúncias da Gazeta do Povo na última semana. Mas também não tira dele o rótulo de quem está reconduzido ao poder por escolha popular. Ademais, o Atlético é um clube privado e se o conselho aprova contas, sem que haja evasão fiscal ou desvio de verba de interesse público, é um problema do clube.

Uma justiça, entre tantas críticas ao autoritarismo de Petraglia, deve ser feita: foi através de um plano dele que a eleição do dia 15/12 aconteceu. O plano de sócios, iniciado na gestão dele com João Augusto Fleury da Rocha, é que proporcionou essa escolha popular. O outro Atlético campeão brasileiro, o Mineiro, reelegeu Alexandre Kalil com 234 votos. Minas, reduto político nacional, invejou o pleito rubro-negro. Vide Twitter.

Se Petraglia levará o Atlético ao topo ou se o clube naufragará, isso é outro assunto. Fato é que ao retomar o poder, Petraglia faz mais que apenas assumir o controle total das coisas do Furacão (tem o conselho, a gestão e a SPE/Arena, que irá gerir a obra): o dirigente retoma a confiança popular.

Há tempos que o Atlético é visto com desconfiança por seus torcedores. A promessa de ser campeão mundial em 10 anos parece distante. Muito mais próxima está a Série B. A partir da posse, o dono do Atlético passará a cobrar o novo presidente.

Mas até então, os atleticanos podem comemorar um feito raro no futebol brasileiro: prevaleceu a vontade popular. Que é apenas de ver um clube vencedor novamente.