Mercado & Torcidas, parte III: o espaço a se conquistar e consolidar

Com dois dias de atraso em virtude de um problema pessoal, volto a atualizar o blog com a pesquisa divulgada pela Pluri Consultoria durante a semana, com a relação tamanho das torcidas do Brasil x potencial de consumo.

A parte três traz aquilo que é fundamental na renda de um clube e que chegou até a virar bordão em Curitiba: “torcida se mede no estádio”, ou, nesse caso, se mede na força de consumo. E aí os paranaenses dão bons sinais, mas ainda assim estão aquém do que podem conquistar e obter para maior competitividade. Onde se vê crise pelo domínio de outros times na terrinha, se vê oportunidade de crescimento com base no mercado a se conquistar e em um “gap” importante: a fidelidade do torcedor paranaense.

O Atlético é o 13o maior clube do Brasil em potencial de consumo de seus torcedores, atrás apenas dos 12 que estão no eixo RJ-SP-MG-RS. Coladinho no Furacão, em 14o, está o rival Coritiba. Isso analisando somente os números brutos, que estão nas tabelas abaixo:

Potencial de consumo máximo mensal em reais
Potencial de consumo per capta em reais

Considerando o número de paranaenses que não gostam de futebol (mercado a se conquistar) que é de 33% e o aspecto cultural a se reverter – aqueles que residem no Paraná, mas preferem os times de fora, 64,4% dos que torcem –  há uma perspectiva positiva em relação ao crescimento da dupla Atletiba para entrar no “G-10”, suplantando três clubes com potencial parecido mas já mais nacionalizados: Atlético-MG, Botafogo e Fluminense.

Essa leitura permitirá a dupla se consolidar entre os gigantes do País, algo que ainda não é visto com frequência na mídia nacional, mesmo com títulos de Série A conquistados. Mas, mais do que isso, a conquista do mercado interno trará aumento de renda proporcionalmente maior que a de gigantes como Flamengo e Vasco que, de acordo com o estudo, estão no limiar de seu potencial de arrecadação. Explica-se lendo as partes anteriores da pesquisa, logo abaixo aqui no blog: o gargalo dos dois cariocas citados (e outros grandes nacionais) está no fato de a maioria de seus torcedores residirem longe das sedes de seus clubes, o que os impede de frequentar os estádios, diminui o interesse em associação e faz com o que o torcedor seja menos propenso a consumir produtos oficiais.

Além disso, Atlético e Coritiba tem que trabalhar (e comemorar) a fidelidade de suas torcidas, ajudadas pela boa média de renda per capita do Estado do Paraná, que permite com que atleticanos e coxas-brancas consumam mais seus clubes, ajudando na arrecadação. Não a toa ambos estão entre os cinco maiores parques associativos do Brasil, superados pelo gigante São Paulo FC e os gaúchos Inter e Grêmio, que têm características de domínio regional ímpares no Brasil. Ao ampliar seu estádio, o Atlético dará um salto nessa área, já que hoje tem cerca de 17 mil sócios, mantidos mesmo com a impossibilidade de mandar jogos na Arena; já o Coritiba, que consideram um parque associativo de 19 mil adimplentes e mais 6 a 7 mil flutuantes (títulos em vigor com parcelas em atraso) já está próximo de seu gargalo em público no estádio; mas mais do que reformar o Couto Pereira, o Coxa já traça outra estratégia associativa: passou a trabalhar a inclusão, ao invés da exclusão.

Explico: o título associativo a R$ 9,90 não oferece os mesmos benefícios que os títulos acima dos R$ 60, para presença garantida no estádio, mas faz com que o torcedor apaixonado pelo Coxa faça parte da vida do clube, pagando menos. Ponto para o Coritiba, que antenou-se a isso antes.

E o Paraná Clube? Em primeiro lugar, os tricolores devem cuidar da manutenção do seu parque associativo, que está aquém do potencial em pelo menos 100%. O Paraná tem hoje cerca de 6 mil sócios-torcedores (não esquecer que o clube tem característica própria de ter um parque associativo social, para piscinas e outros), o que o deixa com cerca de 2% de sua massa total participando da vida do clube. O 27o. posto em potencial máximo de consumo para os paranistas está de acordo com o tamanho aferido na pesquisa – atrás de clubes como Avaí, Figueirense, Goiás, Náutico e Ceará.

O que está em desacordo com o potencial paranista é o aporte de sua própria gente no clube. Veja a tabela abaixo, que traz ótimas perspectivas ao Paraná, e principalmente, coloca o Coritiba como o 3o maior clube do Brasil em voluntariedade de gastos do seu torcedor:

Apesar do empate em números brutos, o Coxa está considerado abaixo dos catarinenses por ter uma torcida maior que a dupla de Floripa; ainda assim, tem ótimo Índice de Propensão ao Consumo, o que significa dizer que o coxa-branca é fiel e ajuda seu time; não menos orgulhosos devem ficar os atleticanos, 4o lugar no Brasil (muito também em função de ter uma torcida maior que os três acima, de acordo com o estudo) mas que mantém-se longe do gargalo de crescimento. O Paraná Clube também aparece positivamente nesse índice, mostrando que um trabalho sério pode trazer mais do que apenas 2% da massa torcedora para o quadro associativo: o Tricolor é o 8o, a frente de grandes torcidas nem tão participativas, como Atlético-MG, Fluminense e Santos.

Os clubes devem voltar seus olhos a dois pontos: atender a necessidade de seu torcedor, fidelizando-os cada vez mais, com benefícios promocionais aos sócios e boas instalações, para gerar renda e conseguir montar times competitivos. A máquina passará a girar sozinha, pois com melhores resultados em campo, maior a atração de público que, fidelizado, trará mais resultados, até que o looping se complete e aumente. Por outro lado, os paranaenses devem perder a timidez e atuar com um marketing agressivo em outras regiões do estado, buscando novos torcedores. Devem trabalhar melhor a relação com a mídia local, buscar campanhas em especial entre os jovens e tentar formar uma nova geração de torcedores.

A má notícia da primeira parcial da pesquisa é também a ótima notícia das parciais subsequentes: se hoje o Paraná não compra os times locais como deveria, o potencial de crescimento dos clubes locais está entre os maiores do País. Há muito a se fazer, mas há saída para o Trio de Ferro chegar ao topo do futebol nacional.

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