‘Elite branca’ detona a Copa nos EUA

"Americanismo" combate crescimento do futebol nos EUA

O jocoso termo ‘elite branca’ surgiu após as vaias de torcedores presentes à Arena São Paulo destinadas a presidente Dilma Rousseff, mas talvez se aplicasse mais à um pequeno grupo de norte-americanos que resolveu detonar o crescimento exponencial do futebol na terra do Tio Sam. O articulista Kyle Segall é um deles. Seu artigo no SB Nation, um portal que reune blogs e colunas sobre os mais diversos temas esportivos, abre disparando: “Por que você está correto em odiar o futebol“.

Parte da repulsa de norte-americanos se baseia na xenofobia. O soccer, apesar de britânico como os estadunidenses, está atrás do futebol americano, basquete, baseball, hockey, automobismo e boxe na preferência do habitante nato dos EUA, mas muito a frente destes junto a comunidade latina, cada dia mais crescente no país. Além disso, desde 1994, os próprios “norte-americanos natos” passaram a gostar mais do futebol. Não à toa a MLS, campeonato nacional, já tem média de público próxima de 20 mil pessoas e superior a média do Brasileirão. A Seleção Americana – USMNT, na sigla que destaca o “Men” no US National Team – já conseguiu resultados expressivos, como o vice-campeonato na Copa das Confederações 2009 e os 5 títulos continentais da Concacaf. Além disso, também há a preferência das mães nos EUA pelo soccer em detrimento do football. Apelidadas de soccer moms, elas não tem permitido que os filhos pratiquem o futebol americano em virtude do alto número de lesões.

Segall logo dispara no artigo: “Não sou xenófobo, já fui ao Japão, Suíça e até a Lousiana”, numa brincadeirinha com um estado americano colonizado por espanhóis e franceses, para em seguida fazer uma comparação brutal. “Estávamos certos em desprezar o futebol tanto quanto em combater o Nazismo. O futebol é o pior que o mundo externo (sic) pode nos oferecer”, usando um placar de 0-0 como exemplo negativo de acomodação que pode ser passado as crianças – como se o empate sem gols fosse apenas fruto da preguiça em imperícia dos jogadores. Não é, como o mexicano Ochôa deixou bem claro no empate entre Brasil e México. Os “gritos histéricos” de gol também irritam Segall: “parece que encontraram um Leprechaun”, referindo-se a lenda irlandesa do anãozinho que esconde os potes de ouro. Até mesmo a denominação “kit” para o uniforme de jogo irrita o articulista, que faz questão de dizer que isso é coisa de loser, no melhor exemplo de como um gorilão daqueles dos filmes sobre o ensino no 2o grau se comporta. Apesar de acertar em alguns pontos, como a crítica ao desprezo da Fifa aos trabalhadores e à violência gratuita das torcidas organizadas – o tom preconceituoso do artigo tira a chance de qualquer ponderação. “Nós, AMERICANOS, devemos deixar o futebol no lugar dele: como fonte de kickers para a NFL. E deixem que o Brasil trate disso como seu caviar, enquanto descobrem maneiras novas de barulhos irritantes ou botam fogo em um quarteirão que já é uma favela”.

Segall conseguiu levantar a discussão nos meios americanos. O New Republic buscou no argentino Jorge Luis Borges um amparo para rejeitar o futebol: “futebol é estúpido e para idiotas”. O escritor já falecido fala com a propriedade de um nativo de um país dos mais fanáticos pelo esporte; em outro artigo no mesmo site, o título diz tudo: “Por que você tem que odiar a Seleção Americana – ou pelo menos os fãs de futebol“. O MarketWatch conclama: “Ok, americanos, vamos fingir novamente que gostamos de futebol“.

Patrick Stewart, o Professor Xavier dos X-Men, apoia a seleção dos EUA

Mas, na verdade, trata-se de uma minoria barulhenta. Os americanos estão cada vez mais envolvidos com o futebol, à espera de um grande resultado para proclamar sua superioridade também no único esporte em que ainda não dominam.  A ponto do alemão Jurgen Klinsmann, técnico da seleção dos EUA, quase que pedir desculpas ao avisar em entrevista que “Não temos chances de sermos campeões esse ano“. A Time dedicou uma coluna inteira ao futebol, respondendo os críticos de que sim, o americano gosta de futebol – ainda que do jeito dele. A Newsweek tem dedicado boa parte de sua cobertura esportiva ao Mundial – e não só ao USMNT. E a Sports Illustrated, principal revista de esportes dos EUA, também se rendeu ao soccer

É bem verdade que o ator Patrick Stewart, conhecido como o professor Charles Xavier dos X-Men, é inglês de nascença – o que acaba por dar um pouquinho de razão aos detratores do futebol nos EUA. Mas o próprio portal SB Nation é muito mais pró-futebol do que o artigo que rendeu tanta polêmica. Não vai ter jeito: a ‘elite branca’ americana luta, mas vai perder a batalha mental contra o futebol, é questão de tempo. 

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