Abrindo o Jogo – Coluna no Jornal Metro Curitiba de 27/06/2012

O compromisso com o erro

Está tudo errado no futebol do Atlético em 2012 e a classificação na Série B do Brasileiro atesta isso. Por isso, apesar de cair na chacota popular, a troca de comando técnico – ainda não 100% confirmada – de Ricardo Drubscky, recém chegado (dois jogos) não deve ser vista como um erro; é uma correção de rota. Erro é insistir em um técnico inexperiente comandando um elenco falho. Drubscky, até o fechamento dessa coluna ainda no cargo, não tem o perfil necessário que o Furacão precisa para voltar à elite ainda nesse ano. Pode ser útil na base, no Sub-23, time que deverá jogar o Estadual 2013. Mas para a Série B o nome de Jorginho, campeão desta competição no ano passado com a Portuguesa, é sem dúvida o mais adequado ao momento. Atlético ou ninguém deve ter compromisso com o erro e ao se confirmar essa informação, isso deve ser mais valorizado do que a aposta errada. Mas vale lembrar que só a troca de treinador não resolve: reforços são exigidos para o objetivo.

A frase

“O melhor para o torcedor do Atlético é ver o time campeão e de volta a Serie A. O Atlético precisa ser forte e eu to pensando mais no Atlético”, disse Jorginho, dando a entender que comprou o projeto, em entrevista à Rádio CBN Curitiba ontem.

O símbolo

Dinheiro não é tudo, nem mesmo no mercado do futebol. Lúcio Flávio estreou bem e faz bem ao Paraná Clube – que já é melhor que o Atlético na Série B.

O fator casa

Faltam ainda 15 dias para o início da série decisiva da Copa do Brasil entre Coritiba e Palmeiras, mas desde já firmo posição. No campo, confronto equilibrado, com o Coxa vivendo um momento ligeiramente melhor. Fora dele, vantagem ampla paranaense. Não dá para negar que o Couto Pereira pesará na decisão, enquanto o Palmeiras mandará o jogo em um campo sem identificação, Barueri. Esse ano, o Coxa não deixa escapar.

Pobre mercado esportivo

Defende – justamente – fim da censura em alguns casos, mas aplica censura velada em outros; majora em 40% o valor da anuidade, sem realizar reciclagem de profissionais, ciclo de palestras, integração com universidades e outros benefícios para a classe; tornou-se um pedágio inconstitucional para o trabalho, mesmo de quem está referendado por um veículo, tem 10 anos de exercício, formação acadêmica e está autorizado pelo dono do espetáculo; usa de truculência nas ações; libera associação mediante pagamento, se pretendendo reguladora profissional, botando os clubes em maus lençóis; serve como trampolim político. Qual o futuro de quem leva a notícia ao público esportivo com esse cenário em determinada associação? Que interesses são defendidos por quem escreve a notícia que você lê/ouve? Olho aberto, leitor.

As 24h que mudaram o futuro do Atlético

Lopes: um chambão para afastar a crise (Foto: Heuler Andrey)

Saber o que um coxa-branca pensa de Ney Franco é fácil; mas não se surpreenda se atleticanos também forem elogiosos ao técnico que deixou uma marca de caráter e bom trabalho no Paraná. Hoje é cada vez mais raro ver isso. E o episódio da saída de Renato Gaúcho, o não de Carpegiani e a chegada de Antônio Lopes num verdadeiro Furacão de notícias, deixaram novas lições de comportamento no futebol.

É bem verdade que a atual diretoria do Atlético não prima pela organização e pelo planejamento. E que o mercado de técnicos é cruel para os dois lados: Renato e Carpegiani saíram por conta própria, mas Geninho, ídolo campeão brasileiro, foi dispensado com mais de 80% de aproveitamento por opção da direção. Então que não se queixe disso: cada um sabe onde o calo aperta.

Mas a saída de Renato tem mais coisas por trás que apenas uma insatisfação ou um problema pessoal. Conversei com três pessoas da cúpula atleticana e é unânime: o gênio do treinador é um problema sério. Renato Gaúcho é acostumado a paparico, assédio, badalação. Não se trata de viver a noite; é aquilo que muita gente reclama ao vir para Curitiba: difícil fazer amigos, há uma timidez natural dos curitibanos que impede a criação de ídolos. Aqui, nada presta. Bem diferente do Rio, onde Renato é rei.

Ele reclamou disso antes do Atletiba 347, e com razão. Disse que sentiu faltas das provocações dos grandes clássicos, de apostas e uma movimentação sadia. Eu entendo: sob o signo do puritanismo e da reserva moral, os personagens se calam. Nós, do Jogo Aberto Paraná, tentamos movimentar o jogo, mandando as belas Kelly Pedrita e Carol Boa de Bola para trazer bastidores e outros lados do clássico. Acredite: houve quem reclamasse, houve preconceito e falso moralismo. Tudo já superado, mas mostra o tamanho da hipocrisia e mediocridade de alguns do mercado da bola em Curitiba. Renato sentiu falta disso.

Mas não justifica o comportamento recente do treinador, agindo como criança mimada ao dizer que, mesmo com um salário de quase R$ 400 mil nas costas e um clube de 87 anos com um milhão de torcedores em suas mãos, “quem quiser que pegue”. Não, isso não é coisa de homem sério, comprometido. Desculpe, Renato, mas nessa você errou. Como errou ao destratar funcionários do Atlético, coisa que também ouvi nas conversas ao tentar entender a saída, quase ao estilo Lothar Matthaus – deixando a todos atônitos.

Do que está acima para a fritura pública de Madson (que todos sabem, não é santo, mas está correndo em campo, independente do que possa fazer fora dele), sem muitas explicações, foi um pulo. E, após soltar um “desse jeito eu não consigo trabalhar” num bate-boca por reforços com a diretoria de futebol, Renato somou as pontas e decidiu partir. Talvez na melhor hora, pois há tempo do Atlético se recuperar. E, para ele, sorte no futuro, que pode ser o Vasco, com Libertadores e no seio do seu amado Rio de Janeiro.

E então o Atlético foi atrás de Carpegiani. Sim, aquele que havia trocado o Rubro-Negro pelo São Paulo FC, depois de sair do ostracismo para brigar por uma vaga na Libertadores, abandonando o barco no meio do projeto. Não o condeno. Ele é profissional e tem que ir onde pagar melhor. Mas no mar de erros do Furacão, a volta dele, antítese da necessidade de compromisso que o clube precisa, poderia ser ainda pior.

Carpegiani chegou a ser confirmado por colegas mais afoitos. Houve quem o anunciasse como treinador. Entre os quase 50 telefonemas que dei ontem atrás da informação correta, pintou a dúvida: a diretoria queria o ex-técnico, acreditando ser ele, por conhecer o grupo, o único capaz de sair do buraco. Sabendo da crise atleticana, da restrição de 90 dias de contrato imposta pelo presidente Marcos Malucelli, e de que o Atlético arcava com quase 400 mil de salários para Renato, Carpegiani pediu 500 mil reais por mês até dezembro. Um milhão e meio de reais até o final do ano, com eventuais prêmios. Mais do que a patrocinadora-máster do clube paga anualmente.

Houve discussão entre os diretores, das 18h às 22h30, por telefone e presencialmente. E decidiu-se não pagar isso a Carpegiani, apostando num plano B. E aí surgiu Antônio Lopes, o mesmo que deixou o clube em 2010 após um empate com o Coxa na Baixada (1-1), em meio a problemas com Leandro Niehues e Ocimar Bolicenho. Entre 2000, 2005, 2007 e 2010, Lopes teve altos e baixos na Arena, com o vice da Libertadores, uma oitavas-de-final de Brasileiro e a fuga do rebaixamento em 2009 no currículo.

Mas esse não é o principal trunfo de Lopes nessa nova chegada. Ao telefonar para Lopes, o Atlético encontrou um homem solícito e disposto, que não quis discutir dinheiro e aceitou ajudar o clube pelo qual manifestou carinho (e agora, divide seu maior número de trabalhos com o Vasco). Disse-me, em entrevista ao Jogo Aberto Paraná: “Eu tenho carinho pelo Atlético e acho que posso colaborar. A situação é difícil, precisamos de 50% de aproveitamento. Mas o elenco é bom e no domingo vou para a beira do campo”.

Por essas e outras, ainda que por linhas tortas, o Atlético acertou ao trazer rápido alguém comprometido com a situação do clube. Se dará certo, não se sabe; afinal, a diretoria cansou de brincar com a sorte que, mais cedo ou mais tarde, falhará. Mas entre homens como Ney Franco e Antônio Lopes, sempre vale mais o compromisso que, no momento, é o que o Atlético mais precisa.

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