Atlético recria a Hungria de Puskás

Puskas parece o Walter, mas era melhor fisicamente que a imensa maioria

O ano era 1952. A Hungria já tinha alguma tradição, vice-campeã do Mundo em 1938 ao perder para a Itália. O futebol era recanto de bôemios, marginalizado pela sociedade, embora curiosamente já arrastasse multidões para os estádios. Começando pelo Honved e chegando até a seleção, os húngaros fizeram algo que até então ninguém havia pensado: se prepararam fisicamente. O jogadores tornaram-se atletas. A Hungria ganhou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Helsink, na Finlândia e em 52 jogos internacionais até 1956, perdeu apenas um. Justamente a final da Copa de 1954, para a Alemanha, a quem na primeira fase havia enfiado 8-3. Coisas do futebol.

O ano é 2013. Em decisão polêmica, mezzo técnica, mezzo política, o Atlético retira o time principal do Estadual e leva para uma pré-temporada na Espanha. Vence um torneio curto, contra times do Leste Europeu, enquanto o time Sub-23 apanha no Paranaense. Volta e fica no aguardo, vendo a reação do Sub-23, que, dada a estrutura do clube, a precariedade dos adversários e três ou quatro talentos, chega a decisão contra o forte Coritiba de Alex. O clube perde, mas o projeto estava 50% pronto, como constatado aqui. Os outros 50% dependiam do sucesso do elenco profissional, que patinava em amistosos contra reservas de Cruzeiro, Figueirense, Goiás e Atlético-GO.

A pré-temporada durou seis longos meses. O Brasileiro começa e, sem ritmo, o Atlético entrega pontos para Fluminense e Vitória, mesmo jogando melhor, e cede empates para Flamengo e Cruzeiro, depois de abrir 2-0. Questionado, o técnico Ricardo Drubscky é substituído por Vagner Mancini, mais experiente e mais próximo dos jogadores. Depois da Copa das Confederações, o Atlético sai da 19a posição para o 4o lugar. Derruba uma invencibilidade histórica do xará mineiro no Horto, bate no líder Botafogo, impõe 3-0 ao Palmeiras, líder isolado na Série B. Tudo com um time mediano, cujo talento máximo é Paulo Baier, 38 anos. Qual o segredo?

As pernas.

Não são apenas um ou dois lances que demonstram isso nos jogos do Atlético. Especialmente no 2o tempo dos jogos, o Furacão passa a sobrar em campo. Jogadores rápidos, como Léo, Manoel e Marcelo, se tornam ainda mais rápidos que os demais; o zagueiro do Atlético nunca chega atrasado nas bolas. Não leva cartões nem permite muitos lances de perigo. Os atacantes chegam quase na frente dos adversários. Um clube com orçamento menor que outros 12 clubes na Série A vai cumprindo seu objetivo. Ainda tem chão, tanto na Copa quanto no Brasileirão. Falar em título pode ser utopia para alguns, mas, com um campeonato tão aberto, mesmo com elenco modesto, o Furacão se permite sonhar. Ao menos com uma vaga na Libertadores.

Dos titulares – 12, se incluído Ederson, o reserva de luxo artilheiro do Brasileirão – apenas o volante Bruno Silva e o atacante Dellatorre não estiveram na pré-temporada. Zezinho é o único que disputou o Estadual. Destaques como Douglas Coutinho, Deivid e outros ainda desfalcam o elenco. E ainda há os misteriosos Maranhão, meia que veio do México, e Frán Mérida, formado no Barcelona, que não deu as caras nesse time de 2013.

Enquanto todos jogavam os Estaduais, o Atlético inventou seu calendário. Aguentou a festa do rival Coritiba tetracampeão e agora parece estar colhendo os frutos. O Corinthians, campeão do Mundo, teve de antecipar as férias e já fez 28 jogos a mais que o Furacão; o líder Cruzeiro, 15 a mais; o Botafogo, 20 a mais. O que menos jogou na Série A foi o Vasco, 12 partidas a mais que o Atlético, e isso porque foi eliminado precocemente do Cariocão.

Todas as equipes vão perder jogadores por lesão e cartões; todas vão sentir as pernas em algum momento. São Paulo e Santos chegarão ao absurdo de fazer quatro partidas em menos de 10 dias, para cumprir a tabela em função de viagens ao exterior – outro desgaste. O Atlético estará nessa, mas com menos desgaste.

Para confirmar a vitória da ideia, o Furacão precisa ser ao menos semifinalista da Copa do Brasil e beliscar uma vaga na Libertadores. Se não conseguir, já deixará uma pulga na orelha de todos os clubes. Se conseguir isso ou mais – um título, por que não? – poderá mudar a cara do futebol brasileiro.

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Repensando o futebol brasileiro

Esse post foi publicado no antigo blog, no portal Bem Paraná, em dezembro de 2012. Reedito aqui para levantar a discussão nacionalmente, através dos seus comentários. Obrigado a todos e bem-vindos a nova fase do blog!

Final de ano, perspectivas de um novo início em 2013. No futebol, é hora de por em prática o planejamento da nova temporada. Contratações, dispensas, pré-temporada, objetivos. Cada clube com a sua necessidade, conforme a disputa que tem pela frente. Essas são as boas notícias.

A má: dificilmente seu clube, se não for do grupo dos seis que mais recebem nas cotas de TV, principal renda dos clubes atualmente, será campeão. Salvo se tiver um mecenas por trás, caso do atual campeão Fluminense, amparado fortemente pela Unimed. E nesse balaio incluo gaúchos e mineiros. Duvida? Então veja a figura abaixo:

Essa é a atual distribuição de renda do futebol brasileiro, com base no repasse do principal apoiador, a Rede Globo de Televisão, detentora dos direitos de transmissão do Brasileirão. A imagem detalha o recebimento dos clubes do extinto Clube dos 13 (que abrangia 20 clubes) mais o Paraná Clube, simbolizando todos aqueles que estão no patamar do Tricolor. As cores dividem os grupos cotistas, que são de 5 tamanhos (alguns dos valores estão renegociados). Do amarelo ao vermelho, o que mais recebe ao que menos recebe. Todos dentro de um mesmo campeonato.

É preciso dizer que a Globo faz um bem enorme ao futebol nacional. A evolução nos contratos de TV nos últimos anos começou a projetar o Campeonato Brasileiro como um dos mais rentáveis do Mundo. Ainda está longe da Bundesliga (Alemanha) e da Premier League (Inglaterra), mas é um caminho. Não vou entrar aqui na discussão da exclusividade de transmissão, discussão do mercado de comunicação – convenhamos, o know-how da Globo é o melhor, ainda que (até mesmo pra mim, como jornalista) a diversificação de emissoras na cobertura pudesse ser benéfica. A discussão aqui é outra.

A própria televisão já ensaiou – e essa discussão ficou para trás, mas segue em voga com os torcedores – um pedido para que o Brasileirão volte ao mata-mata. E isso porque se ressente de mais emoção na competição. É um engano: se não há emoção no Brasileirão dos últimos anos, é porque a disparidade de arrecadação entre os clubes é enorme. É impossível que o Náutico, melhor clube fora do rol dos maiores recebedores (abaixo até mesmo de Atlético e Coritiba) supere 19 equipes em um torneio de regularidade e seja campeão.

Repare novamente na figura acima. Em amarelo, estão as posições de destaque; em azul, posições confortáveis. Em laranja, posições compatíveis e/ou aceitáveis. Em vermelho, posições ruins – e ainda pintou um preto na tabela. Repare que na divisão do Botafogo para o Atlético – linha que divide os tradicionais 12 dos demais – um lado é quase todo vermelho, outro quase todo amarelo. Não coincidentemente, quem mais recebe contra quem menos recebe. Em tempo: Botafogo e Atlético-MG, com todo o respeito que as belas histórias merecem, não são maiores que Atlético, Coritiba, Sport e Bahia. O novo ranking da CBF atesta isso.

O Corinthians, que iniciou como centro dessa discussão na coluna desta quarta no Metro Curitiba, vale quanto pesa. A torcida corintiana, bem como a do Flamengo, são as maiores do Brasil. Eles atraem mais interesse, mais público, vendem mais PPV, merecem ganhar mais. E assim sucessivamente. A ressalva é que essa não deve ser a única maneira de se distribuir o bolo.

Tenho tido a oportunidade de transmitir jogos do Campeonato Alemão pelo Terra (fica o convite, é ao vivo e gratuito) e, a despeito da liderança isolada do Bayern, a competição toda é mais acirrada. Aquele equilíbrio que o brasileiro gosta de propagar, hoje acontece muito mais na Alemanha. Se o ano do Bayern é excepcional, o atual bicampeão é o Borussia Dortmund e Schalke 04, Bayer Leverkusen, Eintracht Frankfurt e Sttutgart se permitem sonhar com a taça ou ao menos uma vaga na Liga dos Campeões – coisa que, no Brasil, tem se restringido a poucos pela Libertadores, obviamente.

Leia também:

– Paraná Clube entra na Bovespa

– Na Alemanha, rádio compra direitos de transmissão

– Artigo: quem perde na briga do Atlético com a imprensa?

A culpa passa longe de quem paga. É, na verdade, de quem vende: os clubes. Os que estão no topo, obviamente, não se incomodam com a situação. Muitas vezes estão amarrados a dívidas e antecipam receitas, se comprometendo mais e mais. Mesmo no seleto grupo dos 12, já vemos clubes sentindo os efeitos: as campanhas do Botafogo são apenas regulares e o Palmeiras, não fosse a conquista da Copa do Brasil (outro estilo de competição) teria uma avaliação recente desastrosa. No entanto, todos são complacentes com a situação. O seu clube também. Os efeitos são sentidos até mesmo na Seleção Brasileira, já não tão querida pelos torcedores em boa parte do Brasil pela falta de identidade e que, com o desamparo aos clubes menores, passará a ter menos fontes para seus craques.

Ok, até aqui, nenhuma novidade (e obrigado pela paciência na leitura). E qual seria uma solução? O exemplo mais democrático está na Inglaterra, liga mais rentável do Mundo, vendida em todo o Planeta. A arrecadação de TV é dividida de três maneiras: 70% igualmente entre os clubes; 15%, pelo retorno de audiência; outros 15%, pela classificação dos clubes no ano anterior. Além disso, os clubes que sobem da segunda divisão para a primeira recebem um auxílio especial na primeira temporada. A intenção? Deixar o campeonato competitivo. Claro, o poderio do Manchester United e dos dólares russos do Chelsea e árabes do Manchester City tem restringido a disputa a esses três. Mas aí é atrativo individual de cada um que, como receita de sócios e camisa, passa pelo mérito de cada um.

Para esse tratado, fiz um estudo sobre como seria a distribuição de renda no Brasil usando o modelo inglês. Os cálculos não são precisos (matemática nunca foi o meu forte) mas a distorção é pequena – algum leitor mais hábil com números pode ficar a vontade para me corrigir, especialmente na divisão por audiência. A base do cálculo foi a tabela da Premier League que está nesse link. Nela, os últimos lugares da tabela foram ocupados pelos clubes que subiram para a Série A em 2012. Observe:

A diferença entre o que receberia o Corinthians para o que receberia o Vitória, do maior para o menor valor, seria de apenas 21 milhões. O Corinthians continuaria recebendo mais, justamente, e continuaria forte, aproveitando-se ainda dos valores que recebe pela camisa, sócios, etc. Mas o campeonato poderia ser mais equilibrado. A distância para o Vitória seria, digamos, mais honesta. Afinal, o que se espera de uma disputa é que ela seja equilibrada, o que gera interesse. Não à toa, as ligas norte-americanas de basquete e futebol americano são as mais lucrativas do planeta entre todos os esportes. O segredo? O time com pior desempenho no ano anterior é o primeiro a escolher o melhor calouro no draft. Equilíbrio, senhores.

Ainda há mais um fator relevante a se discutir: as dívidas dos clubes com o Governo. Na Europa, a punição é severa. Os tradicionais Napoli e Fiorentina faliram e tiveram de começar em divisões inferiores italianas – o Napoli se recuperou a ponto de comprar o CNPJ (ou como for na Itália) antigo. O Rangers, um dos dois gigantes escoceses, vive esse drama agora. Mesmo sendo um Flamengo da Escócia, foi à falência recomeçou na 4a divisão. Sem perdão. Aproveitei o estudo para fazer um comparativo entre a principal receita dos clubes e a dívida pública, divulgada pela Revista Galileu. O Sport foi o único clube do qual não encontrei dados, mesmo em outras fontes. As cores estão divididas em: vermelho para dívidas com duas vezes ou mais da principal receita, laranja para dívidas pouco maiores ou ainda dentro de um limite suportavel, azul para as dívidas pequenas e amarelo para a única exceção, que segundo a reportagem tem até valores a receber:

A última notícia é de que Governo e CBF estudam punir os clubes devedores. Seria um esvaziamento e tanto na Série A – mas é aguardar pra ver. Diante da ideia de se modernizar o futebol nacional, seria um passo e tanto.

Os acessos do Atlético

Se derrotar o Criciúma nesse sábado e São Caetano ou Vitória não vencerem, o Atlético conseguirá pela terceira vez na história um acesso da Série B para a A.

O Furacão disputou a segundona em cinco oportunidades, mas até 1988 o Campeonato Brasileiro era feito à base de convites conforme o desempenho nos campeonatos estaduais. Por isso não há como mensurar a participação em 1980 e em 1982, temporada esta em que disputou jogos na “B” e na “A”. Depois do rompimento do Clube dos 13 com a CBF e a divisão entre Brasileirão e Copa União em 1987, os clubes conversaram e, viradas de mesa a parte, o campeonato nacional passou a ter um sistema de acesso e descenso.

Em 1990, depois de ter sido rebaixado em 1989 pela única vez em campo (até 2011), o Atlético chegou à decisão da Série B contra o Sport Recife. O time campeão estadual tinha Marolla, Odemílson, Valdir e Dirceu, entre outros. Kita (foto acima), destaque em 1986 pela Inter de Limeira campeã paulista, chegou para reforçar o elenco que superou o Operário de Ponta Grossa, a Catuense e o Criciúma na fase semifinal.

A vaga na elite veio coincidentemente com uma vitória sobre o Tigre, 1-0, no Pinheirão, na penúltima rodada.Na decisão, dois empates com o Sport: 1-1 em Curitiba, com uma falha de Toinho no gol pernambucano e 0-0 no Recife. O vice-campeonato à época foi lamentado pelo atleticanos, que viam o Coritiba ser o único campeão brasileiro no Paraná até então.

Diário de Pernambuco destaca o título do Sport sobre o Atlético em 1990

O Atlético seguiria na elite brasileira até 1993, quando a CBF, numa manobra para salvar o Grêmio, então na segunda divisão, “subiu” 12 equipes da segunda para a primeira divisão. Atlético e Goiás, salvos pela classificação na A em 1992, e Paraná e Vitória, campeão e vice na B-92, foram jogados para um grupo secundário dentro da elite, com 16 clubes, dos quais 8 seriam rebaixados. O Grêmio, claro, mesmo sem critério técnico, foi colocado no grupo dos blindados. O Atlético-MG, lanterna no geral em 93, também, evitando a queda. O Paraná se salvou, o Coritiba não, tampouco o Furacão.

Por isso, o Atlético disputou a Segundona em 94, quando caiu na semifinal para o Juventude, e em 1995.

O time campeão de 1995, com Paulo Rink, Oséas, Ricardo Pinto e outros, comandado por Pepe, subiu fora de casa

Naquela temporada o Atlético tinha um jejum de 5 anos sem título estadual e estava em situação financeira delicada. A velha Baixada tinha se tornado a “Baixada do Farinhaque”, com uma reforma que tirou o Furacão do Pinheirão. E, numa páscoa inesquecível para o futebol paranaense, o Coritiba de Brandão fez 5-1 no Atlético e gerou uma revolução no Rubro-Negro. O time iniciou a Série B mal, perdendo em Goiatuba por 2-0 para o time local. Mas foi se encontrando até ficar com o título, após vencer o Central de Caruaru por 4-1 na Baixada e contar com um tropeço do Coxa, que ficaria como campeão se vencesse em Mogi-Mirim (1-1). Ambos subiram. O acesso atleticano também foi em Mogi-Mirim, com uma vitória por 1-0, na primeira rodada do returno do quadrangular final.

Alerta Vermelho

Dezenove jogos já são mais que suficiente para avaliar uma equipe. Portanto, apesar de oscilar bons e maus momentos, dá pra dizer: o alerta vermelho está ligado no Coritiba.

O Coritiba me engana à toda hora. Foi campeão estadual com méritos, apesar dos questionamentos na tumultuada arbitragem local. Fez o que devia na hora certa, afinal. Chegou a uma decisão de Copa do Brasil pela segunda vez seguida, e contra um adversário em que era favorito, perdeu. Mas conseguiu um feito histórico e, pra quem atribui isso à tabela, lembro que São Paulo, Botafogo e Vitória tiveram a mesma oportunidade. No Brasileiro, faz bons jogos (Náutico, Vasco e Cruzeiro) e jogos horríveis (Botafogo, Sport e Figueirense); desperdiçou nova Sul-Americana, mesmo jogando bem, se entregando ao Grêmio no minuto final. Não nos permite avaliar se é bom ou ruim. Apenas de que é irregular demais.

Mas o alerta tem base numérica. Essa é a classificação final do primeiro turno em 2011:

O primeiro time fora da ZR era o Bahia, com 20; o primeiro a cair, era o Atlético, com 18. Dos três da ZR em 2011, só o Atlético-MG escapou. O Coxa, em 2012, tem 19 pontos:

Está com uma folga maior (3 pontos) do que o Bahia tinha o ano passado – e tem até o próprio Bahia entre a ZR – mas tem uma pontuação preocupante após 19 rodadas. E pior do que isso: tem abaixo de si um gigante do futebol brasileiro, o Palmeiras e um time que está jogando bem, apesar da fase, o Atlético-GO. Além disso, perdeu para o Sport em casa e jogará no Recife; e perdeu também para o Figueirense. Também em casa, perdeu pontos para o Palmeiras.

Preocupa a instabilidade no Coxa. Enquanto a análise geral, em especial da torcida, é por um atacante, o problema na verdade é outro: a defesa. O ataque alviverde é o segundo melhor do Brasileirão, ao lado do Fluminense (31 gols) atrás só do Atlético-MG, 33. A defesa é a pior entre os 20 clubes: 37 gols sofridos.

Ou seja: há produção ofensiva, mas atrás, uma peneira. E com Emerson fora, o time perdeu o melhor jogador do setor. Só que culpar Pereira, Lucas Mendes ou Escudero é ser simplista: o problema mesmo está no meio.

Sem Leandro Donizete, o Coxa perdeu pegada. Era um perdigueiro em campo. Sem Léo Gago, perdeu qualidade na saída de bola. E a reposição não foi a altura. Donizete está no líder Galo, Gago no 3o colocado Grêmio, as duas melhores defesas da competição.

O Brasileirão é cruel. Não tem jogo fácil e a cada ano que passa, a tabela de classificação parece mais uma lista do “holerite” dos clubes, com os 12 que melhor recebem tendo entre si apenas o “inconveniente” Náutico. O trauma recente dos rebaixamentos (2005/09) está guardado no armário, no fundo de uma gaveta, apagado pelo tri-paranaense e as duas finais da Copa do Brasil.  O orgulho de ser o único paranaense na elite não pode ser confundido com suficiência técnica: o Coxa precisa acertar a defesa e saber que o ano, especialmente depois da queda na Sul-Americana, é brigar pra não cair. O alerta está ligado.

Dez razões para o fracasso do Atlético na Série B 2012

Títulos proféticos são um chamariz para a condenação de qualquer jornalista. É querer adivinhar o futuro, o que no futebol pode ser muito cruel. No entanto, dezembro é o mês do “dez mais”: os craques do ano, os gols mais bonitos, as razões do sucesso e, claro, as do fracasso.

Passado o ano, é mais fácil avaliar. Nem sempre é mais aproveitável – afinal, a obra já está pronta.

É por isso, com base em 6 meses de atividade profissional no futebol brasileiro, que me coloco na mira da torcida ao antecipar 10 razões para o fracasso atleticano na briga do acesso pela Série A em 2013 – em tempo ainda de serem evitados. Se não forem, prometo: repito a postagem ao final da Série B, com direito a contestações postadas.

1) Home sweet home

Jogar em casa, um luxo em 2012 (foto: Geraldo Bubniak)

Qualquer time tem como principal arma o fator campo. O Atlético sempre se vangloriou do “Caldeirão”, o alçapão em que a Arena se tornou nos momentos decisivos.

Em 2012, por conta da obra para 2014, o Atlético perdeu essa força. Não foi uma ou duas vezes em que os próprios jogadores reclamaram ter de jogar em um campo diferente, sem identificação. O Atlético já transitou por Germano Kruger, Eco-Estádio, Vila Capanema e agora milita no Caranguejão, em Paranaguá.

Não conhecer (no sentido de saber bem quais são) as dimensões do gramado, vestiário, ter ao lado a presença da torcida, saber que aquele é o seu local de trabalho. Somadas, as razões são muitas para a inibição de um bom desempenho, treinando o que treinar. Jogar contra o Atlético hoje não assusta mais que o normal: é uma partida de futebol profissional em um campo homologado. Falta o fator casa.

E, diga-se, a discussão é longa e não vale nesse post, tamanha novela. Mas, olhando pelo prisma atleticano, algo deveria ter sido pensado antes.

2) Ambição – tem que querer

"Yo?"

“Nunca nos pediram a conquista (sobre Copa do Brasil e Série B). A prioridade é o acesso”, disse Juan Ramón Carrasco em sua despedida do Atlético.

Querer ganhar o título é o passo número um para chegar lá. É a história do cara que reclama que nunca ganhou na mega-sena – mas não joga. A falta de ambição nas cobranças sobre Juan Carrasco e a conquista da Série B são sintomáticas.

Ao dizer o que disse, o ex-treinador atleticano deixou claro que o bicampeonato da Segundona não é prioridade no Furacão.  Aceitável, na última rodada; nunca na primeira. Pego o Coritiba como exemplo.

Campeão nacional em 1985, nos anos 2000, rebaixado e campeão em 2007, amargou uma nova queda em 2009. Acompanhei cada passo daquela conquista. A título de galhofa, no início da competição, atleticanos zombavam coxas sobre o “bicampeonato”. Certa feita, assunto corrente na cidade, conversei com o então vice-presidente Vilson Ribeiro sobre o tema. “O Coritiba entra em qualquer campeonato para ser campeão. Não queríamos estar na Série B, mas já que estamos, vamos atrás do título.”

O grau de exigência mínimo deve ser esse para qualquer clube que se pretende grande. Foi assim com Palmeiras, Atlético-MG, Corinthians, Vasco e com o já citado Coritiba. Mas, pela declaração de JR Carrasco e principalmente pelos investimentos feitos pela diretoria atleticana, não parece ser o mesmo no Rubro-Negro.

3) Liderança e bons exemplos

A história de David Trézéguet no River Plate pode ser um exemplo para qualquer clube grande em baixa. Todos que se encaixam nessa categoria têm ídolos, exemplos, gente que pode simbolizar uma retomada. Alguém que, em campo, seja o símbolo de algo que é uma verdadeira guerra – afinal, presume-se que o verdadeiro habitat desse padrão de clube não seja uma divisão inferior.

Ao Atlético, falta isso.

Paulo Baier, o ídolo de um Atlético carente (tem brio e caráter, mas vivencia uma era sem conquistas) se apresenta para o papel, mas carrega consigo o peso do parênteses anterior e também da idade. O time não tem uma liderança em campo – convenhamos, não é de hoje.

Um Trézéguet que mostre “Eu jogo aqui porque é grande”, não importa a divisão. Algo como Ney Franco fez pelo Coritiba 2010 ou Fernando Prass no Vasco 2009 ou mesmo Chicão, líder do elenco do Corinthians 2008. Um símbolo, enfim.

4) Tranquilidade & ambiente

Sitting, waiting, wishing (Foto: Allan Costa Pinto, PRON)

Muitos podem não enxergar, mas o que acontece com Morro Garcia é nocivo ao Atlético. Contratação mais cara da história do clube, Morro não pode jogar por ordem da diretoria, que não aceita a negociação feita pela gestão anterior.

Ao mesmo tempo, outro jogador qualificado, Joffre Guerrón, também está na geladeira. No clube, pelo que apurei, alega-se que o atleta não quer ficar; o mesmo já deu demonstrações disso, mas está aí à disposição. Além disso, a pressão da queda (o elenco quase não foi reformulado), o peso sobre os da base e a insistente improvisação em vários setores, tanto Carrasco quanto com Drubscky, deixam todos em alerta.

O que importa, na verdade, é algo que qualquer um pode transportar para o seu ambiente de trabalho. Você chega para um dia de trabalho, um colega está impedido de exercer a profissão, outro está em espera, outros estão em funções diversas as que estão acostumados ou deveriam exercer.

Aí tem cobrança, pressão, pouca ou nenhuma badalação – não se esqueça que pecado ou não, vaidade é um combustível. Bingo!, está criado um ambiente pesado.

5) Prioridades

Liguera, Fernandão, Weverton, Renan Teixeira, Zezinho e Gabriel Marques. Ainda pode se considerar nessa lista Rafael Schimitz e o lateral Adriano.

Esses foram os reforços de um Atlético rebaixado para a tentativa do acesso. Zezinho demonstrou potencial, Liguera (machucado um bom tempo), Fernandão e Weverton carecem de melhor avaliação. Marques é dedicado. Nenhum convincente.

Juan Ramón Carrasco uma aposta; Ricardo Drubscky, outra. Mal avaliada, pois defende como teórico que um treinador deve estar sempre à beira do campo, mas foi contratado com seis jogos de suspensão.

O departamento de futebol ainda parece muito teórico. Mas já se passaram seis meses. Claro que a cúpula que mantém o sistema é visada (ler abaixo), mas a responsabilidade é funcional.

6) Estabilidade política

Você, atleticano que lê esse texto (coxas e paranistas se divertindo não contam), responda mentalmente, sem pestanejar: é malucellista ou petraglista?

Desculpe, pensei que você fosse atleticano.

Fato é que o Atlético dividiu-se em setores políticos. Em 2011, o fracasso era sinônimo de alegria para muitos; em 2012, a resposta vem à galope. Resultado? Um clube desunido, fragmentado. Na riqueza (porque quem viu o Atlético 80’s sabe) o clube vive sua pior fase. Tipo divisão de herança de rico.

Enquanto isso, o navio vai rumo ao iceberg.

7) (Falta de) Mobilização

Letargia. Nenhuma palavra resume melhor a torcida atleticana. O Atlético não mobiliza mais ninguém. O golpe foi forte. É verdade que os tópicos acima só deixam a coisa ainda pior. Mas, enfim, qual é o papel do torcedor?

Oras!, torcedor, torce. Na 1a ou na 10a divisão. Sendo assim, tá na cara que falta ânimo aos atleticanos, que nem cobrar mais cobram. Basicamente observam os eventos, quase que impávidos. Não, não é intenção do colunista promover a desordem. Até porque, cá entre nós, mobilizar-se é um problema do Atlético e dos seus.

Mas o estado de “ah, é assim mesmo” tomou conta. Ovo ou galinha?

8) Sucesso alheio (ou inveja)

Não se pode negar que a má fase do Atlético é concordante com a boa fase do Coritiba. E não falo da final da Copa do Brasil de 2012, mas sim das duas, do tricampeonato e da diferença na condução do futebol que um clube abriu de outro.

Desde a declaração do ex-presidente Marcos Malucelli de que o “Coritiba está 10 anos atrás do Atlético”, a “distância” diminui a cada dia. Para o contínuo da contabilidade, não importa o melhor CT, o melhor estádio; o time do colega está surrando o dele. Quem paga a aposta – e o mico –  é ele (e isso, amigos, é o que move o futebol. Rivalidade sadia e bom humor). Mas não é mole pra quem tá por baixo.

Então, se a derrota para o Boa já é ruim, imagine se o Coxa vencer o São Paulo e…, ops. Entendeu, né?

Assim sendo, o que o Atlético tem que fazer não é evitar essa pressão, porque é impossível.

É conviver com ela e fazer o seu melhor.

Oras, não foi o que o Coxa, campeão paranaense em 2003/05, fez enquanto o Atlético brilhava? Então volte ao tópico “Ambição.”

9) Qualidade

Pé de jabuticaba dá jabuticaba. Ponto.

Você pode passar sementes de maracujá na árvore, usar o melhor adubo, conversar, abraçar, regar todos os dias. Fazer simpatias, pular num pé só, vestir-se de maracujá.

Pé de jabuticaba não dará maracujá.

Um elenco que demonstrou falhas desde janeiro, perdendo pontos para o rebaixado Roma, não vai conseguir o acesso. Insistir nisso é incompetência, cegueira ou má intenção.

10) Investimento

Em 2011, Mário Celso Petraglia divulgou a lista de salários do então elenco atleticano. Condenável abrir o sigilo de cada atleta, ainda que cada salário ali pudesse ser um acinte. R$ 50 mil para jogar mau futebol, quando tem cientista que não ganha isso para pesquisar a cura do câncer… enfim. É a regra do mercado.

De todo modo, MCP não pode esquecer algo: em 2012, comanda o clube de maior orçamento da Série B. Dos 12 clubes acima do Atlético na classificação nesse momento (23/06/12), quantos tem folha de pagamento maior que o rubro-negro?

Não se deve violar a intimidade financeira dos jogadores, mas acho que a resposta pode ser constrangedora.

Abrindo o Jogo – Coluna no Jornal Metro Curitiba de 16/05/2012

Ainda o estádio
“O Atlético transferiu pra CBF a responsabilidade. A Copa do Mundo é da CBF, nossas obras são para a Copa, ela que indique o estádio. Jogaremos onde a CBF indicar, até na China.” Esse é Mário Celso Petraglia, presidente do Atlético, em entrevista ao jornalista Oswaldo Eustáquio, da TVCI canal 14, sobre o local onde o Atlético deve mandar os jogos na Série B do Brasileiro. O prazo para indicação do local ao menos do primeiro jogo, dia 5 de junho, acaba hoje. Couto Pereira, Vila Capanema e até o Caranguejão, em Paranaguá, estão na lista. O presidente do Coritiba, Vilson Ribeiro de Andrade, esteve na CBF ontem, depois de dar novas entrevistas negando a intenção de alugar o estádio. A diretoria do Paraná, por sua vez, também já afirmou que não quer alugar mais a Vila Capanema. Todos têm sua dose de razão e pecou-se pela falta de diálogo. Seja qual for a decisão da CBF, alguém sairá desagradado.

Copa do Brasil
Em campo, por ora ainda na Vila Capanema, o Atlético recebe o Palmeiras. Jogo bom para esquecer o fracasso no Estadual e tentar chegar pela primeira vez às semifinais da Copa do Brasil. Confronto muito igual. Palmeiras conta com Marcos Assunção, Valdívia e o recém-chegado Mazinho como armas; já o herói-que-virou-vilão Guerrón é a grande arma atleticana. Na gangorra do futebol, jogo bom pra ele se recuperar. Em Salvador, tem Coritiba e Vitória. Com a moral do tri-estadual, Coxa pega o vice-baiano, que tem o artilheiro do Brasil, Neto Baiano, 31 gols. Trazer um empate com gols é de se comemorar. Confronto muito parelho também, com leve favoritismo coxa – mas que passa muito por bom resultado hoje.

E o Brasileiro?
Copa do Brasil hoje, Brasileirão Séries A e B já no final de semana. Tricampeão estadual, o Coritiba é o único paranaense na elite. Objetivamente, com os times que vieram até aqui, Coxa briga pelo G10. Está atrás de Santos, Corinthians, Fluminense, São Paulo, Vasco e Internacional. Se reforçar, pode sonhar com Libertadores. O resto dos times é igual ou pior. Na Série B, Atlético brigará pelo G4 com emoção com o elenco atual. Se reforçar, cumprirá a obrigação de subir. É o grande time da segundona 2012. Tem como adversários Guarani, Vitória, Goiás, Avaí, Ceará e Criciúma. O Paraná corre por fora. Tem potencial pra sonhar, mas tem as limitações de sempre, a começar pelo dinheiro. Outro problema do Tricolor é a maratona de jogos. Jogou segunda, joga hoje em Rolândia, sábado contra o Guarani, terça contra o Goiás. Sobra na B local, mas não terá moleza na nacional. E se não ganhar os dois turnos locais, compromete o calendário em mais dois jogos, se obrigando a jogar semifinal e final, mesmo se tiver melhor campanha. E não pode abrir espaço na B nacional, para não sofrer. Caiu no campo, mas a desorganização das tabelas e regulamentos é um crime contra o Paraná Clube.