“Se errei, foi em não expulsar Bill”, diz árbitro da Copa do BR 2011

Sálvio observa lance: para ele, se houve erro, foi outro (Imagem: VascoNet)

Nove de junho de 2011. O torcedor do Coritiba não esquece a data da vitória com sabor de derrota sobre o Vasco, 3-2. Faltou um golzinho para o Coxa, campeão brasileiro em 1985, comemorar seu segundo título nacional – oportunidade desperdiçada também no ano seguinte, contra o Palmeiras. O gol poderia sair em um pênalti reclamado pela torcida coxa-branca, sofrido por Leonardo no segundo tempo, mas que Sálvio Spinola Fagundes Filho não entendeu assim.

Dois anos depois, recebemos Sávio Spíniola, hoje ex-árbitro e consultor de arbitragem da Conmebol, para a transmissão de Chelsea x Benfica, decisão da Liga Europa. Simpático e bem humorado, Sálvio bateu um papo comigo antes do jogo. E, claro, perguntei sobre o suposto pênalti em Leonardo naquela decisão. Ele foi taxativo: “Se errei aquele dia, foi em não expulsar o Bill.”

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Napoleão de Almeida: Sálvio, a metade verde de Curitiba não gosta muito de você por conta da final da Copa do Brasil 2011, reclama um pênalti em cima do Leonardo. Você lembra do lance?

Sálvio Spinola: Claro. Lembro como se fosse hoje. Eu uso aquele lance nas palestras que eu dou sobre arbitragem. Não foi nada. Aquilo é um lance normal de jogo, disputa de bola (veja o lance aqui, aos 2`04). Futebol é esporte de contato, se fosse fora da área, eu mandaria seguir, como mandei vários outros lances durante o mesmo jogo, e ninguém falaria nada. Se eu errei aquele dia, foi em não expulsar o Bill.

NA: Pra você, então, não foi nada, não é que você não tenha visto o lance?

SS: Eu vi claramente, não foi nada. Vi e revi várias vezes depois. Eu até encontrei o Marcelo [Oliveira, então técnico do Coritiba, hoje no Cruzeiro] no aeroporto um tempo depois, conversamos bastante sobre isso. Não tinha como dar aquele pênalti.

Imagem frisada do lance entre Dedé e Leonardo (reprodução)

NA: Você não acha que, muitas vezes por conta da arbitragem, os times perdem grandes oportunidades? Falo em dinheiro, em se jogar uma Libertadores?

SS: O árbitro não pode entrar pensando nisso. Eu, por exemplo, já apitei sobre pressão muito maior. Dá pra dizer que eu tirei o Equador da Copa do Mundo em 2010. Dei um pênalti aos 45 do segundo tempo para o Uruguai porque foi pênalti. O jogo no Equador, onde a Seleção deles não perdia, estava invicta. O empate bastava. Mas, talvez por excesso de confiança, no minuto final o menino derrubou o Recoba e foi pênalti, apitei sem dúvidas. Se for pensar nisso, eu “tirei” um país de uma Copa, mas fiz o certo. Depois eu quase apanhei, teve repórter que veio me agredir, e você sabe porque?

NA: Por que?

SS: Porque era ele que iria pra Copa. É tudo negócio. Não é que ele fosse completamente patriota ou coisa assim. Pode até ser. Mas ali, mais do que isso, era um país inteiro, rádios, jogadores, tudo isso, que deixaram de ir para a Copa porque eu dei um pênalti. Quer mais pressão que isso? Dei o pênalti porque foi, é mais fácil para eles jogarem na conta da arbitragem do que assumir o erro.

O lance citado por Spinola, entre Bill e Fernando (reprodução)

NA: Você é a favor da profissionalização dos árbitros?

SS: Sem dúvida. Essa é uma briga minha. Tem que profissionalizar.

NA: E quem paga a conta?

SS: O futebol, oras. O futebol tem recursos. Você sabia que na UEFA 8% da arrecadação vai direto para os árbitros? Se você quer qualidade total tem que investir. Os clubes, as federações, elas têm recursos, mas não aplicam. O árbitro, pra errar menos, precisa de dedicação exclusiva. Você falou no suposto prejuízo do Coritiba – e eu ressalto que não errei. Mas e o que o Coritiba faz pela arbitragem? Não só o Coritiba, mas todos os clubes? Nada. O negócio todo é profissional e o árbitro não.

NA: Camisa pesa?

SS: Não vou dizer que não, mas isso não é tão relevante assim. É o que eu disse: tem pressão de todo lado. O exemplo do Equador é perfeito: cumpri a regra, dentro do estádio deles, do país deles. Foi pênalti.

NA: Com tanta pressão, ser árbitro vale a pena?

SS: Vale. Sou muito feliz com o que faço e o que fiz na minha carreira. Tenho orgulho dela, fui um bom árbitro na minha avaliação.

Em tempo: Sálvio Spinola comentou a partida entre Chelsea x Benfica, 2-1 para os ingleses. Nos poucos lances duvidosos do jogo, acertou, confirmando sua opinião antes do replay. Depois, partiu para o Pacaembu observar Corinthians 1-1 Boca Jrs., pela Libertadores, com arbitragem contestada de Carlos Amarilla.

Veja o lance com Bill, citado por Spinola, aos 7`03:

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