Qual o segredo do futebol de Minas?

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Uma Libertadores, um Brasileirão (em breve talvez dois) e uma final de Copa do Brasil no período de dois anos e o Brasil inteiro se pergunta: qual o segredo do futebol mineiro, atual dono dos melhores resultados no País?

Atlético-MG e Cruzeiro não são exatamente modelos de sucesso administrativo. De acordo com o balanço de 2013, último publicado, ambos somam 638 milhões em dívidas – 438 do Galo com 200 da Raposa. O Alvinegro é o quarto time mais endividado do País, enquanto que os Celestes ocupam a 11a colocação no ranking negativo. A dívida cruzeirense é facilmente administrável quando olhamos as receitas de 2013, quando o clube arrecadou 188 milhões, entre patrocínios, prêmios, vendas de jogadores, televisão e bilheteria, entre outros. Já os atleticanos de Minas Gerais não têm a mesma tranquilidade que o rival. As receitas em 2013 foram de 228 milhões, praticamente metade do que foi gasto. Ainda assim, com uma desproporção entre receitas e despesas, com patrocínios menores que os de Rio e São Paulo, como os mineiros dominam pelo segundo ano seguido o futebol nacional?

A resposta é: investimento no futebol em si.

Se a gestão administrativa deixa a desejar no balanço financeiro, Cruzeiro e Atlético-MG seguem o rumo daquilo que se propõem desde que foram criados. Ao invés de superávit, títulos. Uma receita adotada pelo primeiro Real Madrid Galático de Florentino Perez, com Zidane, Ronaldo e Beckham, em menor proporção. Então decadente, o Madrid optou por gastar mais e fazer a roda girar em outro sentido. Com craques e títulos, aumentou sua arrecadação e voltou a ser referência no cenário mundial. Não sem antes vender um patrimônio gigante, a antiga Ciudad Deportiva, o CT que rendeu 480 milhões de Euros à equipe espanhola.

Em Minas não é muito diferente quanto ao patrimônio. Cruzeiro e Atlético-MG não precisaram gastar um centavo sequer para modernizar os dois principais estádios de Belo Horizonte. O Mineirão e o Independência ganharam cara nova com parcerias público-privadas, como a Minas Arena. Diferente de adversários como Corinthians, Inter e Atlético Paranaense, os mineiros não têm dívidas recentes com infraestrutura. Enquanto o trio citado tem que dividir suas receitas com as obras, Galo e Raposa tiveram que buscar apenas melhores acordos com os arrendatários das arenas – o América Mineiro é o gestor do Independência, que pertence à Prefeitura de BH. Antes, porém, a dupla mineira já havia construído seus CTs, Cidade do Galo e Toca da Raposa, ambos considerados dois dos 4 mais bem estruturados do País. O Cruzeiro se dá ao luxo de ter um CT apenas para a base, a Toca I, com os profissionais treinando na moderna Toca II.

O salto foi dado após o susto que a dupla sofreu em 2011. Atlético-MG e Cruzeiro acabaram nas 15a e 16a posições respectivamente, as duas logo acima da zona de rebaixamento. O jogo que livrou a Raposa do rebaixamento foi justamente o clássico mineiro, previsto então para a última rodada. Com uma acachapante goleada dor 6 a 1, o Cruzeiro se livrou da queda junto com o Galo, que havia escapado um pouco antes. A partida, porém, foi colocada sob suspeita por muita gente em Minas Gerais, chegando até a ser formulada uma denúncia no Ministério Público Mineiro, arquivada posteriormente. Ambos tinham o mesmo fundo gestor, o Banco BMG, contando com 12 jogadores nas duas equipes. A recuperação atleticana, que ocorreu antes, foi caracterizada por uma defesa intransponível no segundo turno, que acabou sofrendo a maior goleada do campeonato naquele jogo. Após o final do ano o BMG se retirou do mercado de investimento direto no futebol e a CBF acabou com os clássicos na última rodada do Brasileirão.

Longe da Série B, Galo e Raposa investiram pesado nos elencos. O Atlético-MG saltou de R$ 30 para R$ 180 milhões de investimento em futebol de 2012 para 2013. A vinda de Ronaldinho foi o principal deles. O craque ex-Barcelona deixou o Flamengo em baixa e rendeu para o clube a histórica Libertadores de 2013, após o vice-campeonato brasileiro em 2012. A imprudência foi recompensada pela taça e pelo pequeno aumento da dívida, de apenas 6% entre as temporadas. Alexandre Kalil, presidente do Galo, é um dos principais artífices dos clubes em prol de um programa de refinanciamento – talvez anistia – das dívidas dos clubes junto ao governo. O clube sofreu para receber os R$ 37 milhões da venda de Bernard para o Shahktar Donetsk da Ucrãnia. Só o fez quando deixou R$ 25 milhões nos cofres da União e diminuiu a dívida. O elenco do Galo perdeu Ronaldinho, mas manteve ídolos como o goleiro Victor e o atacante Diego Tardelli.

O Cruzeiro começou a recuperação mais timidamente que o rival, mas para 2014, após o título do Brasileirão, abriu de vez os cofres. A montagem do elenco que pode ser coroado com o bicampeonato brasileiro e a Copa do Brasil começou com 70 milhões em 2012 para 160 milhões nesta temporada, chegando a mais de 80% das receitas do clube. Os Celestes foram buscar gente como o zagueiro Manoel e os meias Marlone e Marquinhos, revelações de Atlético-PR, Vasco e Vitória. Se dão ao luxo de manter Julio Baptista e Dagoberto no banco, jogadores que seriam titulares na maioria dos demais clubes da Série A. E, principalmente, acreditaram no trabalho do técnico Marcelo Oliveira, já há duas temporadas completas à frente da Raposa.

O BMG segue estampando as camisas da dupla, mas os R$ 12 milhões por ano pagos a cada um são menos que a metade dos R$ 31 milhões que o Corinthians recebe da Caixa e menos ainda que os R$ 60 milhões investidos pela Unimed na parceria com o Fluminense. Mesmo com a receita inferior, mas dedicando quase todo o fluxo ao futebol e contando com escolhas acertadas e um pouco de sorte – afinal o futebol é um jogo e São Victor está aí para confirmar aos atleticanos a tese – Galo e Cruzeiro vão dominando o cenário nacional na contramão da austeridade financeira pregada pelos especialistas. Se o poço tem fundo ainda não se sabe, mas o torcedor e o museu dos clubes não estão reclamando da constante chegada de taças à Belo Horizonte.

Repensando o futebol brasileiro

Esse post foi publicado no antigo blog, no portal Bem Paraná, em dezembro de 2012. Reedito aqui para levantar a discussão nacionalmente, através dos seus comentários. Obrigado a todos e bem-vindos a nova fase do blog!

Final de ano, perspectivas de um novo início em 2013. No futebol, é hora de por em prática o planejamento da nova temporada. Contratações, dispensas, pré-temporada, objetivos. Cada clube com a sua necessidade, conforme a disputa que tem pela frente. Essas são as boas notícias.

A má: dificilmente seu clube, se não for do grupo dos seis que mais recebem nas cotas de TV, principal renda dos clubes atualmente, será campeão. Salvo se tiver um mecenas por trás, caso do atual campeão Fluminense, amparado fortemente pela Unimed. E nesse balaio incluo gaúchos e mineiros. Duvida? Então veja a figura abaixo:

Essa é a atual distribuição de renda do futebol brasileiro, com base no repasse do principal apoiador, a Rede Globo de Televisão, detentora dos direitos de transmissão do Brasileirão. A imagem detalha o recebimento dos clubes do extinto Clube dos 13 (que abrangia 20 clubes) mais o Paraná Clube, simbolizando todos aqueles que estão no patamar do Tricolor. As cores dividem os grupos cotistas, que são de 5 tamanhos (alguns dos valores estão renegociados). Do amarelo ao vermelho, o que mais recebe ao que menos recebe. Todos dentro de um mesmo campeonato.

É preciso dizer que a Globo faz um bem enorme ao futebol nacional. A evolução nos contratos de TV nos últimos anos começou a projetar o Campeonato Brasileiro como um dos mais rentáveis do Mundo. Ainda está longe da Bundesliga (Alemanha) e da Premier League (Inglaterra), mas é um caminho. Não vou entrar aqui na discussão da exclusividade de transmissão, discussão do mercado de comunicação – convenhamos, o know-how da Globo é o melhor, ainda que (até mesmo pra mim, como jornalista) a diversificação de emissoras na cobertura pudesse ser benéfica. A discussão aqui é outra.

A própria televisão já ensaiou – e essa discussão ficou para trás, mas segue em voga com os torcedores – um pedido para que o Brasileirão volte ao mata-mata. E isso porque se ressente de mais emoção na competição. É um engano: se não há emoção no Brasileirão dos últimos anos, é porque a disparidade de arrecadação entre os clubes é enorme. É impossível que o Náutico, melhor clube fora do rol dos maiores recebedores (abaixo até mesmo de Atlético e Coritiba) supere 19 equipes em um torneio de regularidade e seja campeão.

Repare novamente na figura acima. Em amarelo, estão as posições de destaque; em azul, posições confortáveis. Em laranja, posições compatíveis e/ou aceitáveis. Em vermelho, posições ruins – e ainda pintou um preto na tabela. Repare que na divisão do Botafogo para o Atlético – linha que divide os tradicionais 12 dos demais – um lado é quase todo vermelho, outro quase todo amarelo. Não coincidentemente, quem mais recebe contra quem menos recebe. Em tempo: Botafogo e Atlético-MG, com todo o respeito que as belas histórias merecem, não são maiores que Atlético, Coritiba, Sport e Bahia. O novo ranking da CBF atesta isso.

O Corinthians, que iniciou como centro dessa discussão na coluna desta quarta no Metro Curitiba, vale quanto pesa. A torcida corintiana, bem como a do Flamengo, são as maiores do Brasil. Eles atraem mais interesse, mais público, vendem mais PPV, merecem ganhar mais. E assim sucessivamente. A ressalva é que essa não deve ser a única maneira de se distribuir o bolo.

Tenho tido a oportunidade de transmitir jogos do Campeonato Alemão pelo Terra (fica o convite, é ao vivo e gratuito) e, a despeito da liderança isolada do Bayern, a competição toda é mais acirrada. Aquele equilíbrio que o brasileiro gosta de propagar, hoje acontece muito mais na Alemanha. Se o ano do Bayern é excepcional, o atual bicampeão é o Borussia Dortmund e Schalke 04, Bayer Leverkusen, Eintracht Frankfurt e Sttutgart se permitem sonhar com a taça ou ao menos uma vaga na Liga dos Campeões – coisa que, no Brasil, tem se restringido a poucos pela Libertadores, obviamente.

Leia também:

– Paraná Clube entra na Bovespa

– Na Alemanha, rádio compra direitos de transmissão

– Artigo: quem perde na briga do Atlético com a imprensa?

A culpa passa longe de quem paga. É, na verdade, de quem vende: os clubes. Os que estão no topo, obviamente, não se incomodam com a situação. Muitas vezes estão amarrados a dívidas e antecipam receitas, se comprometendo mais e mais. Mesmo no seleto grupo dos 12, já vemos clubes sentindo os efeitos: as campanhas do Botafogo são apenas regulares e o Palmeiras, não fosse a conquista da Copa do Brasil (outro estilo de competição) teria uma avaliação recente desastrosa. No entanto, todos são complacentes com a situação. O seu clube também. Os efeitos são sentidos até mesmo na Seleção Brasileira, já não tão querida pelos torcedores em boa parte do Brasil pela falta de identidade e que, com o desamparo aos clubes menores, passará a ter menos fontes para seus craques.

Ok, até aqui, nenhuma novidade (e obrigado pela paciência na leitura). E qual seria uma solução? O exemplo mais democrático está na Inglaterra, liga mais rentável do Mundo, vendida em todo o Planeta. A arrecadação de TV é dividida de três maneiras: 70% igualmente entre os clubes; 15%, pelo retorno de audiência; outros 15%, pela classificação dos clubes no ano anterior. Além disso, os clubes que sobem da segunda divisão para a primeira recebem um auxílio especial na primeira temporada. A intenção? Deixar o campeonato competitivo. Claro, o poderio do Manchester United e dos dólares russos do Chelsea e árabes do Manchester City tem restringido a disputa a esses três. Mas aí é atrativo individual de cada um que, como receita de sócios e camisa, passa pelo mérito de cada um.

Para esse tratado, fiz um estudo sobre como seria a distribuição de renda no Brasil usando o modelo inglês. Os cálculos não são precisos (matemática nunca foi o meu forte) mas a distorção é pequena – algum leitor mais hábil com números pode ficar a vontade para me corrigir, especialmente na divisão por audiência. A base do cálculo foi a tabela da Premier League que está nesse link. Nela, os últimos lugares da tabela foram ocupados pelos clubes que subiram para a Série A em 2012. Observe:

A diferença entre o que receberia o Corinthians para o que receberia o Vitória, do maior para o menor valor, seria de apenas 21 milhões. O Corinthians continuaria recebendo mais, justamente, e continuaria forte, aproveitando-se ainda dos valores que recebe pela camisa, sócios, etc. Mas o campeonato poderia ser mais equilibrado. A distância para o Vitória seria, digamos, mais honesta. Afinal, o que se espera de uma disputa é que ela seja equilibrada, o que gera interesse. Não à toa, as ligas norte-americanas de basquete e futebol americano são as mais lucrativas do planeta entre todos os esportes. O segredo? O time com pior desempenho no ano anterior é o primeiro a escolher o melhor calouro no draft. Equilíbrio, senhores.

Ainda há mais um fator relevante a se discutir: as dívidas dos clubes com o Governo. Na Europa, a punição é severa. Os tradicionais Napoli e Fiorentina faliram e tiveram de começar em divisões inferiores italianas – o Napoli se recuperou a ponto de comprar o CNPJ (ou como for na Itália) antigo. O Rangers, um dos dois gigantes escoceses, vive esse drama agora. Mesmo sendo um Flamengo da Escócia, foi à falência recomeçou na 4a divisão. Sem perdão. Aproveitei o estudo para fazer um comparativo entre a principal receita dos clubes e a dívida pública, divulgada pela Revista Galileu. O Sport foi o único clube do qual não encontrei dados, mesmo em outras fontes. As cores estão divididas em: vermelho para dívidas com duas vezes ou mais da principal receita, laranja para dívidas pouco maiores ou ainda dentro de um limite suportavel, azul para as dívidas pequenas e amarelo para a única exceção, que segundo a reportagem tem até valores a receber:

A última notícia é de que Governo e CBF estudam punir os clubes devedores. Seria um esvaziamento e tanto na Série A – mas é aguardar pra ver. Diante da ideia de se modernizar o futebol nacional, seria um passo e tanto.