Em patrocínio inusitado, Organizada devolve ao clube o que ela mesma tira

A camisa do Paraná, patrocinada pela "Fúria Independente": mão invertida

O inusitado patrocínio da torcida organizada “Fúria Independente” ao Paraná Clube é caso para ser estudado à fundo e deixar todos, especialmente o torcedor comum, de olhos bem abertos.

Não vou entrar nos méritos da possível ingerência da TO no clube pois, além de suposição, é também óbvio que ela já aconteceria mesmo sem o patrocínio. Torcidas Organizadas tem poder de milícia, vigiam a vida de jogadores e dirigentes (imprensa também), normamente de maneira pouco cordial. Duas derrotas e se pede a cabeça de todo mundo. Ou quase: existe quem se proteja pagando um soldo às mesmas. Vale para todas. Seguindo essa lógica, é melhor então que as cobranças acompanhem um repasse financeiro ao clube, no melhor estilo “paguei, cobrei”, já que fariam de qualquer maneira – o histórico não me desmente.

O que chama a atenção é a relação comercial entre uma empresa com CNPJ e tudo mais – no caso, a “Fúria” e um clube de futebol que tem no anunciante um concorrente direto.

Sob a justificativa de que “apoiam incondicionalmente” e “estão juntos em todos os momentos”, as Organizadas se sentem um pouco donas de seus clubes. Assim, se apoderam das marcas dos mesmos, usando isso como fonte de renda. Explicando melhor: para qualquer torcedor, é mais barato comprar uma camisa ou um agasalho da torcida organizada do que investir nos (caros) materiais oficiais do clube do coração. Uma camisa da “Fúria” custa R$ 80 (R$ 70 para sócios da torcida em dia – outra concorrência interna, tratada a seguir) enquanto a camisa oficial sai por R$ 129,90. São 49,90 de diferença, podendo chegar a R$ 59,90.

Para um torcedor menos abastado, a simbologia é a mesma. Perante os amigos, ele marca sua paixão pelo clube e ainda ganha o “bônus” de se dizer pertencente à uma facção – o que no futebol significa respeito. O símbolo do Paraná Clube – e de tantos outros – está presente na camisa que, curiosamente, é sempre desvinculada pelas diretorias das TOs em episódios de violência. Além das camisas, as organizadas vendem outros artigos, como copos, bonés, etc. Tudo, claro, sem repasse de royalties.

O desconto para o sócio da torcida é outra concorrência desleal, que vampiriza o clube. O Paraná Clube hoje tem cerca de 4 mil sócios do futebol (há também sócios do clube social); a “Fúria” tem 15 mil cadastrados, com 500 em dia. Não obtive informações de quantos são sócios de ambos, mas, para ser sócio da torcida, são três planos: Ouro, a R$ 1000, Prata, a R$ 500, e Bronze, a R$ 100. Uma vez pago o valor, a manutenção custa R$ 10/mês. Já o Paraná Clube cobra R$ 80 reais a mensalidade para torcedores que queiram ficar no mesmo local da TO no estádio – a Curva Norte. Para contribuir com ambos, é necessário desembolsar uma média de R$ 170 por mês no melhor plano. Ou quase 1/3 do salário mínino, custo para poucos. Em número de sócios, cerca de 15% de perda associativa para a TO. Aqui, cabe uma ressalva: a “Fúria” garante que repassa 50% do valor de sua associação para o próprio clube. Não há confirmação se há relação direta com cessão de ingressos. Os benefícios são descontos em produtos e viagens e participação em festas – outra fonte de arrecadação.

Ao pagar R$ 50 mil para o clube, por dois jogos (Sport e Guaratinguetá), a “Fúria” passa o recibo de ser colaborativa mas, na verdade, apenas está devolvendo ao Paraná o que ela mesmo tira. É uma mão invertida. Ela está pagando agora o benefício de usar a marca do clube por tanto tempo. Não sem antes aproveitar para ela mesma se divulgar.

Após as entrevistas do técnico Dado Cavalcanti e do presidente em exercício Paulo Cesar Silva, de que o clube está sem dinheiro e precisa de toda a ajuda possível para se manter, é difícil condenar a ação da TO. No entanto, é preciso refletir o quanto a própria (e todas as outras) colaboram para que os clubes arrecadem menos e estejam em situação financeira precária.

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Sergio Cabral e ministro articulam para amortizar dívida do Vasco

Vascaíno, Cabral articula política em prol do clube

Está preparado e pode ser assinado nos próximos dias um documento com a determinação dos Ministérios da Fazenda e da Advocacia Geral da União que abrirá, se confirmado, um precedente único em prol do Vasco, amortizando a dívida do clube com a Receita Federal. Com a participação do governador do Estado do Rio de Janeiro, o vascaíno Sérgio Cabral Filho, o ministro Guido Mantega e o Advogado-Geral Luís Inácio Lucena Adams devem referendar uma redução de um terço nos pagamentos penhorados pela Justiça junto ao time cruzmaltino, alargando também os prazos de pagamento das pendências do clube com a Receita.

A informação corre nos bastidores em Brasília. O blog teve acesso a minuta elaborada que pode favorecer ao Vasco que, se não cumprir seu acordo atual, pode perder o patrocínio principal da camisa, a Caixa Econômica Federal.

O Vasco tem um total de R$ 135 milhões em dívidas com a Receita. Destes, 20 milhões já estão depositados judicialmente em razão de penhoras; outros 75 milhões seguem em aberto, oriundos principalmente do não-recolhimento de impostos dos salários de funcionários (atletas incluídos) após retenção na fonte. 

Este valor está sendo pago em parcelas mensais de R$ 1,8 milhão, desde a metade de 2012, com valores de receitas futuras penhoradas pela Justiça, entre elas, a antecipação de verbas dos direitos de televisão. Parte do valor pago pela emissora, com antecipação de contratos, sequer passa pelo clube, indo diretamente para a Receita.

Há ainda pendências da loteria Timemania, na ordem de R$ 40 milhões, fechando a conta acima. Recentemente, o Vasco passou a atrasar em até dois meses o pagamento das parcelas, mas ainda assim conta com benefícios e redução de juros. A lei prevê que esses direitos são perdidos apenas quando três parcelas são atrasadas.

O clube assinou um documento, com a atual diretoria se comprometendo com esse acordo. Mas resolveu mudar a estratégia. Encaminhou um pedido de redução das parcelas para R$ 600 mil mensais, pedindo ainda um prazo de 5 anos para a quitação desta dívida. A Receita negou o pedido, mas esbarrou na articulação política de Cabral, que mobilizou-se para tentar atender os pedidos do clube do coração. Se assinado, o documento abre um precedente para que outras dívidas e devedores sigam o mesmo caminho. A medida não deverá constar em Diário Oficial, sendo levada diretamente ao Poder Judiciário para homologação.

Sem contar com o mesmo “apoio” do governador fluminense, em fevereiro deste ano o Flamengo, aproveitou receita de um contrato publicitário e quitou R$ 11 milhões restantes de uma penhora de R$ 18 milhões que o clube tinha, zerando esse débito com a Receita. Assim, conseguiu as certidões negativas que precisava para receber o patrocínio da Caixa.

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