Paratiba #94: um clássico como há muito não se vê

Empatados na liderança do Estadual em quase todos os critérios (o Coxa está na frente por ter tomado menos cartões amarelos), Paraná e Coritiba duelam pela 94a vez na história nesse domingo, na Vila Capanema, com um equilíbrio de ambições como há muito não se via.

Sem vencer o rival desde 21/02/2010, quando fez 1-0 em Paranaguá, o Paraná aparece como postulante ao título do primeiro turno – e eventual finalista – o que não acontece desde que foi campeão pela última vez, em 2006. A derrota em Paranaguá também foi a última do Coritiba em clássicos em Estaduais. Desde então, o clube se sagrou tricampeão paranaense, com um título invicto em 2011.

Somando-se a tudo isso, em campo estarão dois dos maiores ídolos de cada clube: Alex, pelo Coxa, e Lúcio Flávio pelo Paraná. O leve favoritismo que o Coritiba poderia ter fica aplacado pelo bom início tricolor e o mando de campo, que equilibra as situações.

Para quem é supersticioso, os vídeos abaixo apontam números desfavoráveis ao Coxa. Com Alex em campo, o Coritiba foi goleado no já distante ano de 1997, última vez em que o ídolo coxa-branca encarou o Tricolor. Alex marcou duas vezes, mas não foi o suficiente:

Lúcio Flávio também já enfrentou o Coritiba em outra época. A partida mais memorável foi em 1999, quando o Paraná, então jogando na Vila Olímpica, aplicou uma goleada histórica, com um time basicamente formado por jovens. Entre eles, o próprio Lúcio Flávio:

As goleadas acima, no entanto, não devem ser parâmetro para o jogo deste domingo, que promete ser equilibrado. Na história, são 35 vitórias do Coritiba, 31 do Paraná e 27 empates.

Com ídolos em campo e equilíbrio na tabela, o Paratiba #94 promete resgatar a rivalidade do clássico, que já foi acirrada nos anos 90, quando os times decidiram por dois anos (1995/96) seguidos o título estadual.

Sobrou pra você

O acordo para que os jogos entre os times de Curitiba fossem disputados no Couto Pereira não saiu e já no Derby Paranaense do domingo, todos vão ao Janguito Malucelli. Todos não; cerca de 6 mil “felizardos”, 5500 atleticanos (1/3 dos sócios do clube) e 550 paranistas que desejarem acompanhar o time – e devem o fazer rapidamente, pois terão de comprar ingressos. Depois é depois e não se sabe ainda como serão disputados o Atletiba e o Paratiba. Conversei com gente do Coxa e do Paraná e apurei o porque de, novamente, ter sobrado pra você, torcedor, a pior parte do bolo.

Tentei contato com o Atlético, mas não fui bem sucedido. Pouco depois de procurar o clube, ainda na sexta, foi divulgada uma nota oficial sobre o tema – aqui está, para quem não leu. Coritiba e Paraná me atenderam. Minha fonte no Coxa pediu sigilo, o que irei respeitar; no Paraná falei com Paulo César Silva, vice-de futebol. Juntando as peças, chego a conclusão de que não é o caso de se achar um culpado pelo desacordo e sim lamentar que, mais uma vez, será o torcedor a pagar o pato.  Por isso, desde já agradeço a todos que estão lendo essas linhas. Com tanta oferta de bom futebol por aí, dedicar seu tempo a ler as informações sobre mais esse episódio frustrado no Paraná mereceria um prêmio.

A ideia surgiu com o presidente da FPF Hélio Cury buscando os três clubes com uma premissa básica: os grandes jogos no Couto, como antigamente, poderiam oferecer mais conforto e segurança ao torcedor, além de gerar uma maior arrecadação. E foi por conta da arrecadação, e em detrimento do conforto e segurança do torcedor, que o negócio não saiu.

Á exceção do Atlético, que se manifestou somente por nota, colhi a impressão de que – pasmem – as reuniões foram boas. Algo do tipo “não deu agora, mas dará nas próximas.” Por isso não se espante se os Atletibas saírem no Couto, por exemplo.

Cada clube enviou três representantes a reunião. Dagoberto dos Santos e Fernando Delek estiveram pelo lado do Atlético, acompanhados de mais um advogado do clube cujo nome não consegui confirmar. Pelo Paraná, Rubens Bohlen, Paulo Cesar Silva e Celso Bittencourt. O Coritiba enviou Gustavo Nadalin e Doth Leite, além de um terceiro representante. Na manhã desta quinta, Hélio Cury conversou pessoalmente com Mário Celso Petraglia; já havia falado na noite anterior, por telefone, com Vilson Ribeiro de Andrade. Todos estavam favoráveis.

O Coritiba se dispôs a ceder o estádio mediante o pagamento de um aluguel de 50 mil reais por jogo. Atlético e Paraná aceitaram. A carga para o visitante seria de 15 mil ingressos – número confirmado por dois dos três clubes – com 21 mil ingressos para os mandantes.  Os clubes mandantes poderiam usar o vestiário principal do Couto, mesmo contra o Coritiba. E outros pormenores foram acertados, sobre camarotes, segurança e limpeza. A discordância, já pública pelas notas oficiais publicadas, foi no acesso dos sócios.

Segundo o Coritiba, desde a primeira reunião, o clube queria que seus sócios não pagassem ingressos em nenhum dos jogos. E sugeriu que nenhum sócio de nenhum clube o fizesse. Ainda segundo o Coxa, o Atlético prontamente aceitou a situação. O Paraná, não. PC Silva me explicou: “Ganhamos mais mandando o jogo na Vila. A conta pra nós não fecharia. O Coritiba será visitante, porque nós pagaremos o aluguel, e ele não quer pagar? O Paraná fatura em lanchonetes, estacionamento e outras coisas quando joga na Vila. Vou ter arrecadação até menor pra que, pra atender o Atlético?”

O “atender o Atlético” é a compreensão que o Tricolor tem do caso. Para PC Silva, o maior beneficiado seria o Rubro-Negro, que é nômade no momento. O Furacão, por sua vez, evidentemente discorda. Olhando a nota oficial, o clube deixa claro em um trecho: “Ou seja, o Coritiba seria beneficiado em utilizar seu estádio em todos os clássicos, receberia o valor do aluguel e ainda a gratuidade para seus associados mesmo não sendo o mandante do jogo.” Na conversa com o diretor do Coxa que falou sobre o episódio, ficou clara a posição de valorizar seu patrimônio. Além disso, uma confidência: “O Paraná viu que não valeria a pena. O clube não tem tantos sócios quanto nós ou o Atlético e teria que vender sua carga”, julgou o intelocutor alviverde, o que acabou corroborado por PC Silva. “Você não tem a certeza de que o torcedor iria ocupar os 15 mil lugares. Com 10 mil pagantes, as despesas não cobrem (são cerca de 5 mil sócios no Tricolor). Eu até entendo o Coritiba. Mas quando o Paraná cedeu a Vila pra Atlético e Coxa, o nosso torcedor tinha que pagar.” Os clubes ainda tentaram outra solução: o Derby com mando do Atlético no Couto e o Atletiba, também com mando rubro-negro, na Vila. Não chegaram a um acordo em tempo hábil.

De certa forma, um empurrou pro outro a falta de acordo. Todos têm sua dose de razão: um vai faturar menos, outro não tem onde jogar, outro quer valorizar seu espaço. É possível, repito, que nos próximos jogos haja ainda algum acordo. Mas, voltando ao tema central da ideia, entre segurança e conforto para o torcedor, todos pensaram no dinheiro. Que vai sair de um único lugar, seja como sócio, seja na bilheteria.

Sobrou pra você, torcedor.