Time que ganhou Brasileiro sobre Santos de Pelé está à venda

Que tal ser dono de um clube campeão brasileiro, em uma cidade rica e com 370 mil habitantes, um estádio público com capacidade para 23 mil pessoas e uma torcida carente pelos velhos tempos? Em tese é a oportunidade oferecida por Aurélio Almeida (nenhuma relação com o blogueiro) que está colocando à venda o Grêmio de Esportes Maringá. Um time que superou até o Santos de Pelé, mas desapareceu com seus três títulos estaduais em meio as más administrações, a ponto de estar rebaixado à terceira divisão do Paraná para 2014. 

O valor, não confirmado pelo clube, é de R$ 5 milhões de reais. O comprador teria direito tão somente à marca “Grêmio de Esportes Maringá”. Objeto de desejo, diga-se, dos maringaenses, que nunca aceitaram bem a ideia do empresário conhecido pelo seu comportamento fantarrão comandar o time da cidade. Tanto que Maringá já teve outras duas tentativas de ter um novo “Grêmio”: o Metropolitano, que também disputa a segundona local, e o já extinto “Galo Maringá”, fruto de uma parceria com a ADAP, clube que jogava em Campo Mourão – Galo é o mascote do Grêmio.

O anúncio da venda do Grêmio, destinado ao prefeito da cidade

Aurélio Almeida não atende à imprensa. O assessor do clube, Nelson Alexandre, atendeu ao telefonema na sede do clube: “Queria saber dele também”, disse, para depois afirmar: “Olha, ele está em São Paulo. Parece que conseguiu um comprador para o clube. Estamos aqui esperando a notícia.” Quem comprar terá que refazer a imagem do Grêmio na cidade. Outrora dono de dois parques, o clube não tem mais nada. O pouco que sobrou está na justiça, numa disputa com os sócios remidos, que viram tudo ir a leilão.

O empresário comprou o Grêmio em 2002, na terceira tentativa de emplacar um clube no futebol paranaense. Antes, havia criado o Real Brasil e o Império do Futebol, ambos finados em situações precárias. O Império foi o último usuário do também finado Pinheirão, num acordo de Almeida com o ex-presidente da FPF, Onaireves Moura. Ao chegar no Grêmio, prometeu novos tempos. Até que conseguiu: disputou dois estaduais antes de anunciar o licenciamento por falta de dinheiro. Em paralelo, perdia credibilidade ao dever para diversos empresários da cidade, desde o ramo de hospedagem até alimentação. Seu grande momento foi a vitória no Clássico do Café sobre o Londrina, 1-0, em 2004, com transmissão da afiliada da Globo no Paraná para todo o Estado.

Em 2009 Almeida resolveu reativar o Grêmio. Já na temporada seguinte subiu da terceira para a segunda divisão, onde estacionou. Enfrentou o Paraná Clube na passagem do Tricolor pela segundona paranaense em 2011, no confronto entre os campeões estaduais presentes na competição – e perdeu as duas, 1-2 e 1-4. Neste ano, sob o comando do ex-goleiro do São Paulo e da Seleção Waldir Peres, acabou rebaixado para a terceirona, somando um único ponto em nove jogos. Peres acreditou no projeto do amigo Almeida, mas teve que lidar com um time que por vezes sequer tinha jogadores suficientes para o banco de reservas.

O ex-goleiro apenas se juntou as histórias pitorescas do dono do Grêmio. Em 2010, ele anunciou um amistoso contra o Boca Jrs., da Argentina, cancelado posteriormente, segundo o próprio Grêmio, porque o Boca se assustou com as cenas de violência no jogo Coritiba e Fluminense, em 2009. Aurélio levou seus jogadores várias vezes para o exterior, é verdade. Ele jogou no futebol mexicano e – conta – foi técnico das seleções de Belize e Aruba, da América Central. Mais: Almeida diz ser também dono do Puebla, clube mexicano campeão continental em 1991 e que hoje está na Liga MX, a primeira divisão nacional. Se realmente for verdade, é também verdade que o Grêmio nunca viu nenhum recurso ou jogador do time mexicano.

Em Maringá diz-se pelos cantos que a venda do Grêmio é mais um blefe de Aurélio Almeida, que quer calar os críticos após mais um insucesso, provando que ninguém tem interesse em tocar o Grêmio. Enquanto isso, outros desportistas da cidade fundaram em 2010 o Grêmio Metropolitano Maringá, uma tentativa de ocupar o lugar do Galo no coração dos maringaenses. Ainda não deu certo: no “clássico” entre ambos (deu, Metrô 4-0) apenas 332 pessoas pagaram ingressos. O Metrô fez campanha inversa ao do Grêmio: invicto, líder, com sete vitórias em nove jogos. Mas não garantiu acesso à elite paranaense: precisará disputar um hexagonal para botar Maringá no mapa do futebol paranaense novamente.

  • A vitória sobre o Santos:

Em 1969 a CBD – então coordenadora do futebol brasileiro – resolveu promover um campeonato entre os campeões regionais Centro-Sul e Norte-Nordeste (Sport), mais os campeões da Taça Brasil (Botafogo) e do Roberto Gomes Pedrosa (Santos). Depois de superar times do Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, o Grêmio venceu o Villa Nova-MG e passou pelo Sport Recife, duas vezes, por 3-0. O time encarou o Santos de Pelé em duas ocasiões (1-1 e 2-2), mas não houve o jogo desempate. A Revista Veja, à época, contou o caso:

Matéria de "Veja" conta o caso do jogo que não houve em 1969

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Abrindo o Jogo – Coluna no Jornal Metro Curitiba de 09/05/2012

Retrocesso

Uma tendência triste, da qual se torna cada vez mais difícil escapar: semanas pós-clássico no Paraná têm tido mais discussões em cima de arbitragens, violência e condutas extra-campo do que do jogo em si. O resultado é nítido: estádios esvaziados. Não à toa a decisão do Estadual 2012 levou apenas cerca de 9 mil pessoas a Vila Capanema. O futebol paranaense retrocedeu no tempo. Estancou na arbitragem, incompetente e sem renovação; erra nas fórmulas dos campeonatos e intransigência dos mandatários; peca no controle à violência, incentivando diferenças. Andamos para trás nos últimos anos. É uma hora uma profunda reflexão. A apregoada modernidade que a Copa 2014 pode trazer não combina com 90% do que vem sendo feito na terrinha.

Crescimento e desproporção

O Coritiba foi o 5º clube que mais cresceu em arrecadação em 2011, segundo estudo do balanço financeiro coxa-branca feito pela Pluri consultoria, divulgado ontem. Foram 117% de receitas a mais que em 2010, ano em que disputou a Série B, com boa parte dos jogos em Joinville. Em compensação, as despesas cresceram 74%. Natural: mudaram as ambições e circunstâncias. Mas o Coxa ainda está longe de poder competir com os gigantes brasileiros em receitas. A principal dela, responsável por 56% do volume de arrecadação, vem da TV: R$ 24,8 milhões. Corinthians e Flamengo recebem cerca de R$ 110 milhões da mesma fonte. Os sócios representam 26% do volume da renda do Coxa. Atlético e Paraná não tiveram seus estudos apresentados pela empresa até o fechamento da coluna.

Mico

Alguém não identificado, mas com o texto em tom muito parecido com o que usa o presidente Mário Celso Petráglia, usou o twitter oficial do Atlético para reclamar de arbitragem e se queixar das mazelas do clube em tom nada solene. Um mico ainda sem responsável. O canal institucional do clube não deve se prestar a desabafos e rompantes e sim servir a comunidade esportiva com informações precisas e técnicas, ou promoção institucional. Tratá-lo como parte de uma posse pessoal mostra que o profissionalismo está passando longe da Baixada.

Informações que interessam

Mas como o twitter atleticano se propôs a um bate papo “aberto” sobre as coisas do clube, enquanto o principal gestor se recusa a dar entrevista, lanço algumas perguntas abertas, para quem sabe encontrar respostas no mesmo canal: qual o critério na montagem do time, mantendo a base rebaixada e repatriando jogadores sem sucesso em passagens anteriores, como o goleiro Vinícius e o zagueiro Bruno Costa? Qual o valor e o destino das cadeiras da Arena, removidas do estádio? Qual a versão dos dirigentes para as acusações da “Operação Uruguai”, denunciada recentemente, envolvendo favorecimento pessoal em transações nos anos 90? No aguardo.

Exclusivo: Vilson Andrade e o momento do Coritiba

A palavra crise andou rondando manchetes sobre o Coritiba nessa semana, quando o time perdeu uma invencibilidade de 48 jogos em campeonatos paranaenses. É bem verdade que a equipe não vem jogando bem, mas também é fato de que chega a ser irônico referir-se a crise quando um time perde pela primeira vez após tanto tempo.

Seja como for, o Coxa teve uma reunião entre diretoria, jogadores e comissão técnica ontem. E amanhã pega o melhor time do returno, o Londrina, precisando de uma goleada por 5-0 para assumir a liderança e tentar uma vaga na decisão, que já conta com o rival Atlético. Em meio a pressão, conversei com o presidente do clube, Vilson Ribeiro de Andrade, que soltou o verbo sobre o momento coxa-branca:

Napoleão de Almeida: O que você enxerga nessa fase do Coritiba?
Vilson Ribeiro de Andrade: Precisamos de três jogadores, já está no planejamento. Estamos esperando a definição da Libertadores, tem muito time inchado, não vai continuar assim. Tivemos problemas médicos no começo do ano e investimos R$ 200 mil em um aparelho isocinético, que previne lesões. É tudo investimento. Temos que trazer três peças para chegar e ser titulares. Eu entendo muito é de finanças, de futebol não entendo muito. Mas o que eu vejo é que o meio de campo não ajustou. Tem que trazer alguém que fará esse trabalho de aproximação. Sem isso, é improvisação e bola parada.

NA: O clube perdeu peças importantes e não repôs a altura. Essa análise é justa?
VRA: Olha… nós tivemos decréscimo no quadro associativo [Nota do blog: o clube afirma ter 19 mil sócios adimplentes e 25 no total, com atraso], passamos esses primeiros meses com prejuízo. Mas veja, Emerson e Rafinha tiveram propostas e nós seguramos. É um esforço que o clube fez. O Grêmio trouxe o Kléber [Gladiador, que quebrou a fíbula] a 560 mil por mês e agora está seis meses fora.

NA: Nos bastidores, muito se falou em salários atrasados. É verdade?
VRA: Quando time não está bem, a primeira coisa é falar em salário atrasado. Não é o caso do Coritiba. No futebol funciona assim: você paga fevereiro até o fim de março. Eu pago primeiro os funcionários e vamos acertando o resto. Mas está tudo de acordo com o que combinamos com o grupo de atletas. Ontem (segunda, 26/03) eu saí da clínica [Vilson está em um tratamento de saúde] e fui direto pra lá. Sentamos com os jogadores, mostrei pra eles a confiança que eu tenho e a responsabilidade que eles tem. Eu disse a eles: quem não estiver satisfeito, não tem problema nenhum. Eu faço a rescisão e pode ir embora.

NA: E eles?
VRA: A conversa foi muito boa. Aqueles que não estiverem no ritmo do grupo nós vamos afastar. Discretamente, sem alarde. Tem gente que não aprendeu espírito de competição. Não adianta qualidade técnica se não tiver esse espírito.

NA: Quem? Existe indisciplina?
VRA: Acredite: não tem indisciplina. O problema é querer competir.

NA: A torcida vem pegando muito no pé do [técnico] Marcelo Oliveira…
VRA: Mandar o treinador embora é jogar para a torcida, tentar agradar. Eu não sou assim. Eu agrado às minhas convicções.

NA: Hoje saiu a informação de que Atlético e Coritiba irão a julgamento no TJD-PR pela medida de permitir uma só torcida no jogo da Vila Capanema. Você pretende repetir a medida no Couto Pereira? Como encara uma definição diferente das partes?
VRA: Se ele [Mário Celso Petraglia, presidente do Atlético] não cumprir a palavra, eu não estou nem aí. Se quiser por 3 mil atleticanos lá, sem problemas. O estádio tem condições para atender as duas torcidas. O que eu tenho que fazer é por um time em campo pra ganhar o jogo. Mas estou vendo o que há de garantia com o Ministério Público, a polícia, o departamento jurídico… e se ele roer a corda, ficará feio pra ele.

NA: A relação entre você e Petraglia não está boa, pelo visto.
VRA: Eu disse a ele no começo do ano: “Paranaense, esqueça. Brasileiro, podemos pensar [sobre aluguel do Couto Pereira].” Aí estávamos conversando no Hotel Bourbon, eu estava negociando o Couto, mas recebi uma mensagem no meu celular. Ele estava com gente no Rio de Janeiro forçando a CBF a baixar o artigo 7º [artigo do RGC da CBF que dispõe da necessidade de empréstimo compulsório de estádios se a entidade requisitar]. Disse a ele na hora: esqueça, não quero mais negócio. Ele me disse: “então você me aguarde.” Ok, se é assim, tudo bem.

NA: E o estádio novo? Em que pé está?
VRA: Nada muito novo. Estamos negociando. Veja, o estádio do Grêmio levou quase 5 anos para ter tudo aprovado. Talvez até o final do mês a gente tenha alguma posição para levar ao conselho, mas ainda vai tempo.

Abrindo o Jogo – Coluna no Jornal Metro Curitiba de 21/03/2012

Panos quentes
O Governo do Estado do Paraná, até o presente momento, pôs panos quentes nas declarações do Secretário de Estado para a Copa 2014, Mário Celso Cunha, de que “o Atlético não deveria se preocupar em como pagar o empréstimo do BNDES, já que o Governo deverá anistiar as dívidas do Mundial”. A declaração foi dada em uma reunião do Conselho Deliberativo do clube em 2010 e levada a público pelo jornal Gazeta do Povo no domingo passado. Em nota, o Palácio Iguaçu limitou-se a dizer que o processo do Mundial é “idôneo”. Cunha, em entrevista a TV Bandeirantes afirmou que “jamais quis fazer apologia ao calote.”
O que cabe ao Atlético?
Em relação às declarações de Mário Celso Cunha, nada. O clube não tem nenhuma relação antiética com o Mundial e colocou o CT do Caju a disposição do BNDES para o caso de inadimplência. Por isso, não se deve misturar a sugestão de calote pelo gestor público à postura da instituição, que já está beneficiada pela realização da Copa 2014 na cidade. Um exemplo é a negociação que levará a modernização da Arena: são 138,6 milhões via Agencia de Fomento para a obra, dos quais o Atlético pagará um terço (R$ 46,2 mi) a serem pagos em 15 anos a contar de 2015 (são três anos de carência) com juros de 1,8% ao ano, considerado irrisório no mercado. Os outros dois terços do valor serão oriundos da comercialização dos títulos de potencial construtivo cedidos pela Prefeitura. O próprio BNDES irá vendê-los.
Mercado adverso
A Pluri Consultoria, empresa de marketing e gestão esportiva sediada em Curitiba, divulgou números de uma pesquisa sobre torcidas no Brasil, realizada em janeiro deste ano em 144 cidades do País, com 10.545 entrevistas. O objetivo é mapear o potencial de consumo das equipes (ao longo dos próximos dias, detalharei a pesquisa no blog bemparana.com.br/napoalmeida, fica o convite*) junto às torcidas. Quem gasta mais? Em que região? No primeiro relatório apresentado, a demonstração de como o mercado para os paranaenses ainda é adverso – mas, olhando-se o copo meio cheio, como ainda pode crescer.
*Nota do blog: desça a página e leia as duas primeiras partes; por motivos particulares, ainda não pude detalhar a terceira e última, mas prometo para essa sexta.
Primeiro, mandar em casa
No relatório, o Atlético aparece como a maior torcida de um clube paranaense, com estimados 1,2 milhão de torcedores (a 17ª maior do Brasil); coladinho atrás está o Coritiba, com 1,1 milhão (18º no geral). O Paraná Clube tem estimados 300 mil aficionados (27º em todo o País). No entanto, mais que a quantificação das torcidas estaduais, o relatório apresenta números desfavoráveis aos paranaenses. Segundo o estudo, dos 10 maiores estados da nação, o Paraná é o que menos tem torcedores de futebol: 67% dos residentes gostam de algum clube. No Rio Grande do Sul, o número é de 90%. Dos 67% dos paranaenses que torcem para algum time (estimados 7 milhões), 64,4% preferem as equipes de fora do Paraná. Apenas 35,6% apóiam os times paranaenses. Ainda há muito a se fazer.

Mercado & torcidas, parte II: a saída paranaense

Dando sequência ao estudo divulgado pela Pluri Consultoria com relação ao tamanho e ao potencial das torcidas no Brasil (as 30 maiores), a segunda parte aborda a força de consumo de cada uma. E aqui aparecem boas novas aos clubes paranaenses, em especial o trio da capital, presente entre as citadas.

Mesmo com mais da metade da população torcedora do Paraná preferindo clubes de outros estados, Atlético, Coritiba e Paraná Clube crescem na relação tamanho/renda per capita. Com base na pesquisa de opinião feita pela consultoria em janeiro deste ano (clique aqui para ler mais) cruzando dados com as informações do IBGE, a dupla Atletiba atinge quase R$ 1 bilhão mensal de perspectiva de renda entre seus torcedores. O Paraná Clube vê sua torcida com quase 250 milhões de renda por mês, a frente de clubes de São Paulo como Guarani, Ponte Preta e Portuguesa. Neste ponto, o Corinthians torna-se o clube com maior renda per capita, ultrapassando o Flamengo, mesmo com maior torcida. Explica-se: São Paulo tem o maior PIB do Brasil. Confira os números:

A conclusão do estudo é boa para os paranaenses. Tendo por base a concentração de torcedores dentro de seu próprio estado e o acesso dos mesmos aos produtos que o clube oferece (planos de sócios, camisas, souvenires) o potencial de gasto de um torcedor nisso está intimamente ligado ao fato de ele viver na sede do mesmo.

É simples e explica os grandes parques associativos paranaenses: o coxa-branca ou o atleticano, entre os cinco maiores volumes de sócios do País (atrás de Inter, Grêmio e São Paulo) tem acesso ao estádio em maior número do que o flamenguista residente em Manaus. Cerca de 65% da torcida do Flamengo está fora do Rio, enquanto apenas 6% da torcida do Coritiba não é paranaense –  no Atlético, o número sobe para 9%.

Trazendo o Paraná Clube para a análise (100% dos torcedores dentro do Estado), percebe-se que se o volume dos torcedores paranaenses no todo é diminuto entre a população local, ao menos os que escolhem torcer para os times da terra são mais participativos. Resta aos clubes trabalhar melhor ações junto a esse público, para rentabilizar mais. Isso passa por respeito ao quadro associativo, atendendo a necessidades básicas do consumidor pagante, até pesquisas de opinião sobre esse ou aquele produto a ser lançado. Os clubes locais têm feito isso? Reflita.

Se há a vantagem da maior exposição dos gigantes brasileiros, estes também sofrem em maior número com a pirataria. O estudo indica que Flamengo e Corinthians, por terem torcedores em sua maioria distantes da sede, adquirem produtos piratas com maior índice do que os que estão próximos a base do clube do coração. Por outro lado, Atlético, Coritiba e Paraná já convivem com a “ameaça corintiana” (rótulo simbólico e extensivo a outros gigantes com a mesma característica) ao verem lojas como a “Poderoso Timão” se instalarem em shoppings da cidade. E ainda há a concorrência indireta, cada vez maior, de clubes como Barcelona, Milan e Manchester United.

O estudo ainda aprofunda os dados, trazendo mais boas novidades aos paranaenses, com os três presentes entre os 11 clubes com torcedores mais ricos do país – logo, com mais recursos a investir na paixão. Novamente, a base é o IBGE x pesquisa de opinião, chegando a renda média mensal de cada torcedor. Confira:

Aqui, tratando-se somente dos paranaenses, empate técnico: do Paraná Clube, que tem a menor média mensal de renda entre torcedores, para o Atlético, a maior, são apenas R$ 11 a menos. Considerando as capacidades de cada estádio da capital e o volume de torcedores apontado pela pesquisa para os três, chega-se a conclusão que é possível que cada clube tenha sua capacidade associativa esgotada. Vejamos:

– Considerando que o plano associativo do Paraná Clube custa R$ 40/mês para ver jogos na arquibancada (cerca de 5% da renda média mensal)

– Que o valor padrão no Coritiba é de R$ 60/mês para ver jogos na arquibancada (cerca de 8% da renda média mensal)

– Que o valor no Atlético é de R$ 70/mês para qualquer setor na Arena (aproximadamente 10% da renda média mensal)

E que nenhum dos três clubes tem mais do que 10% da capacidade máxima da sua torcida em área aproveitável no estádio, é possível que, convencendo menos de 10% da torcida de cada clube, se garanta uma arrecadação mensal proporcionalmente maior (quiça igual) a de Flamengo ou Corinthians.

A pesquisa chama ainda a atenção para a alta concentração de renda dos clubes catarinenses, da região de Campinas-SP (cerca de R$ 5 milhões de habitantes em um pólo produtivo paulista) e dos dois grandes gaúchos, virtualmente os maiores clubes do país em potencial de arrecadação e domínio territorial.

A saída competitiva para os paranaenses está aqui. Mas, pode ter mais boas notícias.

Amanhã, a Pluri Consultoria irá divulgar a última parte do estudo, sobre o potencial de consumo de cada torcida – especificando quem efetivamente gasta mais em seu clube atualmente. Aguardemos.

 

 

Relações perigosas

A relação da imprensa com os clubes no Paraná nunca foi das melhores, mas nos últimos dias atingiu níveis de intolerância e proximidade perigosos. Por ora, tudo personalizado na figura do radialista Osmar Antônio, da Rádio Banda B, que recebeu cerceamento de trabalho na cobertura do Atlético no Atletiba 349 e no jogo deste domingo em Paranavaí, ouviu do zagueiro Manoel que “Não posso falar”, ao fazer uma pergunta. Logo percebeu que tratava-se de uma ordem superior para que ninguém o atendesse (outros mais podem sofrer com isso).

Exatamente na outra face da moeda, coincidentemente envolvendo um profissional da mesma rádio, Eduvaldo Brasil recebeu uma homenagem da diretoria do Coritiba, tendo sua imagem e uma mensagem de parabéns vinculada ao press kit do clube no jogo contra o Roma. Enquanto um condena, outro abraça. E pra mim nenhuma das medidas é salutar ou profissional.

Não discuto o mérito da lei – que é indiscutível, deve(ria) ser cumprida – e está melhor explicada nessa matéria da Gazeta do Povo. Osmar Antônio está credenciado por um veículo legalizado e deve ser respeitado; também não nego ao atencioso e simpático Edu Brasil o merecido parabéns e reconhecimento de todos os colegas. Edu tem uma vida dentro do Coritiba e seu trabalho é conhecido há anos. O que une as situações aparentemente tão distintas é a adoção de relações que os clubes mesmos combatem, mas colaboram.

Ao que parece, a relação do presidente do Atlético Mário Celso Petraglia  com o repórter citado não é das melhores. Não existe nenhuma motivação pública (deveria ser ao menos explicada) para a medida tomada pelo clube que ele preside para agir com o profissional senão uma retaliação, por motivo ainda suposto. Mas Petraglia, que cobra profissionalismo de todos os setores, age erroneamente na situação. Já se recusa a falar com a imprensa do Paraná – mas não com a paulista, sendo citado constantemente na Folha de SP* – e orienta seus funcionários a não responderem o citado repórter. Petraglia não é obrigado a dar entrevistas a ninguém; ninguém o é, de fato. Só que ele ocupa um cargo importante e está sujeito a cobranças.

Quando fala a imprensa, fala ao torcedor. Sob a intenção de fortalecer os canais de comunicação do clube, só se manifesta pelo site oficial. Esquece-se que o site, por melhor acessado que seja, não tem o alcance que a rádio e a TV ainda têm, falando para mais pessoas, os quase 1,5 milhão de torcedores do Atlético espalhados pelo Mundo que não necessariamente visitam ou visitarão o site. Com a medida, também se priva de responder perguntas que vão ao desencontro do que ele pensa. Esquiva-se de certos temas. Quanto aos jogadores, que cumprem apenas ordens, deveriam ser orientados a dar entrevistas após Media Training, recurso vital em qualquer empresa de sucesso. A retaliação é sempre o pior caminho. Como futebol é resultado, o momento fortalece a medida aos olhos do torcedor menos politizado.

A relação do Coritiba na situação citada também tem distorções. Por mais que mereça (e merece) o carinho dos colegas, oficializar um profissional na ativa no press kit cria uma situação de cumplicidade muito grande (1). Como conduzir a isenção nesse processo? Causa um constrangimento. Estar de bem e ter boa e educada relação com dirigentes, atletas e comissão técnica não precisa ir tão longe. O Coxa já chegou a ceder espaço no site oficial para colunas semanais de alguns repórteres. Evidentemente, o espaço não pode trazer todo o noticiário, se tornando chapa branca, pois é de assessoria. E a imprensa infelizmente não traz apenas coisas boas: por vezes, uma crítica ou uma denúncia é mais salutar que o elogio, especialmente o falso.

(1) Observação: o departamento de comunicação do Coritiba entrou em contato com o blog para informar que não foi distribuído press kit com a homenagem para todos os veículos, tornando-se apenas uma homenagem interna para Edu. Indiscutível a merecida homenagem e, desfeito o engano, mantenho a análise em relação as antigas colunas, já retiradas do site.

O mercado de imprensa deveria aproveitar o momento e refletir. Jornalismo não pede passagem, acontece e pronto. É preciso independência. O mercado local muitas vezes vive de favores de dirigentes em viagens, banaliza espaços publicitários em troca de abraços, não valoriza a formação profissional de quem ocupa o microfone. Uma boa pauta não precisa de hora marcada para coletiva: existem vários assuntos de interesse público que não são esclarecidos e que poderiam ser olhados a partir disso. Jornalismo mesmo, melhor que o cômodo “treinou em dois períodos.”

Os próprios profissionais poderiam se ajudar, se respeitando, respeitando o colega e o mercado, unindo-se contra os erros e crescendo. A tudo que foi escrito acima, soma-se a eterna desconfiança dos torcedores, que talvez com essas mal traçadas entendam um pouco mais do mercado.

Não sou corporativista e já sofri na pele discriminação dos colegas. Basta você querer fazer diferente e há um preço a ser pago. Tudo o que defendo nesse espaço, que é independente acima de tudo, é por convicção pessoal. E as relações acima citadas estão erradas. As duas. Na vida, o equilíbrio é tudo. É tempo de profissionalizar o futebol do Paraná e isso passa por uma nova atitude das partes.

*O conteúdo da Folha de SP é fechado apenas para assinantes, por isso a referência em um blog

Estádio não é problema só em Curitiba

Time grande, de massa, campeão nacional, já decidiu a Libertadores e tem um dos maiores parques associativos do seu país; foi rebaixado para a segunda divisão no ano passado e nesta temporada não tem estádio para jogar. Identificou? É possível que você tenha pensado no Atlético, mas quem também vive esse problema é o River Plate, da Argentina (que, por sinal, também é Atlético: CARP).

River Plate não sabe onde e quando estréia no 2o. turno da B Nacional

Vice-líder da segundona argentina (que ao contrário da primeira, não se divide em dois torneios, somando os pontos de Clausura e Apertura para o acesso), o River Plate vendeu mais de 10 mil entradas para o jogo contra o Chacarita Jrs., mesmo sem ser mandante. O acordo lá é diferente daqui: a AFA permitiu nessa temporada que os visitantes pudessem levar torcida nos campos dos adversários, o que não era permitido até a queda do River. A intenção é faturar com a presença do gigante portenho na Bzona. Só que o Chacarita Jrs., mandante, também vendeu ingressos e seu estádio em San Martín não suporta o volume de torcedores. A AFA então requisitou o estádio do Racing, em Avellaneda, região metropolitana de Buenos Aires, para o jogo. Ouviu um não do clube e da prefeitura.

O Chacarita resolveu então impor seu direito de mandante e quer jogar em San Martín, sem presença da torcida visitante. O River sugeriu La Plata e a AFA ainda está definindo se o jogo que seria realizado neste sábado (11) será amanhã em San Martín ou segunda, em La Plata. A definição tem de sair hoje. Por via das dúvidas, o River Plate já começou a devolver o dinheiro dos ingressos a quem procurar o clube. Mas tanto River quanto Chacarita seguem vendendo ingressos para quem quiser ir ao jogo, em diferente setores. Entendeu? Nem eu. Na verdade, pobre dos torcedores da Argentina, lá como cá, jogados a segundo plano.

Enquanto isso, na Espanha…

a Real Federação Espanhola de Futebol não sabe onde marcará o jogo final da Copa do Rei, entre Barcelona e Atlhetic Bilbao. A decisão acontece em jogo único e em campo neutro. Madrid seria o local mais indicado, mas o Real Madrid, alegando possibilidade de decidir a Liga dos Campeões da Europa poucos dias antes da decisão da Copa nacional, se recusa a emprestar o Santiago Bernabéu. Segundo o clube merengue, há risco de confrontos entre as torcidas porque os madrilenhos pretendem fazer uma festa no estádio; já o Atlético de Madrid também descartou empréstimo: o Vicente Calderón, seu estádio, está alugado para a mesma data (20/05) para um show do Coldplay.

No fundo, tudo é cortina para o principal: Madrid teme um confronto entre os munícipes da capital, os bascos do Atlhetic e os catalães do Barça no dia da final. Fora o fato de os torcedores do Real não admitirem a possibilidade de o Barcelona levantar uma taça no templo merengue – o que jamais aconteceu.

A cidade de Valencia também se manifestou contra a possibilidade de abrigar o jogo. Em 2009 os mesmos dois clubes decidiram a Copa no estádio Mestalla, do Valencia – deu Barca, 4-1 – e a cidade foi palco de brigas entre as torcidas. Os demais estádios do país são considerados pequenos demais para abrigar a final.

A Federação estuda a possibilidade de realizar o jogo no Camp Nou – o que seria uma vantagem para o Barcelona – mas dividindo a carga de ingressos entre as torcidas: 40 mil entradas para cada. A decisão sairá na terça-feira.