O monstro de René

Ele ainda era pequeno, meninão. Piá, como dizem de onde eu vim. Mas dele já vinham todas as receitas do Santos, todas as esperanças da torcida. Não só do Santos, mas também da Seleção Brasileira. Queriam que Dunga o levasse em 2010. Queriam um pedaço dele. Todos, homens e mulheres. Queriam tudo de Neymar e, para isso, davam muito a ele: badalação, carinho – ora confundido com bajulação e dinheiro. Ele tinha apenas 17 anos, mas muitos já dependiam dele. E René Simões tinha razão.

“Estamos criando um monstro”, disse René, reprovando uma série de atitudes de Neymar, em especial após uma atuação do Peixe contra o Atlético-GO, quando o atacante respondeu grosseiramente o então técnico Dorival Júnior, que viria a ser demitido depois. Neymar era mais valioso para o Santos que o técnico. René tinha razão. E graças a esse alerta há três anos, o futebol ganhará um grande ídolo mundial.

Leia também:

Abrindo o Jogo da Série A: Guia do Brasileirão

Guia do acesso: Abrindo o Jogo da Série B

Alex para presidente

Neymar seguiu firme no Peixe, sem Dorival, mas teve as rédeas puxadas pelo pai e pela diretoria santista, mesmo tendo demitido o técnico. Nunca antes um jogador de futebol representou tanto para um clube – talvez só Pelé – como Neymar para o Santos de hoje, graças à habilidade na gestão da carreira do menino. O pai, também Neymar, realmente fez papel de pai o tempo todo. Mesmo os poucos deslizes dali em diante, como a chegada não programada de um netinho, foram muito bem contornados. Neymar afastou-se rápido da imagem arrogante que estava criando e passou a ser referência também fora de campo: educado, com bom media-training, ícone de uma geração.

O Santos, por sua vez, deixou claro como proceder. Tinha uma jóia e precisava dela, sabendo explorar o potencial do menino. Arrebanhou novos torcedores – aposte em um forte crescimento da torcida do Peixe nas próximas pesquisas e não se arrependerá –  valorizou sua marca, faturou em patrocínio e, claro, ganhou títulos. Há quem dirá que até mesmo Lucas fez o São Paulo FC faturar mais; engano. O Santos recebeu de várias fontes muitos outros valores enquanto teve Neymar. Recebeu benefícios que não se medem tão facilmente, como a manutenção de um ídolo. E ganhou muito em campo.

Que torcedor não gostaria que seu time segurasse o craque para ganhar uma Copa do Brasil? Um tricampeonato estadual? Uma Libertadores da América? Neymar deixará o dinheiro e alguns troféus. E sai deixando uma imagem muito positiva. 

Ele não virou o “monstro” que poderia – e muitos distorceram o aviso de René. Mas deixará o Brasil para virar Monstro em outra conotação. Será preparado para ser o próximo melhor do Mundo pelo melhor clube para isso. O Barcelona, “mais que um clube”, não jogará Neymar aos leões, esperando resultados tão já. Fará com ele e Messi o que fez com Messi e Ronaldinho: uma transição gradual, passando o trono e mantendo o padrão de excelência em futebol que faz com que o Barcelona seja o Barcelona.

Neymar hoje contraria a máxima de que toda unanimidade é burra, porque se mostra pronto para tal. René Simões tem sua parcelinha positiva de contribuição no sucesso presente e futuro deste monstro da bola e da mídia.

Siga Napoleão de Almeida no Twitter: @napoalmeida
Gostou do blog? Curta a FanPage no Facebook!