Movimento nos EUA também pede menos futebol… americano

Muitos jogos, muitas lesões, jogos ruins, placares baixos, overdose de jogos na TV. Você tem lido e ouvido muito sobre isso nos últimos dias, desde que a CBF lançou o calendário 2014, inchado ainda mais pela Copa e criticado publicamente por quase toda a imprensa, torcedores e até cartolas e jogadores. Mas desta vez não estamos falando do futebol e sim do football – ou futebol americano, para nós tupiniquins.

Um movimento iniciado a partir de uma crônica do jornalista Dan Levy pede menos jogos na NFL, a National Football League, gestora do esporte número 1 nos EUA. O alvo é claro: o Thursday Night Football, a rodada das quintas-feiras. Lá, como cá, há a influência direta da TV na manufatura da tabela e na sustentação da liga. No entanto, as semelhanças param no nome e nas críticas.

A NFL é a liga esportiva mais bem sucedida no Mundo. Sua decisão, o Super Bowl, detém os recordes de audiência em todo o planeta. O evento foi avaliado pela revista Forbes como o mais rentável e valioso da Terra, acima até de toda a Copa do Mundo de futebol. A temporada de jogos dura apenas seis meses – contra 11 no calendário brasileiro – sendo que o campeão de 2012, Baltimore Ravens, fez 20 jogos para chegar ao troféu. O Corinthians, atual campeão mundial de futebol, fez 59 jogos de janeiro até a partida de ida contra o Grêmio, pela Copa do Brasil.

Os esportes também são bem diferentes entre si. O football tem pouco foot (pé) em relação ao nosso futebol. E é também um esporte de muito mais impacto e lesões. Isso tem feito com que o esporte número 1 dos EUA perdesse muito campo para o esporte número 1 do Brasil dentro de seu próprio território. Um estudo apresentado no livro Soccernomics mostra que muitas mães norte-americanas têm proibido seus filhos de praticarem o futebol americano em função dos machucados constantes e dos preços dos equipamentos para a prática dele. Mas, claro, esse é outro papo.

Levy abre seu raciocínio dizendo: “há coisa mais ridícula do que pedir MENOS futebol”? A ideia é dizer de que o problema não está exatamente na overdose de futebol americano, mas sim na overdose de futebol americano RUIM. Basicamente, a mesma crítica que vem sendo feita no Brasil. Nos EUA, as rodadas são realizadas às quintas, sábados, domingos e segundas. A NFL e todo o esporte norte-americano é pensado em conjunto. Salvo em raros períodos, as ligas esportivas (MLS futebol, MLB basebal, NHL hockey e NBA basquete) não coincidem suas atividades.

No Brasil, o massacre pró-futebol é maior. Ainda assim os analistas acham que a overdose procede. “Não sou fã. Eu sei que é ótimo e isso não levará a lugar algum, vou seguir assistindo, mas não sou um grande fã da necessidade e da competitividade da liga para o Thursday Night Football“, disse o ex-técnico Billy Billick, hoje comentarista da rede de TV Fox, “A liga é míope em relação à saúde dos jogadores”.

A grande curiosidade entre os dois movimentos, brasileiro e norte-americano, é que o torcedor em geral está cansado do que mais ama. E isso por que o produto oferecido não é dos melhores, na contra-partida do crescente preço dos ingressos. Estaduais enfadonhos aqui, jogos ruins lá, na liga milionário americana. O torcedor-consumidor começa a despertar. E filme ruim não dá audiência.

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Exclusivo: por dentro do CT do Caju

Não são unanimidade no Atlético as estratégias criadas pela diretoria do clube, tanto para o futebol, quanto na comunicação. Silentes, funcionários e jogadores demonstram dois sentimentos: descontentamento e medo. Sim, medo: de demissão e perseguição. Entre comissão técnica e jogadores, de serem queimados no mercado.

Nos últimos dias, tive acesso a jogadores e funcionários do clube, que aceitaram falar comigo, sob a condição de preservar os nomes. São pessoas que estão descontentes com o andamento atual na gestão atleticana, mas, com medo de sofrerem alguma sanção por parte da diretoria, não querem se expor. Os detalhes do convívio dentro do CT foram passados pelos próprios, com a condição de manterem-se sem exposição.

A restrição à imprensa no Atlético não é criticada apenas pela própria imprensa, patrocinadores e parte da torcida; dentro do CT do Caju, atletas e funcionários reclamam da medida e mais: da fritura de alguns jogadores no mal-sucedido time Sub-23 – que, ressalve-se, é parte de uma interessante estratégia de pré-temporada, que se perde dentro do enclausurado CT. Falar com qualquer jornalista é ato passível de multa, garantem.

Um funcionário com cargo influente no CT do Caju falou do descontentamento da comissão técnica com a decisão, já consagrada dentro dos portões no Umbará, de que o time principal não entre nos jogos do Paranaense, nem mesmo no segundo turno. “Por mim, trabalharíamos com um time só e iria testando. Mas não tem conversa”, revelou-me, pedindo sigilo. O Atlético articula amistosos. Nesta semana, fará um jogo-treino contra um mistão do Figueirense (que tem jogo decisivo com o Criciúma dois dias antes). O clube procurou adversários na Argentina e no Chile e até cogitou-se jogar contra o Bahia e o Vitória, que estão parados após as eliminações na Copa do Nordeste, mas nada foi confirmado. “Até a Copa do Brasil vai ser assim.” Perguntado porque, mesmo com um cargo influente não é ouvido e aceita as determinações, o funcionário em questão respondeu que, apesar dos pesares a estrutura e projeção do clube são boas – leia-se também um bom salário e em dia.

Um dos jogadores é um dos mais experientes do elenco. Confidenciou que há muita pressão dentro do próprio CT pela má campanha do Sub-23 no Paranaense. “Os meninos ficaram, você sabe como é, as coisas não estão indo bem, tem pressão.” O mesmo atleta ainda falou do relacionamento com o presidente do clube, Mário Petraglia: “Ele é de lua. Um dia chega e diz que está tudo bem. No outro, fica nervoso, esbreveja, muda tudo, manda dois, três embora.” O jogador ainda relatou que não há muita liberdade de argumentação com o dirigente: “Ninguém quer bater de frente com ele. Todos têm medo.”

O mesmo atleta ainda disse que os jogadores que voltaram da Espanha gostariam de jogar algumas partidas no Paranaense. “Uma competição é totalmente diferente. Um jogo sim, um não. Jogador quer jogar, né?” Perguntado se o grupo procurou a direção, o entrevistado disse que não. “Se ele bota uma coisa na cabeça, vai até o final”, disse, referindo-se a Petraglia, que, segundo o mesmo, anda um pouco ausente do CT, diferente do que acontecia no dia a dia em 2012. “Ultimamente não [tem estado no CT], por conta do negócio da Arena. Ano passado ele aparecia no clube, fazia reunião. Mas esse ano, com a pressa pela obra, a gente sabe que ele tem viajado muito.”

A orientação para os jogadores não falarem com a imprensa foi transmitida pelo diretor de futebol Antônio Lopes. Até mesmo quem chega tem que entrar na dança. É o caso de Jean Chera. A promessa que já rodou por Santos e Flamengo chegou à Baixada na semana que passou. Durante as negociações, seu pai, Celso Chera, falou sobre as possibilidades. No mesmo dia, à noite, foi alertado pelo diretor das categorias de base do Atlético, Jorge Andrade, de que não poderia falar mais nada, “sob pena de melar as negociações.” Dias depois, foi a vez do empresário de Jonas, ex-Coritiba, Felipe Pereira ouvir o mesmo da diretoria atleticana, já que a negociação vazou na imprensa.

O experiente jogador que conversou com a reportagem explicou como tudo se deu dentro do CT. “Houve uma reunião. O presidente avisou: a TV não vai divulgar jogos, o valor é muito baixo, não vai dar lucro pro clube. Ninguém pode falar com a imprensa.” O site oficial é usado como meio de comunicação único – e, como toda fonte unilateral, dá apenas uma versão dos fatos.

Outro que resolveu desabafar é um funcionário com anos dentro do Atlético. Sem o contato com a imprensa, vê uma fritura em cima de quem está no Sub-23: “O Arthur Bernardes é bom técnico e boa pessoa. O time é que é fraco mesmo.” Em viagem pelo interior do Paraná nas rodadas do Estadual, a mesma pessoa confessou a pressão dentro do clube para que os profissionais joguem algumas partidas do campeonato. Sem poder expressar livremente e com ordens para que ninguém se relacione com a imprensa, a pessoa confessou ter receio até mesmo em ser fotografada ao lado de repórteres.

Quais os malefícios, afinal, ao Atlético? Toda empresa tem suas diretrizes e o gerenciamento “mão de ferro” da atual diretoria do clube é apenas um entre os tantos métodos de gestão, certo? Quase. Ao se criar um ambiente tenso – seja em função dos maus resultados do sub-23, seja em função das restrições de liberdade – o clube pode sentir os reflexos em campo.

O modelo autoritário inibe a criatividade, ferramenta-mãe em um esporte como o futebol. Os ruídos em comunicação, gerados pelo difícil acesso à informação e pelo descontentamento de quem quer falar, criam tumultos no ambiente. Grupos de atletas são heterogêneos, com muitas diferenças culturais e sociais entre as pessoas que os compõe. Em um ambiente mais aberto, isso já é problemático; que dizer de um local de trabalho com pouca liberdade de expressão?

Por fim, a auto-realização, a sensação de estima e de pertencer a um grupo são propulsores para o sucesso de uma equipe. Em um meio com a vaidade exacerbada como o futebol, onde cada atleta precisa ser mais que o outro dentro e fora de campo, não aparecer é prejudicial; não ser ouvido pelos comandantes é excludente. Como os valores no futebol são muito avaliados pelos resultados em campo, uma sequência de triunfos pode transformar tudo isso em mito, assim como a má fase reforça a tese. No entanto, acima disso, é importante refletir sem a moral torta movida pelos resultados: qual caminho o clube está tomando ao agir assim com seus próprios funcionários?

  • Arremate:

“Uma vitória em um Atletiba encobre muitos defeitos e uma derrota causa problemas que não existem”, disse o ex-jogador e vereador Paulo Rink antes do clássico de domingo. A reportagem acima foi apurada na semana do clássico e pretende discutir algo mais profundo do que um resultado isolado, seja de vitória ou derrota para qualquer lado. Por isso, a publicação dela se deu durante o andamento da partida – basta olhar o horário da publicação.