Jovem, Inglaterra estreia pensando na Copa 2022

Sterling, 19 anos, a cara da nova Inglaterra

Com 10 de seus 23 convocados com 23 anos ou menos, os “Three Lions” estreiam na Copa do Mundo Brasil 2014 contra uma Itália experiente, no grupo mais difícil do Mundial (completado com Uruguai e Costa Rica) e sem muitas expectativas em relação ao título, ao menos neste ano. Talentos como os meias Sterling e Wilshere e o atacante Welbeck chegarão à Arena Amazônia buscando uma identidade, na Copa que deve marcar a despedida de outra geração de quem se esperava muito, com Rooney, Lampard e Gerrard.

Menos pretensiosa que em outras Copas, a Inglaterra abertamente fala em adquirir experiência e ir o mais longe que puder. Com uma das três ligas de clubes mais badaladas do Planeta (junto com Alemanha e Espanha), os ingleses não conseguem, desde 1966, traduzir esse poder em título mundial. Por isso a cautela foi adotada no Brasil, reconhecidamente por eles o grande favorito. Já no Catar 2022, a ideia é outra.

Por isso, a principal revista esportiva dos ingleses, a Four Four Two, traçou um plano com 22 metas para 2022. Entre elas, buscar uma nova liderança para a equipe, não tentar copiar o estilo espanhol de jogo, aprimorar as bolas paradas (e olha que de chuveirinho ninguém entende mais que eles…), calar os críticos (receita de Felipão), sonhar realmente com a taça e, finalmente, não pensar hoje apenas em 2022.

Para 2014, são duas as grandes discussões inglesas. Primeiro, a humidade de Manaus para a estreia. Todos consideram um desafio. “Mas podemos lidar com isso”, afirmou Welbeck, cujo sonho é disputar a final no Maracanã, contra o Brasil, e com direito a cobrar pênalti: “Espero que possamos vencer no tempo normal (risos), mas se tiver pênalti, eu bato sim.”

Outro tema é Luis Suarez. O atacante uruguaio do Liverpool, uma das maiores torcidas inglesas, quase levou o time da terra dos Beatles ao título da temporada, perdido para o Manchester City nos detalhes. Todos conhecem o poder de Luisito – que será poupado na estreia Charrúa contra a Costa Rica para estar melhor contra Inglaterra e Itália – e isso faz com que o alerta esteja ligado. Principalmente para Sterling, o garoto de apenas 19 anos que costuma servir Suarez nos Reds. “Não me preocupa [enfrentá-lo]. Me excita”, afirmou a Four Four Two. Gerrard, o líder da atual seleção inglesa, vê em Sterling o principal jogador do grupo. Um Neymar à base de fish and chips? Veremos em até 8 anos.

Ingleses já rejeitaram a Copa

A volta ao Brasil, 64 anos mais tarde, marca o reencontro do país que inventou o futebol com o local em que, pela primeira vez, eles entenderam que a Fifa realmente tinha força e dominava o cenário do esporte no Planeta. Até 1950 a Inglaterra se recusou a participar das Copas, entendendo politicamente que, como inventores do futebol, deveriam serem eles os organizadores do principal evento no Mundo. A barreira foi rompida no Brasil, após o final da II Guerra Mundial e com o fim do recesso que impediu a realização de dois mundiais, em 1942 e 1946. 

Ingleses se rendem à Copa da Fifa

O painel acima está exibido no National Football Museum, o museu do futebol britânico, em Manchester. “A Inglaterra se junta a festa”, conta o cartaz, que relembra o Maracanazzo e aquela que é considerada a mãe de todas as zebras: a vitória dos EUA sobre os ingleses por 1-0, no Estádio Independência em Belo Horizonte, no choque entre colônia e colonizador, com os inventores do futebol caindo para um time de um país em que o esporte era incipiente e que só passou a se desenvolver após 1994.  

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Ingleses escolhem Curitiba para democratizar Copa 2014

“As Copas normalmente são sobre os jogadores de elite do mundo mas o nosso objetivo é levar a Copa até aqueles que são esquecidos. Crianças de rua ou os menos afortunados que não podem ir aos jogos.”

A frase é de Craig Robson, parceiro de Michael Gardner, dois ingleses fanáticos por futebol – e pelo Newcastle United –  que escolheram Curitiba para um projeto social durante a Copa 2014, para ensinar inglês e até futebol a crianças carentes brasileiras. Será a terceira edição do projeto que começou em 2010 na África do Sul, passou pela Polônia (sede da Euro 2012) e chega ao Brasil sob o nome “Project Curitiba”.

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Democratizar o esporte e promover educação durante um ano no Brasil é o ideal de ambos, que ficarão como voluntários no País já a partir de janeiro de 2012. O trabalho será em comunidades carentes, habitualmente encrustadas em ambientes com alta criminalidade. Mas nem os protestos recentes quanto à política brasileira, com imagens de violência chegando ao exterior, chegam a inibir a realização do projeto.

“Na verdade, achamos o máximo ver os brasileiros mostrar algo positivo sobre o País. Não estamos assustados com a situação, achamos até que isso cria uma oportunidade positiva de mudança”, diz Gardner. “Quando ouvimos sobre desnutrição, falta de educação e em contrapartida os gastos para Olimpíadas e Copa do Mundo, talvez a gente se questione se esse dinheiro não poderia ser melhor gasto. Felizmente o Brasil pode realizar uma fantástica Copa e também mostrar que as pessoas se preocupam com a política”, completa.

E por que Curitiba, entre as tantas sedes? Fanáticos por futebol e pela seleção inglesa, Robson e Gardner sabem que terão pouca chance de ver o English Team na capital paranaense, que receberá apenas uma partida de cabeça de chave entre os quatro jogos que a Arena sediará. “Curitiba tem um ótimo sistema de transporte público, é uma cidade multicultural e achamos que será mais fácil manter um projeto lá do que em outros centros como Rio ou São Paulo. Além disso, o clima é mais familiar para a gente”, conta Robson, referindo-se ao frio – um susto previsto aos europeus que chegarem ao Brasil achando que só encontrarão altas temperaturas.

“Nós não vamos acompanhar a Inglaterra em outras cidades. Torcemos para que ela jogue em Curitiba, mas poderemos ver os jogos pela TV. Estaremos no Brasil para desenvolver um projeto, então ver os jogos nos estádios não é o mais importante. Talvez tenhamos sorte da Inglaterra jogar em Curitiba!”, torce Gardner. Atualmente, ambos realizam o “Brazil Day” em algumas escolas em Newcastle, cidade no norte da Inglaterra, um dia com atividades com futebol e cultura brasileira para crianças inglesas. Os dois já estão estudando português.

Sobre o futebol brasileiro, Robson e Gardner demonstram um bom conhecimento. “Conhecemos Santos, Gremio, Fluminense, muito porque grandes jogadores que nós crescemos assistindo saíram deles para os clubes europeus”, diz Robson, citando Ronaldinho, Ronaldo, Romario e Rivaldo. “Conhecemos também o Atlético, o Coritiba e o Paraná. Somos sempre perguntados para quem iremos torcer”, diz Gardner, “E certamente iremos a alguns jogos. O Atlético tem um ótimo time jovem e seus torcedores são únicos. O Coritiba tem o Alex, que nós conhecemos do Fenerbahçe e os torcedores têm sido ótimos com a gente. Chamamos eles de “exército verde”. Mas só iremos contar nossa torcida por aí (risos).”

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O que o Mundo está falando da Copa das Confederações

O evento-teste da Fifa vai começar e o Brasil vive uma onda de protestos sociais, na expectativa de uma repercussão internacional, já que todos os olhos do planeta estão voltados ao País. No entanto, não é o que se vê nas manchetes deste sábado, pré-estreia da Copa das Confederações, nos principais jornais esportivos do Mundo. Nenhuma nota ou preocupação em destaque – ao menos antes da competição começar.

Argentina

Nossos vizinhos estão fora da Copa das Confederações, mas não deixam de opinar. “Toda sorte para o Brasil” é a manchete do Olé, que brinca com o tabu de que nunca uma seleção que venceu a Copa das Confederações ficou também com o caneco do Mundial no ano seguinte. Bem, há sempre uma primeira vez.

Uruguai

Os uruguaios ainda não estão 100% voltados a Copa das Confederações. A grande preocupação do Ovación Digital está na busca por uma vaga no Mundial: com sete pontos, a Celeste garante ao menos a vaga na repescagem. Olhos em 2014.

Espanha

O Marca, principal jornal esportivo espanhol, segue a linha de se preocupar mais com o Real Madrid que com a seleção local. Tanto é que a principal manchete é com o uruguaio Luis Suárez dizendo que “valerá o mesmo” se marcar ou não no encontro entre Celeste e Fúria.

Itália

Na Gazzeta Dello Sport, a preocupação é com Mário Balotelli, que com uma contratura, pode ficar de fora da estreia contra o México.

México

Chicharito Hernandes, do Manchester United, é o destaque do Central Deportiva, caderno de esportes do El Universal, que fala da preocupação da Itália com o artilheiro.

Japão

No Japão, o destaque do Daily Sports Online é a declaração de Neymar sobre os principais jogadores japoneses, Honda e Kagawa.

Nigéria

Nada de repercussão sobre a quase-desistência da Nigéria na Copa das Confederações: página virada, a expectativa do The Guardian Nigéria é para o duelo com o Taiti: “Sonhos do Tahiti contra as Super-Águias”.

Taiti

No Le Dépéche, a manchete é: “Todas as atenções para o Taiti”. Pelo menos é essa a impressão que eles têm da primeira grande competição do país, que se rotula como “peixe-pequeno”.

Alemanha

Um dos principais países do mundo do futebol, a Alemanha dá pouco destaque para a Copa das Confederações (a quem chama de ‘mini-copa’), mas questiona: “Porque o Taiti e não nós?”, discutindo a ausência da seleção local nesta competição – e os motivos disso.

Inglaterra

Um dos mais ácidos jornais do mundo, o The Sun da Inglaterra, passa longe dos problemas sociais brasileiros ao falar da Copa. A manchete faz um apanhado do que há de melhor e, para desgosto de Carlinhos Brown, agradece a ausência de Vuvuzelas e afins no “carnaval do futebol”.

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Repensando o futebol brasileiro

Esse post foi publicado no antigo blog, no portal Bem Paraná, em dezembro de 2012. Reedito aqui para levantar a discussão nacionalmente, através dos seus comentários. Obrigado a todos e bem-vindos a nova fase do blog!

Final de ano, perspectivas de um novo início em 2013. No futebol, é hora de por em prática o planejamento da nova temporada. Contratações, dispensas, pré-temporada, objetivos. Cada clube com a sua necessidade, conforme a disputa que tem pela frente. Essas são as boas notícias.

A má: dificilmente seu clube, se não for do grupo dos seis que mais recebem nas cotas de TV, principal renda dos clubes atualmente, será campeão. Salvo se tiver um mecenas por trás, caso do atual campeão Fluminense, amparado fortemente pela Unimed. E nesse balaio incluo gaúchos e mineiros. Duvida? Então veja a figura abaixo:

Essa é a atual distribuição de renda do futebol brasileiro, com base no repasse do principal apoiador, a Rede Globo de Televisão, detentora dos direitos de transmissão do Brasileirão. A imagem detalha o recebimento dos clubes do extinto Clube dos 13 (que abrangia 20 clubes) mais o Paraná Clube, simbolizando todos aqueles que estão no patamar do Tricolor. As cores dividem os grupos cotistas, que são de 5 tamanhos (alguns dos valores estão renegociados). Do amarelo ao vermelho, o que mais recebe ao que menos recebe. Todos dentro de um mesmo campeonato.

É preciso dizer que a Globo faz um bem enorme ao futebol nacional. A evolução nos contratos de TV nos últimos anos começou a projetar o Campeonato Brasileiro como um dos mais rentáveis do Mundo. Ainda está longe da Bundesliga (Alemanha) e da Premier League (Inglaterra), mas é um caminho. Não vou entrar aqui na discussão da exclusividade de transmissão, discussão do mercado de comunicação – convenhamos, o know-how da Globo é o melhor, ainda que (até mesmo pra mim, como jornalista) a diversificação de emissoras na cobertura pudesse ser benéfica. A discussão aqui é outra.

A própria televisão já ensaiou – e essa discussão ficou para trás, mas segue em voga com os torcedores – um pedido para que o Brasileirão volte ao mata-mata. E isso porque se ressente de mais emoção na competição. É um engano: se não há emoção no Brasileirão dos últimos anos, é porque a disparidade de arrecadação entre os clubes é enorme. É impossível que o Náutico, melhor clube fora do rol dos maiores recebedores (abaixo até mesmo de Atlético e Coritiba) supere 19 equipes em um torneio de regularidade e seja campeão.

Repare novamente na figura acima. Em amarelo, estão as posições de destaque; em azul, posições confortáveis. Em laranja, posições compatíveis e/ou aceitáveis. Em vermelho, posições ruins – e ainda pintou um preto na tabela. Repare que na divisão do Botafogo para o Atlético – linha que divide os tradicionais 12 dos demais – um lado é quase todo vermelho, outro quase todo amarelo. Não coincidentemente, quem mais recebe contra quem menos recebe. Em tempo: Botafogo e Atlético-MG, com todo o respeito que as belas histórias merecem, não são maiores que Atlético, Coritiba, Sport e Bahia. O novo ranking da CBF atesta isso.

O Corinthians, que iniciou como centro dessa discussão na coluna desta quarta no Metro Curitiba, vale quanto pesa. A torcida corintiana, bem como a do Flamengo, são as maiores do Brasil. Eles atraem mais interesse, mais público, vendem mais PPV, merecem ganhar mais. E assim sucessivamente. A ressalva é que essa não deve ser a única maneira de se distribuir o bolo.

Tenho tido a oportunidade de transmitir jogos do Campeonato Alemão pelo Terra (fica o convite, é ao vivo e gratuito) e, a despeito da liderança isolada do Bayern, a competição toda é mais acirrada. Aquele equilíbrio que o brasileiro gosta de propagar, hoje acontece muito mais na Alemanha. Se o ano do Bayern é excepcional, o atual bicampeão é o Borussia Dortmund e Schalke 04, Bayer Leverkusen, Eintracht Frankfurt e Sttutgart se permitem sonhar com a taça ou ao menos uma vaga na Liga dos Campeões – coisa que, no Brasil, tem se restringido a poucos pela Libertadores, obviamente.

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A culpa passa longe de quem paga. É, na verdade, de quem vende: os clubes. Os que estão no topo, obviamente, não se incomodam com a situação. Muitas vezes estão amarrados a dívidas e antecipam receitas, se comprometendo mais e mais. Mesmo no seleto grupo dos 12, já vemos clubes sentindo os efeitos: as campanhas do Botafogo são apenas regulares e o Palmeiras, não fosse a conquista da Copa do Brasil (outro estilo de competição) teria uma avaliação recente desastrosa. No entanto, todos são complacentes com a situação. O seu clube também. Os efeitos são sentidos até mesmo na Seleção Brasileira, já não tão querida pelos torcedores em boa parte do Brasil pela falta de identidade e que, com o desamparo aos clubes menores, passará a ter menos fontes para seus craques.

Ok, até aqui, nenhuma novidade (e obrigado pela paciência na leitura). E qual seria uma solução? O exemplo mais democrático está na Inglaterra, liga mais rentável do Mundo, vendida em todo o Planeta. A arrecadação de TV é dividida de três maneiras: 70% igualmente entre os clubes; 15%, pelo retorno de audiência; outros 15%, pela classificação dos clubes no ano anterior. Além disso, os clubes que sobem da segunda divisão para a primeira recebem um auxílio especial na primeira temporada. A intenção? Deixar o campeonato competitivo. Claro, o poderio do Manchester United e dos dólares russos do Chelsea e árabes do Manchester City tem restringido a disputa a esses três. Mas aí é atrativo individual de cada um que, como receita de sócios e camisa, passa pelo mérito de cada um.

Para esse tratado, fiz um estudo sobre como seria a distribuição de renda no Brasil usando o modelo inglês. Os cálculos não são precisos (matemática nunca foi o meu forte) mas a distorção é pequena – algum leitor mais hábil com números pode ficar a vontade para me corrigir, especialmente na divisão por audiência. A base do cálculo foi a tabela da Premier League que está nesse link. Nela, os últimos lugares da tabela foram ocupados pelos clubes que subiram para a Série A em 2012. Observe:

A diferença entre o que receberia o Corinthians para o que receberia o Vitória, do maior para o menor valor, seria de apenas 21 milhões. O Corinthians continuaria recebendo mais, justamente, e continuaria forte, aproveitando-se ainda dos valores que recebe pela camisa, sócios, etc. Mas o campeonato poderia ser mais equilibrado. A distância para o Vitória seria, digamos, mais honesta. Afinal, o que se espera de uma disputa é que ela seja equilibrada, o que gera interesse. Não à toa, as ligas norte-americanas de basquete e futebol americano são as mais lucrativas do planeta entre todos os esportes. O segredo? O time com pior desempenho no ano anterior é o primeiro a escolher o melhor calouro no draft. Equilíbrio, senhores.

Ainda há mais um fator relevante a se discutir: as dívidas dos clubes com o Governo. Na Europa, a punição é severa. Os tradicionais Napoli e Fiorentina faliram e tiveram de começar em divisões inferiores italianas – o Napoli se recuperou a ponto de comprar o CNPJ (ou como for na Itália) antigo. O Rangers, um dos dois gigantes escoceses, vive esse drama agora. Mesmo sendo um Flamengo da Escócia, foi à falência recomeçou na 4a divisão. Sem perdão. Aproveitei o estudo para fazer um comparativo entre a principal receita dos clubes e a dívida pública, divulgada pela Revista Galileu. O Sport foi o único clube do qual não encontrei dados, mesmo em outras fontes. As cores estão divididas em: vermelho para dívidas com duas vezes ou mais da principal receita, laranja para dívidas pouco maiores ou ainda dentro de um limite suportavel, azul para as dívidas pequenas e amarelo para a única exceção, que segundo a reportagem tem até valores a receber:

A última notícia é de que Governo e CBF estudam punir os clubes devedores. Seria um esvaziamento e tanto na Série A – mas é aguardar pra ver. Diante da ideia de se modernizar o futebol nacional, seria um passo e tanto.

Paraná Clube na Bolsa de Valores: entenda os riscos e as possibilidades

 

A partir de Abril, o Paraná Clube será o único clube brasileiro a estar com ações na Bolsa de Valores. A Bovespa vai comercializar as ações do Tricolor dentro de um investimento já existente: a Atletas Brasileiros Sociedade Anônima. Será uma inovação mundial: ao contrário do que se faz na Europa e em outros clubes na América do Sul, o Paraná disponibilizará apenas os direitos econômicos dos atletas do clube. Conversei com Alexandre Azambuja, o empresário responsável pela holding que ingressará o capital do Paraná na Bolsa. Ele explicou a ideia:

Blog: Quando as ações estarão disponíveis? A que preço médio?
Azambuja: Possivelmente no começo de Abril. Estamos aguardando algumas liberações. O Paraná entra num investimento já pronto, chamado Atletas Brasileiros S/A, mas ele vai ter controle. O preço alvo da ação, imagina-se, será R$ 2,40 em lotes de cem ou mil. São 5 milhões de ações, na verdade é a Bovespa quem vai orientar quantos lotes. No caso, 5 mil vezes 1000 ações, vezes os R$ 2,40 – um pacote sairá algo em torno de R$ 2.400,00. O volume será 10% do total de ações. A AB S/A* vai comprar todos os 59 jogadores do Paraná. Num segundo momento, vamos buscar outros jogadores.

*abreviatura usada no texto para Atletas Brasileiros S/A

B: Jogadores que poderão vestir a camisa do Paraná?
A: Não necessariamente. Pode-se eventualmente adquirir direitos de um atleta, ele vai pro clube, mas o técnico decidirá quem joga. Além disso, podemos ter direitos de atletas que nem passem pelo Paraná, pelo atrativo de mercado.

B: Comprar os direitos do Neymar, por exemplo.
A: Isso. Ele somaria a carta. Mas a ideia central é outra, é exportar. Vamos montar escritórios na Ucrânia, Rússia, Portugal, Coreia do Sul, China e Argentina. Vamos buscar jogadores e fazer a ponte. Chama-se off taker. Você compra direitos e ganha a preferência.

B: E dos jogadores que hoje são do Paraná, qual fração irá pra Bolsa?
A: Cem por cento do percentual que cabe ao Paraná. Todos os direitos que seriam do Paraná serão transferidos pra AB S/A. O que eventualmente for de empresários, de outro clube, não.

Goleiro Luiz Carlos é um dos que irão compor a carta na Bolsa de Valores

B: Quem decide quando transferir o atleta de clube?
A: A venda é sempre feita pelo clube. Como será previamente alienado à companhia, a mesma toca o negócio. Na verdade, o Paraná poderá fazer duas coisas quando essas vendas acontecerem: distribuir o lucro entre os acionistas ou comprar mais jogadores. O Paraná decide quando vender, quem. Aí elimina-se a pressão entre investidor e clube.

B: Quanto, do total da carta de ações será de direito do Paraná?
A: Dois terços, digamos 66% do total.

B: E se as finanças do clube apertarem?
A: Nesse caso, quando o Paraná precisar de dinheiro, vende ações. É claro que também pode vender jogadores. Aliás, eles serão vendidos, mas o clube pode esperar a melhor hora.

B: Assim como na Europa, o clube disponibilizou patrimônio físico?
A: Não. Nenhum patrimônio do Paraná entrou. O único ativo é o direito econômico. Hoje, o elenco do Paraná é avaliado em R$ 380 mil, contabilizados no balanço como investimento. É um ativo intangível. Quando o Paraná transferir pra AB S/A haverá a cotação em bolsa e essas ações vão ser contabilizadas nos ativos. A gente espera que na precificação inicial valha 63 milhões de reais.

B: Qual é o universo total de ações da Atletas Brasileiros?
A: A companhia tem 45 milhões de ações. Vão entrar mais ações e proporcionalmente o percentual será menor. A companhia vai emitir novas ações para entrada de novos acionistas.

B: Como o Paraná vai lucrar?
A: Vendendo os jogadores ou ações. E há um compromisso duradouro no contrato. A gente negociou fortemente com a direção que se o Paraná sair do negócio, tira-se o interesse do investidor. O clube é quem tem os direitos, o que dá uma segurança jurídica ao investidor. Se você compra os direitos e o clube despede o jogador, por exemplo, seu dinheiro virou pó. E ao invés de ser um banco financiando vários clubes, era melhor uma parceria com um clube só, que se comprometesse até o fim. É uma engenharia diferente.

B: E se as coisas apertarem para o Paraná a ponto do clube vender ações até se tornar acionista minoritário? Pode perder o controle do próprio time?
A: A relação fica normal entre investidor e clube. Se inverter, digamos, se o Paraná tiver 30% e os investidores 70%, segue normal. Porque o clube segue gerando atletas na base e segue alimentando a companhia, mesmo não sendo mais controlador. E, em todo, caso vai ter embolsado o dinheiro da venda das ações. Isso, na precificação inicial, vai equivaler à metade do patrimônio do clube, que hoje é avaliado em R$ 124 milhões, sem vender nenhuma sede.

Sede Tarumã, que irá a leilão: ações na Bolsa prometem alcançar metade do valor do patrimônio do clube já na largada

B: Mas pode haver um grupo controlador externo então…
A: Poderá haver isso, mas só se pode comprar ações ofertadas. Para alguém tomar o controle do clube, o próprio Paraná tem que por elas a venda. Não tem como tomar o controle no take over (termo usado quando há mais sobrando ações no mercado), o Paraná está seguro e não vai perder, a não ser que ele venda. E mais: quando alguém entra comprando pesado, o preço sobe, então o clube vai lucrar.

B: Ainda assim, você diria que isso seria prejudicial?
A: Os investidores vão querer o sucesso do clube. O maior sentido dessa engenharia é o Paraná subir pra Série A. Os atletas vão ter vitrine maior, valer mais. O interesse do investidor é o mesmo do torcedor.

B: Quem poderá comprar?
A: Qualquer pessoa que tiver conta em corretora. Qualquer banco que tenha corretora, você pode buscar via home broker ou em uma operadora.

B: Quanto tempo deve-se manter os papéis?
A: No mínimo pelo primeiro ano, vai ter viés de subida. Vamos captar o dinheiro e abrir os escritórios fora, comprando jogadores – não necessariamente jogarão no Paraná. A tendência é que o preço suba. Mas isso pode ser melhor dito por uma consultora.

B: Quantos clubes têm esse tipo de ação no Brasil?
A: É inédito no Mundo. Os clubes que tem capital aberto na Europa, eles envolvem tudo com o clube, desde verba de TV, patrimônio e mais. Aqui, só os direitos econômicos.

B: Qual a relação entre os resultados de campo e o crescimento das ações?
A: Em qualquer lugar do Mundo, todos os clubes tem essa relação. Se o clube vai bem, ações sobem. Se vai mal, caem. Isso vai junto no pregão da bolsa. Pode-se, de repente, ter um investidor torcedor, que vai manter a acão independente do resultado.

  • O histórico na Europa

Os ingleses foram pioneiros. Em 1983, o Tottenham Hotspurs foi o primeiro clube do Mundo a entrar na Bolsa de Valores. Hoje, a crítica principal gira na administração dos fundos gerados pela Bolsa: os fundos entram para dar lucro aos acionistas, mas perdem-se nos salários exorbitantes que são pagos aos jogadores – principal moeda dos clubes no mercado de ações. Trinta anos depois, mais da metade dos clubes da Premier League já se declararam insolventes em algum momento – fato que alguns bilionários russos e árabes aproveitaram para adquirir os clubes, como Chelsea, Manchester City e o próprio Tottenham.

Ao todo são 24 clubes europeus listados na bolsa. Entre os grandes, a Juventus da Itália, o Lyon da França e o Benfica de Portugal. Na América do Sul, destaque para os chilenos Colo-Colo, Universidad de Chile e Universidad Católica, que chegou a levantar 25 milhões de dólares na bolsa em 2009. Com o dinheiro, foi bicampeão chileno em 2010-11.

Mas nem tudo são flores. Recentemente o Liverpool anunciou um prejuízo de 40,5 milhões de libras (118 milhões de reais). Uma das soluções dos donos do clube foi jogar novas ações no mercado, adquiridas em grande parte pelos próprios donos, que consideraram a medida um “empréstimo sem cobrança de juros.” No entanto, o clube passou a ser 100% dos investidores. Isso não impediu, no entanto, um corte de salários na casa dos 13,5 milhões de libras (40 milhões de reais) entre os jogadores. O Liverpool, maior vencedor da Liga Inglesa até 2011, não vence o campeonato desde 1990 (quando venceu o 18º), sendo ultrapassado pelo Manchester United, que hoje tem 19 conquistas.

Liverpool e Manchester United tomaram caminhos opostos depois da entrada no mercado de ações

O Manchester United é, aliás, a exceção mais bem sucedida. Em 1990, o Manchester United ingressou na bolsa. Esteve nas mãos de Rupert Murdock, dono de grupos de comunicação nos EUA. Mas a guinada veio com a compra da maior parte das ações em 2003 por outro norte-americano, que ampliou a ação na bolsa no mercado dos EUA – o milionário Malcolm Glazer, que também é proprietário do Tampa Bay Bucaneers, time de futebol americano campeão da NFL em 2003, sediado na Flórida. Um dos segredos foi o investimento dos fundos na melhoria do Old Trafford, o estádio dos Red Devils.

Outro segredo atribuído por especialistas é o fato de 98% das ações atualmente pertencerem a Glazer, que controla tudo referente ao Manchester Utd. Com menos influência, ele pensa o negócio do fio ao pavio – e trabalha pelo sucesso dele. É o perfil do gestor, que cancelou o contrato com a bolsa, assim como Chelsea e Man. City, comprados na totalidade. Glazer, campeão 5x da Premier League, 1x da FA CUP, 3x da Copa da Liga, 1x campeão da Liga dos Campeões e 1x Campeão Mundial, não escapou, porém, da pressão da torcida.

Revoltada com a compra do clube pelo capital estrangeiro já em 1998, quando Murdock se tornou acionista majoritário, os torcedores criaram um fundo para compra de ações, o ShareHolders United. O grupo teve problemas internos e, obviamente, não conseguiu concorrer com a força do dinheiro dos norte-americanos, até que Glazer adquiriu 98% das ações.

Outro grupo, ainda mais revoltado com a compra do MUFC por Glazer, fundou um novo time: o FC United of Manchester, com as mesmas cores do United original. Fundado em 2005, começou na 9ª divisão inglesa e atualmente disputa a Unibond Premier League, um campeonato regionalizado que equivale à 7ª divisão – dá acesso a primeira das ligas profissionais do futebol inglês.

Abrindo o Jogo – Coluna no Jornal Metro Curitiba de 29/08/2012


Pela volta da competitividade

Chegamos à metade do Brasileirão 2012 e olhar para a classificação é quase o mesmo que olhar a divisão de cotas pagas pelos direitos de TV. A exceção do intruso Náutico (11º.), os 12 primeiros são aqueles que estão no eixo da grana: RJ-SP-MG-RS. O Palmeiras, que está fora, está também na Libertadores via Copa do Brasil. Os times citados tem divisão interna discrepante também. Atlético-MG e Botafogo, por exemplo, estão mais próximos de Atlético e Coritiba que de Corinthians e Flamengo. Mas os 12 recebem mais, aparecem mais, conseguem mais público, melhor patrocínio. E a roda vai girando, abrindo ainda mais o abismo. Desde 2003 (início dos pontos corridos), são seis títulos paulistas, dois cariocas e um mineiro. Rara exceção, o Atlético foi vice em 2004, posto que foi ocupado no período citado quatro vezes pelos gaúchos, duas vezes por paulistas e uma vez pelos cariocas. Traduzindo: é quase impossível furar o bloqueio assim, esvaziando estádios e diminuindo o interesse nacional, exceto pra quem está dentro. Caminho para a falência do principal esporte nacional.

Mas é o regulamento que está errado?

Sinceramente, não. Sem dúvida a fórmula de pontos corridos aponta o melhor. É básico: quem somar mais pontos depois de enfrentar todos os times dentro e fora dos próprios domínios, é mesmo superior. O problema está na formulação desse melhor time. O garimpo e a montagem dos elencos são desiguais. Rápido exemplo: o Coritiba descobriu Leandro Donizete na Ferroviária-SP; não teve como o segurar em uma melhor proposta. Hoje no Atlético-MG, é líder do campeonato ao lado de Ronaldinho, Jô, Victor, selecionáveis atraídos pela grana, e comanda a melhor defesa da competição – o Coxa tem a pior. E a distância vai aumentar em breve: com os estádios da Copa servindo também aos “gigantes”, o abismo será tão grande que não haverá mais como alcançar. São mercados desperdiçados e que serão quase falimentares, como Paraná, Bahia, Pernambuco – isso só para ficar entre os que têm campeões brasileiros entre si. Na Copa do Brasil, em fases eliminatórias, os clubes médios tem mais chance. Por isso, sem mudar o sistema de cotas, que volte o mata-mata.

A mudança: como e por quê

É claro que o Corinthians, por exemplo, merece ganhar pela exibição mais que o Atlético: tem mais torcida, dá mais audiência. Mas a divisão do bolo não precisa ser toda baseada nisso. Na liga mais rica do mundo, a inglesa, 56% do dinheiro é dividido igualmente entre os 20 clubes da elite, 22% do valor se baseia na classificação do ano anterior e outros 22% são divididos conforme o interesse midiático. O campeonato inglês é o mais forte entre os europeus e mesmo os clubes médios, como o Tottenhan, conseguem ter mais arrecadação que grandes espanhóis, como o Atlético de Madrid, que fica à margem de Barça e Real em negociação parecida com a brasileira. É bom para o futebol num todo e premiará a competência. Quem dará o primeiro passo?