E se a Copa de 1942 tivesse sido realizada?

Enquanto a Copa vive seu último recesso, os blogs Abrindo o Jogo e Futebol Clube propõem a você, leitor, um exercício de imaginação: e se a Fifa tivesse mantido a realização da Copa do Mundo para 1942, a despeito da II Guerra Mundial?

– Leia também: E se a Copa de 1946 tivesse sido realizada?

A história já está escrita, mas é possível imaginar quem poderia ganhar a Copa. E as notícias não são animadoras: dois dos grandes rivais brasileiros, Argentina e Itália, dominavam o período.

Para esse exercício, é preciso ter alguma base histórica. Uma pesquisa em cima dos principais times da época já daria uma boa noção de quem seria sede daquele Mundial. Com a Europa toda ocupada por tropas, a ideia da Fifa era trazer a Copa  para a América do Sul já em 1942. Falava-se em dividir a realização entre Argentina e Brasil. Podemos imaginar, no entanto, que como a Copa de 1950 ocorreu no Brasil – que era o país mais pronto para receber o evento – e que apenas em 2002 a Fifa aceitou dividir a realização, o Mundial de 1942 ocorreria em terras tupiniquins.

Treze equipes participaram da Copa em 1950, um número menor que as 16 que jogaram o torneio em 1938. Assumindo que 16 times jogariam o Mundial de 1942 no Brasil, é preciso definir a distribuição das vagas. Sul e norte americanos seriam maioria, com 9 equipes. Brasil, Argentina (que não jogou em 50), Uruguai, Chile, Paraguai e Bolívia seriam os candidatos naturais na América do Sul, pelo desempenho na época; EUA, México e Cuba (que jogou a Copa de 38 na França), viriam pela América do Norte.

Cubanos na Copa em 1938: iriam também em 1942?

Em situação normal, os europeus teriam mais vagas que os americanos, mas a guerra consumia forças. Assim sendo, é possível imaginar que as demais 7 vagas seriam cobertas pelo Velho Continente em 1942. Asiáticos participaram do Mundial de 1938 com a Indonésia e voltariam em 1954, com a Coréia do Sul; africanos, em 1970, com Marrocos. E um representante da Oceania só apareceu em 1974, com a participação da Austrália.

O conhecido perfil político da Fifa, que tinha Jules Rimet a frente, ajudaria a contemporizar os ânimos e garantir presenças importantes na Copa. Porém, no contexto da época, é preciso lembrar que 1942 foi o ano em que o Eixo teve maior domínio territorial no planeta, o ano em que os Aliados começaram a resposta contra os comandados de Hitler. Assim sendo, é possível imaginar que Alemanha e Áustria, unificadas, mandariam um time “Ariano”, na tentativa de Hitler mostrar sua superioridade também no Esporte; França, Holanda e Bélgica estariam fora, dominadas pelos alemães.

A Itália, ocupada pela Alemanha, mas com afinidades políticas, mandaria também seu poderoso time. Hungria, Tchecoeslováquia e Iugoslávia, aliados políticos de Hitler também participariam, com bons times. A Suécia seria outra participante, já que seu campeonato nacional seguiu acontecendo. Por fim, com um empurrãozinho dos EUA, a Inglaterra anteciparia sua primeira participação na Copa, depois da recusa inicial. A ideia seria ter nos inventores do futebol uma resposta em campo às pretensões arianas de Hitler. No entanto, sem a realização da Liga Inglesa nos anos entre 1939 e 46, o time não seria dos melhores. A URSS, ocupada com a invasão das tropas nazistas, acabaria por não participar.

As cidades-sede seriam seis, como em 1950. Cinco no sul-sudeste e uma no nordeste. Recife, com a Ilha do Retiro inaugurada em 1937, faria uma reforma para 20 mil lugares – como fez para 1950 – no estádio do Sport. Porto Alegre teria o Estádio dos Eucaliptos, do Inter, inaugurado em 1931 e reformado de 10 para 30 mil lugares. Curitiba, ainda sem a Vila Capanema, apostaria no Belfort Duarte – que viria a ser o atual Couto Pereira – por ser maior e mais confortável que o estádio da Baixada. O campo do Coritiba ganhou iluminação em 1942, ano da suposta Copa.

Em Minas, o Independência ainda não estava de pé, tampouco o Mineirão. A Fifa sugeriria excluir Belo Horizonte da Copa, o que seria rapidamente descartado pelo Governo. A solução seria ampliar de 5 para 20 mil lugares o estádio do Atlético Mineiro, Presidente Antônio Carlos, no lugar onde hoje existe um shopping. O Rio de Janeiro ofereceria ao Mundial o estádio de São Januário, do Vasco, então o maior do País. Mas, apesar do carioca Luiz Aranha ser o presidente da CBD, a final seria em São Paulo, que contaria com o recém-inaugurado estádio do Pacaembu (1940) para 70 mil pessoas.

Pacaembu, e não o Maracanã, o principal estádio para 1942

A Seleção Brasileira a ser convocada pelo então técnico Adhemar Pimenta (o mesmo que convocou o time para a Copa América naquele ano no Uruguai) seria basicamente montada por times de Rio e São Paulo, exceção feita ao goleiro Caju e ao lateral Joanino, ambos do Atlético Paranaense, e também ao atacante Paulo Florêncio, do extinto Siderúrgica, de Minas. Jayme de Almeida, do Flamengo, pai do ex-técnico flamenguista, e jogadores mais badalados como Domingos da Guia (Flamengo), Affonsinho e Tim (Fluminense) e Brandão e Servillo (Corinthians).

Aquela equipe começou o ano arrasando o Chile (6-1), mas perdendo para o Uruguai (0-1) e Argentina (1-2) no caminho, no Sul-Americano. No entanto, na Copa, a realidade poderia ser outra. Como dono da casa, o Brasil cresceria na competição.

A Argentina viria fortíssima. A base seria “La Máquina” do River Plate, onde surgiu Di Stefano, e que ganhou os títulos nacionais de 1941, 42 e 45. O craque era Adolfo Pedernera. A própria Argentina venceu muito naquele período. Campeã da Copa América em 1941, 45 e 46, o time dos Hermanos era uma potência. Como a Itália. Possivelmente seriam os times a disputar aquele título. Bicampeã do Mundo entre 1934 e 38, ganhou também as Olimpíadas de 1936. Chegaria montada como a equipe mais temida do Planeta na ocasião, com jogadores da Roma e do Torino como base. O consórcio Alemanha-Áustria teria como base as equipes do Schalke 04 (time da preferência de Hitler) e do Rapid Viena, os dois últimos campeões nacionais. Também viriam disputar o título o Uruguai, campeão sul-americano justamente em 1942, e a Hungria, vice-campeã em 1938. A Suécia, que viria a ser campeã olímpica em 1948, poderia correr por fora.

O regulamento da época previa quatro quadrangulares com o campeão passando para o quadrangular final. Brasil, país sede, Uruguai e Itália, campeões do Mundo seriam cabeças de chave facilmente. O quarto cabeça de chave, no entanto, causaria polêmica. Alemães e ingleses queriam a honraria, cada um com sua filosofia amparada na II Guerra Mundial. Como a fascista Itália já era cabeça de chave, Rimet prestigiaria a Inglaterra, mas não sem armar uma surpresa: ingleses e alemães estariam no mesmo grupo.

Sem ser considerado favorito, o Brasil, como força intermediária, receberia a vice-campeã Hungria em sua chave. Além dos dois, Cuba e Iugoslávia fariam parte dessa chave. O jogo de abertura marcava o encontro brasileiro com a Hungria, em São Januário, no Rio. Ajudado pelo calor, o Brasil venceria por 3 a 1 ao time envelhecido de Cseh, Szabo, Gyorgy Sarosi e Zsengeller. A Iugoslávia venceria Cuba em Belo Horizonte por 2 a 1 e empataria com a Hungria em Porto Alegre 2 a 2. Brasil e Iugoslávia jogariam em Recife, com nova vitória brasileira, 2 a 1. Em Curitiba, a Hungria, faria 9 a 1 em Cuba e, com 3 pontos, já não alcançaria mais o Brasil, que tinha 4 – as vitórias valiam 2 pontos. São Paulo veria a terceira e empolgante vitória do Brasil, sobre Cuba, por 7 a 0.

Pensando em fortalecer a Europa, a Fifa colocaria Uruguai e Argentina no mesmo grupo. A eles se juntariam Suécia e EUA. Em Porto Alegre, o Uruguai atropelaria os EUA por 6 a 0, enquanto os argentinos apenas empatariam com os suecos em BH, 2 a 2. Os americanos perderiam também seu segundo jogo, no Rio, para a Suécia, 0 a 3. E São Paulo assistiria o duelo Sul-Americano. Ao contrário do que aconteceu em 1942, na Copa América em Montevidéu, o campo não favoreceria a Celeste Olímpica e a máquina argentina faria implacáveis 4 a 1 nos rivais, que ainda empatariam com a Suécia em Porto Alegre, 3 a 3. No Rio, a Argentina faria 8 a 2 nos EUA e seria a classificada nessa chave.

A Itália, então bicampeã, estaria em uma chave com Bolívia, Chile e Tchecoeslováquia. A estreia, em Curitiba, seria um passeio nos bolivianos: 7 a 1. Chile e Tchecoeslováquia fariam um jogo memorável em Recife, com triunfo chileno por 5 a 4. Seria a primeira zebra das Copas. Em São Paulo, a Itália não passaria de um empate com a Tchecoeslováquia por 2 a 2, decepcionando seus migrantes na capital paulista. A Bolívia seria vitima de nova goleada, 5 a 0, em Porto Alegre. Vivo na disputa, o surpreendente Chile jogaria com a Itália no Rio de Janeiro, por um empate. A derrota apertada viria apenas no fim: 1 a 0 para os bicampeões mundiais, gol de Valentino Mazzola, do Torino. A Tchecoeslováquia se despediria da Copa em Minas, vencendo a Bolívia por econômicos 3 a 1.

A grande expectativa estaria pelo grupo com Inglaterra e Alemanha. A Fifa marcaria esse jogo para a última rodada, em São Paulo. No caminho, os ingleses estreando vencendo o México em São Paulo, 3 a 1. Em Curitiba, no campo do “alemão” Coxa, o consórcio Alemanha-Áustria faria 8 a 0 no Paraguai. Os paraguaios, porém, complicariam a vida da Inglaterra. O jovem time montado as pressas, já que a Liga Inglesa estava parada desde 1939, apenas empataria em Recife com o time guarani, 1 a 1, enquanto que os alemães atropelariam também o México, 6 a 2, jogando no Rio de Janeiro. No entanto, não seria bom aos planos da Fifa um título alemão. Originalmente marcado para Porto Alegre, o jogo entre alemães e ingleses foi transferido para Recife, com uma suposta dificuldade de transporte sendo alegada pelos britânicos. Considerando-se superiores, os germânicos fizeram a viagem, pegando uma Inglaterra descansada. E a zebra surgiria: 1 a 0 para os ingleses, que se defenderiam 90 minutos. Com 5 pontos contra 4 da Alemanha, a Inglaterra chegaria ao quadrangular final. México e Paraguai teriam seu jogo, marcado para Belo Horizonte, cancelado.

O quadrangular então reuniria Brasil, Argentina, Inglaterra e Itália. Os jogos seriam apenas entre Rio e São Paulo. Na estreia, no Rio, Tim comandou o ataque brasileiro contra a combalida Inglaterra, que já havia feito o que tinha a se fazer nesse suposto mundial. Vitória por 3 a 0 e festa brasileira. Ainda mais quando se viu o empate entre argentinos e italianos, 3 a 3, no Pacaembu. A Argentina jogaria em São Januário contra a Inglaterra e também venceria, 4 a 1, com Juan Carlos Muñoz, do River,  marcando os 4 gols. Em São Paulo, seria a vez de Caju e Servillo brilharem. A Itália pressionaria, mas pararia na Majestade do Arco. E com dois gols do corintiano, os paulistas viram a vitória brasileira, 2 a 0.

A decisão aconteceria um dia depois de mais um brioso jogo inglês contra os então bicampeões. Com um surpreendente 3 a 2, a Inglaterra chegaria ao 3º lugar, a frente a Itália dominada pelo fascismo, e aplicaria um golpe filosófico no Eixo. Mas os olhos do futebol estavam de olho no clássico do Pacaembu. O Governo Getúlio Vargas incentivava o nacionalismo, mas a empolgação seria menor do que a vivida em 1950.

Setenta mil pessoas assistiriam ao duelo. Em janeiro de 1942, em Avellaneda, a Argentina fez 5 a 1 no Brasil e venceu a Copa Rocca. A derrota ainda estava muito viva na cabeça dos brasileiros. Ficaria ainda mais quando Adolfo Pedernera marcasse 1 a 0 para os alvicelestes. O jogo seguiu tenso, com Caju trabalhando mais que o desejado. Nos seis confrontos entre os times na época (de 1940 a 42), foram 4 vitórias argentinas e apenas uma brasileira, o que demonstrava como seria dura a luta do Brasil naquela Copa.

Mas o Pacaembu veio abaixo quando Jayme de Almeida cruzou para Brandão empatar. Ao contrário da euforia de 1950, o Brasil não contava com o título e precisava de superação para segurar a esquadra argentina. Sem o champanhe no vestiário, os brasileiros correram até o fim e seguraram a força dos vizinhos, 1 a 1.

A tensão tomou conta do Pacaembu na cobrança dos pênaltis. De maneira competente, um a um, todos foram batendo e convertendo. E então viria Hermínio Masantonio. O maior artilheiro da história do Huracán teria a chance de abrir 5 a 4 no Brasil, jogando a pressão para Tim. Masantonio pararia no vôo certeiro de Caju, permitindo aos donos da casa a chance de ganhar a taça. Tim, calmamente, colocou a bola no fundo da rede:  (após dois avisos de dois leitores mais atentos que o escritor, mudamos o rumo da prosa: não tem pênaltis, o empate já bastava) na reta final da partida. A Argentina era só pressão. Hemínio Masantônio, maior artilheiro da história do Huracán, teria ainda uma grande chance na cara de Caju, mas não superaria o goleiro brasileiro. No final, Tim ainda cavaria uma falta próximo a bandeira de escanteio, que jamais seria cobrada: ao apito final do juiz, 1 a 1, Brasil, campeão do Mundo!

Goleiro Caju, um dos eventuais titulares para 1942

Consequências

É preciso imaginar também quais seriam as consequências deste suposto título brasileiro. A primeira delas: sem a maldição da camisa branca, com o Maracanazo de 1950, o Brasil jamais usaria amarelo. E o próprio Maracanã só viria a ser erguido em meados dos anos 50, como resposta fluminense às obras do Pacaembu e da Fonte Nova. É improvável que a Copa de 1950 também acontecesse no País, já que o período seria muito curto entre um Mundial e outro. Porém, dependendo da necessidade da Fifa, não seria impossível. O Mundo viveu o pós-guerra na época e o Brasil já estava pronto. Em 1986, com a desistência da Colômbia, o México recebeu o seu segundo Mundial num intervalo de apenas 16 anos. Porém uma aposta mais segura para 1950 seria a Argentina, também na América do Sul.

Amarelinha não existiria sem o Maracanazo

E em 1946? Bem, essa é outra história, para você ler aqui.

Eliminação da Espanha é a quinta de um campeão, a 2a no Brasil

Senegal abre o placar contra a então campeã França: adeus prematuro

O vexame da Espanha, campeã mundial em 2010, ao ser eliminada já na primeira fase (e com apenas dois dos três jogos!) não é inédito, nem mesmo nos Mundiais realizados no Brasil. O fim do ciclo campeão com fiasco na copa seguinte já foi experimentado por outras quatro seleções, incluindo a Seleção Brasileira.

A primeira seleção a não defender o título corretamente foi o Uruguai. No entanto a razão foi política: campeã em 1930, a Celeste se recusou a viajar até a Itália, que seria campeã, para defender o título. Em campo, porém, quem mais vezes deu fiasco foi a própria Itália.

Bicampeã entre 1934 e 1938, a seleção azzurra caiu na primeira fase em 1950. O regulamento era diferente, mas, no triangular inicial os italianos foram eliminados no grupo com Suécia e Paraguai. Perdeu para a Suécia (2-3) e venceu o Paraguai (2-0), mas os suecos empataram (2-2) com os paraguaios e avançaram. O Uruguai venceria a Copa e igualaria o placar geral contra os próprios italianos em 2 a 2.

Dezesseis anos depois, um campeão voltaria a dar vexame.

Eusébio ajudou a despachar o Brasil já na primeira fase na Inglaterra

O bicampeão Brasil (1958 e 62) fracassaria na tentativa do (ainda) inédito tri consecutivo em campos ingleses. Mesmo estreando bem, ao vencer a Bulgária (2-0), o time brasileiro perdeu pra Hungria (1-3) e Portugal (1-3) e voltou mais cedo pra casa. A taça seria dos donos da casa.

O século virou e a geração de Zidane, que venceu Eurocopa, Confederações e Mundial entre 1998 e 2001, fez da França a surpresa negativa no Mundial de 2002. Derrotas para Senegal (0-1) e Dinamarca (0-2) e empate com o também eliminado Uruguai (0-0) fizeram com que os franceses deixassem Japão e Coréia mais cedo. No fim, festa brasileira.

A eliminação da Espanha no Brasil em 2014 é a segunda consecutiva de um campeão em Copas. O Brasil realmente não faz bem aos atuais campeões. Isso porque em 2010 os italianos voltaram a repetir o fiasco de 1950, aqui, desta vez na África do Sul.

Após empates com Paraguai e Nova Zelândia (1-1) e derrota para a Eslovênia (2-3) a Itália tomou o rumo de casa e assistiu de longe a festa espanhola. Que durou até o apito final no Maracanã, com o adeus a geração vitoriosa de Iniesta, Casillas e Xavi.

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O Fantasma de 1950 também assombra o Uruguai

15 minutos com Rafael Cammarota

Voltei aos anos 80 nesta quinta. Direto de São Paulo para uma infância em Curitiba, num papo com uma lenda do futebol paranaense, um dos ídolos de todo garoto que gostava de futebol naquela década: Rafael Cammarota. Campeão no Atlético, campeão no Coritiba, Rafael tinha – e ainda tem – aquele bigode texano e cabelos compridos.

Conseguiu o feito de ser ídolo nos maiores rivais do Paraná – quase ganhou o Brasileirão pelos dois. Melhor para o Coxa, que teve nele, em 1985, um paredão intransponível. Rafael Cammarota é paulista de nascimento, mas se diz curitibano. Nesta quinta, o recebi no Terra para ser comentarista em Steaua Bucareste 1-0 Chelsea, pela Liga Europa. Foram 90 minutos de bola rolando, com o atual técnico – ainda sem clube – comentando. Mas antes, batemos um papo de 15 minutos sobre os anos 80 no futebol paranaense.

O jeitão é o mesmo dos tempos de jogador. Fala, conta histórias. A primeira delas, ainda na redação foi afirmar categoricamente: na histórica semifinal do Brasileirão de 1985, no Mineirão, aos 33 do 2o tempo, um chute muito contestado pelo lado do Atlético-MG , não entrou. “De jeito nenhum! Tirei na linha, tenho foto e tudo mais. Isso é choro dos mineiros!” O título de 1985 é a grande recordação dos tempos de jogador. “Era um grupo legal. O professor Ênio [Andrade, técnico campeão] conhecia muito de futebol.” O arrojo nas saídas do gol é a razão para o sucesso, contou: “Eu era meio maluco, me jogava mesmo na bola. Se goleiro é viado ou louco, eu sou pirado.”

O título brasileiro veio em 1985, mas podia ter vindo dois anos antes, no rival Atlético. Na semifinal contra o Flamengo, derrota no Rio por 0-3 e vitória em Curitiba por 2-0, construída no primeiro tempo. “Falam muita besteira desse jogo. Dizem que o Hélio Alves (então supervisor do Atlético) vendeu, mandou a gente se entregar. Que nada! A gente não fez o terceiro porque não conseguiu. Pô, do outro lado tinha Zico, Nunes, Adílio…”, conta.

Rafael fala pouco com os amigos daquele tempo. Heraldo, que o acompanhou na troca do Furacão pelo Coxa, é um deles. Ele se lamenta por Washington, que também brilhou no Fluminense, de quem era mais próximo. “Depois do jogo do Flamengo, o “seo” Hélio me ligou, já de madrugada. ‘Rafa, vem comigo, o Washington acertou o Gol’. Eu: como assim? O bicho tinha metido o carro numa loja no centro da cidade. Era o dia em que ele foi vendido para o Fluminense.” Triste, contou que soube que o ex-companheiro de equipe estava numa cadeira de rodas:  “Foi f., ele pegou essa doença [Esclerose Lateral Amiotrófica, ELA, uma doença degenerativa].”

A dupla Atletiba se mistura com a história de Rafael. Em 1985, era um dos melhores goleiros do Brasil. Foi convocado para a Seleção de Telê Santana, que iria para a Copa do México em 1986. Telê, como se sabe, era um dos técnicos mais disciplinadores do Brasil.

O Atletiba das faixas: fim da Seleção para Rafael (arquivo pessoal)

Campeão Brasileiro, o Coritiba resolveu fazer um amistoso comemorativo com o Campeão Paranaense. O rival Atlético. O jogo não terminou, após uma grande confusão. “Puta burrice, nunca vi fazer amistoso com inimigo. Dancei naquela, perdi a Seleção”, conta.

Rafael ainda rodou por Ponte Preta (vice paulista em 77), Grêmio Maringá (“O terceiro grande do Paraná”, diz), Corinthians, Fortaleza e Sport Recife (vice-campeão da 1a Copa do Brasil, em 1989), entre outros. Ao comentar Steaua x Chelsea, lembrou que excursionou com a Ponte à Romênia. “Eles tem umas namoradas bonitas por lá, viu?”, brinca, lembrando que, por falar italiano, ajudou a traduzir alguma coisa do que se falava por lá.

Pelo Sport, uma passagem marcante em 1989, não só para os pernambucanos. Vice-campeão da Copa do Brasil, defendeu o Leão também no Brasileiro. Acabou enfrentando o Coritiba no que viria ser um dos mais tristes episódios da história do clube: um torcedor invadiu o campo para agredi-lo. O Coxa perdeu um mando de campo, tendo que jogar em Juiz de Fora contra o Santos. Conseguiu uma liminar e não foi; levou WO e foi rebaixado para a Segunda Divisão. “Tem gente que diz que é culpa minha, tá louco! Eu fiz esse time ser campeão brasileiro. Foi tudo armação”, conta em detalhes: “O Jacob (Mehl, ex-presidente do Coxa) não gostava de mim porque eu ajudei muito o Evangelino. Com ele, assinava até contrato em branco. O Jacob não gostava. Quando cheguei no Couto pro jogo, o [Odivonsir] Frega, que era supervisor, me avisou: ‘Cuidado que querem aprontar pra você’. O jogo começou, o babaca invadiu o campo, me deu uma facada. Tomei dois pontos. Quem perdeu foram os clubes: o Sport tomou a virada e o Coxa deu naquilo.”

Depois, voltou ao interior de São Paulo. Foi buscado pelo técnico Zé Duarte para reforçar o Atlético, que viria a ser campeão estadual em 1990. “O Zé não confiava no Toinho (então goleiro) e o Marolla já não tava muito bem. Eu disse que não queria voltar, pois era difícil jogar, mas ele me convenceu.” Louco por carros, Rafael tinha um Opala preto. Num dos treinos na Baixada, apareceu entre os titulares. Chegou no carro, após o treinamento, e encontrou o Opalão cheio de velas de Macumba. “Foi o Toinho, aquele viado. Eu cheguei e disse pra ele: pode fazer a vontade. Quanto mais você fizer, mais eu vou pegar tudo.”

Encerrou a carreira na Ferroviária-SP, em 1995. Chegou a treinar alguns clubes, mas nunca conseguiu uma chance. “Eu queria treinar um time na minha terra, sou tão curitibano quanto você. Podia ser até o Jotinha, mas o Caxias [Alceu Mentta, ex-zagueiro, hoje comentarista] fica de onda, não me dá uma força com o Joel [Malucelli, presidente de honra do J. Malucelli]”, brinca. Curitibano que é, mesmo que por adoção, Rafael sabe que não será fácil vencer na terrinha. Por enquanto, valem as boas histórias que ele conta.

Londrina x Coritiba: rivalidade e boas histórias desde 1959

Eu era pequeno ainda quando entendi a rivalidade que existe entre Londrina e Curitiba no Paraná. Em uma época de férias, nos já distantes anos 80, estava na terra do Café quando me perguntaram de onde eu vinha, na companhia de uma prima do meu pai. “Da capital”, disse, curitibaninho da gema – mas com 8 anos de criação no norte do Paraná. “De São Paulo?”, me questionaram de novo.

O episódio faz tempo e nunca diminuiu o carinho que sempre tive por Londrina e região – afinal, se nasci em Curitiba, tenho pais “pés-vermelhos”. Mas reforçou um sentimento de paranismo que será exaltado como há tempos não se vê nesse domingo, quando a Capital do Café receberá a última rodada do 1o turno do Paranaense, vestida de decisão para coxas e alvicelestes. Não vai ser a primeira entre os clubes, que desde o ano passado têm, ao menos do lado do Tubarão, ainda mais exacerbada a rivalidade.

Coxa, de Carazai, Ivo e Miltinho, venceu a primeira final contra o LEC em 1959

A primeira aconteceu em 1959. O Coritiba venceu a Série Sul e o Londrina, então de Futebol e Regatas, venceu a Série Norte. Foram dois jogos entre as duas equipes – e deu Coxa duas vezes: 3-0 em Curitiba e 2-1 em Londrina. O Coxa seria bicampeão em 1960; o troco alviceleste viria dois anos depois.

O Londrina de 1962, com Gauchinho em campo, vencedor da segunda decisão entre os clubes

Novamente Londrina e Coritiba se encontraram numa final, desta vez em 1962. Era o segundo dos 4 anos em que os clubes do interior levariam a melhor sobre os da capital (Comercial de Cornélio em 61 e Grêmio Maringá em 63-64). Gauchinho, maior artilheiro do LEC com 217 gols, comandou o time em duas vitórias por 4-2, em Londrina e Curitiba. Era a primeira taça do Tubarão.

  • Folclore

Em 1972, o Coxa vivia o segundo ano de sua maior série vitoriosa (hexacampeão) enquanto o Tubarão andava mal das pernas. Nos 4 confrontos diretos, o LEC apenas conseguiu um empate, 1-1, em casa. O Coxa aplicou dois 4-0 e um 3-1. O jornalista J. Mateus, em seu livro “Londrina Esporte Clube 4o anos”, conta que o Tubarão chamou um pai-de-santo para resolver o problema do clube, após uma das derrotas.

“Tem um espírito, de alguém que foi ligado ao clube que está complicando tudo”, disse o pai-de-santo. “É uma dívida que não foi paga. Tem que mandar ele pra outro endereço”.

A diretoria do Londrina marcou a sessão espírita. O então supervisor Murilo Zamboni acompanhou os trabalhos desde às oito da noite até a 1 da manhã.

“Pronto”, disse o pai-de-santo, “agora é só escolher pra quem mandar”. Zamboni sugeriu: “Mande pro Coritiba, que está ganhando tudo!”. O pai-de-santo concordou e começou o despacho rumo ao Alto da Glória.

O Coritiba seria campeão com 31 vitórias em 44 jogos. O Londrina, ao menos, acabaria em quarto lugar.
(adaptação do texto da página 59)

  • Retomada

Londrina e Coritiba retomaram a rivalidade no ano passado. No último grande momento do Tubarão, quem estava mal era o Coxa. Eram o início dos anos 90, o Coritiba amargava um rebaixamento não-concretizado (caiu, mas não jogou) para a Série C nacional em 1990 enquanto o Londrina chegaria ao 3o título estadual em 1992 e ainda seria vice em 93 e 94. Quem reinava era o Paraná.  De 1995 pra cá, o Coxa se reencontrou, mesmo com altos e baixos; foi a vez de o Londrina cair vertiginosamente. Em 1999, quase subiu para a Série A, eliminado pelo Gama-DF; depois, sumiu. Caiu de divisão no Brasileiro até perder a vaga fixa e passou até pela segundona paranaense.

Os encontros de 2012 foram polêmicos. Em Londrina, um empate em 1-1 e muita reclamação em cima de um lance de pênalti a favor do Tubarão não dado em Arthur, hoje no Coxa, pelo árbitro Leandro Hermes – o atacante derrubado, porém, estaria impedido. Em Curitiba, um gol olímpico (leia-se falha de Vanderlei) mal-anulado que rendeu até discussão nos diretórios acadêmicos de física (vídeo da TV Transamérica):

Na história, são 125 jogos: 59 vitórias do Coritiba, 35 do Londrina e 31 empates (incluindo os jogos antes da mudança no nome do Londrina).

Os 5 maiores derbies da história

Atlético e Paraná se enfrentam pela 83a* vez nesse sábado, no Eco-Estádio. O jogo deve entrar na lista dos mais importantes do duelo entre os clubes: vale vaga na Série A para o Furacão e, para o Tricolor, uma chance histórica de atrapalhar o vizinho.

Mas, desde o primeiro jogo, em 03 de junho de 1990, quais os 5 jogos que mais marcaram a história dos encontros entre os dois clubes? O blog se propõe a lembrar cinco encontros históricos entre rubro-negros e tricolores.

*35 vitórias do Atlético, 21 do Paraná e 26 empates.

5 – Paraná 0-4 Atlético, 13/10/1993, Vila Capanema, Brasileirão Série A

Relegados pela CBF à um grupo secundário (e rebaixável) na Série A para beneficiar o Grêmio, Paraná (campeão da B-92 e com acesso garantido) e Atlético (Série A em 92 e com vaga garantida em 1993) duelaram em situações opostas. O Tricolor caminhava a passos largos para se manter na elite enquanto o Furacão sofria para tentar vaga entre os 8 dos Grupos C e D – Atlético-MG e Botafogo, piores clubes do campeonato no geral, estavam blindados.

Na Vila, o favoritismo era paranista. Era. O Atlético surpreendeu e impôs a primeira goleada nos confrontos até então.

4 – Atlético 0-2 Paraná, 05/02/1995, Couto Pereira, Paranaense

O jogo era apenas mais um entre os tantos duelos (foram 4) na mirabolante fórmula do Paranaense daquele ano – época em que as três equipes usavam o Couto Pereira nos grandes jogos. O Paraná vencia por 1-0 quando o atacante Mirandinha recebeu a bola de costas para o goleiro Gilmar. O resto você vê no vídeo abaixo:

3 – Atlético 6-1 Paraná, 30/05/2002, Arena, Brasileiro Série A

Pelo segundo ano consecutivo, Atlético e Paraná decidiam o Paranaense. O Furacão, então campeão brasileiro, tentava o inédito tri-estadual depois de perder a Sul-Minas para o Cruzeiro. O Paraná queria dar o troco da derrota no ano anterior. A maior goleada do Derby contou com uma tarde inspirada de Kléber, “o incendiário”:

2 – Paraná 1-0 Atlético, 28/03/1999, Couto Pereira, Copa Sul

O Atlético tinha arrasado o Coritiba duas vezes em menos de uma semana, no Couto Pereira (3-0 e 3-1) e, num grupo todo paranaense da Copa Sul – coincidência da tabela, que também deixou Grêmio, Inter e Juventude na mesma chave semifinal – poderia empatar duas vezes com o Paraná que chegaria a decisão do primeiro regional sulista. O primeiro jogo acabara 0-0. No segundo, Régis fechou o gol, literalmente, ao pegar dois pênaltis.

1 – Atlético 1-0 Paraná, 13/09/2006, Arena, Copa Sul-Americana

O mais importante Derby da história até hoje dava vaga na fase internacional da Copa Sul-Americana, onde já estava o poderoso River Plate. O Atlético já havia vencido o Paraná no Pinheirão, no jogo de ida, por 3-1. O jogo da Arena carimbou o passaporte atleticano, que chegaria a semifinal contra o Pachuca.

 

 

Operário: 100 anos assombrando

*Texto de Felipe Liedmann, repórter da CBN Ponta Grossa, de uma série especial sobre o centenário do Operário.

Um dos 1os times do OFEC, vice PR em 1923 (foto: operarioferroviario.wordpress.com)

O Operário Ferroviário Esporte Clube completa amanhã (01/05) 100 anos de fundação. O Fantasma de Vila Oficinas, como é conhecido pelo torcedor, é o segundo clube mais antigo do futebol paranaense. Os pioneiros da história do futebol em Ponta Grossa eram construtores das ferrovias entre Paraná e Santa Catarina e, não à toa, o nome oficial do clube e a data definida como fundação fazem referências diretas aos operários daquela época.

O pontapé inicial do futebol paranaense aconteceu na cidade de Ponta Grossa, quando, em 1909, o Coritiba Foot Ball Club enfrentou o time de trabalhadores da rede ferroviária e foi derrotado pelos operários pontagrossenses por 1 a 0. Mas apenas três anos depois, foi oficializada a fundação do Foot-ball Club Operário Pontagrossense.

A primeira diretoria tinha os nomes de Raul Lara, primeiro presidente do clube, Oscar Wanke, Antônio Joaquim Dantas, João Gotardello, Joaquim Eleutério, Álvaro Eleutério, Victorio Maggi, Oscar Marques e João Simonetti.

Após três mudanças de nome, em 1933, com a incorporação do clube social dos ferroviários, o Operário passou a ser oficialmente: Operário Ferroviário Esporte Clube. As cores preta e branca, em homenagem às diferentes raças do país, nunca se alteraram nesses 100 anos de história do clube.

O estádio e a sede do clube, como não poderia ser diferente, foram construídos ao lado do terreno da rede ferroviária. Em outubro de 1941, Germano Krüger exercia um de seus três mandatos como presidente do clube e, na década de 1960, recebeu a homenagem de ter o próprio nome como casa do Operário no bairro de Vila Oficinas.

Já a capital paranaense é responsável pelo apelido de ‘Fantasma’. O meio esportivo de Curitiba se impressionava com a qualidade do Operário jogando principalmente em seus domínios e, de acordo com os próprios curitibanos, a equipe de Ponta Grossa assombrava os times da capital: surge, então, o apelido de Fantasma.

Operário vence o Atlético na Arena: espinho no caminho dos grandes da capital (vídeo: Notícia FC)

Em 1961, o Operário, após derrubar os times da capital, conquista a Zona Sul do Campeonato Paranaense contra o Coritiba. Porém, o clube perde a maior chance de se tornar campeão paranaense, ao ser derrotado na grande final pelo campeão da Zona Norte, Comercial de Cornélio Procópio.

A profissionalização do futebol no interior paranaense causou as primeiras fases de decadência no esporte em Ponta Grossa, que até então era representado por dois clubes: Operário e Guarani. Os dois primeiros rebaixamentos do Operário no Campeonato Paranaense vieram em 1965 e 1983.

Apesar das dívidas do clube, a Federação Paranaense de Futebol (FPF) convida o Fantasma para retornar à elite estadual em 1989. O Operário passa a ser conhecido nacionalmente com as campanhas na Série B do Brasileirão: a melhor delas, o 5º lugar em 1990. Mas as decisões arbitrárias da CBF no Campeonato Brasileiro prejudicam o clube na sequência de uma possível ascensão nacional.

As dívidas trabalhistas e a dificuldade para formar uma equipe competitiva fazem o clube pedir licenciamento à FPF em 1995. O Operário passa quase uma década de sua história centenária sem futebol. O retorno à elite do futebol paranaense acontece após a suada Divisão de Acesso em 2009. Mais de 8000 pagantes assistiram ao empate em 0 a 0 contra a Portuguesa Londrinense, resultado que trouxe o Fantasma à 1ª divisão estadual. Desde então, o Fantasma fez boas campanhas com a 5ª colocação em 2010 e a 3ª em 2011, disputando a Série D nacional nas duas oportunidades. O acesso para a terceira divisão brasileira passou raspando em 2010, quando o Operário foi eliminado contra o Madureira nas quartas-de-final e acabou com o 6º lugar.

No total, o Operário tem 14 vice-campeonatos estaduais e um título da Divisão de Acesso.

As festividades do Centenário alvinegro seguem hoje (30) a partir das 20h com shows de bandas locais na sede do clube e virada festiva para comemorar o início dos 100 anos do Operário. Já na terça-feira haverá missa campal às 9h e, na sequência, carreata puxada por um dos símbolos do clube, o Trem Fantasma. Na tarde de terça, a partir das 14h, as comemorações acontecem no Germano Krüger com entrada gratuita: haverá homenagem a ex-diretores e jogadores do Operário, escolha e execução do Hino Oficial do Clube e amistoso da categoria Master contra o Guarani, de Ponta Grossa.

Mini-guia Copa do Brasil, fase III

E chegamos a fase 3 da Copa do Brasil com 75% dos times paranaenses no páreo. Pode comemorar: desde 1996 o Estado não vê os três principais times chegar às oitavas de final. E aquela ainda foi a única vez.

Então, se você vai ao estádio ainda hoje, esse é o lugar para saber o que o seu time vai enfrentar; se você vai ao estádio amanhã, aqui também tem tudo sobre o confronto do seu time; e se você só vai ao estádio semana que vem, fique sabendo já o que pode acontecer com o seu time. É o mini-guia da Copa do Brasil, parte III, torcendo muito para que tenhamos versões IV, V e VI. Quiça um feliz prólogo.

Vamos por ordem cronológica:

Paraná x Palmeiras

Ida: 25/04 – 21h50 – Vila Capanema, Curitiba
Volta: 09/05 – 22h – Arena Barueri, Baruei

O Paraná passou pelo Ceará no sufoco, conseguindo um suado empate nos minutos finais no jogo da Vila Capanema e passando de fase pelos gols marcados fora de casa. Vai para o quinto jogo do ano e já contra um time de Série A, num ano em que 90% de seus adversários terão poder de fogo inferior ao desta fase.

Em compensação, o Palmeiras chega a Curitiba em crise. Eliminado no Paulista pelo Guarani, chegou a liderar o estadual vizinho mas despencou na classificação. O que poderia ser um quadro de franco favoritismo palmeirense se tornou ligeiramente equilibrado graças ao momento psicológico das equipes.

O primeiro jogo na Vila será decisivo para o Paraná abraçar de vez a condição de zebra. Não é impossível eliminar o Palmeiras – mas é melhor não criar muita expectativa em cima de um time jovem e recém-montado. O Tricolor é franco-atirador, a melhor posição nesse momento. Um resultado de vitória, especialmente sem levar gols, ou ainda um empate sem gols pode ser comemorado.

O Palmeiras tem como destaque a mesma base que despencou na reta final do Brasileirão 2011. Os homens mais perigosos são o atacante Barcos (fez 10 gols na temporada, mas vem mal desde a derrota para o Corinthians no Paulistão) e os meias Marcos Assunção e Valdívia – este, não vem sendo titular.

Barcos é o homem-gol do Palmeiras

Na história são 20 jogos, com cinco vitórias do Paraná e 13 do Palmeiras. Os times se enfrentaram nas quartas de final da Copa do Brasil 1996: Paraná 0-2 Palmeiras em SP e Paraná 1-3 Palmeiras em Curitiba.

Se passar pelo Palmeiras, o Tricolor pega o vencedor de Atlético x Cruzeiro.

Coritiba x Paysandu

Ida: 26/04 – 19h30 – Couto Pereira, Curitiba
Volta:  03/05 – 19h30 – Mangueirão, Belém

É sem dúvida o confronto mais tranquilo dos paranaenses, mas a grande lição ao Coxa está justamente na fase anterior, quando o Paysandu surpreendeu o Sport Recife, colega alviverde na Série A, e venceu as duas partidas: 2-1 em Belém e 4-1 em Recife. Ainda assim, não há como negar: o Coritiba é favorito na série.

O Coxa vinha de atuações irregulares no ano, mas, justo antes de iniciar a reta final da Copa do Brasil, aplicou 4-2 no rival Atlético e deixou a torcida mais confiante. Não pelo placar, mas pelas mudanças que Marcelo Oliveira fez no time, especialmente a entrada de Éverton Ribeiro, dando velocidade ao meio campo. O que pode complicar o Coritiba na série é ter que fazer a viagem mais longa dos paranaenses: 3208 km. Mas vale lembrar que o Coxa já foi ao norte do país, pegar o Nacional em Manaus.

Ok, mas o Paysandu não tem nada a oferecer? Negativo. Em campo é 11 contra 11 e tal. Mas mais do que isso, a arma (já nem tão) secreta do Papão é essa:

Ops! Não, esse não é o Pikachu certo. Esse sim:

Yago Pikachu: não parece, mas é perigoso

O lateral-direito Yago Pikachu, 19 anos, vem fazendo grandes partidas, atuando na verdade mais como ponta do que como lateral (alô Lucas Mendes).  É tratado como a nova jóia do futebol paraense, tendo começado a carreira sob a tutela de Capitão, o mesmo técnico que revelou Paulo Henrique Ganso, do Santos. Contra o Sport, o primeiro gol foi dele:

O elenco do Paysandu ainda tem como rostos conhecidos o volante Vânderson (aquele, ex-Atlético) e o atacante Adriano Magrão, campeão da Copa do Brasil 2007 pelo Fluminense. Foi eliminado nas semifinais do Paraense pelo Águia de Marabá e vai disputar a Série C nacional. À exemplo do Paraná Clube, busca retomar seu lugar ao sol no futebol brasileiro. Tem tradição e torcida. Para o Coritiba, o ideal é resolver a parada já no primeiro jogo e não se aventurar no Mangueirão.

Na história, vantagem coxa-branca com 7 vitórias e duas derrotas em 14 jogos.

Se passar pelos Paysandu, o Coritiba encara Botafogo-RJ ou Vitória na outra fase.

Atlético x Cruzeiro

Ida: 02/05 – 21h50 – Vila Capanema, Curitiba
Volta:  09/05 – 21h50 – Arena do Jacaré, Sete Lagoas-MG

Se o Paraná Clube é franco-atirador e o Coritiba é franco-favorito, francamente, entre Atlético e Cruzeiro, não há vantagem para nenhum dos lados. É um clássico do futebol brasileiro, já tendo sido decisão de título nacional (a Seletiva 99) e regional (Copa Sul-Minas 2002) com um triunfo pra cada lado. Atleticanos e cruzeirenses costumam ser amigos fora de campo (paradoxalmente, o rival do Cruzeiro, também Atlético – Mineiro – vê seus torcedores se aliarem com os rivais do Atlético, o Coritiba) mas a disputa na reta final do Brasileirão 11 para evitar a queda e as suspeitas das torcidas atleticanas de PR e MG sobre o resultado que livrou a Raposa da queda (6-1 no clássico mineiro) deram um tempero extra a esse confronto.

O Atlético é instável na temporada e vai à decisão do Estadual e desta vaga sem saber o que pode apresentar: se o time frágil que tropeçou no Roma-PR e levou 4 no Atletiba 350 ou a máquina de gols que enfiou 5 no Criciúma e joga ofensivamente contra qualquer rival.

Pois o Cruzeiro não é diferente. No Estadual, chegou em segundo lugar na fase de classificação, perdendo para o Guarani e empatando o clássico com o Atlético-MG. Isso o botou na rota do Derby Mineiro, com o América. E perdeu na ida, 2-3, resultado que ficou até bom, pois perdia por 0-3. Corre risco de ficar de fora da final mineira.

No entanto, tem um elenco forte, que mesmo sem decolar nas mãos do técnico Vagner Mancini, tem jogadores que podem desequilibrar: o bom goleiro Fábio, o zagueiro Alex Silva, os meias Roger e Montillo e os atacantes Wellington Paulista (ex-Paraná) e Wallyson (ex-Atlético). Quem também está pela Toca da Raposa é o lateral-esquerdo/volante Marcelo Oliveira, que defendeu o Furacão em 2011.

Montillo e Marcelo Oliveira, agora do mesmo lado

O exemplo para o Atlético superar o Cruzeiro está em seu próprio passado. Ao conquistar a Seletiva 99, fez 3-0 em Curitiba e jogou tranquilo em BH, perdendo por 1-2 e ficando com a taça; em 2002, fez o jogo de ida pela Sul-Minas em casa e perdeu, 1-2. Foi ao Mineirão e perdeu de novo, na despedida de Sorín, 0-1. Traduzindo: é fazer o resultado em casa e ir a Minas Gerais decidir a sorte.

Na história, 10 vitórias atleticanas e 13 cruzeirenses em 39 jogos. Os times já se enfrentaram duas vezes na Copa do Brasil. Em 1999, deu Atlético: 0-0 em Curitiba e 3-3 em BH; em 2000, revanche celeste: 2-1 em BH e 2-2 em Curitiba.

Se eliminar o Cruzeiro, o Atlético pega o vencedor de Paraná x Palmeiras.