Repensando o futebol brasileiro

Esse post foi publicado no antigo blog, no portal Bem Paraná, em dezembro de 2012. Reedito aqui para levantar a discussão nacionalmente, através dos seus comentários. Obrigado a todos e bem-vindos a nova fase do blog!

Final de ano, perspectivas de um novo início em 2013. No futebol, é hora de por em prática o planejamento da nova temporada. Contratações, dispensas, pré-temporada, objetivos. Cada clube com a sua necessidade, conforme a disputa que tem pela frente. Essas são as boas notícias.

A má: dificilmente seu clube, se não for do grupo dos seis que mais recebem nas cotas de TV, principal renda dos clubes atualmente, será campeão. Salvo se tiver um mecenas por trás, caso do atual campeão Fluminense, amparado fortemente pela Unimed. E nesse balaio incluo gaúchos e mineiros. Duvida? Então veja a figura abaixo:

Essa é a atual distribuição de renda do futebol brasileiro, com base no repasse do principal apoiador, a Rede Globo de Televisão, detentora dos direitos de transmissão do Brasileirão. A imagem detalha o recebimento dos clubes do extinto Clube dos 13 (que abrangia 20 clubes) mais o Paraná Clube, simbolizando todos aqueles que estão no patamar do Tricolor. As cores dividem os grupos cotistas, que são de 5 tamanhos (alguns dos valores estão renegociados). Do amarelo ao vermelho, o que mais recebe ao que menos recebe. Todos dentro de um mesmo campeonato.

É preciso dizer que a Globo faz um bem enorme ao futebol nacional. A evolução nos contratos de TV nos últimos anos começou a projetar o Campeonato Brasileiro como um dos mais rentáveis do Mundo. Ainda está longe da Bundesliga (Alemanha) e da Premier League (Inglaterra), mas é um caminho. Não vou entrar aqui na discussão da exclusividade de transmissão, discussão do mercado de comunicação – convenhamos, o know-how da Globo é o melhor, ainda que (até mesmo pra mim, como jornalista) a diversificação de emissoras na cobertura pudesse ser benéfica. A discussão aqui é outra.

A própria televisão já ensaiou – e essa discussão ficou para trás, mas segue em voga com os torcedores – um pedido para que o Brasileirão volte ao mata-mata. E isso porque se ressente de mais emoção na competição. É um engano: se não há emoção no Brasileirão dos últimos anos, é porque a disparidade de arrecadação entre os clubes é enorme. É impossível que o Náutico, melhor clube fora do rol dos maiores recebedores (abaixo até mesmo de Atlético e Coritiba) supere 19 equipes em um torneio de regularidade e seja campeão.

Repare novamente na figura acima. Em amarelo, estão as posições de destaque; em azul, posições confortáveis. Em laranja, posições compatíveis e/ou aceitáveis. Em vermelho, posições ruins – e ainda pintou um preto na tabela. Repare que na divisão do Botafogo para o Atlético – linha que divide os tradicionais 12 dos demais – um lado é quase todo vermelho, outro quase todo amarelo. Não coincidentemente, quem mais recebe contra quem menos recebe. Em tempo: Botafogo e Atlético-MG, com todo o respeito que as belas histórias merecem, não são maiores que Atlético, Coritiba, Sport e Bahia. O novo ranking da CBF atesta isso.

O Corinthians, que iniciou como centro dessa discussão na coluna desta quarta no Metro Curitiba, vale quanto pesa. A torcida corintiana, bem como a do Flamengo, são as maiores do Brasil. Eles atraem mais interesse, mais público, vendem mais PPV, merecem ganhar mais. E assim sucessivamente. A ressalva é que essa não deve ser a única maneira de se distribuir o bolo.

Tenho tido a oportunidade de transmitir jogos do Campeonato Alemão pelo Terra (fica o convite, é ao vivo e gratuito) e, a despeito da liderança isolada do Bayern, a competição toda é mais acirrada. Aquele equilíbrio que o brasileiro gosta de propagar, hoje acontece muito mais na Alemanha. Se o ano do Bayern é excepcional, o atual bicampeão é o Borussia Dortmund e Schalke 04, Bayer Leverkusen, Eintracht Frankfurt e Sttutgart se permitem sonhar com a taça ou ao menos uma vaga na Liga dos Campeões – coisa que, no Brasil, tem se restringido a poucos pela Libertadores, obviamente.

Leia também:

– Paraná Clube entra na Bovespa

– Na Alemanha, rádio compra direitos de transmissão

– Artigo: quem perde na briga do Atlético com a imprensa?

A culpa passa longe de quem paga. É, na verdade, de quem vende: os clubes. Os que estão no topo, obviamente, não se incomodam com a situação. Muitas vezes estão amarrados a dívidas e antecipam receitas, se comprometendo mais e mais. Mesmo no seleto grupo dos 12, já vemos clubes sentindo os efeitos: as campanhas do Botafogo são apenas regulares e o Palmeiras, não fosse a conquista da Copa do Brasil (outro estilo de competição) teria uma avaliação recente desastrosa. No entanto, todos são complacentes com a situação. O seu clube também. Os efeitos são sentidos até mesmo na Seleção Brasileira, já não tão querida pelos torcedores em boa parte do Brasil pela falta de identidade e que, com o desamparo aos clubes menores, passará a ter menos fontes para seus craques.

Ok, até aqui, nenhuma novidade (e obrigado pela paciência na leitura). E qual seria uma solução? O exemplo mais democrático está na Inglaterra, liga mais rentável do Mundo, vendida em todo o Planeta. A arrecadação de TV é dividida de três maneiras: 70% igualmente entre os clubes; 15%, pelo retorno de audiência; outros 15%, pela classificação dos clubes no ano anterior. Além disso, os clubes que sobem da segunda divisão para a primeira recebem um auxílio especial na primeira temporada. A intenção? Deixar o campeonato competitivo. Claro, o poderio do Manchester United e dos dólares russos do Chelsea e árabes do Manchester City tem restringido a disputa a esses três. Mas aí é atrativo individual de cada um que, como receita de sócios e camisa, passa pelo mérito de cada um.

Para esse tratado, fiz um estudo sobre como seria a distribuição de renda no Brasil usando o modelo inglês. Os cálculos não são precisos (matemática nunca foi o meu forte) mas a distorção é pequena – algum leitor mais hábil com números pode ficar a vontade para me corrigir, especialmente na divisão por audiência. A base do cálculo foi a tabela da Premier League que está nesse link. Nela, os últimos lugares da tabela foram ocupados pelos clubes que subiram para a Série A em 2012. Observe:

A diferença entre o que receberia o Corinthians para o que receberia o Vitória, do maior para o menor valor, seria de apenas 21 milhões. O Corinthians continuaria recebendo mais, justamente, e continuaria forte, aproveitando-se ainda dos valores que recebe pela camisa, sócios, etc. Mas o campeonato poderia ser mais equilibrado. A distância para o Vitória seria, digamos, mais honesta. Afinal, o que se espera de uma disputa é que ela seja equilibrada, o que gera interesse. Não à toa, as ligas norte-americanas de basquete e futebol americano são as mais lucrativas do planeta entre todos os esportes. O segredo? O time com pior desempenho no ano anterior é o primeiro a escolher o melhor calouro no draft. Equilíbrio, senhores.

Ainda há mais um fator relevante a se discutir: as dívidas dos clubes com o Governo. Na Europa, a punição é severa. Os tradicionais Napoli e Fiorentina faliram e tiveram de começar em divisões inferiores italianas – o Napoli se recuperou a ponto de comprar o CNPJ (ou como for na Itália) antigo. O Rangers, um dos dois gigantes escoceses, vive esse drama agora. Mesmo sendo um Flamengo da Escócia, foi à falência recomeçou na 4a divisão. Sem perdão. Aproveitei o estudo para fazer um comparativo entre a principal receita dos clubes e a dívida pública, divulgada pela Revista Galileu. O Sport foi o único clube do qual não encontrei dados, mesmo em outras fontes. As cores estão divididas em: vermelho para dívidas com duas vezes ou mais da principal receita, laranja para dívidas pouco maiores ou ainda dentro de um limite suportavel, azul para as dívidas pequenas e amarelo para a única exceção, que segundo a reportagem tem até valores a receber:

A última notícia é de que Governo e CBF estudam punir os clubes devedores. Seria um esvaziamento e tanto na Série A – mas é aguardar pra ver. Diante da ideia de se modernizar o futebol nacional, seria um passo e tanto.

Cara Fifa…

…escrevo-lhe na condição de cliente Vip do seu produto. Aquilo que insistimos em chamar de futebol, mesmo depois de tantas tentativas de desmoralização. Não pretendo tomar muito seu tempo, nem relembrar esquemas espinhosos, como aquela goleada misteriosa da Argentina sobre o Peru em 78, em pleno regime militar no país vizinho, ou as denúncias de compras de votos para as copas da Rússia e do Catar. Não, vamos deixar isso para trás. A beleza do jogo me manteve atento – sou daqueles que assiste até Catanduvense x Flamengo de Guarulhos, se a Rede Vida passar.

Minha reclamação é outra.

"Deixa de bobagem. Já virou sacanagem", diz o poeta contemporâneo (foto: Geraldo Bubniak)

Querida Fifa, você sabe: mesmo com tudo o que eu escrevi acima, o gol é o grande momento do futebol. Ali extravasamos nossas emoções, abraçamos a quem nunca vimos, gritamos feito loucos e nos sentimos um pouco vingados das mazelas do dia-a-dia.

O gol é sagrado. A comemoração é o orgasmo do torcedor.

Pelé e o soco no ar, as coreografias dos islandeses (esses são geniais!), o dedo fazendo não de Ronaldo ou até mesmo as mais simples, muitas vezes as melhores, com os nossos heróis se abraçando e vibrando como guerreiros valentes. Gol é isso! Pode ser a careta do Lela ou a pirueta do Rhodolfo, pouco importa: o gol deve ser um momento único.

E é por isso que te escrevo, Fifa. É possível que você não esteja vendo, até porque esse lance de Copa do Mundo aqui no Brasil deve estar te deixando louca. Quase nada pronto, muito esquema financeiro (sei que dessa parte você cuidará bem, com moralização) e muito oba-oba. Mas tem um pessoal acabando com esse grande momento que é o gol.

Acredite, Fifa: atualmente, 11 entre 10 jogadores brasileiros comemoram os gols imitando um boçal joão bobo. É!, isso mesmo, sabe aquele boneco que você empurra e ele volta, inflado de ar e sem nada na cabeça? Aquele, cuja maior paródia é ser um fantoche controlado  que pode ser empurrado, chutado, agredido e mesmo assim volta ao lugar? O joão bobo? Então, esse mesmo. E eles tem achado o máximo!

Mas nós, torcedores, já estamos de saco cheio.

A gente sabe que tem coisa que é moda e pega. Ainda mais no Brasil, país com sérios problemas de educação e maiores ainda de estima. Lembra do complexo de vira-lata né? Então, ele existe até hoje, já que vivemos abaixando a cabeça para qualquer um que nos impõe uma idéia estúpida.

Mas acho que é hora de você intervir, Fifa. Lembra quando você proibiu manifestações religosas ou aquelas camisetas xaropes com mensagens tipo “Titia, domingo vou na macarronada”? Pra não falar nos merchandisings nas camisas, que agora ganharam algumas comemorações. Aqui no Paraná, atleticanos e coxas já viram jogadores comemorar para um tal de “capitão”. Devem ter recebido uma baita bolada, ou ao menos algumas garrafas de rum, apesar de já ganharem bem para valorizar a imagem do clube.

Acho que é o caso de você agir de novo, Fifa. Tá chato demais essa história do João Sonrisal (acho que o nome é esse porque dá asia ver os caras feito bobos) e pode piorar. Veja você que o único que foi contra, o Rivaldo (aquele cracasso da Seleção, Palmeiras, Corinthians e Barcelona, hoje no São Paulo, campeão do mundo em 2002, lembra?), foi achincalhado como chato da vez. Logo ele, um cara que mostrou personalidade. Só pode ser porque não foi joão bobo dos caras.

Fifa, eu lhe peço: faça alguma coisa. Já estamos acostumados a ser bobos nesse mundo do futebol (e quem disse que não tem?), mas jogar isso na nossa cara é desaforo demais.

A barreira final

Peço licença aos amigos acostumados a ler mais sobre futebol aqui no blog para falar de outro esporte: o poker, que nos últimos dias venceu mais uma etapa contra o preconceito.

Já não é notícia nova dizer que poker é esporte. Mas a vitória do paulista André Akkari em uma das etapas do Mundial de poker (WSOP) nos EUA ganhou dimensões até então não experimentadas para quem acompanha e segue a modalidade. Depois de ganhar espaço em quase todos os grandes veículos de comunicação, o poker finalmente chegou a Rede Globo, maior empresa do ramo no País, em um noticiário esportivo. Foi durante a realização do BPT (Brasil Poker Tour), um dos campeonatos brasileiros de poker (o outro é o BSOP, Brazilian Series Of Poker), no qual a emissora aproveitou para explicar o jogo e propalar a vitória de Akkari. Veja a reportagem, exibida apenas no Globo Esporte de SP, nesse link.

Curitiba, para quem não sabe, é celeiro de grandes talentos do poker nacional. O primeiro brasileiro campeão mundial é curitibano, Alexandre Gomes. Daqui já saíram dois campeões nacionais em etapas distintas, João Paraná e Helson Kupczak. Já tivemos o curitibano Gustavo Flessak como nono colocado no maior torneio das Américas, o LAPT (uma espécie de Libertadores do Poker). E no 1o. BPT, finalizado no último final de semana, o também curitibano Luiz Pheres beliscou um 3o. lugar, perdendo nos detalhes a mão decisiva para o dinamarquês Rolf Andersen, que acabou sendo o campeão da etapa. O resultado foi destaque no Jogo Aberto Paraná:

Neste mês, pela primeira vez o WSOP foi transmitido quase em tempo real pela ESPN no Brasil. Havia um delay (atraso) de 30 minutos na emissão das imagens em relação ao tempo de jogo, em virtude da segurança estratégica da partida. A ESPN havia parado de transmitir os eventos após a Black Friday, por recomendação da direção mundial do grupo, mas retomou em alto estilo. No BPT, a transmissão das partidas foi feita em tempo real, pela internet, pelo site TV Poker Pró.

Depois de ter espaço na Band, na ESPN e na Revista ESPN (aqui, reportagem com o americano oito vezes campeão mundial, Phil Ivey), o fato do poker chegar ao maior grupo de comunicação em uma reportagem positiva é o carimbo que o esporte precisava para afastar o preconceito de vez. Mas não é a barreira final.

Essa só será superada quando o jornalismo segmentado tratar não só das vitórias, mas também dos problemas do esporte. Como o bloqueio do site Full Tilt Poker em virtude de denuncias de corrupção fiscal nos EUA, ainda sem ter a versão dos fatos do braço brasileiro do site, parceiro da confederação nacional, posta a público.