Sobre eleições, Copa e a paixão nacional

Será o despertar? (Foto: Franklin de Freitas @FranklinJE)
Será o despertar? (Foto: Franklin de Freitas @FranklinJE)

O País do Futebol passou os últimos meses debatendo – pasmem! – política. As redes sociais se tornaram verdadeiras tribunas, todo mundo passou a entender de política como “nunca antes na história deste País”. Partidários ou não, todos se envolveram na disputa. Nem sempre com a melhor informação ou com a melhor das intenções, mas, não neguemos, foi uma grande surpresa ver tanta gente engajada.

Teve quem reclamou. Que não conseguia mais entrar na rede social sem ver ao menos uma mensagem de um dos candidatos. Que não aguentava mais falar de política. Ora!, uma das principais reclamações do Brasil não era aquela que diz que “quando-o-brasileiro-der-mais valor-à-política-que-ao-futebol-o-País-vai-melhorar”? Pois parece que chegou a hora. Motivada, muita gente foi votar hoje com a camisa que mais representa o Brasil, a da Seleção, aquela que só saia do armário de quatro em quatro anos.

Se o debate não foi dos melhores, ele pelo menos aconteceu. Trocamos os erros de arbitragem pelas opções eleitorais nas mesas de boteco, mesmo que por poucas semanas. Houve um festival de desinformação sim, mas houve também interesse em se informar. O filtro virá com o tempo. A democracia no Brasil é nova. Depois de 25 anos de ditadura, temos neste ano, curiosamente, 25 anos de democracia. De 1964 pra cá o brasileiro perdeu e recuperou o direito de votar, e, claro, desaprendeu. A democracia engatinha; de fato, em 2014, ela deu suas primeiras palavras.

Erramos em muitas coisas, a começar pela composição do Congresso Nacional. Falta a compreensão do papel de cada cargo político no cenário nacional. O voto para o deputado é tão ou até mais importante que o para presidente. Quem vencer essa eleição – e se você está lendo este texto depois das 20h de domingo já sabe quem é – vai ter que rebolar para aprovar suas propostas em uma câmara recortada com diversas bancadas “filosóficas” e 28 partidos diferentes. Coligações virão aí, com personagens que poderiam estar fora do cargo, mas foram reconduzidos ao poder por um povo que ainda se guia por aparências ou pelo “santinho” achado no chão. “Alguém tem um deputado aí para indicar?”, ainda pergunta o incauto.

Tal qual no futebol, ainda temos uma visão um tanto quanto míope do cenário nacional num todo. Se há um privilégio de exibição de dois ou três clubes no Brasileirão, enquanto muitos outros têm público e potencial, na política tivemos uma corrida bipolar. Figuras bem distintas, é verdade, mas outras tantas propostas diferentes se apresentaram sem o mesmo eco. A discussão aconteceu, mas superficial. Convenhamos, quem aí também leu os planos de governo? Somos poucos.

Ainda assim há o que se comemorar. O principal será o respeito pelo direito ao voto. O derrotado certamente fará uma oposição ferrenha – tomara que inteligente, aprovando o que de fato for bom para o Brasil – nos próximos anos. Também terá que aceitar a derrota. O debate foi instituído. Nas próximas, tenho certeza, o eleitor passará a se informar mais sobre a necessidade de se votar bem para vereador, deputados, senador; passará a conhecer tanto as qualidades do zagueiro central do seu time quando da figura central escolhida pelo partido para representar um grupo de poder que governará os Estados e o País. Pelo menos é o que o cenário atual indica.

A despeito dos boatos e dos militantes cegos, o povo parece ter pego gosto pelo debate político. Agora é melhorar. E quem sabe finalmente o futebol passe a ser mesmo “somente” a mais importante entre as menos importantes coisas do Mundo.

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O outro lado de Anfield Road

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Anfield Road é um dos estádios mais míticos do futebol mundial. A casa do Liverpool, que nesse final de semana abriga o derby da cidade contra o Everton, é conhecida pela pressão nos adversários causada pela fanática torcida vermelha. “You´ll never walk alone”, uma música de 1945 que, em seu refrão, diz que “você nunca andará sozinho”. É o que está no portão de entrada de Anfield. Mas não é o que se vê no bairro, abandonado em quase todo o entorno do estádio, com afixação de cartazes como o da foto acima. Por conta de “abandono de projeto” (dereliction by design, como consta no cartaz), quase todos os vizinhos simplesmente abandonaram suas casas ao redor do estádio e hoje brigam contra o Liverpool FC e a prefeitura da cidade para serem indenizados. A foto abaixo ilustra bem a “cidade fantasma” ao redor de Anfield:

Portas fechadas em plena tarde de terça: Anfield é um bairro-fantasma
Portas fechadas em plena tarde de terça: Anfield é um bairro-fantasma

A briga começou em 1996, quando o Liverpool decidiu ampliar seu estádio, melhorando o padrão em relação a outros da Premier League. O conselho da cidade – leia-se prefeitura – deu apoio e começou então o processo de compra das casas. A própria prefeitura adquiriu alguns imóveis em benefício do clube. Próximo a Anfield está o Stanley Park, que seria integrado ao complexo novo com o apoio da cidade. O Everton, outro time da cidade, também seria beneficiado de certa maneira. O parque Stanley separa os estádios de ambos (Goodson Park de Anfield) com 1km de distância. Nem todos os donos, porém, aceitaram os valores. A partir dali instaurou-se uma guerrilha econômica.

Cerca de 10 proprietários não fecharam negócio e impediram o clube e a prefeitura de levar adiante o projeto nos últimos 18 anos. Dentro do direito de propriedade, eles entendem que a oferta não é boa suficiente para fechar negócio. No entanto, com as demais casas compradas – e desocupadas – o bairro foi ruindo. As pessoas que fecharam negócio foram deixando suas casas, as lojas foram fechando as portas. O bairro se tornou fantasma.

Uma associação de moradores que permanece com a posse das casas protesta contra a forma “vampiresca” com a qual a cidade e o clube pressionam para a desocupação total da área. Do outro lado, uma região grande de Liverpool – uma cidade de 450 mil habitantes – está completamente parada, atrasada em seu desenvolvimento, o que causa revolta em outros moradores. Discute-se inclusive a construção de um novo estádio para o Liverpool dentro do Stanley Park, como solução para o impasse. Além dos custos da nova obra, o Liverpool e a cidade podem ainda ter que arcar com indenizações que giram em torno de 500 mil libras por casa, em avaliação sobre a perda de receita pela falta de uso das casas.

No último dia 31 de maio as partes se reuniram, mas não firmaram um acordo. A prefeitura deu indícios de que pode fechar acordo com três dos proprietários dissidentes. É um avanço, mas que pode ainda estar longe de ser a solução para o caso.

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Curiosamente, o período da discussão sobre Anfield marca também o declínio do domínio dos Reds no futebol inglês. Até 1996 o Liverpool era o maior campeão inglês, com 18 conquistas (a última na temporada 1989-90). De lá para cá, e já durante a discussão, viu o Manchester United, então com 11 conquistas, ultrapassar o número de taças e se tornar o rei da Premier League, com 20 títulos.

Sábado, quando milhares caminharem rumo a Anfield para ver o duelo entre Liverpool e Everton, o bairro deixará de ser fantasma, ao menos por 90 minutos. Depois, Anfield voltará a estar sozinho, apesar da mensagem em seu portão.

 

Em Dublin, vai ter Copa e vai ter copo

Os irlandeses não são conhecidos mundialmente por sua excelência no futebol. São apenas três participações em Mundiais, com o incrível feito de ter chegado às quartas-de-final da Copa em 1990 sem ter vencido um jogo sequer (foram 4 empates com Inglaterra, Egito, Holanda e Romênia até a derrota para dona da casa Itália por 0-1). Mesmo assim, eles adoram futebol. E ainda não perdoaram o árbitro sueco Martin Hansson pelo erro que os eliminou da Copa de 2010, nas eliminatórias européias contra a França.

"França rouba", diz a pichação no estádio do Bohemians

Festivos, os irlandeses armam seus bares para ver o Mundial e boa parte adotará o Brasil como time para torcer. Apesar das ligações com a Inglaterra, não há uma simpatia – nem uma confiança – geral nos “Three Lions” (verdadeiro apelido do time inglês, e não ‘english team’), ao contrário do que acontece com os clubes ingleses. E mesmo tendo o futebol gaélico e o rugby como esportes mais populares, os irlandeses não perdem a chance de uma festa. Logo…

A admiração pelo futebol brasileiro também se deve à Sócrates. O Doutor atuou apenas uma partida pelo Garfoth Town, já nos anos 2000, depois de aposentado, mas o suficiente para deixar todos na região – Dublin está há apenas 1h de viagem de Garforth – com histórias para contar. É comum ver irlandeses com camisas com o rosto de Sócrates.

Um pouquinho de Brasil

As ligações com o Brasil também se dão pelo número de brasileiros vivendo na cidade. Isto porque a Irlanda é um dos raros países que permitem que se estude inglês e se possa trabalhar enquanto acontece o curso. Isso serve de porta de entrada de muita gente na Europa. Pessoas que tentam aprender a lingua mais falada no planeta e, principalmente, ganhar a vida em Euro. No entanto, em virtude de fraudes no sistema, vários brasileiros enfretam situação difícil na cidade atualmente.

As dificuldades e a Copa são um belo motivo para voltar. Quem não o fizer, no entanto, não ficará sem Copa. Apesar do fuso-horário (são 5 horas a mais no momento), vários bares devem abrigar os torcedores brasileiros na expectativa pelo Hexa. Um deles é o D-One, cujo dono é brasileiro. O bar já é ponto de encontro brazuca em Dublin e serve pratos como coxinha, pastel, feijoada e, claro, caipirinha. Além disso, exibe os jogos do Brasileirão.

Amigos como os rubro-negros Pedro Oliveira e Alison Karas se reunem lá para ver seus times. O primeiro é Sport, o segundo, Atlético Paranaense. Na expectativa de ver os jogos da rodada – tinha Atletiba e Sport x Corinthians – foram ao D-One. Na tela, Santos x Flamengo. Ao menos o sinal 4G realmente funciona na Europa. Alison apelou para o PFC Online, recurso oferecido pela Globosat, e viu o clássico paranaense na tela do… celular.

Alison apelou para a telinha e acabou premiado: deu Atlético sobre o Coxa

Pedro, por outro lado, insistiu com o garçom para que ao menos uma das telas do bar saísse do duelo entre Peixe e Fla para ver seu Sport contra o Timão. Demorou, mas conseguiu – há tempo de ver alguns corintianos se aproximarem para acompanhar o jogo, tudo na maior paz, como sempre deveria ser. Para azar de Pedro, o Sport esteve num péssimo dia e acabou encaixotado pelo Corinthians, 1-4.

Pedro e o jogo pelo radinho, via web

Bom para molhar a garganta

Dublin é conhecida por ser a cidade do U2, de vários castelos e da ótima cerveja Guinness – que também edita o Livro dos Recordes. Visitar a fábrica da cerveja tipo Stout é parada obrigatória. 

Portal da felicidade, esta é a entrada do Tour da Guinness

São sete (!) andares com um museu com a história da cervejaria inaugurada em 1759, o processo e a história de fabricação, a importância da marca para a Irlanda, uma experiência de sabores e cheiros, o aprendizado de como servir a cerveja (e o porquê daquela bolinha dentro das latas) e a melhor visão de Dublin, no Gravity Bar, de onde você pode ver, entre outras coisas, o Aviva Stadium, casa da Seleção Irlandesa. O passeio custa entre 6 e 17 Euros, dependendo da faixa de idade. É a cerveja mais consumida na cidade, num dos exemplos de orgulho local.

Quase gaúchos

Dublin se orgulha da excelência da Guinness, valoriza o comercio local – é comum ver faixas em restaurantes e mercados dizendo que “aqui se vende carne irlandesa” – mas, no futebol, a preferência é pelos clubes ingleses, especialmente Liverpool e Manchester United, e pelo Celtic, da Escócia. Os escoceses contam com enorme torcida na cidade, tudo em virtude do catolicismo, religião de 11 entre 10 irlandeses. Reds e Devils ganham adeptos pela proximidade e pelos desempenhos favoráveis. Azar dos times de Dublin.

Bohemians, Athletic St. Patricks e Shamrock Rovers são os clubes de Dublin. Nenhum usa com frequência os dois principais estádios da cidade, o Aviva e o Croke Park – este muito usado pelo rugby e pelo futebol gaélico. A maior rivalidade é entre os Bohs e os Rovers. Ambos têm seus estádios, acanhados, para menos de 10 mil pessoas. O do Rovers é na verdade um estádio público, arrendado pela equipe, e muito mais moderno e confortável.

Os Rovers também são os mais bem sucedidos na cidade. Seu último orgulho foi a disputa da Liga Europa 2011/12, edição transmitida ao vivo aqui no Terra. O orgulho não se deu pelos resultados e sim pela turnê internacional contra Rubin Kazan da Russia, PAOK da Grécia e Tottenham da Inglaterra. Em campo, seis derrotas na fase de grupos, com 4 gols pró e 19 contra. O estádio ainda tem um enorme painel com o mapa da Europa e o logo da Liga, assim como um pequeno museu, cujo destaque, além das taças locais, é a placa abaixo, na referência ao duelo inaugural contra o Real Madrid, derrota por 0-1.

Pequenas glórias, pequenas alegrias no futebol irlandês

Paulo André: “O futebol brasileiro vai de mal a pior”

Paulo André, cabeça pensante no futebol brasileiro

Passada a eliminação do Cruzeiro na Libertadores, a última entre as seis que os brasileiros viveram nessa edição, um dos principais articulistas de um movimento de renovação no futebol brasileiro aceitou o convite do blog para falar do futuro do esporte número um no país. O zagueiro Paulo André, ex-jogador de Guarani, Atlético Paranaense e Corinthians, mudou de endereço, mas não de pensamento. Atualmente no Shanghai Shenhua da China, Paulo André defende que o Bom Senso FC, movimento do qual faz parte, não sumiu e sim mudou de estratégia. Não vê legado da Copa além dos estádios e sentencia: o futebol brasileiro quebrou. Leia a entrevista:

Napoleão de Almeida: A Copa está chegando, esse é um ano eleitoral. Difícil desassociar. Mas, noves fora as jogadas políticas, a Copa trouxe ou trará, para os profissionais do futebol, alguma melhoria efetiva? Como você vê a realização da Copa aqui na posição de quem faz o espetáculo?

Paulo André: Acredito que os novos estádios, apesar de tudo, serão o único legado estrutural que a Copa deixará. Isso fará com que a transmissão dos jogos e a experiência do torcedor que frequenta estádios no Brasil melhore bastante. Mas no fundo, e é triste assumir isso, acho que o Brasil apenas mostrou a sua cara, a sua falta de organização e de planejamento históricos e sua mania de tentar resolver tudo com o jeitinho. Decisões políticas e não técnicas fizeram com que perdêssemos a chance de acelerar o desenvolvimento de políticas públicas que impactassem diretamente no dia dia dos brasileiros que viverão aí (porque estou na China) após o dia 12 de julho.  As prioridades da população ficaram evidentes nas manifestações populares de junho do ano passado. A nós, resta devemos cobrando transparencia, eficiencia e punição caso seja constatada corrupção.

NA: Você faz parte do Bom Senso FC, mas o movimento parece ter perdido força com a sua saída do Brasil. Acaba que ficou a imagem de que você era a cabeça do movimento. É uma premissa verdadeira? Onde estão os demais, uma vez que os pedidos e sugestões a CBF parecem não ter tido efeito?

PA: O Bom Senso continua forte e trabalhando, a ponto de ter influenciado os rumos e as alterações promovidas pelo Dep. Otávio Leite no texto do Proforte. Sete das nossas 8 demandas de Jogo Limpo Financeiro estão comtempladas na proposta. Ou seja, encontramos outros caminhos para fugir da inoperancia e do desinteresse da CBF que, irritantemente, mantem sua política de tentar distrair e enfraquecer as demandas do movimento por meio do desrespeito aos principais atores do futebol nacional. É triste ver como tratam esse patrimônio do povo brasileiro que vai de mal a pior a cada ano que passa.

NA: Certa vez, em entrevista aqui ao Terra, o presidente do Atlético Paranaense, seu ex-clube, ironizou o movimento Bom Senso FC dizendo o seguinte: “Interessante eles (jogadores) se articularem agora, pois sempre quando precisa-se de uma renovação de contrato, nenhum conversa comigo. Mandam seus representantes”. É notória a presença dos empresários no futebol. Há quem diga ainda que só mudou o “dono” do jogador: do clube para o empresário. Como você vê essa crítica e por que o jogador raramente se faz representar?

PA: Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Admiro o Presidente Mario Celso Petraglia mas acredito que ele tenha sido infeliz nessa declaração. As negociações entre atletas e clubes não são simples e um representante, muitas vezes, se faz necessário para evitar desgastes importantes nesse tipo de discussão. É muito simples regularizar e fiscalizar as pessoas que querem ser empresários ou donos de “pedaços” dos atletas. Basta vontade política da CBF, dos clubes e de uma legislação mais específica. Mas aonde é que os dirigentes vão ganhar dinheiro se fecharmos com fiscalização e transparência essa torneira de compra e venda de jogadores? Há interesses obscuros de todos os lados nessa história. Não é tão simples assim. E outra coisa: Aos empresários só foi possível entrar nesse jogo porque os clubes, mal geridos, gastaram mais do que podiam e começaram a vender parte de seus bens. Do jeito que está não tem mais volta, virou uma zona.

NA: Teremos mais jogadores da MLS na Copa do que jogadores atuando no Brasileirão. Da mesma forma, o público médio nos EUA é maior do que o nosso aqui. Quando deixamos de ser o País do Futebol, perdendo até para um país em que o ‘soccer’ é o 5º ou 6º esporte na preferência popular?

PA: É o que temos falado nos últimos tempos. Na primeira reunião do Bom Senso com a CBF, o Juninho Pernambucano e o Seedorf foram claros nesses pontos e pediram que o Marin e o Marco Polo tomassem providencias. Os jogadores já perceberam, os treinadores já sabem, os outros países continuam vendendo um produto melhor que o nosso. Mas o pior cego é aquele que não quer ver. O Sr. Marco Polo del Nero e o Sr. Marin estão apostando todas as suas fichas no sucesso da seleção brasileira nesta Copa do Mundo. Gostaria que eles viessem a público e explicassem qual é o projeto para o nosso futebol. Como eles fortalecerão os clubes? Como eles internacionalizarão as marcas? Mas é impossível tocarem nesses assuntos porque desconhecem a solução. O talento brota da terra e os “poderosos” o exploram a torto e a direito. E enquanto isso acontece, nenhum clube brasileiro se classificou para as semi finais da Copa Libertadores. Isso é possível? Mesmo tendo uma receita 2 ou 3 vezes maior do que qualquer clube sul americano, ficamos de fora. O que mais precisa acontecer?

NA: O ‘Fantástico’ deste último domingo revelou um esquema de cambistas para ingressos da Copa. Antes, o ‘Olé’ da Argentina já havia denunciado um esquema que envolve organizadas. É muito dinheiro rolando. O torcedor está longe dos estádios, os jogadores são pouco ouvidos, os cartolas de clubes argumentam que o voto não é qualificado na escolha de uma presidência de confederação. Quem, afinal, é o dono do futebol brasileiro?

PA: O grande vilão é o estatuto da CBF que potencializa a força das “inuteis” federações. A maioria dos presidentes das federações se eterniza nos cargos e não fará nada para mudar essa realidade. É só ver os 5 vices da CBF que acabaram de se eleger. A quanto tempo cada um deles está no cargo? Para eles o importante é permanecer lá. Ninguém quer saber da capacitação dos treinadores e dos gestores, de medidas para trazer a paz aos estádios, de um novo calendário para o futebol nacional, do jogo limpo financeiro, da formação de atletas, da melhoria do nível técnico dos campeonatos, etc.. E assim vamos vivendo nessa ditadura mascarada. E a Globo, habilidosamente, se aproveita da fraqueza e do medo dos presidentes de clubes para controlar financeiramente o futebol.

NA: Ainda sobre torcidas organizadas: na final da Copa Itália, um incidente com os Ultras quase impediu a realização do jogo entre Napoli e Fiorentina. Jogadores tiveram de pedir permissão para começar a partida. Pelo visto, não é um problema exclusivo do Brasil. Qual o panorama que você encontrou na China? Quais as diferenças de organização para cá, por exemplo? E mais: vocês do Bom Senso FC têm/tiveram contato com atletas em outros países com problemas parecidos, como a Itália, para troca de experiências?

PA: Acho que a China é um caso a parte devido ao aspecto político do país. Se formos nos espelhar em alguém, devemos copiar o modelo inglês que quase erradicou a violência nos estádios de futebol no país. Fizeram isso há mais de 20 anos, obtiveram sucesso. O que estamos esperando? Com as novas arenas e sem uma nova regulamentação, verdadeiras catástrofes poderão acontecer.

NA: Estádios sem alambrados na Copa. Vocês, jogadores, se sentirão seguros para jogar nesse formato em partidas de clubes? Especialmente após o episódio do CT do Corinthians?

PA: Acho que falei sobre isso em respostas anteriores. Se não surgir um plano emergencial para esse caso, a impunidade, costumeira no país, ocasionará uma grande catastrofe. Clubes, Federações, torcidas, poder público e governo devem enfrentar seus demonios e arrumar a casa. Mas em ano de eleição isso será impossível. Ninguém mexerá nesse vespeiro.

NA: Por falar em seu ex-clube, quando da queda de produção do Corinthians em 2013, na sua visão, isso aconteceu por que o time atingiu o topo? Existe ciclo e validade no futebol profissional? Ou o problema foi outro?
PA: Acho que há uma complexidade em um grupo de futebol profissional que pouca gente consegue explicar. É como um organismo vivo que sobrevive em constante adaptação. Quando se acomoda, corre riscos de não evoluir. Se todos os envolvidos ou pelo menos os que lideram não se prepararem para os perigos e dificuldades do dia seguinte, as coisas começam a sair do eixo. Resumindo, faltou capacidade para antecipar os problemas e se preparar para o futuro de forma menos traumática.

NA: Nessa linha, pergunto: o Brasil está preparado para perder a Copa em casa? 

PA: O futebol não passa de um jogo, de um esporte apaixonante. Torço pela Seleção e espero que os jogadores tenham sabedoria para aguentar a pressão que será gigantesca. Para mim, o importante é ver a seleção jogar o verdadeiro futebol brasileiro, que alegra e encanta o mundo todo. O resto é consequencia.

NA: Roberto Dinamite é o único ex-jogador que ocupa um cargo de presidente em um dos grandes do Brasil – e podemos até contestar a gestão dele. Você se vê nesse perfil? Gostaria de ser presidente de algum clube? Qual? E como se preparar para isso?

PA: Não sei o que será de mim amanhã. Desisti de pensar nisso. Vivo um dia de cada vez. Uma coisa é certa, independente do que eu decidir fazer, irei me preparar da melhor forma possível. Platini, Cruiff e tantos outros ex-jogadores alemães são referencias de pós atletas bem sucedidos além dos gramados.

NA: Ituano campeão paulista. Em conversas com jogadores e o técnico deles, percebi que o grande segredo do time foi ter salários em dia; desde quando a obrigação se tornou trunfo?

PA: Hahaha, nem me fale um negócio desse. Esse buraco é mais fundo do que voce imagina. O futebol brasileiro quebrou.

NA: Como vê a situação do Guarani, clube que te formou na base?

PA: Com tristeza. O Guarani sempre apostou em suas categorias de base para superar os grandes desafios. Na atualidade, Edu Dracena, Renato, Elano, Jonas, Mariano e tantos outros foram formados no Brinco de Ouro. Mas o clube não soube lidar com as alterações da lei Pelé, foi mal assessorado, mal gerido e fracassou na última década. É preciso ter os pés nos chão e recomeçar do zero. Repetindo os mesmos erros não se chegará a lugar nenhum.

NA:  Tendo jogado em vários centros no Brasil, você vê, no modelo atual, “risco” de Espanholização no futebol brasileiro? É possível que dentro de algum prazo tenhamos dois ou três clubes apenas disputando títulos por aqui? E a palavra risco é a mais adequada mesmo?

PA: Não acredito que isso aconteça no Brasil. Mas acho que os clubes médios e pequenos devam se unir para evitar esse cenário. O modelo ingles e o frances de divisão de receita da TV me parecem os mais justos e, de certa forma, premiam o mérito da boa gestão e do resultado esportivo. O povo brasileiro não vai para o estádio para ver um espetáculo, vai para ver o seu time ganhar, ser campeão. Se essa possibilidade se tornar quase impossível, o futebol europeu vai ganhar ainda mais aficcionados no Brasil.

O ano de Adriano?

Adriano nos festejos de fim de ano: ponto final na interrogação?

A Seleção Brasileira tem um grande ponto de interrogação no ataque. Depois da Copa das Confederações, a lesão de Fred, a recusa de Diego Costa, a queda de produção de Jô e a instabilidade de atacantes como Leandro Damião, Robinho e outros deixaram o técnico Felipão e a torcida em alerta. A tentativa de Adriano voltar o futebol no Atlético pode ser uma solução. Pode? Ele próprio tem um grande ponto de interrogação para elucidar. No período de folga, festejos com a família no Rio e ausência depois de confirmar presença no jogo festivo de Zico no Maracanã.

Adriano tem jeito? É a pergunta que fiz para João Ricardo Lebert Cozac, presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia no Esporte:

“Confesso que olho com estranheza a proximidade de Adriano com o Atlético Paranaense. O atleta, que já teve ótimas oportunidades no Flamengo e Corinthians, demonstrou que os fatores que mobilizam sua atenção e dedicação são diferentes dos exigidos no mundo da bola. Adriano está mais perto da Vila Cruzeiro – dos amigos de infância – do retorno às coisas mesmas. De toda forma, vale a reflexão sobre essa nova possibilidade que o futebol oferece ao jogador.

No campo motivacional, vale frisar que ninguém consegue “instalar” necessidades quando não existe um apelo íntimo e real para a execução adequada de uma tarefa ou, até, no desenvolvimento e manutenção de uma profissão. Por mais que se diga por aí que a questão do Adriano é psicológica – de nada vai adiantar o empenho do Atlético – se ele próprio não assumir que precisa de ajuda.

Chega uma hora que os apelos extra-campo são mais fortes e, se o atleta não consegue equilibrar a vida pessoal com a profissional, o resultado tende a ser catastrófico. Especialmente num esporte de alto rendimento como o futebol que exige uma preparação esportiva (física, técnica e mental) acima da média. Além disso, a pressão e expectativa da torcida dificultam ainda mais a força de reação interna que lhe é solicitada a todo instante.

Não consigo imaginar o Adriano acordando cedo para treinar, ficar preso nos hotéis durante as concentrações e, acima de tudo, cuidar do corpo e ficar longe das baladas. Há outras coisas que fazem mais sentido a ele. E não é de hoje. O Corinthians errou ao trazê-lo para a capital paulista. Estive na Itália uma semana após a rescisão de seu contrato com a Roma e o que escutei por lá a seu respeito em nada se diferencia do que ouço por aqui. Noitadas, mulheres, bebidas, sobrepeso e falta de comprometimento.

É um panorama muito ruim para a convivência e harmonia do time. Um atleta que recebe uma fortuna como Adriano e não consegue se manter em forma – pode representar, se não houver um comando técnico/comportamental adequado da situação, uma variável danosa ao senso coletivo e de coesão do grupo. Já atuei como psicólogo do esporte em diversos clubes do país e posso atestar que essas diferenças nos salários dos atletas costuma ser terríveis para a esfera coletiva. Sempre houve, há e haverá vaidade no futebol – e fora dele. É preciso cuidado para não pisar em campo minado e, reforço: tenho dúvidas sobre a disponibilidade interna (e externa) de Adriano para continuar jogando futebol.

Torço, de verdade, para que a contratação da equipe paranaense contribua – de alguma maneira, com a saúde física e mental do atleta.  Do contrário, a situação ficará como a de adolescente desobediente que cabula uma aula atrás da outra para ir ao shopping. Chega uma hora em que os pais terão de assinar o boletim escolar do filho e aí, amigos, não tem jeito:  é bronca e castigo na certa!

Adriano já é homem formado e sabe o que quer da vida neste momento. E assim o fará.

De um jeito, ou de outro, certo?”

Cornetadas das torcidas na rede ganham site divertido

As redes sociais permitiram uma integração maior entre os clubes, jogadores e seus torcedores. Mas quando a fase não é boa, sobra pra todo mundo. Quem nunca cornetou um técnico, um jogador, uma decisão? Pela internet, a cornetagem cresceu e agora chega diretamente ao alvo. De olho nisso, um jornalista de São Paulo resolveu compilar as melhores cornetadas em um site.

 
 

Rafael Techima criou o “Olha o Carinho da Torcida”, uma reunião das principais cornetadas das torcidas nas FanPages e perfis oficiais dos clibes. “A ideia surgiu depois de reparar que muita gente respondia de forma raivosa ou irônica os posts dos clubes e dos atletas nas redes sociais. Dessa forma, pensei em organizar o que há de melhor nessa “nobre arte”. Me divirto muito pesquisando os comentários ou replys!”, conta Rafael, que é são-paulino e não poupa – como visto acima – ninguém.

 
 

Rafael procura as postagens em todos os principais clubes do Brasil e já conta com ajuda. “Não monitoro um clube específico, dou uma passada em todos os principais. Claro que quando algum deles perde ou não está em uma boa fase, o trabalho é muito facilitado. Há a possibilidade do torcedor encaminhar sua sugestão pelo próprio tumblr ou por este e-mail mesmo.”

O sucesso já fez com que mais de 1000 pessoas entrassem, apenas na primeira semana, na FanPage do blog. E esse não é o primeiro “trabalho” dele na linha da cornetagem.

 
 

Rafael já dava as suas próprias cornetadas nos colegas de imprensa com o “Taison ou Messi?” (referência à essa coluna do gaúcho Wianey Carlet), que divulga barrigadas da imprensa esportiva – clique aqui para conhecer

Jogadores e clubes que se cuidem: as cornetadas virtuais estão afiadas!

 
 

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Movimento nos EUA também pede menos futebol… americano

Muitos jogos, muitas lesões, jogos ruins, placares baixos, overdose de jogos na TV. Você tem lido e ouvido muito sobre isso nos últimos dias, desde que a CBF lançou o calendário 2014, inchado ainda mais pela Copa e criticado publicamente por quase toda a imprensa, torcedores e até cartolas e jogadores. Mas desta vez não estamos falando do futebol e sim do football – ou futebol americano, para nós tupiniquins.

Um movimento iniciado a partir de uma crônica do jornalista Dan Levy pede menos jogos na NFL, a National Football League, gestora do esporte número 1 nos EUA. O alvo é claro: o Thursday Night Football, a rodada das quintas-feiras. Lá, como cá, há a influência direta da TV na manufatura da tabela e na sustentação da liga. No entanto, as semelhanças param no nome e nas críticas.

A NFL é a liga esportiva mais bem sucedida no Mundo. Sua decisão, o Super Bowl, detém os recordes de audiência em todo o planeta. O evento foi avaliado pela revista Forbes como o mais rentável e valioso da Terra, acima até de toda a Copa do Mundo de futebol. A temporada de jogos dura apenas seis meses – contra 11 no calendário brasileiro – sendo que o campeão de 2012, Baltimore Ravens, fez 20 jogos para chegar ao troféu. O Corinthians, atual campeão mundial de futebol, fez 59 jogos de janeiro até a partida de ida contra o Grêmio, pela Copa do Brasil.

Os esportes também são bem diferentes entre si. O football tem pouco foot (pé) em relação ao nosso futebol. E é também um esporte de muito mais impacto e lesões. Isso tem feito com que o esporte número 1 dos EUA perdesse muito campo para o esporte número 1 do Brasil dentro de seu próprio território. Um estudo apresentado no livro Soccernomics mostra que muitas mães norte-americanas têm proibido seus filhos de praticarem o futebol americano em função dos machucados constantes e dos preços dos equipamentos para a prática dele. Mas, claro, esse é outro papo.

Levy abre seu raciocínio dizendo: “há coisa mais ridícula do que pedir MENOS futebol”? A ideia é dizer de que o problema não está exatamente na overdose de futebol americano, mas sim na overdose de futebol americano RUIM. Basicamente, a mesma crítica que vem sendo feita no Brasil. Nos EUA, as rodadas são realizadas às quintas, sábados, domingos e segundas. A NFL e todo o esporte norte-americano é pensado em conjunto. Salvo em raros períodos, as ligas esportivas (MLS futebol, MLB basebal, NHL hockey e NBA basquete) não coincidem suas atividades.

No Brasil, o massacre pró-futebol é maior. Ainda assim os analistas acham que a overdose procede. “Não sou fã. Eu sei que é ótimo e isso não levará a lugar algum, vou seguir assistindo, mas não sou um grande fã da necessidade e da competitividade da liga para o Thursday Night Football“, disse o ex-técnico Billy Billick, hoje comentarista da rede de TV Fox, “A liga é míope em relação à saúde dos jogadores”.

A grande curiosidade entre os dois movimentos, brasileiro e norte-americano, é que o torcedor em geral está cansado do que mais ama. E isso por que o produto oferecido não é dos melhores, na contra-partida do crescente preço dos ingressos. Estaduais enfadonhos aqui, jogos ruins lá, na liga milionário americana. O torcedor-consumidor começa a despertar. E filme ruim não dá audiência.

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