Poker: avanço histórico no pano, retrocesso fora dele

André Akkari: 2o brazuca campeão mundial (foto: blog do aakkari)

Quando o KJ (rei e valete) de André Akkari superou o A8 do americano Nachman Berlin, com um bordo que trouxe dois Ks, a sorte ajudou o brasileiro a trincar e finalizar o adversário, que foi para o all in em vantagem (60% x 40% de probabilidades); mas ela não explica como, usando de muita estratégia e leitura de jogo, após quatro horas de partida mano-a-mano (heads up ou HU) Akkari virou uma diferença de quase o triplo de fichas que estavam de posse de Berlin.

A vitória de André Akkari no evento 43 do WSOP, maior torneio do Mundo no poker, é mais do que a segunda conquista mundial brasileira (a primeira, foi do curitibano Alexandre Gomes, em 2008); é a vitrine que o esporte precisava para mostrar o potencial brasileiro.

Sim, esporte. Causa espanto a alguns ler que poker, um jogo de cartas, é esporte. Pois além de muito estudo, estratégia, atenção e coragem para os movimentos certos, o poker exige ainda do jogador um ótimo preparo físico para estar apto a tomar decisões rápidas sob pressão por horas e horas. O torneio vencido por Akkari teve 2800 participantes e exigiu muito tempo de dedicação física, que só pode ser obtida com um ótimo preparo. Mnimizar o poker como esporte é o mesmo que dizer que um piloto de F1 apenas guia um carro e, por isso, não é esporte.

Akkari também dá mais um voto contra o preconceito. Foi-se o tempo que as mesas de poker eram locais de consumo de bebidas e cigarros. Hoje, a concentração e competitividade é máxima. O interesse cresce e aos poucos as barreiras caem. Muito pelo trabalho de Akkari, que há anos luta pelo reconhecimento que agora veio, em forma de bracelete, com o titulomundial. E, claro, com os mais de US$ 650 mil que faturou – premiação digna dos melhores circuitos de tênis.

Retrocesso

Se a vitória de Akkari mexeu com a emoção e o orgulho de todos os poker players brazucas, o mesmo não pode ser dito de mais um bloqueio do site Full Tilt Poker por parte da justiça. Agora, mundial. Com a medida, milhares de players brasileiros estão com fundos retidos no site. Dinheiro mesmo. Em contrapartida, em nova demonstração de lisura e gerenciamento de crise, o concorrente mais forte do FTP, PokerStars, já emitiu nota garantindo seus players e isonomia.

O problema não está no jogo e sim na maneira com a qual pessoas ligadas ao site usaram o mecanismo para lavar dinheiro. Evasão fiscal, entre outros problemas. Esse passa a ser o maior adversário do poker agora: a moralização. Se o esporte venceu o preconceiro e a ilegalidade, com pareceres de gente como Miguel Reale Jr., agora precisa vencer a corrupção e a evasão fiscal.

E no Brasil, caberá aos realizadores do BSOP (o Brasileiro de Poker) e à CBTH (Confederação Brasileira de Texas Holden) dar alguma satisfação aos usuários do Full Tilt, que patrocinou até agora o evento. Ainda hoje um amigo que estava classificado em um dos satélites para a próxima etapa do BSOP reclamava não saber o prejuízo que terá com o bloqueio, sem previsão de retorno.

Com a palavra, os organizadores.