Paraná, Paulistão e Botafogo mostram o futuro dos Estaduais

15 mil pessoas viram a virada do Londrina sobre o Atlético no Café

Muito se discute sobre o fim dos Estaduais. As questões são em cima do público, do calendário, das fórmulas cansativas. Para alguns, os Estaduais têm que acabar. 

A premissa está errada; não são os Estaduais que têm que acabar, é o modelo atual de disputa deles que tem que ser urgentemente mexido. E 2014 já deu o tom de como essa mudança deve ocorrer. A final do interior no Paraná. A chegada do Ituano à decisão em São Paulo. A eliminação do Botafogo no Rio. Coincidências que não deveriam passar disso, mas devem ser tratadas de forma diferente. 

Enquanto clubes como Flamengo, Atlético e Botafogo chegaram a levar 500 pessoas em alguns jogos, Londrina e Maringá jogaram para 30 mil pessoas nas semifinais do Paranaense. A vaga do Penapolense nas semifinais significou também a garantia da Série D e de calendário para o time de Penápolis; para o São Paulo, 21 vezes campeão paulista, não significou crise. Nem mesmo para o Corinthians, que bem ou mal ainda vive lua de mel com a torcida após uma era vitoriosa – as eliminações dos rivais amenizaram a pressão, que também foi suave para o Palmeiras. O Botafogo caiu no Carioca e ninguém se importou; para a Cabofriense, foi garantia de calendário. O Coritiba talvez tenha sido o mais pressionado pela eliminação precoce nos Estaduais, mas muito mais pelo fim de uma série vitoriosa. O conceito está mudando: para os grandes, ganhar o Estadual é legal, mas não é vital.

O Atlético iniciou o processo em 2013. Por motivos políticos e técnicos, colocou uma equipe “Sub-23” (de fato, um time com muitos jovens e outros pouco aproveitados nos profissionais) e ainda assim chegou à decisão, com direito a um 3 a 1 no time principal do Coxa no meio do caminho. Perdeu o título, mas as campanhas na Copa do Brasil e no Brasileirão apagaram a derrota. Muito se falou de como o preparo físico dos jogadores do Furacão, poupados de um longo estadual, ajudou em 2013. Para 2014, o Botafogo seguiu o caminho. Priorizou a Libertadores e nenhum Alvinegro se importou com a pior campanha de todos os tempos do Fogão no Carioca. Apesar da situação delicada na competição continental (fruto de outro tipo de desordem, esta nas finanças internas), ninguém duvida que a decisão foi acertada. O Grêmio, mais comedidamente, também deu costas ao Gauchão em muitos jogos e superou com folgas o “Grupo da Morte” na Libertadores. Ainda assim decide o título local com o Inter.

Não é novidade no futebol mundial. Poucos sabem, mas o Barcelona disputa o estadual da Catalunha, assim como o Bayern joga o estadual da Bavária. Ambos com times completamente reservas, formados por jovens que poderão ser utilizados no futuro nos times principais.

É verdade que Atlético-MG e Cruzeiro jogaram o estadual de Minas com força máxima e são os campeões da América e do Brasil. Mas também é verdade que o Mineiro é o mais enxuto de todos os Estaduais do País. Ainda assim, a final entre Galo e Raposa era prevista e, convenhamos, poderia ser antecipada. As rodadas classificatórias foram protocolares. Quem festejou mesmo em Minas foi o Boa Esporte, cada vez mais consolidado como quarta força mineira, com boas campanhas na B e em Minas Gerais. 

Os Estaduais interessam – e muito – para o interior, que tem neles a chance de fazer uma ponte para as divisões do Brasileiro. Para os grandes têm sido um atrapalho. Os torcedores dos grandes não sentem mais as derrotas, pensam muito mais nos confrontos internacionais ou mesmo interestaduais, os clássicos do Brasileirão. Enquanto isso, uma série de times fica sem calendário por 6, 7 meses, acompanhando futebol só pela televisão.

O raciocínio é simples: se um valoriza e outro despreza, que se atendam as demandas. Estaduais mais longos, como base de acesso ao Brasileirão, enquanto os grandes possam se programar para fazer frente aos desafios nacionais e internacionais. E a meritocracia vai estabelecer quais dos pequenos vão mudar de patamar ao longo dos anos. Londrina, Guarani, Juventude, Botafogo-SP, clubes que querem voltar a ter espaço e que precisam de mais atividade ao longo do ano, podem consolidar seus domínios locais sem desgastar a agenda dos clubes da Série A. Vale uma taça extra, como a Supercopa Gaúcha entre Inter e Pelotas? Vale. Uma grande festa de pré-temporada, entre o clube que venceu todos os demais do Estado contra uma força consolidada ao longo dos anos pelo domínio regional, talvez determinada pelo representante de melhor campanha no Brasileirão. Apenas uma ideia.

O fato é que para muitos torcedores dos times da elite nacional, perder o Estadual não tem mais impacto e ganhá-lo pode até ser ilusório. Com a concorrência de Real Madrid, Barcelona, Bayern e outros, os clubes grandes precisam mudar o mercado local. É fácil ligar a TV e ver os gigantes da Europa jogando. E o que impede uma criança brasileira de torcer para um destes, seguindo o mesmo raciocínio do sujeito que mora em cidades sem clubes de expressão e opta pelos grandes do Brasil, sem sequer ter pisado no estádio do seu clube do coração?

A mudança vai exigir paciência dos torcedores, que vão ter de entender que a rotina de levantar taças vai se tornar escassa. Clubes multicampeões estaduais vão ter que, por vezes, se contentar com uma vaga na Libertadores. Só um será campeão do Brasileirão por ano, com outro vencendo a Copa do Brasil.

Mas convenhamos: para o Ituano, ser campeão paulista será um feito histórico; para o Santos, bem conversado, estar na Libertadores seria mais festivo do que vencer o 21o paulista.

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