Uma reflexão sobre o esporte brasileiro e o jornalismo esportivo

Mayra Aguiar fez história nesta quinta e eu tive a honra de acompanhar. A judoca gaúcha ficou com o bronze na categoria meio-pesado (até 78kg) em Londres 2012. Mayra (pronuncia-se ‘Má-y-ra’) medalhou e eu, 10 anos depois de começar nisso, finalmente posso falar com convicção que sou narrador esportivo. De fato, até uma semana atrás, era no máximo narrador de futebol, como muitos dos meus colegas. É o que resume o esporte no Brasil, salvo o intervalo de 20 dias a cada 4 anos chamado Olimpíada.

Em uma semana, fiz Judô, Boxe, Natação, Basquete e Vôlei de Praia nas transmissões que o Terra tem feito, inovando e oferecendo essa alternativa ao internauta. Ah!, fiz Futebol também. Masculino, ressalte-se – mas podia ser feminino, tão escanteado (ops, olha o ato falho) quanto os demais esportes “amadores”. Nós, narradores esportivos, nos apresentamos assim, mas na verdade falamos mesmo é de futebol. Até mesmo a famigerada associação da crônica local, que se diz “esportiva” e pretende ser reguladora da profissão, não aparece em eventos como Stock Car, MMA ou futsal. Mama no futebol e só. É a cultura do País. Cultura que também faz atletas como Mayra como vitimas. Vão de heróis a vilões em segundos, a cada quatro anos, para depois mergulharem no ostracismo. Até a outra olimpíada.

Quando Mayra venceu a disputa do bronze, acreditem, me senti medalhando junto. Antes da luta, eliminada por sua grande rival, a americana Kayla Harrison, em uma final antecipada, Mayra dividiu opiniões nos comentários no Terra. Líder do ranking mundial, Mayra parou – depois soubemos –  na futura campeã olímpica. Mas o cruzamento atrapalhou. E, convenhamos, só uma pode vencer. Hoje, foi Harrison, em outras 4 ocasiões havia sido Mayra. Ela virou “amarelona”, o Brasil virou sinônimo de fracasso olímpico. Todos passamos a entender Judô como se fosse… futebol. Nossa cultura esportiva é de amor à vitória, não ao desporto. Tanto é que o bronze de Mayra logo apagou a frustração.

É assim com todos os atletas olímpicos. Saem da obscuridade para se tornarem heróis e decepcionarem em segundos. Culpa nossa – a mídia – também. Alimentamos isso como se o Brasil fosse uma potência olímpica. Não é. Temos atletas talentosos, esforçados e em grande maioria com pouco apoio. Parece chover no molhado, e é. Mas basta ver que nosso esporte número 1, o futebol, jamais foi ouro olímpico (cá entre nós, acho que o ano é esse. Me cobrem). Isso resume tudo.

Rio 2016 vem aí. Há poucos dias, escrevi sobre a necessidade de se mobilizar e a oportunidade que Curitiba pode ter para fazer parte de tudo. Em época de eleições, é possível que vejamos muitas promessas e fotos com os medalhistas. Mas é tempo de mudar essa cultura. Fato é que os narradores futebolí… digo, esportivos, também não vêem muito como acompanhar os torneios ao longo dos quatro anos que antecedem e formam o ciclo olímpico. É um círculo vicioso, que se dissipa só durante os Jogos. Difundir o esporte, montar equipamento urbano, incentivar a prática, socializar crianças e jovens e acostumá-los aos holofotes é o caminho para que deixemos de ser especialistas de ocasião e nos tornemos uma força olímpica verdadeira.

Abrindo o Jogo – Coluna no Jornal Metro Curitiba de 27/06/2012

O compromisso com o erro

Está tudo errado no futebol do Atlético em 2012 e a classificação na Série B do Brasileiro atesta isso. Por isso, apesar de cair na chacota popular, a troca de comando técnico – ainda não 100% confirmada – de Ricardo Drubscky, recém chegado (dois jogos) não deve ser vista como um erro; é uma correção de rota. Erro é insistir em um técnico inexperiente comandando um elenco falho. Drubscky, até o fechamento dessa coluna ainda no cargo, não tem o perfil necessário que o Furacão precisa para voltar à elite ainda nesse ano. Pode ser útil na base, no Sub-23, time que deverá jogar o Estadual 2013. Mas para a Série B o nome de Jorginho, campeão desta competição no ano passado com a Portuguesa, é sem dúvida o mais adequado ao momento. Atlético ou ninguém deve ter compromisso com o erro e ao se confirmar essa informação, isso deve ser mais valorizado do que a aposta errada. Mas vale lembrar que só a troca de treinador não resolve: reforços são exigidos para o objetivo.

A frase

“O melhor para o torcedor do Atlético é ver o time campeão e de volta a Serie A. O Atlético precisa ser forte e eu to pensando mais no Atlético”, disse Jorginho, dando a entender que comprou o projeto, em entrevista à Rádio CBN Curitiba ontem.

O símbolo

Dinheiro não é tudo, nem mesmo no mercado do futebol. Lúcio Flávio estreou bem e faz bem ao Paraná Clube – que já é melhor que o Atlético na Série B.

O fator casa

Faltam ainda 15 dias para o início da série decisiva da Copa do Brasil entre Coritiba e Palmeiras, mas desde já firmo posição. No campo, confronto equilibrado, com o Coxa vivendo um momento ligeiramente melhor. Fora dele, vantagem ampla paranaense. Não dá para negar que o Couto Pereira pesará na decisão, enquanto o Palmeiras mandará o jogo em um campo sem identificação, Barueri. Esse ano, o Coxa não deixa escapar.

Pobre mercado esportivo

Defende – justamente – fim da censura em alguns casos, mas aplica censura velada em outros; majora em 40% o valor da anuidade, sem realizar reciclagem de profissionais, ciclo de palestras, integração com universidades e outros benefícios para a classe; tornou-se um pedágio inconstitucional para o trabalho, mesmo de quem está referendado por um veículo, tem 10 anos de exercício, formação acadêmica e está autorizado pelo dono do espetáculo; usa de truculência nas ações; libera associação mediante pagamento, se pretendendo reguladora profissional, botando os clubes em maus lençóis; serve como trampolim político. Qual o futuro de quem leva a notícia ao público esportivo com esse cenário em determinada associação? Que interesses são defendidos por quem escreve a notícia que você lê/ouve? Olho aberto, leitor.

Um estranho no ninho

Estádio Alfonso Carrasquel: já entrei em muitos, mas esse era inédito

Puerto La Cruz, Venezuela – Mal me recuperava da vermelhidão praiana em minha pele e deparei-me com o jornal de Puerto La Cruz anunciando que era dia de baseball na cidade. Já estive em diversos estádios mundo afora. Jamais perco a chance de comprar uma camiseta ou ver um jogo se estou numa cidade desconhecida. Nessa, sem contar os brasileiros, já ficaram pra trás La Bombonera, Monumental de Nuñez e Avellaneda, do Racing, La Olla e Defensores del Chaco, em Assunção, Camp Nou, Vicente Calderón, Santiago Bernabéu, Estádio da Luz e o novo Emirates, do Arsenal, na Europa, entre outros. Já encarei até Huracán 1-2 Colón em BsAs e fora futebol, estive no Staples Center, do LA Lakers. Mas todos conhecidos e principalmente: de esportes conhecidos.

Mas baseball nunca foi comigo. Entre nós, acho um porre. Vou além: até pela profissão, procuro entender de TODOS os esportes. Mas confesso que não sei lhufas de baseball. Então, em nome de uma boa história, encarei a buseta (sim, o pequeno ônibus que nos levava) e parti para o jogo. Valia o espetáculo. E ao chegar lá percebi não se tratar de qualquer jogo.

As filas para as entradas eram enormes. O Caribes de Anzóategui recebia o Leones de Caracas. É mais ou menos como se o Leones fosse o Corinthians visitando o Avaí, com o bônus de que o Avaí, no caso, é o atual campeão venezuelano de baseball. Aí você imagina. Mas o primeiro ponto positivo é que havia muitas crianças e torcedores uniformizados dos dois times conviviam pacificamente entre si, mesmo com todas as características de paixão possíveis presentes. Até bateria de torcida organizada. O segundo ponto é o preço: compramos (arrastei a esposa, sem muito choro) entradas ao lado do campo por módicos BF$ 80, algo como R$ 20 no câmbio extra-oficial. E ao entrarmos, apesar da simplicidade do estádio, o encontro com o velho padrão: a loja oficial do Caribes e um corredor com o Hall da Fama do clube.

A franquia é nova, mas o clube tem 24 anos. A história está aqui e esse é o site oficial. Marinheiro de primeira viagem, compramos ingressos para a torcida da casa, como mandam os bons costumes. Mas entramos na torcida do Caracas, por engano. Sem problemas: além de não estarmos uniformizados, o pessoal é extremamente bem educado e nos indicou os locais certos. No caminho, uma surpresa: acreditem, tomamos cerveja no estádio.

"Ditadura" Chavista: aqui, se pode tomar uma cervejinha e ver seu time

É, amigo, a Venezuela, do “ditador” Chavéz, permite a venda de cerveja nos estádios. No mesmo em que entrei por engano na torcida adversária e fui conduzido educadamente ao posto certo. Sim, o mesmo em que crianças e famílias convivem, mesmo com provocações ao rival, em paz. Acredita?

Rápida nota: o texto não quer entrar no mérito se Chavéz é ou não um bom governante. Conversando com taxistas – termômetro das cidades – vi que tem gente contra e gente a favor. Como Lula no Brasil. E todos disseram, a sua maneira, que as eleições são mesmo democráticas. Uns reclamam que Chavéz usa a máquina para se perpetuar, outros alegam que ele tem feito muito pelo povo mais pobre. E segue o baile.

Fato é que sentamos pertinho do campo. E – juro – tentei muito entender o jogo. Até porque o lugar era muito privilegiado.

Um tropeço e você cai no campo

Entendi os dois home runs que o Caribes impôs ao Caracas e levou a galera ao delírio. Teve ainda polêmica da arbitragem, muita reclamação e algo pitoresco: as duas torcidas comemorando um lance duvidoso por minutos. Depois, o juiz deu a favor do Caracas, o que gerou revolta no pessoal da casa. Mas nada que passasse de um hijo de puta aqui ou ali.

Ok, eu prometi não falar de política, mas não tem muito como: a velha fórmula eleitoral funciona. Tarek Willian Saab, que reformou o estádio e viu o time da cidade ser campeão na sua gestão, não perderia a chance de se promover em ano pré-eleitoral:

Pão e circo

Ao olhar as propagandas, percebi como o jogo estava arrastado. Ou, pelo menos, como eu já não entendia uma jogada sequer. Quem seria o rebatedor? Esse arremessador é bom mesmo?

Enfim, logo descobri o melhor em campo.

Ambulante da cerveja, o destaque da noite

Ele atende pelo nome de Muchacho (como todos os garçons por aqui) e passou a nos trazer cerveja gelada frequentemente. O jogo melhorou, eu passei a enxergar melhor, fiquei mais magro e minha mulher ainda mais parecida com a última Miss Venezuela. Quase aprendemos algumas músicas da torcida da casa, mas a verdade é que o pessoal do Caracas era mais animado. E não precisavam de animador de sistema de som para isso.

Quando vi, já estávamos há 2h no campo e o placar marcava 3-2 para o Caribes, que precisava da vitória para não ficar na dependência de outros para ir aos play-offs. E tinham se passado apenas 6 turnos de 9 possíveis. Num cálculo rápido, decidi não ficar mais uma hora no campo e fomos embora antes da corrente toda. E mantive a fama de pé-quente: depois de sair, o Caracas virou o jogo para 5-3.

Bem, paciência. Valeu a experiência.

...y salud para la tribu!

 

 

Poker: avanço histórico no pano, retrocesso fora dele

André Akkari: 2o brazuca campeão mundial (foto: blog do aakkari)

Quando o KJ (rei e valete) de André Akkari superou o A8 do americano Nachman Berlin, com um bordo que trouxe dois Ks, a sorte ajudou o brasileiro a trincar e finalizar o adversário, que foi para o all in em vantagem (60% x 40% de probabilidades); mas ela não explica como, usando de muita estratégia e leitura de jogo, após quatro horas de partida mano-a-mano (heads up ou HU) Akkari virou uma diferença de quase o triplo de fichas que estavam de posse de Berlin.

A vitória de André Akkari no evento 43 do WSOP, maior torneio do Mundo no poker, é mais do que a segunda conquista mundial brasileira (a primeira, foi do curitibano Alexandre Gomes, em 2008); é a vitrine que o esporte precisava para mostrar o potencial brasileiro.

Sim, esporte. Causa espanto a alguns ler que poker, um jogo de cartas, é esporte. Pois além de muito estudo, estratégia, atenção e coragem para os movimentos certos, o poker exige ainda do jogador um ótimo preparo físico para estar apto a tomar decisões rápidas sob pressão por horas e horas. O torneio vencido por Akkari teve 2800 participantes e exigiu muito tempo de dedicação física, que só pode ser obtida com um ótimo preparo. Mnimizar o poker como esporte é o mesmo que dizer que um piloto de F1 apenas guia um carro e, por isso, não é esporte.

Akkari também dá mais um voto contra o preconceito. Foi-se o tempo que as mesas de poker eram locais de consumo de bebidas e cigarros. Hoje, a concentração e competitividade é máxima. O interesse cresce e aos poucos as barreiras caem. Muito pelo trabalho de Akkari, que há anos luta pelo reconhecimento que agora veio, em forma de bracelete, com o titulomundial. E, claro, com os mais de US$ 650 mil que faturou – premiação digna dos melhores circuitos de tênis.

Retrocesso

Se a vitória de Akkari mexeu com a emoção e o orgulho de todos os poker players brazucas, o mesmo não pode ser dito de mais um bloqueio do site Full Tilt Poker por parte da justiça. Agora, mundial. Com a medida, milhares de players brasileiros estão com fundos retidos no site. Dinheiro mesmo. Em contrapartida, em nova demonstração de lisura e gerenciamento de crise, o concorrente mais forte do FTP, PokerStars, já emitiu nota garantindo seus players e isonomia.

O problema não está no jogo e sim na maneira com a qual pessoas ligadas ao site usaram o mecanismo para lavar dinheiro. Evasão fiscal, entre outros problemas. Esse passa a ser o maior adversário do poker agora: a moralização. Se o esporte venceu o preconceiro e a ilegalidade, com pareceres de gente como Miguel Reale Jr., agora precisa vencer a corrupção e a evasão fiscal.

E no Brasil, caberá aos realizadores do BSOP (o Brasileiro de Poker) e à CBTH (Confederação Brasileira de Texas Holden) dar alguma satisfação aos usuários do Full Tilt, que patrocinou até agora o evento. Ainda hoje um amigo que estava classificado em um dos satélites para a próxima etapa do BSOP reclamava não saber o prejuízo que terá com o bloqueio, sem previsão de retorno.

Com a palavra, os organizadores.