A mulher de César

“À mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer honesta*” (César Augusto, imperador romano)

Bahia x Ceará se enfrentam 17h de domingo, no Estádio de Pituaçu, em Salvador. Agora, mais do que antes, sob os olhares desconfiados de atleticanos e cruzeirenses espalhados pelo Brasil. Afinal, quando um clube usa seu veículo oficial para manifestar desejo de que seu próximo adversário tenha sucesso, tudo pode acontecer.

A infeliz nota publicada no site do Bahia possivelmente não reflita o pensamento de todos os torcedores, dirigentes e jogadores do Tricolor da Boa Terra, mas certamente dá a chancela oficial do clube. É o desejo do Bahia: que o Ceará permaneça na elite. E para que isso aconteça, o Ceará precisa vencer o Bahia, em Salvador, contando com um tropeço do Cruzeiro no clássico com o Atlético-MG.

Nenhum outro resultado será permitido ao Bahia senão a vitória, após a publicação da nota. Qualquer outro final e, para todo o sempre, o time de Salvador viverá sob a sombra da possível entrega do resultado. Ainda que o Ceara faça o jogo de sua vida, é o Bahia quem já está perdendo. Tudo por uma infeliz decisão do departamento de comunicação da equipe baiana. É pouco provável – e muito lícito, inclusive – que o STJD puna o Bahia em algo mais que uma multa. Coisa pior aconteceu entre Fortaleza e CRB na Série C nacional e os times cearense e alagoano passaram batido.

Dirão: “mas o Bahia tem chances de chegar a Copa Sul-Americana! Por que entregar?”. É fato. Mas para isso tem de torcer contra Atlético-MG ou Atlético-GO – este, recebe o América em casa. E o principal: a pergunta desconfiada das intenções do Bahia aparece motivada por uma decisão do próprio Bahia.

A distância, o Atlético assiste a tudo, tendo que contar com a incompetência alheia para não cair para a Série B. E, pela frente, o clássico mais importante já disputado em Curitiba. Do outro lado está o Coritiba, simplesmente precisando da vitória para chegar a Copa Libertadores 2012.

A queda atleticana, que parece inevitável, não terá como única causa uma eventual derrota do Bahia. Foram 38 rodadas decisivas, não uma apenas. E para não ir muito longe, se tivesse vencido o América na última rodada, o Atlético dependeria apenas de si. Paga o preço por ser incompetente.

Mas a nota no site do Bahia já fez um estrago: duvida-se agora da lisura do processo. Apagará a vergonha rubro-negra em caso de queda? Não.

Mas mostra o quão despreparados e anti-profissionais estão alguns setores do futebol brasileiro.

*Relato sobre a frase, retirado do site Guia do Estudante, abaixo:

(…) A frase original surgiu após um escândalo em Roma, por volta de 60 a.C., envolvendo o homem mais poderoso do mundo, sua mulher e um nobre pretendente.

Pompéia vivia muito sozinha, enquanto o marido Júlio César passava meses com seus exércitos. É nesse cenário perfeito para as fofocas que surge Clódio, um nobre admirador da moça. “Numa noite, para conseguir se aproximar de Pompéia, ele entrou no palácio disfarçado, mas acabou se perdendo pelos corredores e sendo descoberto e preso”, diz a historiadora Maria Luiza Corassin, da Universidade de São Paulo.

O jovem foi levado ao tribunal e o próprio César convocado para prestar esclarecimentos. “Ele declarou ignorar o que se dizia sobre sua mulher e a julgou inocente”, afirma Maria Luiza. O penetra foi absolvido, mas Pompéia não se livrou do ostracismo e do repúdio do marido. Para quem o acusava de estar sendo contraditório, ao defender a mulher no tribunal e condená-la em casa, ele teria afirmado: “Não basta que a mulher de César seja honrada, é preciso que sequer seja suspeita”.

“Entrega, Coelhão!”

Ao longo da semana, a torcida do América-MG lançou um movimento chamado “Entrega, Coelhão!”, para que o clube perca o jogo para o Atlético e assim, por consequência, prejudique o Cruzeiro, rival americano. O movimento teve repercussão na imprensa mineira e, a convite do blog, o jornalista Carlos Silveira escreveu crônica sobre o fato. Acompanhe.

por Carlos Silveira

O que move o futebol é a rivalidade. Quantas vezes já ouvimos esta frase? Muitas, certamente. Rivalidade que nos faz chegar ao trabalho ou a escola, em uma segunda-feira, sedento para encontrarmos os amigos torcedores do rival derrotado, ou nos escondendo para despistar os rivais vitoriosos. Rivalidade que movimenta grandes cidades do país em dia de jogos, que une pessoas que jamais se uniriam por outro motivo, ou separa momentaneamente amigos fiéis do dia-a-dia. Rivalidade que, por vezes, torna-se mais importante que os jogos em si.

Poderia uma torcida, por esta rivalidade, torcer contra o seu próprio clube? Certamente que sim e a torcida do América Mineiro é a mais recente prova disto. Com o clube já rebaixado no Campeonato Brasileiro, a torcida americana pede aos berros que o time entregue o jogo do próximo domingo para o Atlético Paranaense. O motivo? Prejudicar o Cruzeiro, um de seus rivais locais. Cruzeiro e Furacão são rivais diretos na briga para ficar na Primeira Divisão.

No meio dos torcedores americanos nas redes sociais, o “entrega coelhão” ganha força, embalado também por uma enxurrada de e-mails destinados à diretoria do clube e à assessoria de imprensa. E isto não é novidade, acontece todo ano, o que muda é o “endereço” da torcida que pede a derrota de seu clube para prejudicar um rival.

Normalmente, Atlético Mineiro e Cruzeiro dividem as atenções da maioria, até por ser a torcida do América consideravelmente menor que a dos rivais, mas o assunto da semana em meio a rodas de conversas sobre futebol em Belo Horizonte é a expectativa sobre o comportamento do América no domingo. A imprensa mineira faz o possível para ignorar o apelo dos torcedores americanos, certamente evita dar espaço para algo que lhe será prejudicial. Tenta inclusive forçar a barra para uma possível “vingança” dos jogadores americanos em relação ao treinador do Atlético Paranaense, Antônio Lopes, que teve passagem desastrosa pelo time mineiro neste Brasileirão. É o clima de rivalidade esquentando a capital mineira.

Os americanos mais exaltados falam em protesto caso o time obtenha outro resultado que não seja a derrota para o Atlético. O clima já esquentou até entre os próprios americanos, visto que uma pequena parte da torcida não concorda com a entrega do jogo, inclusive porque pode custar ao clube uma vaga na Copa do Brasil de 2012. Caso o Figueirense não conquiste uma vaga na Libertadores, poderá ultrapassar o América no ranking da CBF e tomar a vaga do clube mineiro na Copa do Brasil. Em princípio, o América deve ficar com a última vaga destinada aos melhores ranqueados. Aos defensores do “entrega coelhão”, mais importante é ver o rival na Segunda Divisão, enfrentando inclusive o próprio América.

O discurso dos jogadores e da diretoria do América não poderia ser outro, o de que vão jogar como sempre, sem se preocuparem com outros clubes. Na prática não se sabe, mas a escalação do América que, ao que parece só será anunciada pouco antes da partida, já poderá nos dar indícios do comportamento do time em campo. Nos coletivos da semana Givanildo começou com o time titular em campo.