E se a Copa de 1942 tivesse sido realizada?

Enquanto a Copa vive seu último recesso, os blogs Abrindo o Jogo e Futebol Clube propõem a você, leitor, um exercício de imaginação: e se a Fifa tivesse mantido a realização da Copa do Mundo para 1942, a despeito da II Guerra Mundial?

– Leia também: E se a Copa de 1946 tivesse sido realizada?

A história já está escrita, mas é possível imaginar quem poderia ganhar a Copa. E as notícias não são animadoras: dois dos grandes rivais brasileiros, Argentina e Itália, dominavam o período.

Para esse exercício, é preciso ter alguma base histórica. Uma pesquisa em cima dos principais times da época já daria uma boa noção de quem seria sede daquele Mundial. Com a Europa toda ocupada por tropas, a ideia da Fifa era trazer a Copa  para a América do Sul já em 1942. Falava-se em dividir a realização entre Argentina e Brasil. Podemos imaginar, no entanto, que como a Copa de 1950 ocorreu no Brasil – que era o país mais pronto para receber o evento – e que apenas em 2002 a Fifa aceitou dividir a realização, o Mundial de 1942 ocorreria em terras tupiniquins.

Treze equipes participaram da Copa em 1950, um número menor que as 16 que jogaram o torneio em 1938. Assumindo que 16 times jogariam o Mundial de 1942 no Brasil, é preciso definir a distribuição das vagas. Sul e norte americanos seriam maioria, com 9 equipes. Brasil, Argentina (que não jogou em 50), Uruguai, Chile, Paraguai e Bolívia seriam os candidatos naturais na América do Sul, pelo desempenho na época; EUA, México e Cuba (que jogou a Copa de 38 na França), viriam pela América do Norte.

Cubanos na Copa em 1938: iriam também em 1942?

Em situação normal, os europeus teriam mais vagas que os americanos, mas a guerra consumia forças. Assim sendo, é possível imaginar que as demais 7 vagas seriam cobertas pelo Velho Continente em 1942. Asiáticos participaram do Mundial de 1938 com a Indonésia e voltariam em 1954, com a Coréia do Sul; africanos, em 1970, com Marrocos. E um representante da Oceania só apareceu em 1974, com a participação da Austrália.

O conhecido perfil político da Fifa, que tinha Jules Rimet a frente, ajudaria a contemporizar os ânimos e garantir presenças importantes na Copa. Porém, no contexto da época, é preciso lembrar que 1942 foi o ano em que o Eixo teve maior domínio territorial no planeta, o ano em que os Aliados começaram a resposta contra os comandados de Hitler. Assim sendo, é possível imaginar que Alemanha e Áustria, unificadas, mandariam um time “Ariano”, na tentativa de Hitler mostrar sua superioridade também no Esporte; França, Holanda e Bélgica estariam fora, dominadas pelos alemães.

A Itália, ocupada pela Alemanha, mas com afinidades políticas, mandaria também seu poderoso time. Hungria, Tchecoeslováquia e Iugoslávia, aliados políticos de Hitler também participariam, com bons times. A Suécia seria outra participante, já que seu campeonato nacional seguiu acontecendo. Por fim, com um empurrãozinho dos EUA, a Inglaterra anteciparia sua primeira participação na Copa, depois da recusa inicial. A ideia seria ter nos inventores do futebol uma resposta em campo às pretensões arianas de Hitler. No entanto, sem a realização da Liga Inglesa nos anos entre 1939 e 46, o time não seria dos melhores. A URSS, ocupada com a invasão das tropas nazistas, acabaria por não participar.

As cidades-sede seriam seis, como em 1950. Cinco no sul-sudeste e uma no nordeste. Recife, com a Ilha do Retiro inaugurada em 1937, faria uma reforma para 20 mil lugares – como fez para 1950 – no estádio do Sport. Porto Alegre teria o Estádio dos Eucaliptos, do Inter, inaugurado em 1931 e reformado de 10 para 30 mil lugares. Curitiba, ainda sem a Vila Capanema, apostaria no Belfort Duarte – que viria a ser o atual Couto Pereira – por ser maior e mais confortável que o estádio da Baixada. O campo do Coritiba ganhou iluminação em 1942, ano da suposta Copa.

Em Minas, o Independência ainda não estava de pé, tampouco o Mineirão. A Fifa sugeriria excluir Belo Horizonte da Copa, o que seria rapidamente descartado pelo Governo. A solução seria ampliar de 5 para 20 mil lugares o estádio do Atlético Mineiro, Presidente Antônio Carlos, no lugar onde hoje existe um shopping. O Rio de Janeiro ofereceria ao Mundial o estádio de São Januário, do Vasco, então o maior do País. Mas, apesar do carioca Luiz Aranha ser o presidente da CBD, a final seria em São Paulo, que contaria com o recém-inaugurado estádio do Pacaembu (1940) para 70 mil pessoas.

Pacaembu, e não o Maracanã, o principal estádio para 1942

A Seleção Brasileira a ser convocada pelo então técnico Adhemar Pimenta (o mesmo que convocou o time para a Copa América naquele ano no Uruguai) seria basicamente montada por times de Rio e São Paulo, exceção feita ao goleiro Caju e ao lateral Joanino, ambos do Atlético Paranaense, e também ao atacante Paulo Florêncio, do extinto Siderúrgica, de Minas. Jayme de Almeida, do Flamengo, pai do ex-técnico flamenguista, e jogadores mais badalados como Domingos da Guia (Flamengo), Affonsinho e Tim (Fluminense) e Brandão e Servillo (Corinthians).

Aquela equipe começou o ano arrasando o Chile (6-1), mas perdendo para o Uruguai (0-1) e Argentina (1-2) no caminho, no Sul-Americano. No entanto, na Copa, a realidade poderia ser outra. Como dono da casa, o Brasil cresceria na competição.

A Argentina viria fortíssima. A base seria “La Máquina” do River Plate, onde surgiu Di Stefano, e que ganhou os títulos nacionais de 1941, 42 e 45. O craque era Adolfo Pedernera. A própria Argentina venceu muito naquele período. Campeã da Copa América em 1941, 45 e 46, o time dos Hermanos era uma potência. Como a Itália. Possivelmente seriam os times a disputar aquele título. Bicampeã do Mundo entre 1934 e 38, ganhou também as Olimpíadas de 1936. Chegaria montada como a equipe mais temida do Planeta na ocasião, com jogadores da Roma e do Torino como base. O consórcio Alemanha-Áustria teria como base as equipes do Schalke 04 (time da preferência de Hitler) e do Rapid Viena, os dois últimos campeões nacionais. Também viriam disputar o título o Uruguai, campeão sul-americano justamente em 1942, e a Hungria, vice-campeã em 1938. A Suécia, que viria a ser campeã olímpica em 1948, poderia correr por fora.

O regulamento da época previa quatro quadrangulares com o campeão passando para o quadrangular final. Brasil, país sede, Uruguai e Itália, campeões do Mundo seriam cabeças de chave facilmente. O quarto cabeça de chave, no entanto, causaria polêmica. Alemães e ingleses queriam a honraria, cada um com sua filosofia amparada na II Guerra Mundial. Como a fascista Itália já era cabeça de chave, Rimet prestigiaria a Inglaterra, mas não sem armar uma surpresa: ingleses e alemães estariam no mesmo grupo.

Sem ser considerado favorito, o Brasil, como força intermediária, receberia a vice-campeã Hungria em sua chave. Além dos dois, Cuba e Iugoslávia fariam parte dessa chave. O jogo de abertura marcava o encontro brasileiro com a Hungria, em São Januário, no Rio. Ajudado pelo calor, o Brasil venceria por 3 a 1 ao time envelhecido de Cseh, Szabo, Gyorgy Sarosi e Zsengeller. A Iugoslávia venceria Cuba em Belo Horizonte por 2 a 1 e empataria com a Hungria em Porto Alegre 2 a 2. Brasil e Iugoslávia jogariam em Recife, com nova vitória brasileira, 2 a 1. Em Curitiba, a Hungria, faria 9 a 1 em Cuba e, com 3 pontos, já não alcançaria mais o Brasil, que tinha 4 – as vitórias valiam 2 pontos. São Paulo veria a terceira e empolgante vitória do Brasil, sobre Cuba, por 7 a 0.

Pensando em fortalecer a Europa, a Fifa colocaria Uruguai e Argentina no mesmo grupo. A eles se juntariam Suécia e EUA. Em Porto Alegre, o Uruguai atropelaria os EUA por 6 a 0, enquanto os argentinos apenas empatariam com os suecos em BH, 2 a 2. Os americanos perderiam também seu segundo jogo, no Rio, para a Suécia, 0 a 3. E São Paulo assistiria o duelo Sul-Americano. Ao contrário do que aconteceu em 1942, na Copa América em Montevidéu, o campo não favoreceria a Celeste Olímpica e a máquina argentina faria implacáveis 4 a 1 nos rivais, que ainda empatariam com a Suécia em Porto Alegre, 3 a 3. No Rio, a Argentina faria 8 a 2 nos EUA e seria a classificada nessa chave.

A Itália, então bicampeã, estaria em uma chave com Bolívia, Chile e Tchecoeslováquia. A estreia, em Curitiba, seria um passeio nos bolivianos: 7 a 1. Chile e Tchecoeslováquia fariam um jogo memorável em Recife, com triunfo chileno por 5 a 4. Seria a primeira zebra das Copas. Em São Paulo, a Itália não passaria de um empate com a Tchecoeslováquia por 2 a 2, decepcionando seus migrantes na capital paulista. A Bolívia seria vitima de nova goleada, 5 a 0, em Porto Alegre. Vivo na disputa, o surpreendente Chile jogaria com a Itália no Rio de Janeiro, por um empate. A derrota apertada viria apenas no fim: 1 a 0 para os bicampeões mundiais, gol de Valentino Mazzola, do Torino. A Tchecoeslováquia se despediria da Copa em Minas, vencendo a Bolívia por econômicos 3 a 1.

A grande expectativa estaria pelo grupo com Inglaterra e Alemanha. A Fifa marcaria esse jogo para a última rodada, em São Paulo. No caminho, os ingleses estreando vencendo o México em São Paulo, 3 a 1. Em Curitiba, no campo do “alemão” Coxa, o consórcio Alemanha-Áustria faria 8 a 0 no Paraguai. Os paraguaios, porém, complicariam a vida da Inglaterra. O jovem time montado as pressas, já que a Liga Inglesa estava parada desde 1939, apenas empataria em Recife com o time guarani, 1 a 1, enquanto que os alemães atropelariam também o México, 6 a 2, jogando no Rio de Janeiro. No entanto, não seria bom aos planos da Fifa um título alemão. Originalmente marcado para Porto Alegre, o jogo entre alemães e ingleses foi transferido para Recife, com uma suposta dificuldade de transporte sendo alegada pelos britânicos. Considerando-se superiores, os germânicos fizeram a viagem, pegando uma Inglaterra descansada. E a zebra surgiria: 1 a 0 para os ingleses, que se defenderiam 90 minutos. Com 5 pontos contra 4 da Alemanha, a Inglaterra chegaria ao quadrangular final. México e Paraguai teriam seu jogo, marcado para Belo Horizonte, cancelado.

O quadrangular então reuniria Brasil, Argentina, Inglaterra e Itália. Os jogos seriam apenas entre Rio e São Paulo. Na estreia, no Rio, Tim comandou o ataque brasileiro contra a combalida Inglaterra, que já havia feito o que tinha a se fazer nesse suposto mundial. Vitória por 3 a 0 e festa brasileira. Ainda mais quando se viu o empate entre argentinos e italianos, 3 a 3, no Pacaembu. A Argentina jogaria em São Januário contra a Inglaterra e também venceria, 4 a 1, com Juan Carlos Muñoz, do River,  marcando os 4 gols. Em São Paulo, seria a vez de Caju e Servillo brilharem. A Itália pressionaria, mas pararia na Majestade do Arco. E com dois gols do corintiano, os paulistas viram a vitória brasileira, 2 a 0.

A decisão aconteceria um dia depois de mais um brioso jogo inglês contra os então bicampeões. Com um surpreendente 3 a 2, a Inglaterra chegaria ao 3º lugar, a frente a Itália dominada pelo fascismo, e aplicaria um golpe filosófico no Eixo. Mas os olhos do futebol estavam de olho no clássico do Pacaembu. O Governo Getúlio Vargas incentivava o nacionalismo, mas a empolgação seria menor do que a vivida em 1950.

Setenta mil pessoas assistiriam ao duelo. Em janeiro de 1942, em Avellaneda, a Argentina fez 5 a 1 no Brasil e venceu a Copa Rocca. A derrota ainda estava muito viva na cabeça dos brasileiros. Ficaria ainda mais quando Adolfo Pedernera marcasse 1 a 0 para os alvicelestes. O jogo seguiu tenso, com Caju trabalhando mais que o desejado. Nos seis confrontos entre os times na época (de 1940 a 42), foram 4 vitórias argentinas e apenas uma brasileira, o que demonstrava como seria dura a luta do Brasil naquela Copa.

Mas o Pacaembu veio abaixo quando Jayme de Almeida cruzou para Brandão empatar. Ao contrário da euforia de 1950, o Brasil não contava com o título e precisava de superação para segurar a esquadra argentina. Sem o champanhe no vestiário, os brasileiros correram até o fim e seguraram a força dos vizinhos, 1 a 1.

A tensão tomou conta do Pacaembu na cobrança dos pênaltis. De maneira competente, um a um, todos foram batendo e convertendo. E então viria Hermínio Masantonio. O maior artilheiro da história do Huracán teria a chance de abrir 5 a 4 no Brasil, jogando a pressão para Tim. Masantonio pararia no vôo certeiro de Caju, permitindo aos donos da casa a chance de ganhar a taça. Tim, calmamente, colocou a bola no fundo da rede:  (após dois avisos de dois leitores mais atentos que o escritor, mudamos o rumo da prosa: não tem pênaltis, o empate já bastava) na reta final da partida. A Argentina era só pressão. Hemínio Masantônio, maior artilheiro da história do Huracán, teria ainda uma grande chance na cara de Caju, mas não superaria o goleiro brasileiro. No final, Tim ainda cavaria uma falta próximo a bandeira de escanteio, que jamais seria cobrada: ao apito final do juiz, 1 a 1, Brasil, campeão do Mundo!

Goleiro Caju, um dos eventuais titulares para 1942

Consequências

É preciso imaginar também quais seriam as consequências deste suposto título brasileiro. A primeira delas: sem a maldição da camisa branca, com o Maracanazo de 1950, o Brasil jamais usaria amarelo. E o próprio Maracanã só viria a ser erguido em meados dos anos 50, como resposta fluminense às obras do Pacaembu e da Fonte Nova. É improvável que a Copa de 1950 também acontecesse no País, já que o período seria muito curto entre um Mundial e outro. Porém, dependendo da necessidade da Fifa, não seria impossível. O Mundo viveu o pós-guerra na época e o Brasil já estava pronto. Em 1986, com a desistência da Colômbia, o México recebeu o seu segundo Mundial num intervalo de apenas 16 anos. Porém uma aposta mais segura para 1950 seria a Argentina, também na América do Sul.

Amarelinha não existiria sem o Maracanazo

E em 1946? Bem, essa é outra história, para você ler aqui.

‘Elite branca’ detona a Copa nos EUA

"Americanismo" combate crescimento do futebol nos EUA

O jocoso termo ‘elite branca’ surgiu após as vaias de torcedores presentes à Arena São Paulo destinadas a presidente Dilma Rousseff, mas talvez se aplicasse mais à um pequeno grupo de norte-americanos que resolveu detonar o crescimento exponencial do futebol na terra do Tio Sam. O articulista Kyle Segall é um deles. Seu artigo no SB Nation, um portal que reune blogs e colunas sobre os mais diversos temas esportivos, abre disparando: “Por que você está correto em odiar o futebol“.

Parte da repulsa de norte-americanos se baseia na xenofobia. O soccer, apesar de britânico como os estadunidenses, está atrás do futebol americano, basquete, baseball, hockey, automobismo e boxe na preferência do habitante nato dos EUA, mas muito a frente destes junto a comunidade latina, cada dia mais crescente no país. Além disso, desde 1994, os próprios “norte-americanos natos” passaram a gostar mais do futebol. Não à toa a MLS, campeonato nacional, já tem média de público próxima de 20 mil pessoas e superior a média do Brasileirão. A Seleção Americana – USMNT, na sigla que destaca o “Men” no US National Team – já conseguiu resultados expressivos, como o vice-campeonato na Copa das Confederações 2009 e os 5 títulos continentais da Concacaf. Além disso, também há a preferência das mães nos EUA pelo soccer em detrimento do football. Apelidadas de soccer moms, elas não tem permitido que os filhos pratiquem o futebol americano em virtude do alto número de lesões.

Segall logo dispara no artigo: “Não sou xenófobo, já fui ao Japão, Suíça e até a Lousiana”, numa brincadeirinha com um estado americano colonizado por espanhóis e franceses, para em seguida fazer uma comparação brutal. “Estávamos certos em desprezar o futebol tanto quanto em combater o Nazismo. O futebol é o pior que o mundo externo (sic) pode nos oferecer”, usando um placar de 0-0 como exemplo negativo de acomodação que pode ser passado as crianças – como se o empate sem gols fosse apenas fruto da preguiça em imperícia dos jogadores. Não é, como o mexicano Ochôa deixou bem claro no empate entre Brasil e México. Os “gritos histéricos” de gol também irritam Segall: “parece que encontraram um Leprechaun”, referindo-se a lenda irlandesa do anãozinho que esconde os potes de ouro. Até mesmo a denominação “kit” para o uniforme de jogo irrita o articulista, que faz questão de dizer que isso é coisa de loser, no melhor exemplo de como um gorilão daqueles dos filmes sobre o ensino no 2o grau se comporta. Apesar de acertar em alguns pontos, como a crítica ao desprezo da Fifa aos trabalhadores e à violência gratuita das torcidas organizadas – o tom preconceituoso do artigo tira a chance de qualquer ponderação. “Nós, AMERICANOS, devemos deixar o futebol no lugar dele: como fonte de kickers para a NFL. E deixem que o Brasil trate disso como seu caviar, enquanto descobrem maneiras novas de barulhos irritantes ou botam fogo em um quarteirão que já é uma favela”.

Segall conseguiu levantar a discussão nos meios americanos. O New Republic buscou no argentino Jorge Luis Borges um amparo para rejeitar o futebol: “futebol é estúpido e para idiotas”. O escritor já falecido fala com a propriedade de um nativo de um país dos mais fanáticos pelo esporte; em outro artigo no mesmo site, o título diz tudo: “Por que você tem que odiar a Seleção Americana – ou pelo menos os fãs de futebol“. O MarketWatch conclama: “Ok, americanos, vamos fingir novamente que gostamos de futebol“.

Patrick Stewart, o Professor Xavier dos X-Men, apoia a seleção dos EUA

Mas, na verdade, trata-se de uma minoria barulhenta. Os americanos estão cada vez mais envolvidos com o futebol, à espera de um grande resultado para proclamar sua superioridade também no único esporte em que ainda não dominam.  A ponto do alemão Jurgen Klinsmann, técnico da seleção dos EUA, quase que pedir desculpas ao avisar em entrevista que “Não temos chances de sermos campeões esse ano“. A Time dedicou uma coluna inteira ao futebol, respondendo os críticos de que sim, o americano gosta de futebol – ainda que do jeito dele. A Newsweek tem dedicado boa parte de sua cobertura esportiva ao Mundial – e não só ao USMNT. E a Sports Illustrated, principal revista de esportes dos EUA, também se rendeu ao soccer

É bem verdade que o ator Patrick Stewart, conhecido como o professor Charles Xavier dos X-Men, é inglês de nascença – o que acaba por dar um pouquinho de razão aos detratores do futebol nos EUA. Mas o próprio portal SB Nation é muito mais pró-futebol do que o artigo que rendeu tanta polêmica. Não vai ter jeito: a ‘elite branca’ americana luta, mas vai perder a batalha mental contra o futebol, é questão de tempo. 

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Uma dolorosa lição

Por fora, bela viola...

A Fifa anunciou as sedes da Copa das Confederações 2013 e o número de jogos que cada uma das 12 cidades-sede da Copa 2014 receberá no Mundial.

E Curitiba saiu derrotada do processo.

A cidade, que no discurso dos políticos esteve sempre cotada para estar na Copa das Confederações, não ficou nem na suplência, casos de Recife e Salvador. Optando por Brasília (abertura), Belo Horizonte, Fortaleza e Rio de Janeiro (final), a Fifa deu um recado claro à Curitiba (e ao Sul do País, que nem Porto Alegre emplacou).

Ou melhor, deu dois recados. O outro foi a equiparação de Curitiba a cidades como Manaus, Cuiabá e Natal, todas insípidas no histórico futebolístico. Das três, conheço duas: Manaus e Natal. A segunda é bem planejada e com belas praias, turística. Tem seus problemas, como todas, mas não fica tão atrás de Curitiba em infraestrutura; já Manaus é um caos. Estive por lá para transmitir Holanda-AM 1-2 Coritiba, pela Copa do Brasil 2009. Tudo, do estádio a urbanização, precisa ser refeito.

E essas cidades só receberão quatro jogos do Mundial:

Curitiba não estará na segunda fase do Mundial

Concordemos que a Copa das Confederações estava nos planos somente dos mais entusiasmados. Mas receber apenas quatro jogos no Mundial é um acinte para quem se diz moderno e preparado, como é o caso do povo curitibano. De fato, a cidade em si não deve nada a muitas outras que ficaram mais bem posicionadas no Mundial. É melhor urbanizada que BH e Porto Alegre e mais populosa que a última; tem mais força desportiva que Brasília, cujo principal time disputa a Série C. O mesmo vale para Fortaleza, embora o cenário do futebol tenha crescido por lá recentemente.

O que atrapalhou Curitiba foi o crônico problema do autofagismo. Criou-se um fantasma na cidade: “a Copa é do Atlético”. Errado.

A Copa é da cidade. É para ela e seus hotéis, restaurantes e praças que o turista virá; é para Curitiba que serão feitas mudanças urbanísticas, desde o aeroporto até o já anunciado futuro metrô (lusitanamente programado para depois da Copa). O estádio é um meio, não o fim. E sim: o Atlético, único a apresentar um projeto coeso na época da candidatura (ou você compraria um carro usado de Onaireves Moura?), vai ser beneficiado com as obras.

Assim como a construção da Vila Capanema, com participação da prefeitura no passado – tanto que segue o litígio pela rodoferroviária – como o Pinheirão, com terreno da prefeitura, que pode até se tornar uma nova praça esportiva no futuro. Mas, curitibanamente, é melhor ver o vizinho mal do que todos progredirem. Chega-se ao absurdo de se propagar campanha para que Florianópolis pegasse a sede daqui. Tsc.

Não se defende aqui, de maneira nenhuma, desvio de verbas ou má gestão de recursos públicos. Para isso é que existe o TC, a procuradoria e, por que não, a imprensa, nem sempre simpática a olhos clubistas, mas cumpridora do seu papel, doa a quem doer.

A questão é política. Curitiba deixará, por não ser coesa na idéia, de aproveitar as benesses que terão outras cidades. O legado poderia ser maior. E tenho certeza que a lição não ficará para o futuro. Infelizmente, é da cultura do curitibano menosprezar o local e minar o crescimento do vizinho.

A derrota é de todos. Mas é claro que é ainda maior para os homens públicos que conduziram mal o processo.

Limão e limonada

Ruim como está, pior sem. Decepção a parte, é hora do povo da cidade acordar para o futuro. Curitiba jamais deixará de ser a quinta comarca paulista se não caminhar para um só lado. Ao invés de comemorar o fato de que a cidade só receberá quatro jogos por alguma razão pessoal, que tal pensar em como melhorar o ambiente, como cobrar os responsáveis?

A Copa vem de qualquer jeito. Um plano de negócios visando turistas, a reclamação junto aos responsáveis por transparência no uso dos recursos públicos, a realização de obras que visam a Copa mas devem ir além, sem exclusão social, tudo isso é papel da população.

Somos ótimos em protestar contra o Dunga quando a Seleção perde (e contra jornalistas quando achamos que o que ele escreve não nos agrada) mas péssimos em cobrar de nossas autoridades, funcionários públicos colocados lá com nosso voto, trocam os pés pelas mãos.

Cara Fifa…

…escrevo-lhe na condição de cliente Vip do seu produto. Aquilo que insistimos em chamar de futebol, mesmo depois de tantas tentativas de desmoralização. Não pretendo tomar muito seu tempo, nem relembrar esquemas espinhosos, como aquela goleada misteriosa da Argentina sobre o Peru em 78, em pleno regime militar no país vizinho, ou as denúncias de compras de votos para as copas da Rússia e do Catar. Não, vamos deixar isso para trás. A beleza do jogo me manteve atento – sou daqueles que assiste até Catanduvense x Flamengo de Guarulhos, se a Rede Vida passar.

Minha reclamação é outra.

"Deixa de bobagem. Já virou sacanagem", diz o poeta contemporâneo (foto: Geraldo Bubniak)

Querida Fifa, você sabe: mesmo com tudo o que eu escrevi acima, o gol é o grande momento do futebol. Ali extravasamos nossas emoções, abraçamos a quem nunca vimos, gritamos feito loucos e nos sentimos um pouco vingados das mazelas do dia-a-dia.

O gol é sagrado. A comemoração é o orgasmo do torcedor.

Pelé e o soco no ar, as coreografias dos islandeses (esses são geniais!), o dedo fazendo não de Ronaldo ou até mesmo as mais simples, muitas vezes as melhores, com os nossos heróis se abraçando e vibrando como guerreiros valentes. Gol é isso! Pode ser a careta do Lela ou a pirueta do Rhodolfo, pouco importa: o gol deve ser um momento único.

E é por isso que te escrevo, Fifa. É possível que você não esteja vendo, até porque esse lance de Copa do Mundo aqui no Brasil deve estar te deixando louca. Quase nada pronto, muito esquema financeiro (sei que dessa parte você cuidará bem, com moralização) e muito oba-oba. Mas tem um pessoal acabando com esse grande momento que é o gol.

Acredite, Fifa: atualmente, 11 entre 10 jogadores brasileiros comemoram os gols imitando um boçal joão bobo. É!, isso mesmo, sabe aquele boneco que você empurra e ele volta, inflado de ar e sem nada na cabeça? Aquele, cuja maior paródia é ser um fantoche controlado  que pode ser empurrado, chutado, agredido e mesmo assim volta ao lugar? O joão bobo? Então, esse mesmo. E eles tem achado o máximo!

Mas nós, torcedores, já estamos de saco cheio.

A gente sabe que tem coisa que é moda e pega. Ainda mais no Brasil, país com sérios problemas de educação e maiores ainda de estima. Lembra do complexo de vira-lata né? Então, ele existe até hoje, já que vivemos abaixando a cabeça para qualquer um que nos impõe uma idéia estúpida.

Mas acho que é hora de você intervir, Fifa. Lembra quando você proibiu manifestações religosas ou aquelas camisetas xaropes com mensagens tipo “Titia, domingo vou na macarronada”? Pra não falar nos merchandisings nas camisas, que agora ganharam algumas comemorações. Aqui no Paraná, atleticanos e coxas já viram jogadores comemorar para um tal de “capitão”. Devem ter recebido uma baita bolada, ou ao menos algumas garrafas de rum, apesar de já ganharem bem para valorizar a imagem do clube.

Acho que é o caso de você agir de novo, Fifa. Tá chato demais essa história do João Sonrisal (acho que o nome é esse porque dá asia ver os caras feito bobos) e pode piorar. Veja você que o único que foi contra, o Rivaldo (aquele cracasso da Seleção, Palmeiras, Corinthians e Barcelona, hoje no São Paulo, campeão do mundo em 2002, lembra?), foi achincalhado como chato da vez. Logo ele, um cara que mostrou personalidade. Só pode ser porque não foi joão bobo dos caras.

Fifa, eu lhe peço: faça alguma coisa. Já estamos acostumados a ser bobos nesse mundo do futebol (e quem disse que não tem?), mas jogar isso na nossa cara é desaforo demais.