Livro conta os 20 jogos mais importantes da história do Cruzeiro

Os 20 maiores jogos da Raposa, por um timaço de cronistas

“O Brasil acordou cinzento em 7 de dezembro de 1966. A publicação do Ato Institucional nº 4, pelo governo do marechal Castelo Branco, convocando o Congresso Nacional a votar a nova Constituição, gerou receio na sociedade. A chamada Revolução cada vez mais ganhava cara de ditadura. Poder Legislativo reduzido em suas atribuições, imprensa controlada, direitos fundamentais individuais feridos. O governo militar mostrava, enfim, as reais intenções à frente do país. Inibir o avanço do comunismo não passava de discurso de fachada. A cada Ato Institucional publicado, o verdadeiro interesse do novo regime reluzia: instalar uma ditadura à direita.

Mas o dia que nasceu para abrigar outro capítulo sombrio da política brasileira também nasceu para o futebol. E dos bons. Pelé, Tostão, Toninho, Dirceu Lopes e cia. estariam em campo. Santos e Cruzeiro, sete dias depois do primeiro jogo da decisão da Taça Brasil, quando a Raposa venceu por 6 a 2, voltariam a se encontrar, dessa vez no Pacaembu. Vitória celeste ou empate garantiria o título inédito para Minas Gerais. Caso o Santos vencesse, por qualquer placar, um terceiro jogo seria disputado, em local a ser definido. A tirar pela declaração do presidente Athiê Jorge Cury, ainda no vestiário do Mineirão, após a humilhante derrota, a confiança santista na realização da partida de desempate era plena. “Em São Paulo, nossa vingança será terrível”, disse na oportunidade.”

Esse é um trecho da história contada logo no começo do livro, sobre o jogo Cruzeiro 3-2 Santos em 1966, que significaria o primeiro título nacional da Raposa. Com edição de Anderson Olivieri e um time de nove notáveis cruzeirenses, como os músicos Henrique Portugal e Samuel Rosa, do Skank, e o jornalista Cláudio Arreguy. A obra é parta da coleção “Memória de Torcedor”, da Maquinária Editora, que conta já com os 20 Jogos Eternos de São Paulo, Flamengo, Fluminense e Palmeiras. 

Além do memorável 3-2 no Santos em 1966, os escritores escolheram outros 19 jogos: Cruzeiro 6 x 2 Santos, o primeiro jogo da final de 1966; o 5-4 no Internacional em 1976; a goleada de 7 a 1 sobre o Alianza Lima, do Peru, na campanha da Libertadores de 1976; no mesmo ano, os jogos contra o River Plate, vencidos por 4-1 e  3-2 River Plate; o duelo com o River Plate de 1991, com o placar de 3-0; de 1992, um 4-0 sobre o Racing; duelos nacionais como Cruzeiro 2 x 1 Grêmio (1993) e Cruzeiro 2 x 1 Palmeiras (1996); um confronto estadual em 1997, Cruzeiro 1 x 0 Villa Nova; no mesmo ano, a final da Libertadores: Cruzeiro 1 x 0 Sporting Cristal (1997); a decisão da Copa do Brasil 2000, Cruzeiro 2 x 1 São Paulo e a da Copa do Brasil 2003, Cruzeiro 3 x 1 Flamengo; na campanha do Brasileirão 2003, as vitórias sobre Santos (3-0) e Paysandu (2-1);as duas goleadas nas finais dos Mineiros de 2008 e 2009 por 5-0 sobre o eterno rival Atlético Mineiro; o 5 a 0 no Estudiantes em 2011 e, no mesmo ano, o polêmico 6 a 1 no Galo.

O prefácio de Paulo Vinícius Coelho e contracapa de Alex, meia do Coritiba que marcou época em Minas Gerais:

 

Além dos textos, o livro tem um caderno colorido com fotos de times eternos do Cruzeiro, caricaturas de ídolos – como a que está acima – e infográficos com gols épicos marcados nos jogos eternos eleitos para a obra.

O cruzeirense ou o apaixonado pela história do futebol podem conseguir o livro nesse link, em contato com o próprio Olivieri.

 

Sobrou pra você

O acordo para que os jogos entre os times de Curitiba fossem disputados no Couto Pereira não saiu e já no Derby Paranaense do domingo, todos vão ao Janguito Malucelli. Todos não; cerca de 6 mil “felizardos”, 5500 atleticanos (1/3 dos sócios do clube) e 550 paranistas que desejarem acompanhar o time – e devem o fazer rapidamente, pois terão de comprar ingressos. Depois é depois e não se sabe ainda como serão disputados o Atletiba e o Paratiba. Conversei com gente do Coxa e do Paraná e apurei o porque de, novamente, ter sobrado pra você, torcedor, a pior parte do bolo.

Tentei contato com o Atlético, mas não fui bem sucedido. Pouco depois de procurar o clube, ainda na sexta, foi divulgada uma nota oficial sobre o tema – aqui está, para quem não leu. Coritiba e Paraná me atenderam. Minha fonte no Coxa pediu sigilo, o que irei respeitar; no Paraná falei com Paulo César Silva, vice-de futebol. Juntando as peças, chego a conclusão de que não é o caso de se achar um culpado pelo desacordo e sim lamentar que, mais uma vez, será o torcedor a pagar o pato.  Por isso, desde já agradeço a todos que estão lendo essas linhas. Com tanta oferta de bom futebol por aí, dedicar seu tempo a ler as informações sobre mais esse episódio frustrado no Paraná mereceria um prêmio.

A ideia surgiu com o presidente da FPF Hélio Cury buscando os três clubes com uma premissa básica: os grandes jogos no Couto, como antigamente, poderiam oferecer mais conforto e segurança ao torcedor, além de gerar uma maior arrecadação. E foi por conta da arrecadação, e em detrimento do conforto e segurança do torcedor, que o negócio não saiu.

Á exceção do Atlético, que se manifestou somente por nota, colhi a impressão de que – pasmem – as reuniões foram boas. Algo do tipo “não deu agora, mas dará nas próximas.” Por isso não se espante se os Atletibas saírem no Couto, por exemplo.

Cada clube enviou três representantes a reunião. Dagoberto dos Santos e Fernando Delek estiveram pelo lado do Atlético, acompanhados de mais um advogado do clube cujo nome não consegui confirmar. Pelo Paraná, Rubens Bohlen, Paulo Cesar Silva e Celso Bittencourt. O Coritiba enviou Gustavo Nadalin e Doth Leite, além de um terceiro representante. Na manhã desta quinta, Hélio Cury conversou pessoalmente com Mário Celso Petraglia; já havia falado na noite anterior, por telefone, com Vilson Ribeiro de Andrade. Todos estavam favoráveis.

O Coritiba se dispôs a ceder o estádio mediante o pagamento de um aluguel de 50 mil reais por jogo. Atlético e Paraná aceitaram. A carga para o visitante seria de 15 mil ingressos – número confirmado por dois dos três clubes – com 21 mil ingressos para os mandantes.  Os clubes mandantes poderiam usar o vestiário principal do Couto, mesmo contra o Coritiba. E outros pormenores foram acertados, sobre camarotes, segurança e limpeza. A discordância, já pública pelas notas oficiais publicadas, foi no acesso dos sócios.

Segundo o Coritiba, desde a primeira reunião, o clube queria que seus sócios não pagassem ingressos em nenhum dos jogos. E sugeriu que nenhum sócio de nenhum clube o fizesse. Ainda segundo o Coxa, o Atlético prontamente aceitou a situação. O Paraná, não. PC Silva me explicou: “Ganhamos mais mandando o jogo na Vila. A conta pra nós não fecharia. O Coritiba será visitante, porque nós pagaremos o aluguel, e ele não quer pagar? O Paraná fatura em lanchonetes, estacionamento e outras coisas quando joga na Vila. Vou ter arrecadação até menor pra que, pra atender o Atlético?”

O “atender o Atlético” é a compreensão que o Tricolor tem do caso. Para PC Silva, o maior beneficiado seria o Rubro-Negro, que é nômade no momento. O Furacão, por sua vez, evidentemente discorda. Olhando a nota oficial, o clube deixa claro em um trecho: “Ou seja, o Coritiba seria beneficiado em utilizar seu estádio em todos os clássicos, receberia o valor do aluguel e ainda a gratuidade para seus associados mesmo não sendo o mandante do jogo.” Na conversa com o diretor do Coxa que falou sobre o episódio, ficou clara a posição de valorizar seu patrimônio. Além disso, uma confidência: “O Paraná viu que não valeria a pena. O clube não tem tantos sócios quanto nós ou o Atlético e teria que vender sua carga”, julgou o intelocutor alviverde, o que acabou corroborado por PC Silva. “Você não tem a certeza de que o torcedor iria ocupar os 15 mil lugares. Com 10 mil pagantes, as despesas não cobrem (são cerca de 5 mil sócios no Tricolor). Eu até entendo o Coritiba. Mas quando o Paraná cedeu a Vila pra Atlético e Coxa, o nosso torcedor tinha que pagar.” Os clubes ainda tentaram outra solução: o Derby com mando do Atlético no Couto e o Atletiba, também com mando rubro-negro, na Vila. Não chegaram a um acordo em tempo hábil.

De certa forma, um empurrou pro outro a falta de acordo. Todos têm sua dose de razão: um vai faturar menos, outro não tem onde jogar, outro quer valorizar seu espaço. É possível, repito, que nos próximos jogos haja ainda algum acordo. Mas, voltando ao tema central da ideia, entre segurança e conforto para o torcedor, todos pensaram no dinheiro. Que vai sair de um único lugar, seja como sócio, seja na bilheteria.

Sobrou pra você, torcedor.