Paraná, Paulistão e Botafogo mostram o futuro dos Estaduais

15 mil pessoas viram a virada do Londrina sobre o Atlético no Café

Muito se discute sobre o fim dos Estaduais. As questões são em cima do público, do calendário, das fórmulas cansativas. Para alguns, os Estaduais têm que acabar. 

A premissa está errada; não são os Estaduais que têm que acabar, é o modelo atual de disputa deles que tem que ser urgentemente mexido. E 2014 já deu o tom de como essa mudança deve ocorrer. A final do interior no Paraná. A chegada do Ituano à decisão em São Paulo. A eliminação do Botafogo no Rio. Coincidências que não deveriam passar disso, mas devem ser tratadas de forma diferente. 

Enquanto clubes como Flamengo, Atlético e Botafogo chegaram a levar 500 pessoas em alguns jogos, Londrina e Maringá jogaram para 30 mil pessoas nas semifinais do Paranaense. A vaga do Penapolense nas semifinais significou também a garantia da Série D e de calendário para o time de Penápolis; para o São Paulo, 21 vezes campeão paulista, não significou crise. Nem mesmo para o Corinthians, que bem ou mal ainda vive lua de mel com a torcida após uma era vitoriosa – as eliminações dos rivais amenizaram a pressão, que também foi suave para o Palmeiras. O Botafogo caiu no Carioca e ninguém se importou; para a Cabofriense, foi garantia de calendário. O Coritiba talvez tenha sido o mais pressionado pela eliminação precoce nos Estaduais, mas muito mais pelo fim de uma série vitoriosa. O conceito está mudando: para os grandes, ganhar o Estadual é legal, mas não é vital.

O Atlético iniciou o processo em 2013. Por motivos políticos e técnicos, colocou uma equipe “Sub-23” (de fato, um time com muitos jovens e outros pouco aproveitados nos profissionais) e ainda assim chegou à decisão, com direito a um 3 a 1 no time principal do Coxa no meio do caminho. Perdeu o título, mas as campanhas na Copa do Brasil e no Brasileirão apagaram a derrota. Muito se falou de como o preparo físico dos jogadores do Furacão, poupados de um longo estadual, ajudou em 2013. Para 2014, o Botafogo seguiu o caminho. Priorizou a Libertadores e nenhum Alvinegro se importou com a pior campanha de todos os tempos do Fogão no Carioca. Apesar da situação delicada na competição continental (fruto de outro tipo de desordem, esta nas finanças internas), ninguém duvida que a decisão foi acertada. O Grêmio, mais comedidamente, também deu costas ao Gauchão em muitos jogos e superou com folgas o “Grupo da Morte” na Libertadores. Ainda assim decide o título local com o Inter.

Não é novidade no futebol mundial. Poucos sabem, mas o Barcelona disputa o estadual da Catalunha, assim como o Bayern joga o estadual da Bavária. Ambos com times completamente reservas, formados por jovens que poderão ser utilizados no futuro nos times principais.

É verdade que Atlético-MG e Cruzeiro jogaram o estadual de Minas com força máxima e são os campeões da América e do Brasil. Mas também é verdade que o Mineiro é o mais enxuto de todos os Estaduais do País. Ainda assim, a final entre Galo e Raposa era prevista e, convenhamos, poderia ser antecipada. As rodadas classificatórias foram protocolares. Quem festejou mesmo em Minas foi o Boa Esporte, cada vez mais consolidado como quarta força mineira, com boas campanhas na B e em Minas Gerais. 

Os Estaduais interessam – e muito – para o interior, que tem neles a chance de fazer uma ponte para as divisões do Brasileiro. Para os grandes têm sido um atrapalho. Os torcedores dos grandes não sentem mais as derrotas, pensam muito mais nos confrontos internacionais ou mesmo interestaduais, os clássicos do Brasileirão. Enquanto isso, uma série de times fica sem calendário por 6, 7 meses, acompanhando futebol só pela televisão.

O raciocínio é simples: se um valoriza e outro despreza, que se atendam as demandas. Estaduais mais longos, como base de acesso ao Brasileirão, enquanto os grandes possam se programar para fazer frente aos desafios nacionais e internacionais. E a meritocracia vai estabelecer quais dos pequenos vão mudar de patamar ao longo dos anos. Londrina, Guarani, Juventude, Botafogo-SP, clubes que querem voltar a ter espaço e que precisam de mais atividade ao longo do ano, podem consolidar seus domínios locais sem desgastar a agenda dos clubes da Série A. Vale uma taça extra, como a Supercopa Gaúcha entre Inter e Pelotas? Vale. Uma grande festa de pré-temporada, entre o clube que venceu todos os demais do Estado contra uma força consolidada ao longo dos anos pelo domínio regional, talvez determinada pelo representante de melhor campanha no Brasileirão. Apenas uma ideia.

O fato é que para muitos torcedores dos times da elite nacional, perder o Estadual não tem mais impacto e ganhá-lo pode até ser ilusório. Com a concorrência de Real Madrid, Barcelona, Bayern e outros, os clubes grandes precisam mudar o mercado local. É fácil ligar a TV e ver os gigantes da Europa jogando. E o que impede uma criança brasileira de torcer para um destes, seguindo o mesmo raciocínio do sujeito que mora em cidades sem clubes de expressão e opta pelos grandes do Brasil, sem sequer ter pisado no estádio do seu clube do coração?

A mudança vai exigir paciência dos torcedores, que vão ter de entender que a rotina de levantar taças vai se tornar escassa. Clubes multicampeões estaduais vão ter que, por vezes, se contentar com uma vaga na Libertadores. Só um será campeão do Brasileirão por ano, com outro vencendo a Copa do Brasil.

Mas convenhamos: para o Ituano, ser campeão paulista será um feito histórico; para o Santos, bem conversado, estar na Libertadores seria mais festivo do que vencer o 21o paulista.

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Movimento nos EUA também pede menos futebol… americano

Muitos jogos, muitas lesões, jogos ruins, placares baixos, overdose de jogos na TV. Você tem lido e ouvido muito sobre isso nos últimos dias, desde que a CBF lançou o calendário 2014, inchado ainda mais pela Copa e criticado publicamente por quase toda a imprensa, torcedores e até cartolas e jogadores. Mas desta vez não estamos falando do futebol e sim do football – ou futebol americano, para nós tupiniquins.

Um movimento iniciado a partir de uma crônica do jornalista Dan Levy pede menos jogos na NFL, a National Football League, gestora do esporte número 1 nos EUA. O alvo é claro: o Thursday Night Football, a rodada das quintas-feiras. Lá, como cá, há a influência direta da TV na manufatura da tabela e na sustentação da liga. No entanto, as semelhanças param no nome e nas críticas.

A NFL é a liga esportiva mais bem sucedida no Mundo. Sua decisão, o Super Bowl, detém os recordes de audiência em todo o planeta. O evento foi avaliado pela revista Forbes como o mais rentável e valioso da Terra, acima até de toda a Copa do Mundo de futebol. A temporada de jogos dura apenas seis meses – contra 11 no calendário brasileiro – sendo que o campeão de 2012, Baltimore Ravens, fez 20 jogos para chegar ao troféu. O Corinthians, atual campeão mundial de futebol, fez 59 jogos de janeiro até a partida de ida contra o Grêmio, pela Copa do Brasil.

Os esportes também são bem diferentes entre si. O football tem pouco foot (pé) em relação ao nosso futebol. E é também um esporte de muito mais impacto e lesões. Isso tem feito com que o esporte número 1 dos EUA perdesse muito campo para o esporte número 1 do Brasil dentro de seu próprio território. Um estudo apresentado no livro Soccernomics mostra que muitas mães norte-americanas têm proibido seus filhos de praticarem o futebol americano em função dos machucados constantes e dos preços dos equipamentos para a prática dele. Mas, claro, esse é outro papo.

Levy abre seu raciocínio dizendo: “há coisa mais ridícula do que pedir MENOS futebol”? A ideia é dizer de que o problema não está exatamente na overdose de futebol americano, mas sim na overdose de futebol americano RUIM. Basicamente, a mesma crítica que vem sendo feita no Brasil. Nos EUA, as rodadas são realizadas às quintas, sábados, domingos e segundas. A NFL e todo o esporte norte-americano é pensado em conjunto. Salvo em raros períodos, as ligas esportivas (MLS futebol, MLB basebal, NHL hockey e NBA basquete) não coincidem suas atividades.

No Brasil, o massacre pró-futebol é maior. Ainda assim os analistas acham que a overdose procede. “Não sou fã. Eu sei que é ótimo e isso não levará a lugar algum, vou seguir assistindo, mas não sou um grande fã da necessidade e da competitividade da liga para o Thursday Night Football“, disse o ex-técnico Billy Billick, hoje comentarista da rede de TV Fox, “A liga é míope em relação à saúde dos jogadores”.

A grande curiosidade entre os dois movimentos, brasileiro e norte-americano, é que o torcedor em geral está cansado do que mais ama. E isso por que o produto oferecido não é dos melhores, na contra-partida do crescente preço dos ingressos. Estaduais enfadonhos aqui, jogos ruins lá, na liga milionário americana. O torcedor-consumidor começa a despertar. E filme ruim não dá audiência.

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Barcelona é campeão… estadual

Time de Tito Villanova quebrou jejum de seis anos (Foto: FC Barcelona)

As ruas de Barcelona estão tomadas! É festa por toda a noite na Catalunha: o Barça é o campeão… estadual. Bem, talvez a festa não tenha sido tão grande assim, mas certamente houve, após a vitória nos pênaltis ontem, dia 29/05, sobre o rival Espanyol e o fim de um jejum de seis anos sem vencer a Copa Catalunya, uma espécie de campeonato estadual da região.

Talvez a principal notícia não seja o título do Barça, que atuou com Piqué, Xavi e os brasileiros Adriano (ex-Coritiba) e Rafinha, um paulistano de 20 anos que deixou o país aos 16 para a base barcelonista. Talvez o que lhe chame mais a atenção seja a existência de um campeonato estadual na Espanha.

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Conhecendo a rivalidade e o orgulho catalão, não é de se estranhar que a região tenha seu próprio torneio. A Copa Catalunya abrigou nesta temporada 73 clubes, que jogaram oito fases eliminatórias desde junho de 2012 até que dois chegassem às semifinais. Dois, porque nas semis já estavam Barcelona e Espanyol. Estes clubes estão divididos entre as cinco divisões nacionais da Espanha (Primeira, Segunda, Segunda B com 4 grupos, Terceira com 18 grupos e as divisões regionais, que são 21). Todas regiões têm seu próprio torneio.

O Barcelona jogou toda a competição com seu time B e são raros os registros estatísticos deste torneio. Uma das curiosidades é que as equipes podem fazer até sete substituições durante os jogos. Na semi, o Barça passou pelo Gymnàstic, clube que tem como maior destaque uma participação na primeira divisão em 2006/07, quando teve o atacante Gil (aquele, da lei). O Espanyol eliminou o Llagostera, equipe fundada em 1947 mas que reativou-se em 2003 e desde então só vem crescendo. Hoje está na 2a Divisão, próxima de subir para a Segundona que dá acesso à Liga principal.

Fato é que Barça e Espanyol fizeram um jogo disputado, com direito a expulsões e título decidido nos pênaltis. O título deixou o Barça como o maior campeão deste “estadual”, com sete títulos (nove vices) contra seis do Espanyol –  que perdeu sete finais. O terceiro maior campeão da região é o Gymnàstic, com duas conquistas.

A Liga Espanhola tem ainda uma rodada pendente, no próximo final de semana. O estadualzinho catalão não compromete as rodadas dos principais torneios, mantém as duas equipes de ponta (por critérios técnicos) como participantes de destaque e dá calendário anual aos times menores. Mantém a rivalidade local viva, uma vez que o Barcelona não tem o Espanyol como grande rival nos principais torneios que disputa e ainda revela jogadores para os clubes  – anote aí os nomes de Rafinha e do argentino Sergio Araújo.

Parece um bom formato, não, Brasil?

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Náutico paga pelo calendário ruim

Santa Cruz vence o primeiro clássico: Timbu não supera grandes (Foto: CNC)

Renatinho fez o gol solitário do Santa Cruz e o time coral saiu na frente do Náutico nas semifinais do Pernambucano 2013, logo após o lance da foto acima. Tudo normal dentro de um clássico, em que qualquer resultado que não seja goleada é aceitável. Nem tanto para o Náutico, que, derrotado pela terceira vez em um jogo com os maiores rivais, já percebe que o ano será longo.

A semana já teve a eliminação precoce na Copa do Brasil, quando ficou no 1-1 com o CRAC-GO depois de perder o jogo de ida por 1-3. O Timbu se juntou à Portuguesa como os únicos times da Série A ao caírem na primeira fase do mata-mata nacional. A perda foi rápidamente absorvida pela oportunidade de se disputar a Copa Sul-Americana no segundo semestre. Desde 1968, quando foi vice da Taça Brasil contra o Palmeiras e caiu na fase de grupos com o próprio, além dos venezuelanos Deportivo Portuguës e Deportivo Galícia, o Timbu não joga competições internacionais. Mas, nesse ritmo, corre o risco de sequer passar da fase nacional.

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Ao perder mais uma vez para o Santa Cruz, o Náutico somou a terceira derrota em clássicos no estadual. Depois de um primeiro turno onde chegou a propagar que tinha o “melhor ataque do Brasil”, a realidade chegou aos Aflitos. Sem jogar a Copa do Nordeste, por um desempenho ruim no Pernambucano 2012, o time sente os grandes jogos.

A primeira constatação foi do ex-técnico Vagner Mancini, ainda no comando do Timbu, assumindo o desempenho ruim nos clássicos. Enquanto Sport e Santa Cruz (mesmo com campanhas abaixo da crítica) enfrentavam os grandes da região, o Náutico navegava em águas calmas em um primeiro turno que não teve valor algum (o semifinalista Ypiranga foi o 7o entre nove times na fase). Se os Regionais podem ser a solução para os grandes clubes fora do eixo Rio-São Paulo sobreviverem, quem ficar em um estadual mal-planejado pode pagar ainda mais caro.

Único representante de Pernambuco na elite brasileira em 2013, o Alvirrubro vai ser apontado pela opinião geral como favorito à queda. E nem há como contestar muito, com os números apresentados. Silas, o novo técnico, ainda pode dar a votla por cima e chegar à decisão, quiçá ser o campeão da temporada. Mas enquanto o alerta do mau desempenho na Copa do Nordeste já acordou Sport e Santa, o Timbu já perdeu uma competição nacional e está atrás nas semis do Pernambucanão.

Mancini fala sobre o calendário

Veja entrevista do ex-técnico do Náutico, Vagner Mancini, sobre a necessidade de técnicos e jogadores opinarem na montagem do calendário brasileiro:

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  • Outra semifinal

Em Caruaru, o Sport fez 5-1 pra cima do Ypiranga e garantiu-se na decisão (ou alguém acredita num 0-5 Ypiranga na Ilha do Retiro?) com direito à virada no placar. A goleada chamou a atenção para um ítem do regulamento do campeonato.

Se uma improvável goleada acontecer em um dos clássicos da decisão, o time vencedor não tem vantagem alguma, sendo obrigado a, em caso de derrota simples no outro jogo, fazer uma terceira partida pela título. 

Perfeito para combinar com o inutilizado primeiro turno. 

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Repensando o futebol brasileiro

Esse post foi publicado no antigo blog, no portal Bem Paraná, em dezembro de 2012. Reedito aqui para levantar a discussão nacionalmente, através dos seus comentários. Obrigado a todos e bem-vindos a nova fase do blog!

Final de ano, perspectivas de um novo início em 2013. No futebol, é hora de por em prática o planejamento da nova temporada. Contratações, dispensas, pré-temporada, objetivos. Cada clube com a sua necessidade, conforme a disputa que tem pela frente. Essas são as boas notícias.

A má: dificilmente seu clube, se não for do grupo dos seis que mais recebem nas cotas de TV, principal renda dos clubes atualmente, será campeão. Salvo se tiver um mecenas por trás, caso do atual campeão Fluminense, amparado fortemente pela Unimed. E nesse balaio incluo gaúchos e mineiros. Duvida? Então veja a figura abaixo:

Essa é a atual distribuição de renda do futebol brasileiro, com base no repasse do principal apoiador, a Rede Globo de Televisão, detentora dos direitos de transmissão do Brasileirão. A imagem detalha o recebimento dos clubes do extinto Clube dos 13 (que abrangia 20 clubes) mais o Paraná Clube, simbolizando todos aqueles que estão no patamar do Tricolor. As cores dividem os grupos cotistas, que são de 5 tamanhos (alguns dos valores estão renegociados). Do amarelo ao vermelho, o que mais recebe ao que menos recebe. Todos dentro de um mesmo campeonato.

É preciso dizer que a Globo faz um bem enorme ao futebol nacional. A evolução nos contratos de TV nos últimos anos começou a projetar o Campeonato Brasileiro como um dos mais rentáveis do Mundo. Ainda está longe da Bundesliga (Alemanha) e da Premier League (Inglaterra), mas é um caminho. Não vou entrar aqui na discussão da exclusividade de transmissão, discussão do mercado de comunicação – convenhamos, o know-how da Globo é o melhor, ainda que (até mesmo pra mim, como jornalista) a diversificação de emissoras na cobertura pudesse ser benéfica. A discussão aqui é outra.

A própria televisão já ensaiou – e essa discussão ficou para trás, mas segue em voga com os torcedores – um pedido para que o Brasileirão volte ao mata-mata. E isso porque se ressente de mais emoção na competição. É um engano: se não há emoção no Brasileirão dos últimos anos, é porque a disparidade de arrecadação entre os clubes é enorme. É impossível que o Náutico, melhor clube fora do rol dos maiores recebedores (abaixo até mesmo de Atlético e Coritiba) supere 19 equipes em um torneio de regularidade e seja campeão.

Repare novamente na figura acima. Em amarelo, estão as posições de destaque; em azul, posições confortáveis. Em laranja, posições compatíveis e/ou aceitáveis. Em vermelho, posições ruins – e ainda pintou um preto na tabela. Repare que na divisão do Botafogo para o Atlético – linha que divide os tradicionais 12 dos demais – um lado é quase todo vermelho, outro quase todo amarelo. Não coincidentemente, quem mais recebe contra quem menos recebe. Em tempo: Botafogo e Atlético-MG, com todo o respeito que as belas histórias merecem, não são maiores que Atlético, Coritiba, Sport e Bahia. O novo ranking da CBF atesta isso.

O Corinthians, que iniciou como centro dessa discussão na coluna desta quarta no Metro Curitiba, vale quanto pesa. A torcida corintiana, bem como a do Flamengo, são as maiores do Brasil. Eles atraem mais interesse, mais público, vendem mais PPV, merecem ganhar mais. E assim sucessivamente. A ressalva é que essa não deve ser a única maneira de se distribuir o bolo.

Tenho tido a oportunidade de transmitir jogos do Campeonato Alemão pelo Terra (fica o convite, é ao vivo e gratuito) e, a despeito da liderança isolada do Bayern, a competição toda é mais acirrada. Aquele equilíbrio que o brasileiro gosta de propagar, hoje acontece muito mais na Alemanha. Se o ano do Bayern é excepcional, o atual bicampeão é o Borussia Dortmund e Schalke 04, Bayer Leverkusen, Eintracht Frankfurt e Sttutgart se permitem sonhar com a taça ou ao menos uma vaga na Liga dos Campeões – coisa que, no Brasil, tem se restringido a poucos pela Libertadores, obviamente.

Leia também:

– Paraná Clube entra na Bovespa

– Na Alemanha, rádio compra direitos de transmissão

– Artigo: quem perde na briga do Atlético com a imprensa?

A culpa passa longe de quem paga. É, na verdade, de quem vende: os clubes. Os que estão no topo, obviamente, não se incomodam com a situação. Muitas vezes estão amarrados a dívidas e antecipam receitas, se comprometendo mais e mais. Mesmo no seleto grupo dos 12, já vemos clubes sentindo os efeitos: as campanhas do Botafogo são apenas regulares e o Palmeiras, não fosse a conquista da Copa do Brasil (outro estilo de competição) teria uma avaliação recente desastrosa. No entanto, todos são complacentes com a situação. O seu clube também. Os efeitos são sentidos até mesmo na Seleção Brasileira, já não tão querida pelos torcedores em boa parte do Brasil pela falta de identidade e que, com o desamparo aos clubes menores, passará a ter menos fontes para seus craques.

Ok, até aqui, nenhuma novidade (e obrigado pela paciência na leitura). E qual seria uma solução? O exemplo mais democrático está na Inglaterra, liga mais rentável do Mundo, vendida em todo o Planeta. A arrecadação de TV é dividida de três maneiras: 70% igualmente entre os clubes; 15%, pelo retorno de audiência; outros 15%, pela classificação dos clubes no ano anterior. Além disso, os clubes que sobem da segunda divisão para a primeira recebem um auxílio especial na primeira temporada. A intenção? Deixar o campeonato competitivo. Claro, o poderio do Manchester United e dos dólares russos do Chelsea e árabes do Manchester City tem restringido a disputa a esses três. Mas aí é atrativo individual de cada um que, como receita de sócios e camisa, passa pelo mérito de cada um.

Para esse tratado, fiz um estudo sobre como seria a distribuição de renda no Brasil usando o modelo inglês. Os cálculos não são precisos (matemática nunca foi o meu forte) mas a distorção é pequena – algum leitor mais hábil com números pode ficar a vontade para me corrigir, especialmente na divisão por audiência. A base do cálculo foi a tabela da Premier League que está nesse link. Nela, os últimos lugares da tabela foram ocupados pelos clubes que subiram para a Série A em 2012. Observe:

A diferença entre o que receberia o Corinthians para o que receberia o Vitória, do maior para o menor valor, seria de apenas 21 milhões. O Corinthians continuaria recebendo mais, justamente, e continuaria forte, aproveitando-se ainda dos valores que recebe pela camisa, sócios, etc. Mas o campeonato poderia ser mais equilibrado. A distância para o Vitória seria, digamos, mais honesta. Afinal, o que se espera de uma disputa é que ela seja equilibrada, o que gera interesse. Não à toa, as ligas norte-americanas de basquete e futebol americano são as mais lucrativas do planeta entre todos os esportes. O segredo? O time com pior desempenho no ano anterior é o primeiro a escolher o melhor calouro no draft. Equilíbrio, senhores.

Ainda há mais um fator relevante a se discutir: as dívidas dos clubes com o Governo. Na Europa, a punição é severa. Os tradicionais Napoli e Fiorentina faliram e tiveram de começar em divisões inferiores italianas – o Napoli se recuperou a ponto de comprar o CNPJ (ou como for na Itália) antigo. O Rangers, um dos dois gigantes escoceses, vive esse drama agora. Mesmo sendo um Flamengo da Escócia, foi à falência recomeçou na 4a divisão. Sem perdão. Aproveitei o estudo para fazer um comparativo entre a principal receita dos clubes e a dívida pública, divulgada pela Revista Galileu. O Sport foi o único clube do qual não encontrei dados, mesmo em outras fontes. As cores estão divididas em: vermelho para dívidas com duas vezes ou mais da principal receita, laranja para dívidas pouco maiores ou ainda dentro de um limite suportavel, azul para as dívidas pequenas e amarelo para a única exceção, que segundo a reportagem tem até valores a receber:

A última notícia é de que Governo e CBF estudam punir os clubes devedores. Seria um esvaziamento e tanto na Série A – mas é aguardar pra ver. Diante da ideia de se modernizar o futebol nacional, seria um passo e tanto.

Quebra de paradigma

O anúncio pegou a todos de surpresa: o Atlético irá disputar, entre 1 e 12 de fevereiro, um torneio na Espanha, participando da intertemporada européia, confirmando a estratégia de deixar o time Sub-23, que está em preparação desde o ano passado, no primeiro turno do Paranaense. Assim, quebra um paradigma no futebol brasileiro e estica a própria pré-temporada, adaptando-se a um calendário inchado e muito criticado no Brasil.

No papel, a ideia é ótima. Na prática, só o tempo dirá. Evidentemente, como as últimas temporadas já mostraram, não basta apenas estrutura e boa estratégia para que um time seja vencedor. Estrutura o Atlético tem de sobra; o que tem faltado mesmo, há algum tempo, é material humano. Mas o clube não deu prioridade ao investimento pesado em jogadores nesta temporada – tampouco admitiu estar pressionado pelas contratações dos rivais, em especial o Coritiba, como me disse o diretor de futebol Antônio Lopes nessa entrevista (clique para assistir).

Já que não abriu os cofres – e nem tem poder para competir no mercado com Corinthians, Santos e outros – optou por um intercâmbio europeu, tirando os jogadores do elenco principal do excesso de jogos, dando experiência ao grupo numa disputa com estilos diferentes de jogo, proporcionando integração no elenco e uma experiência de vida individual que pode sim ser revertida em desempenho. Funcionário feliz é funcionário produtivo, em qualquer segmento. E conhecer a Espanha nunca foi mau negócio.

O que pode dar errado é justamente o choque cultural. Primeiro, fora de campo. O elenco Sub-23 tem jogadores conhecidos que já tiveram suas chances e outros que ainda são apostas. O volante Foguinho e o lateral Herácles, por exemplo, são os mais experientes, ao lado de Zezinho, que apareceu bem no Juventude, mas desde uma passagem pelo Santos não decolou na carreira. O goleiro Santos e o trio de atacantes Taiberson, Edigar Junio (sem “r” mesmo) e Pablo são apostas.

Diante de um Coritiba soberano no Estado e com o melhor elenco entre todos os paranaenses, um Paraná sedento por uma resposta ao torcedor, com aposta num elenco mais experiente, e os sempre competitivos Londrina, Operário, Arapongas e Cianorte, os meninos do Atlético podem sofrer uma pressão por resultados que atrapalhe ou antecipe a entrada do time principal na disputa. A aprovação à ideia dura até o primeiro 0-3 contra, como de praxe no futebol.

Em segundo lugar, pode haver uma distância muito grande entre a preparação internacional do Atlético para a de outros clubes brasileiros. Esse é o menor risco, de fato. Mas a dinâmica de jogo que o clube precisa ter na Copa do Brasil e no Brasileirão pode ser maior do que a oferecida pelos adversários na excursão. Os times do Leste Europeu estão na segunda linha do futebol daquele continente. Adversários interessantes que podem estar no caminho atleticano são o Dínamo de Kiev, da Ucrânia (que disputou a Champions League na fase de grupos e pegará o Bordeaux, da França, na fase de 1/16 avos da Liga Europa) e o Rubin Kazan, da Russia (que também está na Liga Europa e será o adversário do atual campeão, Atlético de Madrid). Ambos fizeram a decisão do mesmo torneio na última temporada – na foto do post, lance da partida, vencida pelo Rubin por 2-1.

No geral, a ida para a Europa em meio ao Estadual (que, diga-se, não está sendo “abandonado” pelo clube, que estará na disputa) pode significar um marco no futebol brasileiro. O desempenho do Atlético nas competições nacionais poderá ser parâmetro para outros clubes, caso a ideia seja bem-sucedida. Nem tanto pela viagem à Europa, mas muito mais por uma pré-temporada de 40 dias na prática, criada por iniciativa própria. No papel, parece bom. Na prática, só esperando os resultados.

Calendário 2012 será cruel com o Paraná

Hélio Cury, presidente da FPF, foi taxativo em entrevista hoje a tarde, já após o resultado do julgamento do Caso Rio Branco, que definiu que o Paraná Clube terá que disputar a Série Prata do Estadual em 2012: não há a menor chance de modificar o calendário para que o Tricolor não fique cinco meses sem futebol.

“Não. Nenhuma. Temos um calendário definido. Em detrimento a 10, 12 clubes, mudar por um? Qual clube tem elenco agora? Infelizmente é isso”, disse-me. A Série Prata tem início marcado para maio de 2012 e até lá o Paraná poderá disputar somente a Copa do Brasil, entrando pelo ranking da CBF (a vaga está praticamente garantida, faltando homologação). A Copa do Brasil terá a primeira rodada em 7 de março. A Série B nacional terá início em 19 de maio e, para garantir-se nela, o Paraná precisa ao menos empatar com o Bragantino, sábado, na Vila Capanema. Se perder e Icasa, Asa e (e não ou, tem de ser todos os resultados) São Caetano vencerem seus jogos, o clube estará rebaixado a Série C, que terá início em 27 de maio de 2012. Todos os envolvidos na luta contra a queda jogam em casa.

Ao falar com o presidente eleito do Paraná, Rubens Bohlen, encontrei-o em meio a uma reunião de realinhamento de estratégias para 2012. A mudança no calendário com a queda no Estadual afeta diretamente os planos. “Temos que nos refazer. Tínhamos um pensamento para o primeiro semestre, agora mudou”, me disse. Questionei se ele solicitaria a FPF um realinhamento no calendário: “Isso também está em pauta. Faz parte do que estamos discutindo, mas vamos tentar compatibilizar com a Federação”, declarou, antes de saber a postura de Hélio Cury.

Realmente, Cury não deve privilegiar qualquer membro em detrimento de outros. Mas em Estados vizinhos (SP e MG, por exemplo), as Federações adaptaram-se as necessidades de Guarani, Portuguesa e Ipatinga. Na maioria do País, as divisões estaduais correm em paralelo. No Pará, o Estadual começa antes, ainda no ano anterior, para os times menores e Remo e Paysandu entram no início do ano; no Maranhão, o estadual corre o ano todo. Cada Estado tenta se adequar a uma situação.

E o Paraná viu dois grandes locais, Londrina e Paraná Clube, amargarem descenso em campo recentemente. Cury contra argumentou: “Aqui não tem política. O que tem é desportividade. Não nos cabe opinião, tem que cumprir a lei. O Londrina jogou dois anos seguidos. Nós temos um campeonato dentro de um calendário da CBF. Temos de maio a agosto para a Série Prata e de agosto a dezembro para a terceirona. Não temos como mudar.”

Com o quadro atual, o calendário 2012 exigirá muita assertividade da diretoria paranista. É muito difícil montrar um time para atuar só a partir de março (contando a Copa do Brasil) e com datas fixas a partir de maio. E mais difícil ainda montar duas equipes, pois algumas datas da Série Prata e do nacional podem ser conflitantes. E tudo isso com pouco ou nenhum dinheiro.

No calendário paranista de 2012, pelo menos no aspecto estadual, muitas viagens e nenhuma atratividade. O campeonato não tem patrocínio, não tem cobertura da mídia local (e nessa a própria imprensa sofre: quantas rádios, TVs ou jornais conseguirão cobrir os jogos do Paraná?) e o clube só terá jogos a mais de 208km – a cidade mais próxima é Prudentópolis. Os adversários serão Junior Team e Cincão EC (Londrina, 387km) Nacional (Rolândia, 398km), Grêmio Metropolitano (Maringá, 438km), Serrano (Prudentópolis), Iguaçu (União da Vitória, 238km), Foz do Iguaçu (643km), FC Cascavel e Cascavel CR (503km). Um quadro cruel que o Londrina, como exemplo, só reverteu após uma parceria em que o clube foi entregue a SM Sports, investidora que bancou os custos.