Exclusivo: Vilson Andrade e o momento do Coritiba

A palavra crise andou rondando manchetes sobre o Coritiba nessa semana, quando o time perdeu uma invencibilidade de 48 jogos em campeonatos paranaenses. É bem verdade que a equipe não vem jogando bem, mas também é fato de que chega a ser irônico referir-se a crise quando um time perde pela primeira vez após tanto tempo.

Seja como for, o Coxa teve uma reunião entre diretoria, jogadores e comissão técnica ontem. E amanhã pega o melhor time do returno, o Londrina, precisando de uma goleada por 5-0 para assumir a liderança e tentar uma vaga na decisão, que já conta com o rival Atlético. Em meio a pressão, conversei com o presidente do clube, Vilson Ribeiro de Andrade, que soltou o verbo sobre o momento coxa-branca:

Napoleão de Almeida: O que você enxerga nessa fase do Coritiba?
Vilson Ribeiro de Andrade: Precisamos de três jogadores, já está no planejamento. Estamos esperando a definição da Libertadores, tem muito time inchado, não vai continuar assim. Tivemos problemas médicos no começo do ano e investimos R$ 200 mil em um aparelho isocinético, que previne lesões. É tudo investimento. Temos que trazer três peças para chegar e ser titulares. Eu entendo muito é de finanças, de futebol não entendo muito. Mas o que eu vejo é que o meio de campo não ajustou. Tem que trazer alguém que fará esse trabalho de aproximação. Sem isso, é improvisação e bola parada.

NA: O clube perdeu peças importantes e não repôs a altura. Essa análise é justa?
VRA: Olha… nós tivemos decréscimo no quadro associativo [Nota do blog: o clube afirma ter 19 mil sócios adimplentes e 25 no total, com atraso], passamos esses primeiros meses com prejuízo. Mas veja, Emerson e Rafinha tiveram propostas e nós seguramos. É um esforço que o clube fez. O Grêmio trouxe o Kléber [Gladiador, que quebrou a fíbula] a 560 mil por mês e agora está seis meses fora.

NA: Nos bastidores, muito se falou em salários atrasados. É verdade?
VRA: Quando time não está bem, a primeira coisa é falar em salário atrasado. Não é o caso do Coritiba. No futebol funciona assim: você paga fevereiro até o fim de março. Eu pago primeiro os funcionários e vamos acertando o resto. Mas está tudo de acordo com o que combinamos com o grupo de atletas. Ontem (segunda, 26/03) eu saí da clínica [Vilson está em um tratamento de saúde] e fui direto pra lá. Sentamos com os jogadores, mostrei pra eles a confiança que eu tenho e a responsabilidade que eles tem. Eu disse a eles: quem não estiver satisfeito, não tem problema nenhum. Eu faço a rescisão e pode ir embora.

NA: E eles?
VRA: A conversa foi muito boa. Aqueles que não estiverem no ritmo do grupo nós vamos afastar. Discretamente, sem alarde. Tem gente que não aprendeu espírito de competição. Não adianta qualidade técnica se não tiver esse espírito.

NA: Quem? Existe indisciplina?
VRA: Acredite: não tem indisciplina. O problema é querer competir.

NA: A torcida vem pegando muito no pé do [técnico] Marcelo Oliveira…
VRA: Mandar o treinador embora é jogar para a torcida, tentar agradar. Eu não sou assim. Eu agrado às minhas convicções.

NA: Hoje saiu a informação de que Atlético e Coritiba irão a julgamento no TJD-PR pela medida de permitir uma só torcida no jogo da Vila Capanema. Você pretende repetir a medida no Couto Pereira? Como encara uma definição diferente das partes?
VRA: Se ele [Mário Celso Petraglia, presidente do Atlético] não cumprir a palavra, eu não estou nem aí. Se quiser por 3 mil atleticanos lá, sem problemas. O estádio tem condições para atender as duas torcidas. O que eu tenho que fazer é por um time em campo pra ganhar o jogo. Mas estou vendo o que há de garantia com o Ministério Público, a polícia, o departamento jurídico… e se ele roer a corda, ficará feio pra ele.

NA: A relação entre você e Petraglia não está boa, pelo visto.
VRA: Eu disse a ele no começo do ano: “Paranaense, esqueça. Brasileiro, podemos pensar [sobre aluguel do Couto Pereira].” Aí estávamos conversando no Hotel Bourbon, eu estava negociando o Couto, mas recebi uma mensagem no meu celular. Ele estava com gente no Rio de Janeiro forçando a CBF a baixar o artigo 7º [artigo do RGC da CBF que dispõe da necessidade de empréstimo compulsório de estádios se a entidade requisitar]. Disse a ele na hora: esqueça, não quero mais negócio. Ele me disse: “então você me aguarde.” Ok, se é assim, tudo bem.

NA: E o estádio novo? Em que pé está?
VRA: Nada muito novo. Estamos negociando. Veja, o estádio do Grêmio levou quase 5 anos para ter tudo aprovado. Talvez até o final do mês a gente tenha alguma posição para levar ao conselho, mas ainda vai tempo.

Abrindo o Jogo – Coluna no Jornal Metro Curitiba de 15/02/2012

O que vem por aí

Mário Celso Petraglia apresentou uma série de novidades ao conselho atleticano após a visita do Ministro do Esporte Aldo Rebello à Curitiba. Aos poucos o clube irá confirmar as informações via site oficial – Petraglia disse a amigos que não falará tão cedo com a imprensa – mas a coluna antecipa alguns bônus que a Copa está trazendo ao clube e à cidade. O primeiro deles é um projeto piloto de mini-usina solar na Arena, tendo a Copel e a Eletrobrás à frente, com o Atlético recebendo R$ 25 milhões para a execução. A energia a ser produzida suportará a demanda da Arena e o excedente será usado na região. A estimativa é que a produção chegue a 2,2 megawatts de potência. Petraglia ainda apresentou outras duas novidades: a rua Buenos Aires deixará de existir na frente da Arena, tornando-se um calçadão integrado com a praça Afonso Botelho, que será um centro de convivência da prefeitura. E o clube montará uma escola para crianças carentes na região do Umbará, próximo ao CT, em parceria com a prefeitura, que fornecerá a mão de obra.

 

Os ônus

A indefinição no estádio onde mandará os jogos – e também a queda para a Série B – já fez o Atlético perder cerca de 6% dos sócios, número considerado baixo pela atual gestão. No entanto, a forma de pagamento antecipado via cartão acaba impedindo maior inadimplência. O clube lançou campanha de marketing tentando fidelizar o torcedor e busca um acordo com o Paraná Clube para mandar jogos na Vila Capanema. Além disso, o Atlético afirma que já aplicou R$ 15 milhões na obra da Arena e irá financiar R$ 135 milhões junto ao BNDES contando com os títulos de potencial construtivo como garantia.

Aluga a Vila!

Tendo por base a necessidade atleticana e olhando também para seu próprio bolso, alguns funcionários do administrativo confidenciaram que torcem para que o Paraná Clube alugue a Vila Capanema para que o Atlético mande seus jogos ao menos até o final do estadual. Os salários de diversos colaboradores na área social do Tricolor estão atrasados; na última segunda, o clube acertou a dívida que tinha até o mês de novembro/11, mas já tem mais três meses a vencer. O Paraná pediu R$ 120 mil por jogo ao Atlético, que ofereceu R$ 30. Sai meio termo?

Nota: Durante a tarde desta quarta (15/02), a diretoria do Paraná entrou em contato com o blogueiro e garantiu que depois de acertar os salários dos colaboradores até novembro na segunda passada, ainda ontem pagou também os vencimentos de dezembro.O aluguel da Vila Capanema por 8 jogos também está praticamente certo, embora o clube não queira abrir o valor da locação – o que não resolverá muito, pois constará no borderô da primeira partida que o Atlético realizar na Vila.

Reforços gringos no Coxa?

Depende de um investidor o anuncio do acordo do Coritiba com o médio-volante Luís Enrique Cáceres, 23 anos, do Cerro Porteño. O valor de US$ 1,6 milhão para trazer o jogador está além do que o Coxa pretende investir. Cáceres e seus empresários quer abrir mercado no Brasil e ele foi oferecido ao Alviverde.Segundo o empresário Audinei Azevedo resta agora o aval de um grupo investidor que viabilizaria a vinda do jogador ao Coxa por pelo menos até o final da temporada. O clube não confirma o acerto, mas reconhece o interesse no jogador. O Coritiba também negou o boato que surgiu em Porto Alegre de que o atacanrte Ezequiel Miralles, ora no Grêmio, estaria acertado com o clube: “Não tem nosso perfil”, disse o superintendente Felipe Ximenes.

O valor de Ricardinho

Assista o vídeo abaixo.

André Vinícius é um dos primeiros reforços do Paraná para a temporada 2012. Sejamos sinceros: mesmo na base do Corinthians, onde teria poucas chances nos próximos anos até que chegasse ao nível de ser titular, estaria numa posição mais confortável que no atual momento do Tricolor. Sem hipocrisia, é público que o calendário do clube para 2012 é terrível, deficitário. Também é notório que o Paraná está com salários atrasados junto a vários funcionários. São os funcionários que fazem a manutenção do clube, dos vestiários, alojamentos, etc., sem contar o clube social – mas essa é outra história.

Portanto, topar jogar no Paraná hoje é negócio de alto risco. É se expor a enfrentar o Cincão EC numa tarde de quarta, entrar num ônibus e correr pro aeroporto para jogar contra o Ceará na noite de sexta – e sem saber se irá receber no fim do mês. Batalha perdida? Negativo.

O ideograma ao lado significa “crise” para os chineses. Mas é o mesmo que significa oportunidade (recomendo ler esse artigo). Talvez poucos jogadores se interessem em vestir a camisa do Paraná Clube atualmente, mas com a presença de Ricardinho no projeto, a coisa muda. É só ver no vídeo:  “Quando me falaram do Ricardinho aqui, já pesou”, disse André Vinícius. Outros mais virão, seguindo essa mesma linha. Ricardinho acrescenta esperança e um ótimo cartão de visitas ao projeto paranista.

O caminho é longo, sem dúvida. Não se sabe a capacidade do ex-meia como técnico, por exemplo. E o fato de alguns meninos da base do Corinthians estarem chegando à Vila Capanema não é garantia de sucesso. Mas no momento não há muito o que se fazer de diferente. Ao menos Ricardinho tem identificação com o clube, e, ao contrário de negócios anteriores, passa a impressão de que quer ajudar com esse projeto – mesmo que seja também interesse pessoal se lançar como técnico. É só olhar para a própria base do Paraná, escanteada desde que, sem dinheiro para alimentar os atletas, o clube trocou percentuais de jogadores por comida. Ao menos evitou-se a tragédia que se viu no Vasco.

Dito isso, chamo a atenção para uma coisa, diretamente ligada a gestão de futebol no Paraná daqui para frente. É mais importante contar com Ricardinho no clube do que cobrá-lo tão já por resultados. No futebol tudo é possível, mas a reconstrução do clube passa até pela compreensão de resultados ruins no início do trabalho. Mesmo que seja uma derrota para o Cincão.