Abrindo o Jogo – Coluna no Jornal Metro Curitiba de 19/09/2012

“No futebol é diferente”
Um dos principais estigmas de um administrador ao entrar no mundo do futebol é romper o folclore de que, por mais bem sucedido que o profissional seja, na gestão dos clubes, será diferente. Como diria o famoso narrador, ‘não é, mas é’. E o é porque os clubes permitem isso: volta e meia diferenciam o trato com os jogadores, mesmo em detrimento de outros profissionais. Resultado? Caem na armadilha dos “boleiros”, que ainda têm espaço em um esporte a cada dia mais profissional.

Marcelo Oliveira, Felipão, Passarela…
Que o time do Coritiba tem uma defesa ruim (perdoe-me Emerson, mas você está sozinho desde que Gago e Donizete foram embora) e esse é o real problema todo mundo, até Marcelo Oliveira, está careca de saber. Mesmo assim o senso comum indicava: o ex-técnico coxa tinha de ser demitido. Doeu em Vilson Ribeiro de Andrade a ação. Administrador nato, Vilson acredita na continuidade do trabalho das pessoas. Evita demitir. Entende que ter um funcionário-padrão, que entende as necessidades do clube, é “low-profile”, conhece o sistema e já está ambientado à cidade seria muito mais útil. Mas não pode mandar embora 30 jogadores – ou ao menos 10 a 12 que não vinham rendendo. Primeiro, porque é mais fácil cortar uma cabeça do que tantas; depois, não esqueçamos, porque os jogadores são moeda. Sobrou para Marcelo Oliveira, que já está no Vasco. Um time de estrelas do Corinthians em 2005 só rendeu quando Daniel Passarela saiu do comando. O Palmeiras, algoz coxa nesse ano na Copa do Brasil, foi de campeão à virtual rebaixado sob o mesmo comando. O rendimento das equipes caiu assustadoramente quando o discurso do técnico cansou. O que é lugar comum no futebol teria espaço na sua empresa? Como você agiria, sendo chefe, com uma equipe assim? Sairia, trocaria o comando ou as peças? Aqui está o tabu: jogadores derrubam técnico sim. E às vezes até o clube, como foi no indolente Atlético de 2011: sem comando diretivo, largado às festas e às traças.

Há saída?
Primeiro analisar friamente cada situação antes de cobrar indiscriminadamente. Tem vezes em que a diretoria é letárgica (como vai, Malu?) e as coisas acontecem debaixo do nariz. Outras vezes age, mesmo a contragosto, mas nem sempre tem o resultado – o problema pode ser outro. Fundamental é identificar e atacar o mal. No geral o que precisa mudar é a mentalidade de quem comanda e quem obedece: jogador de futebol é trabalhador como qualquer outro. Uns melhores, outros piores; uns ganham mais (e normalmente valem quanto pesam) outros menos e isso deve ser encarado numa boa: em qualquer serviço há hierarquia e meritocracia (ok, muito puxa-saco se dá bem por aí, mas até quando?). Claro que não adianta estar fora de forma ou ser grosso, mas nominando: Paulo Baier e Pereira são bons profissionais e, não à toa, tem carreira bem sucedida e longa. O melhor exemplo nacional hoje é Seedorf: longevo e de qualidade, não se omite e colabora com o Botafogo em todas as áreas. O futebol agradece.

A expectativa é a pior inimiga do Paraná Clube

O “meme” acima circula no Facebook e somado ao resultado do Derby do final de semana, me fez expor uma reflexão que, embora pareça dolorosa aos tricolores, é na verdade a chave para a retomada de um Paraná Clube forte e vitorioso:

Não há grau de comparação entre o Paraná e os outros dois clubes da cidade, Atlético e Coritiba. 

Nós, da imprensa, somos em parte culpados da percepção que se tem de que o Paraná tem as mesmas obrigações dos rivais de outrora. Não tem: falta ao Paraná muito no comparativo com a dupla, especialmente dinheiro. O Paraná é cobrado como se recebesse o mesmo que Atletiba, como se tivesse o potencial midiático da Velha Firma* da cidade, como se tivesse a mesma estrutura dos outros dois. É vendida ao torcedor a ideia de que o Paraná de hoje é tão competitivo quanto os outros dois e, por mais doloroso que isso possa soar, não é.

Um rápido resgate histórico mostra alguns porquês. Escolhas erradas, como a venda do terreno do antigo Britânia ao invés da exploração imobiliária da região, a famigerada parceria que trocou direitos de jogadores por alimentação e uma sequencia de administrações nocivas minaram o que era a proposta inicial do Paraná: um clube com estrutura sólida (Pinheiros) e uma torcida participativa (Colorado). Basta ver quanto Thiago Neves, um dos melhores jogadores em atividade no futebol brasileiro, rendeu ao Paraná. Nem o orgulho de dizer que ele é do clube ficou.

A revolução de 1995, que guindou o Atlético ao patamar de um dos maiores clubes do Brasil, com a conquista do título nacional de 2001, iniciou-se na verdade em 1989. Foi a fusão entre Pinheiros e Colorado que acordou a dupla Atletiba. Isso depois de 5 anos de domínio absoluto tricolor. O Coritiba, destaque nacional no fim dos 70, meados dos 80, ressurgiu na mesma época e voltou a frequentar a Série A, mais recentemente chegando a duas decisões de Copa do Brasil. A Velha Firma paranaense ficou à sombra do Paraná antes de se mobilizar. E o que fazia o Paraná se sobrepor aos dois era organização e dinheiro, que foram embora.

O Paraná hoje tem menos estrutura, menos torcida, menos capacidade de arrecadação, menos dinheiro (é chato repetir, mas é isso: dinheiro) que os outros dois. Como o futebol ainda reserva mágica, pode ganhar e surpreender em campo. Mas a lógica é que não. Isso explica as 8 derrotas consecutivas para o Atlético e outras 5 partidas sem vencer o Coxa desde 2010. Isso explica porque o clube começa bem a Série B há três temporadas, mas não consegue se sustentar o suficiente para ficar no G4 ao final das 38 rodadas.

Exigir do Paraná além do que ele pode oferecer é matar o clube a cada dia. E isso não é sinônimo de afastar o torcedor de campo, pelo contrário: esse tem papel fundamental no momento de reconstrução paranista. Há que se admitir que o potencial hoje é menor do que o de antes. Que fazer uma campanha honrosa, sonhando com pés no chão, é o melhor. Que o acesso no Estadual, obrigação, já veio. E por isso demitir técnico (o que nem foi cogitado) ou mudar todo um elenco, invadir campo, inverter faixas, só vai prejudicar.

Afinal de contas, não importa o resultado, o sujeito muda até de sexo, mas não muda de time. E clubes argentinos e ingleses lidam bem com suas expectativas temporada após temporada. Até o supercampeão Liverpool atualmente só briga pra tentar chegar à Champions League; sem dinheiro, título é pra United, City, Chelsea e Arsenal, mais afortunados.

A expectativa derrota o Paraná temporada após temporada. Ela parte de todos os setores do futebol paranaense, alguns mais hipócritas que os outros. Para que o clube possa realmente voltar a ser competitivo, é preciso repensá-lo e reinventá-lo.

*A Velha Firma, The Old Firm: clássico escocês entre Celtic x Rangers, que mexe com todo o país através do futebol e fanatismo religioso. Veja mais aqui.