Por que o Cruzeiro 2013 não recebe a mesma badalação do time de 2003

Discreto, Marcelo Oliveira não é tão badalado em Rio e SP

Os números são tão impressionantes quanto há 10 anos. O aproveitamento é de 72,5% – até a rodada do título, 34a – contra 72,4% em 2003; o ataque não chegou aos 102 gols, mas tem média parecida: 2,11 por jogo, com 72 nos atuais 34 jogos, contra 2,21 nos 46 jogos de 2003. O Cruzeiro atual também tem a melhor média de público, como há 10 anos e conseguiu o título com 4 rodadas de antecedência, contra 3 rodadas em 2003. A torcida celeste não tem do que reclamar. A não ser um certo desdém da mídia em não badalar o time de Marcelo Oliveira como fazia com o de Vanderlei Luxemburgo.

E tem razão nisso.

O Cruzeiro de 2003 tinha apenas uma coisa que esse não tem: personagens consagrados no principal eixo econômico do País. Alex foi ídolo do Palmeiras, campeão da Libertadores; Deivid brilhou no Corinthians e no Santos antes da Raposa; Zinho foi ídolo do Flamengo, Aristizábal marcou época no São Paulo e Vanderlei Luxemburgo é o técnico mais midiático do Brasil em todos os tempos – além, por óbvio, de multicampeão. O Cruzeiro de 2003 tinha o carinho e o respeito do centro do País e isso pesa na hora de avaliar a equipe. Aquele campeonato ainda contava com o Santos de Robinho na cola, coisa que o atual não teve. Sobrou contra Atlético Paranaense, Grêmio, Goiás e Botafogo, seus perseguidores mais próximos. Todos, exceção ao Fogão, clubes de outros centros.

O time celeste de 2013 foi montado discretamente. Seus principais nomes, Dagoberto e Julio Baptista, não foram titulares o tempo todo. A exceção é Dedé, zagueiro que trocou o Vasco pela Toca e, apesar de ser campeão brasileiro, paradoxalmente perdeu a vaga na Seleção. Fábio passou pelo Rio, no Vasco* sem marcar época e os grandes destaques da campanha, como Everton Ribeiro e Nilton, Egídio e Ricardo Goulart, acabaram preteridos em seus clubes de origem (Corinthians, Flamengo e Internacional). Personagens como Leandro Guerreiro e Luan fecham o mosaico de “párias” chefiado por Marcelo Oliveira, um técnico discreto, avesso à badalação e calmo nas entrevistas. Oliveira que tinha até então como maior feito a chegada à duas finais de Copas do Brasil seguidas com o Coritiba.

Questiona-se a qualidade técnica do campeonato, como se fosse o mais fraco dos últimos tempos, na contramão do fato do campeonato contar com os campeões do Mundo (Corinthians) e da Libertadores (Atlético-MG). De ter trazido personagens como Seedorf, Pato, Alex, Juninho, Forlán e outros. De ser o primeiro campeonato das novas Arenas para a Copa.

Debate-se o regulamento, como se os pontos corridos não fossem emocionantes, o que acaba indiretamente depreciando a campanha celeste. Curiosamente, muitas vezes são as mesmas vozes que pedem organização e moralidade no futebol brasileiro. E o Cruzeiro, com sua estrutura fantástica, salários em dia e sem entrar em salários exorbitantes, levantou a taça. Seguido pelo Atlético Paranaense, que tem perfil parecido, por Botafogo e Goiás, que mantiveram técnicos e acreditaram em projetos e pela exceção à essa regra, o Grêmio, de alto investimento e trocas de técnicos.

A falta de badalação ao Cruzeiro 2013 de fato em nada diminui a festa celeste. Foi um título bem à mineira, discreto mas muito eficiente. Se não querem badalar a Raposa, não badalem; o Cruzeiro não carece.

*Obrigado aos atentos leitores que relembraram a passagem de Fábio pela Colina. Fabio foi revelado no União Bandeirante-PR.

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Por que o [coloque o nome do seu time aqui] vai ganhar a Copa do Brasil

Quem vai levar a Copa do Brasil 2013? O blog apresenta as razões pelas quais você deve confiar que será o seu time – ou se preocupar, se for torcedor rival. Comente abaixo!

O Flamengo vai ser o campeão da Copa do Brasil 2013 porque é time de chegada, cresce na reta final – que o diga o Botafogo – embalado pela torcida que tem os dois melhores públicos da competição. Venceu a Copa em duas ocasiões (1990 e 2006), derrotando o adversário da semi na primeira final. Vive um novo momento com Jayme de Almeida, que conhece bem o elenco, sendo um técnico “prata da casa”. E tem Hernane, o Brocador, artilheiro da competição com 6 gols em grande fase.

Pra chegar até aqui: 10jgs – 8v – 1e – 1d – 19gp – 6gc

1-0 Remo-PA (F)

3-0 Remo-PA (C)

2-1 Campinense-PB (F)

2-1 Campinense-PB (C)

2-0 ASA-AL (F)

2-1 ASA-AL (C)

1-2 Cruzeiro-MG (F)

1-0 Cruzeiro-MG (C)

1-1 Botafogo-RJ (N)

4-0 Botafogo-RJ (N)

 

No Brasileirão 2013 contra o Goiás em casa: jogo será realizado no dia 09/11, entre as duas partidas da Copa.

Na história da Copa contra o Goiás: 1 vitória e 1 empate

No Brasileirão 2013 contra o provável finalista:

2-2 Atlético (F)

2-4 Atlético (C)

0-1 Grêmio (C)

x Grêmio em 17/11 (F)

 

Na Copa contra o provável finalista:

Atlético: nunca enfrentou

Grêmio: 4v – 5e – 3d

O Goiás será o campeão da Copa do Brasil 2013 porque é o time que mais cresceu no Brasileirão, tendo vencido suas últimas 5 partidas na competição. Tem estutura e quer ganhar seu primeiro título nacional de primeira linha – tem duas Séries B, a última ano passado. Tem Walter, um dos melhores jogadores do País na temporada. É um dos seis times que ainda não trocou de técnico na Série A E já eliminou duas equipes cariocas na Copa, Fluminense e Vasco.

Pra chegar até aqui: 9jgs – 6v – 1e – 2d – 17gp – 9gc

3-1 Oratório-AP (F)

3-2 Santo André-SP (F)

1-0 Santo André-SP (C)

3-0 ABC-RN (C)

1-1 ABC-RN (F)

0-1 Fluminense-RJ (F)

2-0 Fluminense-RJ (C)

2-1 Vasco-RJ (C)

2-3 Vasco-RJ (F)

No Brasileirão contra o Flamengo em casa: 1-1 na 14a rodada.

No Serra Dourada contra o Flamengo em jogos oficiais: 5v – 10e – 4d

No Brasileirão 2013 contra o provável finalista:

0-2 Atlético (F)

3-0 Atlético (C)

2-0 Grêmio (C)

x Grêmio em 01/12 (F)

Na Copa contra o provável finalista:

Atlético: nunca enfrentou

Grêmio: nunca enfrentou

O Atlético vencerá a Copa do Brasil 2013 porque é o clube que mais se preparou para isso, tendo poupado o elenco principal do desgastante Estadual. Mesmo sem a Arena, joga no alçapão da Vila Capanema, estádio que permite a pressão da fanática torcida rubro-negra. Tem Ederson, o artilheiro do Brasileirão e o técnico Vagner Mancini, um dos treinadores* na disputa que já venceu a Copa do Brasil, em 2005, pelo Paulista de Jundiaí. Demonstra muita regularidade ao estar há 14 rodadas no G4 da Série A. E tem a oportunidade de ver o ídolo Paulo Baier levantar um título de expressão para o Furacão, antes de se aposentar.

Pra chegar até aqui: 9jgs – 5v – 3e – 1d – 15gp – 5gc

1-0 Brasil-RS (F)

2-0 Brasil-RS (C)

6-2 América-RN (F)

0-0 Paysandu-PA (F)

2-1 Paysandu-PA (C)

0-1 Palmeiras-SP (F)

3-0 Palmeiras-SP (C)

1-1 Inter-RS (F)

0-0 Inter-RS (C)

No Brasileirão contra o Grêmio em casa: 1-1 na 6a rodada

Como mandante contra o Grêmio (1959-2013): 7v – 10e – 6d

No Brasileirão 2013 contra o provável finalista:

2-2 Flamengo (C)

4-2 Flamengo (F)

2-0 Goiás (C)

0-3 Goiás (F)

 

Na Copa contra o provável finalista:

Flamengo: nunca enfrentou

Goiás: nunca enfrentou

O Grêmio vai ganhar a Copa do Brasil 2013 porque é o maior bicho-papão deste torneio: 4 títulos em 7 finais, com outras 3 semis. Conta no banco com Renato Portaluppi (Gaúcho, pra quem não é do RS), maior ídolo da sua história. Quer coroar o ano de estreia na Arena Grêmio com um título nacional e voltar à Libertadores para compensar a decepção com o time milionário de Luxemburgo neste ano. Se precisar de pênaltis, tem Dida, o paredão que classificou a equipe contra o Corinthians.

Pra chegar até aqui*: 4jgs – 1v – 2e – 1d – 2gp – 1gc

0-1 Santos-SP (F)

2-0 Santos-SP (C)

0-0 Corinthians-SP (F)

0-0 Corinthians-SP (C) – Pênaltis: 3-2

*entrou na fase de 8as de final por ter disputado a Libertadores

No Brasileirão contra o Atlético em casa: 1-0 na 25a rodada

Na Copa contra o Atlético: 1 vitória e 1 empate

No Brasileirão 2013 contra o provável finalista:

1-0 Flamengo (F)

x Flamengo em 17/11 (C)

0-2 Goiás (F)

x Goiás em 01/12 (C)

 

Na Copa contra o provável finalista:

Flamengo: eliminou-o em 89, 93 e 95 na semi, venceu-o na final de 97

Goiás: nunca enfrentou

*Renato ganhou a Copa pelo Fluminense em 2007, alerta e corrige um leitor.

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O atalho mais fácil para a Libertadores mudou

Começou nesta terça (30) a Copa Sulamericana 2013, daqui por diante, “o atalho mais fácil para a Libertadores”. Pelo menos é essa a expectativa de nove clubes brasileiros, com a mudança no regulamento que integrou os times da Libertadores à Copa do Brasil, tornando o antigo atalho mais espinhoso. Clubes da Série A, como Coritiba, Ponte Preta, Bahia e Vitória foram surpreendidos por Nacional do Amazonas (eliminou os dois primeiros), Luverdense-MT e Salgueiro-PE, equipes que estão nas Séries D e C do Brasileirão. Como prêmio de consolação, entraram na Sulamericana 2013 – bônus que atingiu até mesmo o Sport, hoje na Série B nacional.

Depois que a bola rolar nesta terça para Liga de Loja, do Equador, e Deportivo Lara, da Venezuela, a teoria poderá se tornar prática. Apesar da imensa maioria dos nomes da Sula assustarem menos os participantes do que equipes como o campeão da Libertadores Atlético-MG, do Mundial, Corinthians e o líder do Brasileirão, Cruzeiro, entre outros, não só de coadjuvantes é feita a competição dois da Conmebol. Na tabela abaixo, você pode ver os cruzamentos possívels até a decisão.

Equipes como o River Plate da Argentina (há também o River uruguaio nessa competição), os também argentinos Vélez e Lanús, a Universidade Católica do Chile, o Atlético Nacional da Colômbia, o Cerro Porteño do Paraguai e o Peñarol, do Uruguai, são tão postulantes ao título quanto os brasileiros. Outros ilustres desconhecidos, como o impagável El Tanque Sisley do Uruguai, o Deportivo Pasto da Colômbia ou o Inti Gás, da empresa peruana fornecedora de gás combustível, deixam a Sulamericana com a cara de uma grande competição entre bairros.

É grande a chance de um brasileiro estar na decisão, mas dependerá de Ponte ou Criciúma (quem avançar no duelo interno) fazer a primeira final nacional no torneio, que já teve dois brasileiros campeões: Inter, em 2008, e São Paulo, o atual detentor do título – que por isso entra diretamente nas oitavas de final. O Tricolor Paulista poderá encarar Bahia ou Portuguesa nas quartas. Baianos e paulistas têm na mesma chave o Atlético Nacional da Colômbia, campeão da Libertadores em 1989 e foi 12o no último campeonato colombiano – o Clausura 2013 acabou de começar.

O surpreendente clássico pernambucano na Sula pode definir um semifinalista contra outro brasileiro. Sport e Náutico se encontram no torneio sulamericano depois de o Timbu comemorar muito a vaga internacional no jogo do Brasileiro 2012 que definiu o rebaixamento rubro-negro. Quis o regulamento que os times se reencontrassem justamente na volta do Náutico à uma competição da Conmebol depois de 45 anos. Quem avançar, tem como mais tradicional possível adversário na chave o Barcelona de Guayaquil. Para que as quartas tenham duelos brasileiros, Coritiba ou Vitória devem superar equipes de menor expressão, naquela que pode ser considerada a chave mais fácil dos brasileiros na disputa. Coxa e Leão já se enfrentaram na Sulamericana. Em 2009, uma vitória por 2-0 pra cada lado, em casa, e o Vitória avançou nos pênaltis. Se o Coxa passar e encontrar o Barça equatoriano, reedita um confronto da Libertadores 86, quando foi 7o colocado.

Do outro lado, Ponte Preta ou Criciúma tem vida indigesta até uma eventual final. Quem passar, pode pegar o Colo-Colo nas quartas. O time chileno, campeão da Libertadores em 1991, foi 10o no Torneio “Transición”, que fez com que o calendário chileno se adequasse ao europeu. A nova competição começou no dia 27/07 – e o Colo-Colo perdeu na estreia, 0-4 para o Audax Italiano. Depois o caldo pode engrossar ainda mais, com possibilidades de confrontos com o também chileno Cobreloa, o tradicional uruguaio Peñarol ou o argentino Vélez Sarsfield.

Copa Sulamericana e Copa do Brasil, já há algum tempo, são tratadas apenas como um atalho para a Libertadores, o que é um equívoco. Vale sempre lembrar que vale taça continental e também duas vagas: uma para a Recopa Sulamericana, contra o Atlético-MG em 2014, e uma disputa intercontinental, a Copa Suruga, que opõe o vencedor da Sula ao da Liga Japonesa. E taça no museu é o que interessa, afinal.

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Exclusivo: por dentro do CT do Caju

Não são unanimidade no Atlético as estratégias criadas pela diretoria do clube, tanto para o futebol, quanto na comunicação. Silentes, funcionários e jogadores demonstram dois sentimentos: descontentamento e medo. Sim, medo: de demissão e perseguição. Entre comissão técnica e jogadores, de serem queimados no mercado.

Nos últimos dias, tive acesso a jogadores e funcionários do clube, que aceitaram falar comigo, sob a condição de preservar os nomes. São pessoas que estão descontentes com o andamento atual na gestão atleticana, mas, com medo de sofrerem alguma sanção por parte da diretoria, não querem se expor. Os detalhes do convívio dentro do CT foram passados pelos próprios, com a condição de manterem-se sem exposição.

A restrição à imprensa no Atlético não é criticada apenas pela própria imprensa, patrocinadores e parte da torcida; dentro do CT do Caju, atletas e funcionários reclamam da medida e mais: da fritura de alguns jogadores no mal-sucedido time Sub-23 – que, ressalve-se, é parte de uma interessante estratégia de pré-temporada, que se perde dentro do enclausurado CT. Falar com qualquer jornalista é ato passível de multa, garantem.

Um funcionário com cargo influente no CT do Caju falou do descontentamento da comissão técnica com a decisão, já consagrada dentro dos portões no Umbará, de que o time principal não entre nos jogos do Paranaense, nem mesmo no segundo turno. “Por mim, trabalharíamos com um time só e iria testando. Mas não tem conversa”, revelou-me, pedindo sigilo. O Atlético articula amistosos. Nesta semana, fará um jogo-treino contra um mistão do Figueirense (que tem jogo decisivo com o Criciúma dois dias antes). O clube procurou adversários na Argentina e no Chile e até cogitou-se jogar contra o Bahia e o Vitória, que estão parados após as eliminações na Copa do Nordeste, mas nada foi confirmado. “Até a Copa do Brasil vai ser assim.” Perguntado porque, mesmo com um cargo influente não é ouvido e aceita as determinações, o funcionário em questão respondeu que, apesar dos pesares a estrutura e projeção do clube são boas – leia-se também um bom salário e em dia.

Um dos jogadores é um dos mais experientes do elenco. Confidenciou que há muita pressão dentro do próprio CT pela má campanha do Sub-23 no Paranaense. “Os meninos ficaram, você sabe como é, as coisas não estão indo bem, tem pressão.” O mesmo atleta ainda falou do relacionamento com o presidente do clube, Mário Petraglia: “Ele é de lua. Um dia chega e diz que está tudo bem. No outro, fica nervoso, esbreveja, muda tudo, manda dois, três embora.” O jogador ainda relatou que não há muita liberdade de argumentação com o dirigente: “Ninguém quer bater de frente com ele. Todos têm medo.”

O mesmo atleta ainda disse que os jogadores que voltaram da Espanha gostariam de jogar algumas partidas no Paranaense. “Uma competição é totalmente diferente. Um jogo sim, um não. Jogador quer jogar, né?” Perguntado se o grupo procurou a direção, o entrevistado disse que não. “Se ele bota uma coisa na cabeça, vai até o final”, disse, referindo-se a Petraglia, que, segundo o mesmo, anda um pouco ausente do CT, diferente do que acontecia no dia a dia em 2012. “Ultimamente não [tem estado no CT], por conta do negócio da Arena. Ano passado ele aparecia no clube, fazia reunião. Mas esse ano, com a pressa pela obra, a gente sabe que ele tem viajado muito.”

A orientação para os jogadores não falarem com a imprensa foi transmitida pelo diretor de futebol Antônio Lopes. Até mesmo quem chega tem que entrar na dança. É o caso de Jean Chera. A promessa que já rodou por Santos e Flamengo chegou à Baixada na semana que passou. Durante as negociações, seu pai, Celso Chera, falou sobre as possibilidades. No mesmo dia, à noite, foi alertado pelo diretor das categorias de base do Atlético, Jorge Andrade, de que não poderia falar mais nada, “sob pena de melar as negociações.” Dias depois, foi a vez do empresário de Jonas, ex-Coritiba, Felipe Pereira ouvir o mesmo da diretoria atleticana, já que a negociação vazou na imprensa.

O experiente jogador que conversou com a reportagem explicou como tudo se deu dentro do CT. “Houve uma reunião. O presidente avisou: a TV não vai divulgar jogos, o valor é muito baixo, não vai dar lucro pro clube. Ninguém pode falar com a imprensa.” O site oficial é usado como meio de comunicação único – e, como toda fonte unilateral, dá apenas uma versão dos fatos.

Outro que resolveu desabafar é um funcionário com anos dentro do Atlético. Sem o contato com a imprensa, vê uma fritura em cima de quem está no Sub-23: “O Arthur Bernardes é bom técnico e boa pessoa. O time é que é fraco mesmo.” Em viagem pelo interior do Paraná nas rodadas do Estadual, a mesma pessoa confessou a pressão dentro do clube para que os profissionais joguem algumas partidas do campeonato. Sem poder expressar livremente e com ordens para que ninguém se relacione com a imprensa, a pessoa confessou ter receio até mesmo em ser fotografada ao lado de repórteres.

Quais os malefícios, afinal, ao Atlético? Toda empresa tem suas diretrizes e o gerenciamento “mão de ferro” da atual diretoria do clube é apenas um entre os tantos métodos de gestão, certo? Quase. Ao se criar um ambiente tenso – seja em função dos maus resultados do sub-23, seja em função das restrições de liberdade – o clube pode sentir os reflexos em campo.

O modelo autoritário inibe a criatividade, ferramenta-mãe em um esporte como o futebol. Os ruídos em comunicação, gerados pelo difícil acesso à informação e pelo descontentamento de quem quer falar, criam tumultos no ambiente. Grupos de atletas são heterogêneos, com muitas diferenças culturais e sociais entre as pessoas que os compõe. Em um ambiente mais aberto, isso já é problemático; que dizer de um local de trabalho com pouca liberdade de expressão?

Por fim, a auto-realização, a sensação de estima e de pertencer a um grupo são propulsores para o sucesso de uma equipe. Em um meio com a vaidade exacerbada como o futebol, onde cada atleta precisa ser mais que o outro dentro e fora de campo, não aparecer é prejudicial; não ser ouvido pelos comandantes é excludente. Como os valores no futebol são muito avaliados pelos resultados em campo, uma sequência de triunfos pode transformar tudo isso em mito, assim como a má fase reforça a tese. No entanto, acima disso, é importante refletir sem a moral torta movida pelos resultados: qual caminho o clube está tomando ao agir assim com seus próprios funcionários?

  • Arremate:

“Uma vitória em um Atletiba encobre muitos defeitos e uma derrota causa problemas que não existem”, disse o ex-jogador e vereador Paulo Rink antes do clássico de domingo. A reportagem acima foi apurada na semana do clássico e pretende discutir algo mais profundo do que um resultado isolado, seja de vitória ou derrota para qualquer lado. Por isso, a publicação dela se deu durante o andamento da partida – basta olhar o horário da publicação.

Paratiba #94: um clássico como há muito não se vê

Empatados na liderança do Estadual em quase todos os critérios (o Coxa está na frente por ter tomado menos cartões amarelos), Paraná e Coritiba duelam pela 94a vez na história nesse domingo, na Vila Capanema, com um equilíbrio de ambições como há muito não se via.

Sem vencer o rival desde 21/02/2010, quando fez 1-0 em Paranaguá, o Paraná aparece como postulante ao título do primeiro turno – e eventual finalista – o que não acontece desde que foi campeão pela última vez, em 2006. A derrota em Paranaguá também foi a última do Coritiba em clássicos em Estaduais. Desde então, o clube se sagrou tricampeão paranaense, com um título invicto em 2011.

Somando-se a tudo isso, em campo estarão dois dos maiores ídolos de cada clube: Alex, pelo Coxa, e Lúcio Flávio pelo Paraná. O leve favoritismo que o Coritiba poderia ter fica aplacado pelo bom início tricolor e o mando de campo, que equilibra as situações.

Para quem é supersticioso, os vídeos abaixo apontam números desfavoráveis ao Coxa. Com Alex em campo, o Coritiba foi goleado no já distante ano de 1997, última vez em que o ídolo coxa-branca encarou o Tricolor. Alex marcou duas vezes, mas não foi o suficiente:

Lúcio Flávio também já enfrentou o Coritiba em outra época. A partida mais memorável foi em 1999, quando o Paraná, então jogando na Vila Olímpica, aplicou uma goleada histórica, com um time basicamente formado por jovens. Entre eles, o próprio Lúcio Flávio:

As goleadas acima, no entanto, não devem ser parâmetro para o jogo deste domingo, que promete ser equilibrado. Na história, são 35 vitórias do Coritiba, 31 do Paraná e 27 empates.

Com ídolos em campo e equilíbrio na tabela, o Paratiba #94 promete resgatar a rivalidade do clássico, que já foi acirrada nos anos 90, quando os times decidiram por dois anos (1995/96) seguidos o título estadual.

Reboot

A Gralha, “super-herói” paranista: vem aí novo reboot

O Paraná acaba de vencer o Asa por 2-0, jogando não muito diferente do que foi a temporada inteira. Melhor em casa do que fora, tomando sufoco em momentos, sendo insinuante em alguns. Venceu a maioria dos times de que era melhor e perdeu para aqueles que tinham mais time. Não à toa, é o 10o. colocado nesse momento, exatamente no meio da tabela, posição que não deve perder, tampouco avançar. Faltando um jogo para o fim da temporada, de fato, pouco disso importa. O Paraná vai repetir o que vem fazendo desde que Caio Júnior pegou o time e o levou à Libertadores: começar do zero.

Havia a esperança de que Ricardinho desse nova roupagem ao Tricolor. E deu, durante um tempo. Tornou o clube atrativo para alguns jogadores, que apostaram no projeto e, não nos esqueçamos, chegou a ir bem por um tempo, castigado por um calendário que arrumou pra si por incompetência e pelo abandono da FPF. Depois faltou fôlego. Faltou dinheiro, pra ser mais preciso. Cumpriu a principal missão, devolver ao Paraná o direito de disputar a elite paranaense – “feito” que atingiu o limite do inimaginável quando o clube caiu. Mas Ricardinho saiu expondo feridas que depois seriam comprovadas. De novo, o clube passou pelo vexame de ver jogadores em greve, manifestando em carta que eles e funcionários de outros setores estavam sem receber.

E lá vai o Paraná mais uma vez começar do zero. Conversei com Ricardinho recentemente. Ele demonstrou uma esperança de que Alex Brasil, diretor de futebol, conseguisse manter um padrão de organização instituído no clube. “Quando eu cheguei, o que mais tinha no departamento de futebol era empresário metendo o bico”, disse o ex-técnico e jogador. Talvez o Paraná tenha melhorado nisso, mas vive as mazelas de ser um clube pobre. Dívidas não são exclusividade do Paraná, mas clubes como Vasco e Flamengo tem maior atrativo para os atletas. Num país sério seriam poucos os clubes que poderiam jogar a Série A.

Pior para os jogadores, que ficam sem receber e sem a vitrine, já que seguem na Série B. O grupo atual aliás, criticado pela torcida, não merece metade das porradas que levou. Se falhou, foi muito mais por falta de bola do que vontade. Trabalhar sem receber é desonroso para ambas as partes: quem o faz se sente ofendido, mas quer manter a palavra. Quem não paga, fica com péssima imagem. Se é bem intencionado, é incompetente; senão, é picareta.

A expressão reboot vem do inglês, algo como “reiniciar”. É usada no universo do cinema e dos quadrinhos quando se querer apagar o passado ou uma história contada de algum personagem. A DC Comics, editora do Super-Homem, é craque em fazer reboots. Já zerou e recontou a origem de seus heróis inúmeras vezes. Uma grande saga, um vilão poderoso, um morte de herói aqui, um universo salvo acolá e, depois que os heróis derrotam o arqui-inimigo, bingo!, tudo zerado até que algum redator faça nova bobagem, como inventar um Superboy ou aleijar o Batman.

Da esquerda, em sentido horário: o Super-Homem original, o fim das Terras paralelas, uma nova zerada e mais um reinício: azul e vermelho em todas

A diretoria tricolor é um misto de gestões anteriores e gente nova. Não julgo intenção e sim resultados. Quem está no poder hoje ainda paga por erros do passado, mas tem sua parcela de culpa e mais: pouco crédito. Como convencer os (poucos) bons destaques desse time a ficar para 2013, sem ter pagamento de salários? Como mostrar que o Paraná é um clube viável depois de mais uma temporada esgotando os pedidos de desculpas? Pobre torcedor.

A nova realidade do futebol brasileiro, com cotas de TV desiguais entre os 14 grandes, segmentando até quem está na Série A, já está criando um seleto grupo de protagonistas. Corinthians, São Paulo, Fluminense e alguns outros poucos vêm se alternando nas conquistas. Aumentou-se o número de coadjuvantes. Botafogo, Atlético-MG e Coritiba, por exemplo, são campeões brasileiros que hoje aspiram competições como a Copa do Brasil. Falta fôlego para ir até o fim mantendo folha alta e competitiva. Que dizer então do Paraná, a quem hoje nem o papel de coadjuvante cabe? Quiça figurante, ora na A, ora na B. Vida bandida.

Na próxima temporada, novo reboot. Lá vai o Paraná juntar os cacos, montar um elenco às pressas, buscar soluções e renovar os créditos. Difícil sonhar com o Estadual, bom jogar a Copa do Brasil, melhor pensar em economizar para uma boa Série B. Se não subir, novo reboot pra 2014. Falta um redator melhor ou um Super-Homem para quebrar esse ciclo? Nos quadrinhos, é mais fácil recontar histórias. Na vida real, nem tanto.