Abrindo o Jogo – Coluna no Jornal Metro Curitiba de 19/12/2012

Vem aí uma Liga Brasileira de futebol?

Conversei com o ex-presidente do Corinthians Paulista, Andrés Sanchez, por ocasião da conquista do bicampeonato mundial. Sanchez, homem que pegou o Timão na Série B, contou que há um projeto de 20 anos para que o Corinthians domine o Mundo e possa competir em pé de igualdade no mercado internacional com Manchester United e Barcelona. É possível. O Mundial de 2012 foi apenas um passo para isso. Ele, que militava recentemente na CBF, quer mais – e não só para o seu clube. Quer uma revolução no futebol brasileiro. Já diz ter o apoio de clubes importantes, como Internacional, São Paulo e Atlético Mineiro. E busca mentalidades parecidas para romper com a CBF e fazer uma Liga Nacional de Futebol, segundo ele, mais profissional, mais voltada aos interesses dos clubes. Sanchez já mostrou força. Mas brigar com a CBF é sempre indigesto. No Paraná, a dupla Atletiba parece ter os requisitos, mas…

Antíteses

…nunca está em sintonia. No começo do ano, neste mesmo espaço, escrevi que, ao conhecer o perfil empreendedor dos dois presidentes de Atlético e Coritiba, podíamos esperar uma era de ouro para o futebol local. Já não estou tão certo. Nunca vemos uma união de esforços em nenhum sentido quando atleticanos e coxas estão envolvidos. Parece proposital: se um está de um lado, o outro corre imediatamente para o outro, pouco importando o que é melhor, o que é correto. O que importa mesmo é ser a antítese do rival. Penso que se houver uma proposta para uma Liga Nacional, que contemple os clubes com melhor distribuição de renda e um calendário mais equilibrado, se um aderir, o outro caminhará para a oposição. Beira o ridículo. Sei que existem diferenças marcantes nos comportamentos pessoais dos comandantes, mas enquanto os caranguejos se puxam para baixo, a panela ferve. Em poucos dias, teremos mais uma divulgação de pesquisa de torcidas no Paraná. Não se surpreenda com o aumento do domínio corintiano no Estado.

Aniversário feliz

Há quem atribua a primeira revolução no futebol paranaense, consolidada quinta força nacional (é pouco, mas a frente de Bahia e Pernambuco, por exemplo), à Mário Celso Petraglia. É uma meia-verdade. Quando ele pegou o Atlético em 1995, construindo tudo o que se sabe, já havia uma revolução em andamento, que se completa 23 anos hoje. Foi o surgimento do Paraná Clube 1989, da fusão de Colorado e Pinheiros, que acabou deixando pra escanteio a dupla Atletiba, até Petraglia no Atlético e o triunvirato Mauad-Malucelli-Prosdócimo assumir o Coxa. Hoje, o Paraná não estaria como protagonista na revolução antevista acima para o Brasil. Mas no geral, teve um 2012 melhor que anos anteriores, podendo até comemorar em paz a data. Paz essa que é preciso se buscar nos bastidores e nas arquibancadas, para que os clubes locais voltem a crescer.

A coluna para por duas semanas, desejando um Feliz Natal e 2013 para todos, se o Mundo continuar existindo depois de sexta!

P.S.: O Blog continua a mil, mesmo no recesso.

Teixeira fora da CBF: relembre a relação com o futebol paranaense

Teixeira em 1989: 23 anos até sair do cargo

Ricardo Teixeira deixou a CBF. O que parecia impossível aconteceu nessa segunda, 12 de março de 2012. Foram 23 anos a frente da entidade. alguns escândalos, como o da alfândega na Copa 94, CPIs e milhares de denúncias; Teixeira também foi o presidente das viradas de mesa, em 1993 pelo Grêmio, em 1997 pelo Fluminense e em 2000, pelo Botafogo.

Sem contar o canetaço histórico no Coritiba em 1989, rebaixando o clube que levou WO por não jogar em Juiz de Fora contra o Santos, mesmo amparado por uma liminar (o América-MG também sofreu represália, ainda pior, em 1993). Na época, Coritiba e Vasco disputavam uma vaga na segunda fase da competição. O Coxa estava praticamente classificado.

Diretoria do Coxa de 2008 recebe Teixeira: agraciado

Em 4 de outubro daquele ano, o goleiro Rafael Cammarota, campeão brasileiro pelo clube, defendia o Sport Recife. Um torcedor coxa-branca invadiu o gramado para agredi-lo, o que fez com que o Coxa perdesse um mando de campo. A CBF então marcou o jogo da punição, contra o Santos, para Juiz de Fora-MG, em horário diferente da partida entre Sport x Vasco, concorrente direto. O Alviverde conseguiu uma liminar exigindo que os jogos fossem no mesmo horário, o que não foi acatado pela CBF. Então, em uma decisão de diretoria, o Coritiba não viaja a Minas Gerais e perde por WO. A CBF cassa a liminar e rebaixa o clube para a Série B. O Coxa chegou a cair para a Série C em 1990, mas não disputou, com a divisão sendo extinta. Voltou a elite em 1996, após o vice da Série B de 1995.

Teixeira, Requião e Mário Petraglia: política e sorrisos

Teixeira prejudicou o Atlético em 1993, retirando o Furacão do grupo principal em que estava em 1992 e relegando-o a um grupo secundário, praticamente rebaixando o clube. Em 92, o Rubro-Negro terminou a Série A em 15º lugar entre 20 clubes, longe da zona do rebaixamento. O Grêmio então estava na Série B e não conseguiu acesso. A CBF mudou o campeonato em 1993, guindando 12 clubes para a elite – entre eles o Grêmio. O campeonato foi dividido em quatro grupos: A e B, com proteção contra o rebaixamento, e C e D, no qual apenas 8 clubes permaneceriam na elite. O Atlético, dono da vaga na Série A, foi colocado no Grupo D, perdendo o privilégio adquirido em campo. O Grêmio participou do Grupo B, blindado contra a queda. O Furacão acabou a competição na 24ª posição (dentro dos 24 melhores) mas foi rebaixado mesmo com mais pontuação que Fluminense (28º), Bahia (30º), Botafogo (31º) e Atlético-MG (32º). Voltaria a Série A em 1996, como campeão da B-95.

Também em 1993, o Paraná, então campeão da Série B 92, se viu obrigado a disputar a elite no grupo desprotegido, mas garantiu novamente sua vaga, acabando em 10o no geral.

Mas em 2000 Teixeira prejudicou o Paraná Clube indiretamente, ao abrir mão do Brasileirão que se tornou Copa João Havelange e que teve organização do Clube dos 13, com o Tricolor em um grupo secundário, mesmo estando no principal em 1999. Na ocasião, a CBF instituiu que o rebaixamento viria da média dos dois últimos anos de campeonato (pontos somados e divididos por 2, entre 98 e 99, numa cópia do modelo argentino). O Paraná acabou a competição em 17º de 22 clubes, mas a CBF e o STJD julgaram que o São Paulo utilizou irregularmente o atacante Sandro Hiroshi na vitória por 6-1 sobre o Botafogo-RJ. O time carioca então somou três pontos e escapou.

Só que o Gama, outro atingido pela decisão de ser usada a média, entrou na Justiça Comum e conseguiu fazer valer o regulamento antigo. Sem abrir mão da decisão desportiva, a CBF se viu obrigada a não rebaixar o Botafogo mas arrumar uma vaga para o Gama na elite. Então, abriu mão da organização da competição em 2000, que ficou no colo do Clube dos 13. O C13 criou a Copa João Havelange, dividindo a competição em 4 módulos que teriam cruzamento nas finais. No módulo principal estavam 29 times, entre eles Fluminense (que em 1999 venceu a Série C e estaria na B, mas foi guindado a elite) e Bahia, que estava na B. O Paraná ficou fora deste grupo e teve que disputar a segunda classe. Mas venceu o torneio e chegou até a fase de quartas de final, quando perdeu para o Vasco, futuro campeão. Assim, a CBF impôs ao Tricolor a proeza de jogar duas divisões na mesma temporada.

Teixeira negociou os direitos dos jogos da Seleção Brasileira, deixando o povo distante do antigo orgulho nacional. Assinou contratos milionários com um fornecedor de material esportivo que nunca deixou a impressão de valorizar a marca da Seleção individualmente.

Mas, admitamos, Ricardo Teixeira teve suas contribuições. Com ele, o Brasil foi bicampeão mundial, vencendo as Copas de 1994 e 2002, também ganhou cinco copas América e três copas das Confederações. Reorganizou o Campeonato Brasileiro de 2003 para frente, consolidando o formato de pontos corridos. Deixa a CBF alegando problemas de saúde.

Teixeira e Hélio Cury: hoje em lados opostos, mas modelo copiado

A grande pergunta que fica é: o que muda de fato? A substituição de Teixeira por José Maria Marin trará novos ares ao futebol nacional? Evidente que não. O ciclo continua. As diretorias estão mantidas. A Federação Paranaense de Futebol se posicionou como opositora a Ricardo Teixeira desde o surgimento de que o ex-presidente da CBF iria se afastar. Só que Hélio Cury, que entrou na FPF como interventor, acabou eleito e prorrogou seu mandato para até depois da Copa 2014, num modelo similar ao que manteve Ricardo Teixeira 23 anos no poder.

É cedo para afirmar se a saída de Ricardo Teixeira será mesmo um benefício ao futebol brasileiro ou só mais um artifício, ainda coberto de mistério, para que a pessoa se afaste no momento oportuno, antes de um tombo maior.