“República Argentina” já divide elenco do Palmeiras

O Palmeiras pode ter sérios problemas para administrar a continuidade do técnico argentino Ricardo Gareca na temporada 2014. De acordo com um relato de uma fonte ligada ao clube paulista, a razão do técnico não conceder entrevista após a derrota por 2 a 1 para o Atlético-MG em Belo Horizonte foi uma ríspida e intensa discussão com o meia Wesley, ainda nos vestiários do Estádio Independência. Wesley teria cobrado duramente o treinador e demonstrado profunda irritação com a crescente colônia estrangeira no Palmeiras, contando com o apoio de Felipe Menezes. Um dos jogadores citados na discussão foi Leandro, preterido por Gareca nos últimos jogos.

O capitão Lúcio teria tomado o partido do treinador para apaziguar a situação e o elenco mostrou sinais de divisão. Gareca decidiu então não ir à entrevista coletiva. Nesta terça o Palmeiras anunciou mais um argentino, o atacante Cristaldo.

O Palmeiras está há 8 jogos sem vitória no Brasileirão, com 6 derrotas e 2 empates no período. Gareca dirigiu a equipe em 5 destes jogos, com duas vitórias pela Copa do Brasil, sobre o Avaí.

O blog tentou um contato com a diretoria palmeirense, que não atendeu ou retornou as ligações.

 

Anúncios

Bundesliga rocks!

Circula pela internet o cartaz abaixo, elaborado pela revista 11 Freunde, da Alemanha, para promover a Bundesliga – o campeonato alemão – que você poderá ver de graça e ao vivo aqui pela internet, no Terra, a partir de 22 de agosto.

O cartaz é uma referência ao festival Wacken, um dos maiores do Mundo na cena do heavy metal, e liga os nomes dos clubes da primeira divisão a algumas bandas do cenário musical – não necessariamente rock ou heavy metal.

Você seria capaz de reconhecer todas? Veja e se desafie, antes de ler a resposta lá embaixo:

Pensou? São 18 clubes. Desafie-se antes de descer o scroll…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bem, aqui vai a resposta:

The Beatles – Bayern de Munique, o principal time da Liga.
Run DMC – Borussia Dortmund (BVB é a sigla do clube, como CSA)
Motorhead – Wolfsburg
AC/DC – Augsburg
Slayer – Schalke 04
Wu-Tang-Clan – Werder Bremen
The Who – Paderborn
Linkin Park – Borussia Monchengladbach (Borussia Park é o nome do estádio)
Scorpions – Hannover 96
Rammstein – Hertha Berlin
Public Enemy – Hoffenhein (TSG 1899 é o nome completo)
Dinosaur Jr = Hamburgo
Tokio Hotel = Mainz
Tocotronic = Freiburg
Chemical Brothers = Bayer Leverkusen (Bayer é um laboratório farmacêutico)
Die Toten Hosen = Eintracht Frankfurt
Höhner = Colônia (banda local da região)
Fur = Stuttgart (VFB é a sigla do clube)
 
A bola rola na Bundesliga, ao vivo e de graça, a partir do dia 22 de agosto aqui no Terra!

 

Dunga, medo e rejeição

“Sou um ser humano. Sei que eu tenho que melhorar muito no contato com as pessoas, com os jornalistas. (…) É a minha culpa, a reflexão que eu tive nos últimos anos.”

Poderia ser eu, você, qualquer pessoa a falar a frase acima – excetuando talvez a parte dos “jornalistas”, algo particular do cargo dele. Mas a frase é de Dunga (de) novo técnico da Seleção Brasileira. E, no sentido de reconhecer que algo não correu bem, todos nós já fomos Dunga um dia.

Os números falam por Dunga na primeira passagem na Seleção. Dois títulos (Copas América e Confederações), o primeiro lugar nas Eliminatórias, vitórias por três ou mais gols contra Argentina, Uruguai, Itália e Portugal. Parou nas quartas-de-final, contra a Holanda, em um jogo muito igual, no qual teve domínio durante o primeiro tempo e sofreu a virada em situações conhecidas. Tivesse levado 7 e talvez fosse esquartejado em praça pública. E sabe por que? Porque Dunga não é simpático.

Oras!, simpatia não é o requisito principal para se dirigir a Seleção. Competência, sim. Dunga tem um karma em sua vida: é instigado a provar sempre o mesmo ciclo. Foi assim da Era Dunga de 1990 ao Tetra em 1994, quando ergueu a taça como capitão. Repete agora, na condição de técnico, muito embora não saibamos se irá ter o mesmo final em 2018.

Nesse meio tempo, veremos um festival de repulsa ao nome de Dunga. Não necessariamente ao trabalho; ao nome, à figura. Dunga poderá provar em campo que pode vencer (atenção: vencer não é mudar o futebol brasileiro) e ainda assim será questionado. Tem inimigos, talvez até gratuitos. A situação toda me lembra o vídeo da atriz Regina Duarte dizendo ter “medo” do resultado das eleições 2002. Não vou avaliar aqui o que o País viveu nos últimos 12 anos, mas Regina estava errada. Antecipou um medo que nunca veio. Muitos agora tem “medo” de Dunga. O torcedor, tudo bem.

Mas o jornalista foge do ofício ao se comportar assim. Ao jornalista, caberá uma avaliação do trabalho. Não precisa ser amigo de Dunga, nem deve ser inimigo. Deve avaliar com isenção e educação e esperar o mesmo tratamento do treinador. Dunga não merece o medo antecipado do que não foi vivido ainda.

Em todo caso, não será Dunga a mudar o futebol brasileiro. Poderá dar padrão ao time. Talvez não agradará os fãs do futebol de 1982, nem repita o tiki-taka da Espanha. Talvez tenha um outro método para vencer seus jogos. Não importa. Mesmo se vencer todos os jogos daqui até a final da Copa 2018, Dunga não mudará o futebol brasileiro. A mudança que é necessária é estrutural, filosófica. 

Dunga pode no máximo mudar a imagem que muitos têm dele. Mudar a imagem ruim dos 10 gols tomados pela Seleção nos últimos jogos da Copa 2014. E será esse o trabalho dele, nada além.

Os palcos da próxima Copa

Agora é 2018. E o “Imagina na Copa” vai dar lugar ao “Представьте себе чемпионат мира”. É a vez dos russos se preocuparem com estádios e todo o resto que o brasileiro tanto debateu nos últimos anos. Assim sendo, o blog “visitou” as 12 cidades-sede do Mundial da Rússia para ver atualmente como estão os estádios. O passeio foi pelo Google Earth, realizado em 15/07/2014. Algumas imagens podem estar defasadas. Confira:

Palco da abertura e do encerramento da Copa 2018, o Estádio Luzhniki é um dos poucos a estarem 100% prontos para a Copa. Ok, tem quatro anos ainda, estão na frente nesse.

A nova casa do Zenit, de Hulk, ainda está em obras. Será a Arena Zenit.

O velho estádio de Rostov ainda está em pé. No destaque, a vista aérea. Maior, a fachada atual, que já tem um poster do projeto à disposição dos visitantes – mesmo aqueles via internet.

O complexo esportivo de Sochi está praticamente pronto desde a Olimpíada de Inverno sediada pela cidade. Mas o Estádio Olímpico ainda passa por algumas reformas.

O estádio de Samara ainda não começou as obras. No detalhe, o projeto; na foto maior, a casa do Krylya Sovetov.

As obras em Kazan estão em bom ritmo. Acima, a Arena Kazan, futura casa do Rubin.

Novgorod é outra cidade-sede que ainda não começou as obras. No detalhe de baixo, a atual fachada do estádio; acima, a do projeto.

Kaliningrado ainda não começou a transformar o Estádio Baltika, acima, na nova Arena Baltika.

Em Saransk, o antigo estádio Start já começou a ser mexido para se tornar o Estádio Yubileyniy (leia rápido e em voz alta, por favor).

O Central Stadium já começou a ser mexido em Volgogrado, mas as obras ainda estão lentas.

O Estádio Central, em Ecaterimburgo, que começa a ser mexido para a Copa; em destaque, a fachada atual.

O Campeonato Russo será atração no Terra nesse segundo semestre. Acompanhe a evolução dos palcos para 2018 AO VIVO e GRÁTIS com a gente aqui no site!

 

O pior ainda está por vir

(Foto: Daniel Ramalho)

O futuro não é mais como era antigamente, já cantava Renato Russo. A humilhante goleada por 7 a 1 imposta pela Alemanha ao Brasil na histórica semifinal da Copa do Mundo é, acima de tudo, um recado muito claro ao futebol brasileiro. Resta saber se o país irá entender.

Vinte e quatro horas depois da acachapante eliminação, já se viu de tudo. Desde uma coletiva patética da comissão técnica do Brasil, numa tentativa barata de explicar o inexplicável, até a chegada da Argentina à decisão do Mundial. Os eternos rivais poderão ser campeões aqui, mas nem de longe isso será o pior. O que pode vir pela frente sim, será ainda mais humilhante que levar sete em casa.

O futebol brasileiro está perdido. O jogo, que dura 90 minutos e está sujeito à intempéries como as de ontem, foi apenas mais um sinal. A Alemanha destroçou os sonhos do Brasil, mas deixou acima de tudo um grande exemplo de como sair desta armadilha que as cabeças pensantes (?) do futebol brasileiro enfiaram o futebol nacional. A partir do legado esportivo da Copa.

O Brasil ganhou 12 novos estádios para a Copa, sem contar as casas novas de Grêmio e Palmeiras. Algo parecido com o que os alemães viveram em 2006, quando reformaram seus estádios para cairem numa semifinal contra a Itália. Não foi por 7 a 1, mas ajudou a mudar a cara do futebol alemão. A começar pela base da equipe. Os alemães reconheceram os erros, não qualificando como “pane”, “tsunami” ou “atípica” a derrota. Valorizaram os jovens talentos, limparam o que havia de ruim. Refizeram sua ideia de futebol. Foram semifinalistas em 2010 e finalistas novamente agora. Ganhar é questão de tempo. Há um trabalho real. Por aqui é dificil afirmar o mesmo. É verdade que essa geração ficará marcada, mas também é verdade que bons valores como David Luiz, Oscar e Neymar devem seguir na Seleção.

O contrário será zerar novamente, como foi feito com Dunga. Não duvido. Como foram cruéis com Dunga, um técnico que valorizou o time nacional e equiparou condições de trabalho. Foi traído até por quem beneficiou. Do zero, o Brasil ainda chegou à uma semifinal. Passou uma vergonha histórica, que mostrou o que é vergonha de verdade, nada como o pobre time de 1950, que foi o primeiro a chegar a uma final, ou o de 1990, que perdeu um jogo igual para a Argentina. Mas, confesso, isso também não é o pior.

O pior é ver que o sucateamento do futebol nacional está na cara de todos e nada acontece. Os clubes estão quebrando. Eles, que formam os jogadores, vivem em um calendário insano, prejudicial, com diferenças gritantes entre cotas de televisão para um mesmo campeonato, o que acabará por liquidar de vez o modelo. De onde sairão novos jogadores, se o interior está falindo e os médios não tem força de competir com dois ou três privilegiados financeiramente? Essa foi a Seleção menos Brasileira de todos os tempos, com apenas quatro jogadores atuando no futebol nacional. E isso porque até mesmo clubes como Shakhtar Donetsk ou Zenit conseguem levar os talentos daqui cada vez mais cedo. E quem pode condenar um Vitória, Coritiba ou mesmo o Grêmio em vender seus jogadores ainda mal formados quando se compete contra um milionário Corinthians?

Por falar no Timão, a nova casa corintiana recebeu a semifinal entre Holanda e Argentina e se despediu da Copa. Volta já na próxima quarta, com Inter x Corinthians, bom jogo. Mas como irá sobreviver ao longo dos anos quando acolher um Mirassol x Corinthians numa quarta a noite, 22h, pela segunda rodada do Paulistão? Quem pagará a conta da abertura desta Arena, ou na Baixada para um Iraty x Atlético, no Beira-Rio para um Inter x São Luiz nas mesmas circunstâncias? A CBF é que não.

A Conferação, que vira as costas aos seus clubes, não irá ajudar nem a manter estádios públicos, muito mais problemáticos, como a Arena Amazônia. A cúpula do futebol nacional não perdeu tempo e marcou amistosos contra Colômbia e Equador nos EUA e contra a Argentina em Pequim. Os direitos dos jogos pertencem a um grupo internacional, que preferiu movimentar outras praças que não Brasília, Cuiabá ou Manaus, as mais problemáticas da Copa. Mas não me furto em pensar que algum jogo do Brasileirão seja deslocado para alguma destas cidades, na tentativa de tapar o buraco.

Um técnico estrangeiro na Seleção é o debate do momento. Convenhamos, ninguém duvidava da capacidade de Felipão com essa seleção. Ele segue, assim como Parreira, um campeão do Mundo. O que fez de bom, não se apaga. O que fizeram de ruim, em 2006 e agora, também não – e olha que foram desvios de conduta muito parecidos (valeu, Dunga). No entanto, enquanto se discute o lado tático do Brasil, a falta de inovação e a morte do jogo bonito, enquanto se pensa em trazer um Guardiola ou um José Mourinho para mudar o rumo das coisas, esquece-se do principal.

Guardiola ou Mourinho poderá fazer as convocações que bem entenderem ou terá que manter as convocações “geográficas”, sempre tentando agradar uma praça local em um amistoso, ou mesmo aquelas que ajudam jogadores a abrirem mercado na Inglaterra, que só contrata selecionáveis? Poderá contar com seus principais nomes ou terá que abrir mão de um ou outro porque o Brasileirão não respeita as datas Fifa? Mourinho ou Guardiola terá liberdade de fechar a Granja Comary e lidar com criticas com todos ou só meia-duzia, enquanto cumpre um ou outro compromisso midiático/publicitário? Que revolução fará, sem liberdade? Material humano no banco de reservas o País já tem. Uma nova geração que está lendo Wenger e Mourinho, assiste jogos e não se espanta com Joel Campbell ou o quarteto destruidor da Alemanha. Aliás, isso vale também para muitos dos colegas de imprensa, cujo raio de visão não passa do Tietê ou de Copacabana.

A Alemanha pulverizou vários recordes brasileiros. Ultrapassou a Seleção no números de gols marcados em Copas, em número de finais disputadas; Klose deixou Ronaldo para trás, num pequeno castigo para o ex-grande jogador, cada vez mais boquirroto fora das quatro linhas. Foi a maior goleada sofrida pelo Brasil em 100 anos de história. A mais parecida data do amadorismo, de 1920. Um último orgulho ainda está ameaçado, por uma gestão quase tão amadora, porque tem muito mais dinheiro, quando àquela de 20: o Brasil jamais deixou de participar de uma Copa do Mundo. Vem aí as eliminatórias para a Rússia e sim, o pior ainda está por vir.

 

Minas Gerais contra a Alemanha

Mais que uma convocação geral para o jogo desta terça-feira, quando a Seleção Brasileira vai precisar e muito da força das arquibancadas, o torcedor mineiro irá ver em campo um de seus maiores algozes: o futebol alemão.

Pode ser algum laço espiritual, um resquício inexplicado do Pangeia ou apenas o que é mais óbvio, uma grande coincidência. Mas os principais momentos do futebol mineiro foram contra alemães. E mesmo quando o encontro não ocorreu, foi a Alemanha quem comemorou.

Essa história começa em 1976. A Alemanha havia sido campeã do Mundo em 74 e o Bayern de Munique era a equipe mais vitoriosa da Europa. Tricampeão da Champions League, o Bayern iria encarar o Cruzeiro na decisão intercontinetal. 

Cruzeiro x Bayern: alemães no caminho dos mineiros

O time de Raul Plassmann, Nelinho, Piazza, Jairzinho e Palhinha venceu a Copa Libertadores e teria uma chance que o aargentino Independiente não tivera, de desbancar o time alemão. No ano anterior, o Bayern de Backenbauer, Sepp Maier, Rummennigge e Gerd Muller não quis disputar o torneio. Após vencer por 2 a 0 em Munique, o Bayern foi ao Mineirão, palco de Brasil e Alemanha neste 2014. E segurou um 0 a 0 para comemorar o título Mundial.

Levou tempo até que uma equipe mineira ganhasse nova chance de consagração mundial. Mas ela veio, em 1997, após uma campanha irrepreensível do mesmo Cruzeiro na Libertadores. Quis o destino, no entanto, que novamente o obstáculo final de um time de Minas para o título do Mundo fosse um alemão. Desta feita, o Borussia Dortmund. O time amarelo não tinha nenhum grande destaque. O principal nome era o suiço Chapuisat, além do volante brasileiro Julio César. O Cruzeiro venceu a Libertadores e chegaria até com um certo favoritismo, não fosse um erro histórico. No hiato entre uma decisão e outra, a diretoria celeste achou por bem reforçar a equipe apenas para a decisão do Mundial, agora disputada em jogo único no Japão. Chegaram o lateral-direito Alberto (que não jogou) e o zagueiro Gonçalves e o atacante Bebeto, que atuaram. O grupo titular, claro, não gostou. O time não rendeu e a derrota por 0 a 2 sepultou as chances mundiais da Raposa mais uma vez.

Em 2013 o Atlético Mineiro surpreendeu a todos e, no sufoco, ergueu seu troféu da Libertadores. Uma campanha memorável, marcada pelos jogos no Horto – o estádio Independência – e pelas defesas milagrosas de Victor, hoje goleiro reserva da Seleção. O time de Ronaldinho e Jô passou a pensar no Mundial de Clubes, já em novo formato, referendado pela Fifa e com mais jogos que na época do Cruzeiro.

E quis o destino mais uma vez que outro alemão estivesse no caminho mineiro. O Bayern de Munique, de Schweinsteiger, Toni Kroos, Thomas Muller e muitos outros que estarão em campo nesta terça, ergueu a Champions League e também iria ao Mundial. Novamente Minas Gerais iria jogar seu sonho Mundial contra a Alemanha – e contra um time que é a base da atual seleção alemã. Curiosamente, o Galo é o time brasileiro que mais empresta jogadores ao atual Brasil. Apenas dois dos 23, mas o que equivale a metade dos jogadores que atuam no futebol nacional.

O encontro contra o Bayern, porém, não aconteceu. O Atlético-MG acabou surpreendido pelo marroquinho Raja Casablanca nas semifinais do Mundial. Uma surpresa que impediu a revanche mineira, pelo menos até esta terça, quando a camisa amarelinha estará desfilando no Mineirão justamente contra os algozes dos sonhos mineiros.

Será que chegou a hora de Minas Gerais? 

 

E se a Copa de 1942 tivesse sido realizada?

Enquanto a Copa vive seu último recesso, os blogs Abrindo o Jogo e Futebol Clube propõem a você, leitor, um exercício de imaginação: e se a Fifa tivesse mantido a realização da Copa do Mundo para 1942, a despeito da II Guerra Mundial?

– Leia também: E se a Copa de 1946 tivesse sido realizada?

A história já está escrita, mas é possível imaginar quem poderia ganhar a Copa. E as notícias não são animadoras: dois dos grandes rivais brasileiros, Argentina e Itália, dominavam o período.

Para esse exercício, é preciso ter alguma base histórica. Uma pesquisa em cima dos principais times da época já daria uma boa noção de quem seria sede daquele Mundial. Com a Europa toda ocupada por tropas, a ideia da Fifa era trazer a Copa  para a América do Sul já em 1942. Falava-se em dividir a realização entre Argentina e Brasil. Podemos imaginar, no entanto, que como a Copa de 1950 ocorreu no Brasil – que era o país mais pronto para receber o evento – e que apenas em 2002 a Fifa aceitou dividir a realização, o Mundial de 1942 ocorreria em terras tupiniquins.

Treze equipes participaram da Copa em 1950, um número menor que as 16 que jogaram o torneio em 1938. Assumindo que 16 times jogariam o Mundial de 1942 no Brasil, é preciso definir a distribuição das vagas. Sul e norte americanos seriam maioria, com 9 equipes. Brasil, Argentina (que não jogou em 50), Uruguai, Chile, Paraguai e Bolívia seriam os candidatos naturais na América do Sul, pelo desempenho na época; EUA, México e Cuba (que jogou a Copa de 38 na França), viriam pela América do Norte.

Cubanos na Copa em 1938: iriam também em 1942?

Em situação normal, os europeus teriam mais vagas que os americanos, mas a guerra consumia forças. Assim sendo, é possível imaginar que as demais 7 vagas seriam cobertas pelo Velho Continente em 1942. Asiáticos participaram do Mundial de 1938 com a Indonésia e voltariam em 1954, com a Coréia do Sul; africanos, em 1970, com Marrocos. E um representante da Oceania só apareceu em 1974, com a participação da Austrália.

O conhecido perfil político da Fifa, que tinha Jules Rimet a frente, ajudaria a contemporizar os ânimos e garantir presenças importantes na Copa. Porém, no contexto da época, é preciso lembrar que 1942 foi o ano em que o Eixo teve maior domínio territorial no planeta, o ano em que os Aliados começaram a resposta contra os comandados de Hitler. Assim sendo, é possível imaginar que Alemanha e Áustria, unificadas, mandariam um time “Ariano”, na tentativa de Hitler mostrar sua superioridade também no Esporte; França, Holanda e Bélgica estariam fora, dominadas pelos alemães.

A Itália, ocupada pela Alemanha, mas com afinidades políticas, mandaria também seu poderoso time. Hungria, Tchecoeslováquia e Iugoslávia, aliados políticos de Hitler também participariam, com bons times. A Suécia seria outra participante, já que seu campeonato nacional seguiu acontecendo. Por fim, com um empurrãozinho dos EUA, a Inglaterra anteciparia sua primeira participação na Copa, depois da recusa inicial. A ideia seria ter nos inventores do futebol uma resposta em campo às pretensões arianas de Hitler. No entanto, sem a realização da Liga Inglesa nos anos entre 1939 e 46, o time não seria dos melhores. A URSS, ocupada com a invasão das tropas nazistas, acabaria por não participar.

As cidades-sede seriam seis, como em 1950. Cinco no sul-sudeste e uma no nordeste. Recife, com a Ilha do Retiro inaugurada em 1937, faria uma reforma para 20 mil lugares – como fez para 1950 – no estádio do Sport. Porto Alegre teria o Estádio dos Eucaliptos, do Inter, inaugurado em 1931 e reformado de 10 para 30 mil lugares. Curitiba, ainda sem a Vila Capanema, apostaria no Belfort Duarte – que viria a ser o atual Couto Pereira – por ser maior e mais confortável que o estádio da Baixada. O campo do Coritiba ganhou iluminação em 1942, ano da suposta Copa.

Em Minas, o Independência ainda não estava de pé, tampouco o Mineirão. A Fifa sugeriria excluir Belo Horizonte da Copa, o que seria rapidamente descartado pelo Governo. A solução seria ampliar de 5 para 20 mil lugares o estádio do Atlético Mineiro, Presidente Antônio Carlos, no lugar onde hoje existe um shopping. O Rio de Janeiro ofereceria ao Mundial o estádio de São Januário, do Vasco, então o maior do País. Mas, apesar do carioca Luiz Aranha ser o presidente da CBD, a final seria em São Paulo, que contaria com o recém-inaugurado estádio do Pacaembu (1940) para 70 mil pessoas.

Pacaembu, e não o Maracanã, o principal estádio para 1942

A Seleção Brasileira a ser convocada pelo então técnico Adhemar Pimenta (o mesmo que convocou o time para a Copa América naquele ano no Uruguai) seria basicamente montada por times de Rio e São Paulo, exceção feita ao goleiro Caju e ao lateral Joanino, ambos do Atlético Paranaense, e também ao atacante Paulo Florêncio, do extinto Siderúrgica, de Minas. Jayme de Almeida, do Flamengo, pai do ex-técnico flamenguista, e jogadores mais badalados como Domingos da Guia (Flamengo), Affonsinho e Tim (Fluminense) e Brandão e Servillo (Corinthians).

Aquela equipe começou o ano arrasando o Chile (6-1), mas perdendo para o Uruguai (0-1) e Argentina (1-2) no caminho, no Sul-Americano. No entanto, na Copa, a realidade poderia ser outra. Como dono da casa, o Brasil cresceria na competição.

A Argentina viria fortíssima. A base seria “La Máquina” do River Plate, onde surgiu Di Stefano, e que ganhou os títulos nacionais de 1941, 42 e 45. O craque era Adolfo Pedernera. A própria Argentina venceu muito naquele período. Campeã da Copa América em 1941, 45 e 46, o time dos Hermanos era uma potência. Como a Itália. Possivelmente seriam os times a disputar aquele título. Bicampeã do Mundo entre 1934 e 38, ganhou também as Olimpíadas de 1936. Chegaria montada como a equipe mais temida do Planeta na ocasião, com jogadores da Roma e do Torino como base. O consórcio Alemanha-Áustria teria como base as equipes do Schalke 04 (time da preferência de Hitler) e do Rapid Viena, os dois últimos campeões nacionais. Também viriam disputar o título o Uruguai, campeão sul-americano justamente em 1942, e a Hungria, vice-campeã em 1938. A Suécia, que viria a ser campeã olímpica em 1948, poderia correr por fora.

O regulamento da época previa quatro quadrangulares com o campeão passando para o quadrangular final. Brasil, país sede, Uruguai e Itália, campeões do Mundo seriam cabeças de chave facilmente. O quarto cabeça de chave, no entanto, causaria polêmica. Alemães e ingleses queriam a honraria, cada um com sua filosofia amparada na II Guerra Mundial. Como a fascista Itália já era cabeça de chave, Rimet prestigiaria a Inglaterra, mas não sem armar uma surpresa: ingleses e alemães estariam no mesmo grupo.

Sem ser considerado favorito, o Brasil, como força intermediária, receberia a vice-campeã Hungria em sua chave. Além dos dois, Cuba e Iugoslávia fariam parte dessa chave. O jogo de abertura marcava o encontro brasileiro com a Hungria, em São Januário, no Rio. Ajudado pelo calor, o Brasil venceria por 3 a 1 ao time envelhecido de Cseh, Szabo, Gyorgy Sarosi e Zsengeller. A Iugoslávia venceria Cuba em Belo Horizonte por 2 a 1 e empataria com a Hungria em Porto Alegre 2 a 2. Brasil e Iugoslávia jogariam em Recife, com nova vitória brasileira, 2 a 1. Em Curitiba, a Hungria, faria 9 a 1 em Cuba e, com 3 pontos, já não alcançaria mais o Brasil, que tinha 4 – as vitórias valiam 2 pontos. São Paulo veria a terceira e empolgante vitória do Brasil, sobre Cuba, por 7 a 0.

Pensando em fortalecer a Europa, a Fifa colocaria Uruguai e Argentina no mesmo grupo. A eles se juntariam Suécia e EUA. Em Porto Alegre, o Uruguai atropelaria os EUA por 6 a 0, enquanto os argentinos apenas empatariam com os suecos em BH, 2 a 2. Os americanos perderiam também seu segundo jogo, no Rio, para a Suécia, 0 a 3. E São Paulo assistiria o duelo Sul-Americano. Ao contrário do que aconteceu em 1942, na Copa América em Montevidéu, o campo não favoreceria a Celeste Olímpica e a máquina argentina faria implacáveis 4 a 1 nos rivais, que ainda empatariam com a Suécia em Porto Alegre, 3 a 3. No Rio, a Argentina faria 8 a 2 nos EUA e seria a classificada nessa chave.

A Itália, então bicampeã, estaria em uma chave com Bolívia, Chile e Tchecoeslováquia. A estreia, em Curitiba, seria um passeio nos bolivianos: 7 a 1. Chile e Tchecoeslováquia fariam um jogo memorável em Recife, com triunfo chileno por 5 a 4. Seria a primeira zebra das Copas. Em São Paulo, a Itália não passaria de um empate com a Tchecoeslováquia por 2 a 2, decepcionando seus migrantes na capital paulista. A Bolívia seria vitima de nova goleada, 5 a 0, em Porto Alegre. Vivo na disputa, o surpreendente Chile jogaria com a Itália no Rio de Janeiro, por um empate. A derrota apertada viria apenas no fim: 1 a 0 para os bicampeões mundiais, gol de Valentino Mazzola, do Torino. A Tchecoeslováquia se despediria da Copa em Minas, vencendo a Bolívia por econômicos 3 a 1.

A grande expectativa estaria pelo grupo com Inglaterra e Alemanha. A Fifa marcaria esse jogo para a última rodada, em São Paulo. No caminho, os ingleses estreando vencendo o México em São Paulo, 3 a 1. Em Curitiba, no campo do “alemão” Coxa, o consórcio Alemanha-Áustria faria 8 a 0 no Paraguai. Os paraguaios, porém, complicariam a vida da Inglaterra. O jovem time montado as pressas, já que a Liga Inglesa estava parada desde 1939, apenas empataria em Recife com o time guarani, 1 a 1, enquanto que os alemães atropelariam também o México, 6 a 2, jogando no Rio de Janeiro. No entanto, não seria bom aos planos da Fifa um título alemão. Originalmente marcado para Porto Alegre, o jogo entre alemães e ingleses foi transferido para Recife, com uma suposta dificuldade de transporte sendo alegada pelos britânicos. Considerando-se superiores, os germânicos fizeram a viagem, pegando uma Inglaterra descansada. E a zebra surgiria: 1 a 0 para os ingleses, que se defenderiam 90 minutos. Com 5 pontos contra 4 da Alemanha, a Inglaterra chegaria ao quadrangular final. México e Paraguai teriam seu jogo, marcado para Belo Horizonte, cancelado.

O quadrangular então reuniria Brasil, Argentina, Inglaterra e Itália. Os jogos seriam apenas entre Rio e São Paulo. Na estreia, no Rio, Tim comandou o ataque brasileiro contra a combalida Inglaterra, que já havia feito o que tinha a se fazer nesse suposto mundial. Vitória por 3 a 0 e festa brasileira. Ainda mais quando se viu o empate entre argentinos e italianos, 3 a 3, no Pacaembu. A Argentina jogaria em São Januário contra a Inglaterra e também venceria, 4 a 1, com Juan Carlos Muñoz, do River,  marcando os 4 gols. Em São Paulo, seria a vez de Caju e Servillo brilharem. A Itália pressionaria, mas pararia na Majestade do Arco. E com dois gols do corintiano, os paulistas viram a vitória brasileira, 2 a 0.

A decisão aconteceria um dia depois de mais um brioso jogo inglês contra os então bicampeões. Com um surpreendente 3 a 2, a Inglaterra chegaria ao 3º lugar, a frente a Itália dominada pelo fascismo, e aplicaria um golpe filosófico no Eixo. Mas os olhos do futebol estavam de olho no clássico do Pacaembu. O Governo Getúlio Vargas incentivava o nacionalismo, mas a empolgação seria menor do que a vivida em 1950.

Setenta mil pessoas assistiriam ao duelo. Em janeiro de 1942, em Avellaneda, a Argentina fez 5 a 1 no Brasil e venceu a Copa Rocca. A derrota ainda estava muito viva na cabeça dos brasileiros. Ficaria ainda mais quando Adolfo Pedernera marcasse 1 a 0 para os alvicelestes. O jogo seguiu tenso, com Caju trabalhando mais que o desejado. Nos seis confrontos entre os times na época (de 1940 a 42), foram 4 vitórias argentinas e apenas uma brasileira, o que demonstrava como seria dura a luta do Brasil naquela Copa.

Mas o Pacaembu veio abaixo quando Jayme de Almeida cruzou para Brandão empatar. Ao contrário da euforia de 1950, o Brasil não contava com o título e precisava de superação para segurar a esquadra argentina. Sem o champanhe no vestiário, os brasileiros correram até o fim e seguraram a força dos vizinhos, 1 a 1.

A tensão tomou conta do Pacaembu na cobrança dos pênaltis. De maneira competente, um a um, todos foram batendo e convertendo. E então viria Hermínio Masantonio. O maior artilheiro da história do Huracán teria a chance de abrir 5 a 4 no Brasil, jogando a pressão para Tim. Masantonio pararia no vôo certeiro de Caju, permitindo aos donos da casa a chance de ganhar a taça. Tim, calmamente, colocou a bola no fundo da rede:  (após dois avisos de dois leitores mais atentos que o escritor, mudamos o rumo da prosa: não tem pênaltis, o empate já bastava) na reta final da partida. A Argentina era só pressão. Hemínio Masantônio, maior artilheiro da história do Huracán, teria ainda uma grande chance na cara de Caju, mas não superaria o goleiro brasileiro. No final, Tim ainda cavaria uma falta próximo a bandeira de escanteio, que jamais seria cobrada: ao apito final do juiz, 1 a 1, Brasil, campeão do Mundo!

Goleiro Caju, um dos eventuais titulares para 1942

Consequências

É preciso imaginar também quais seriam as consequências deste suposto título brasileiro. A primeira delas: sem a maldição da camisa branca, com o Maracanazo de 1950, o Brasil jamais usaria amarelo. E o próprio Maracanã só viria a ser erguido em meados dos anos 50, como resposta fluminense às obras do Pacaembu e da Fonte Nova. É improvável que a Copa de 1950 também acontecesse no País, já que o período seria muito curto entre um Mundial e outro. Porém, dependendo da necessidade da Fifa, não seria impossível. O Mundo viveu o pós-guerra na época e o Brasil já estava pronto. Em 1986, com a desistência da Colômbia, o México recebeu o seu segundo Mundial num intervalo de apenas 16 anos. Porém uma aposta mais segura para 1950 seria a Argentina, também na América do Sul.

Amarelinha não existiria sem o Maracanazo

E em 1946? Bem, essa é outra história, para você ler aqui.