Números mostram: Brasileirão é o melhor campeonato do Mundo

Barcelona campeão: roteiro previsível na Espanha

É final de temporada na Europa e os campeões nacionais vão saindo, bem como os rebaixados. Enquanto o Brasileirão ainda engatinha, campeonatos de ponta como os da Espanha, Inglaterra, Alemanha e Itália, se ainda não terminaram, estão em vias de. Se é verdade que os estádios são muito mais confortáveis que a imensa maioria no Brasil, e que os torcedores lá estão mais próximos dos grandes craques, lotando as arquibancadas, é verdade também que os roteiros na Europa são quase sempre repetidos. Enquanto isso, no Brasil, os números mostram que o Brasileirão segue imprevisível. Se os espetáculos não são os que o torcedor queria ver (e será que todo Málaga x Valladolid é um jogão?) ninguém pode negar que o Brasileirão é o melhor campeonato do Mundo. Pelo menos por enquanto.

A razão é uma só: equilíbrio. A despeito da distribuição desigual de renda entre os 20 clubes no Brasil, nenhum outro campeonato de ponta no Mundo tem a pontuação tão achatada quanto a do Brasileirão. A linha de corte de rebaixamento é a mais difícil de ser atingida em todo o planeta. E o revesamento entre os campeões só é igualado pela França e superado pelo da Argentina, com dois campeonatos anuais.

Nos últimos 10 anos o Brasileirão consagrou o sistema de pontos corridos. E a partir dele é possível sim fazer uma comparação direta com campeonatos no mesmo formato e com o mesmo número de clubes, casos da Espanha, Itália, Inglaterra e França. Sempre se falou que o Brasileirão começa com 20 favoritos (uma meia-verdade) e que qualquer um podia ser campeão, o que mudou um pouco com o fim do mata-mata. Mas ainda assim, é o campeonato menos previsível entre os principais.

Apesar de o Campeonato Espanhol desta temporada chegar a última rodada com um duelo direto entre Atlético de Madrid e Barcelona, nos últimos 10 anos, o Barça levantou 6 taças, enquanto o Real Madrid ficou com 3. Se der Atlético, será a primeira vez, desde a temporada 2003/2004, que outro clube que não Barça ou Real fica com o título. O intruso foi o Valencia. Na Inglaterra apenas três torcidas gritaram “é campeão” nos últimos 10 anos. Manchester United (5 vezes), Chelsea (3) e Manchester City (2) são os privilegiados. Na itália, o mesmo: a Inter foi campeã em 5 dos últimos 10 campeonatos; a Juventus levou 2 (perdeu outros 2 na justiça) e o Milan levou 1, sendo que o campeonato 2004/2005 foi impugnado sem que um clube ficasse com a taça. Quatro alemães revesaram-se no título, com o Bayern (6) sobrando contra Borussia Dortmund (2), Wolfsburg (1) e Stuttgart (1). 

Na Europa, apenas os franceses têm um nível de imprevisibilidade igual ao do Brasil. São seis campeões nos últimos 10 anos, com o Lyon tendo perdido a hegemonia após sete títulos consecutivos, quatro dos quais dentro do período estudado de 10 anos. O PSG, com duas conquistas, é o atual dono da taça. Montpellier, Lille, Bordeaux e Olympique Marseille foram os outros campeões. Com dois campeonatos anuais, a Argentina viu 8 campeões nos últimos 10 torneios. O Vélez foi quem mais ganhou (3 vezes), com uma conquista para Newell’s, Arsenal, Argentinos Jrs., Boca Jrs., San Lorenzo, Estudiantes e Banfield. No entanto, o formato do Argentino é diferente do Brasileirão, que viu seis clubes se revezarem como campeões nacionais, glória que coube a São Paulo (3 vezes), Fluminense e Corinthians (2 cada), Santos, Cruzeiro e Flamengo (1 cada).

Se em cima há um revezamento muito maior no Brasileirão, o que realmente mostra o equilíbrio do campeonato nos últimos 10 anos é a linha de corte para a queda. Os clubes brasileiros são obrigados a pontuar mais que os europeus para não caírem para a Série B. Aqui, uma ressalva: estudando somente os principais campeonatos que tem 20 clubes, é preciso dizer que os europeus rebaixam apenas três clubes por ano – no Brasil são quatro. Assim sendo, para efeito de comparação, a análise incluiu também a pontuação para o 16o. colocado, o que seria a linha de corte no Brasileirão.

Um clube brasileiro precisa fazer em média 45 pontos para não cair. Isso equivale a 15 vitórias em 38 jogos, um aproveitamento de 40% nos jogos. E pode piorar. Em 2009 os 45 pontos não livraram o Coritiba do rebaixamento, já que o Fluminense fez 46. Em qualquer outro campeonato de ponta com 20 clubes, seria indice suficiente para não cair. Na França, em média, um clube escapa com 43 pontos ou menos. Neste ano, faltando uma rodada para acabar a competição, o primeiro rebaixado não ultrapassará essa marca. Na Espanha é preciso menos: 41 em média, sendo que é possível que o primeiro não rebaixado de 2014 fique com 40 pontos. Na Itália o Chievo livrou-se da queda com míseros 33 pontos. Se a linha de corte for puxada para uma posição a mais, 34 pontos seriam suficientes para evitar a queda. Na média, os italianos que fizeram 40 pontos nos últimos campeonatos permaneceram na Série A. E no decantado Campeonato Inglês o índice é o menor de todos. Com 39 pontos em média, um aproveitamento de 34%, um clube pode escapar da queda – incluindo a linha de corte para 4 rebaixados. O West Bromwich evitou a degola com 36 pontos na atual temporada.

Uma das razões para que o Brasileirão ainda não tenha caído na monopolização de poucos, casos da Espanha e da Inglaterra, é o fato de o País ser formador de craques. Enquanto os grandes europeus levam vantagem sobre seus rivais ao mostrarem poderío financeiro, no Brasil uma peça pode ser substituída com maior facilidade. O desempenho recente de Henrique no Palmeiras, após a saída de Alan Kardec para o São Paulo, é a prova. Um clube mais forte financeiramente tira do rival uma peça importante, substituída por outra, mais barata, mas com eficiencia parecida (três gols em três jogos). Da mesma forma em que o investimento na base faz com que clubes como Santos e Atlético Paranaense permaneçam competitivos contra equipes que ganham de 3 a 5 vezes mais. O ano de exceção do Altético de Madrid não é garantia de inclusão no rol dos frequentes campeões espanhóis dos últimos anos. Um encaixe de uma boa equipe, com o técnico certo e em um ano abaixo da média para Barcelona e Real Madrid pode dar aos Colchoneros duas conquistas históricas – mas vale dizer que, apesar da temporada fabulosa, o Atlético madrilenho pode perder os dois títulos justamente para seus dois maiores algozes.

Para ser de fato o melhor campeonato do Mundo, o Brasileirão precisa tratar melhor seu público, a começar com o respeito ao torcedor, algo que as novas arenas podem trazer. Precisa incentivar a disputa, melhorando a distribuição de renda entre os clubes. E precisa pensar o futebol de clubes tanto quanto valoriza a Seleção. O potencial está aí, traduzido em números. Basta querer.

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