Perdemos o futebol

A foto impressiona: nem Cristo daria jeito

Eu ainda era criança, tinha quatro ou cinco anos, quando meu avô, um são-paulino radicado no Paraná, me pegou no colo e disse: “Vamos dar uma volta, vou te levar nos estádios [de Curitiba] e você vai escolher um time da sua cidade pra torcer”. Escolhi. Durante todos os anos que vieram a seguir, vi meu amor por esse esporte crescer. Alegrias, tristezas. A paixão foi tanta que resolvi até trabalhar com isso, como jornalista. Foram momentos bons e ruins, inesquecíveis, ao lado da família, dos amigos, das namoradas… enfim, você que está lendo esse texto certamente passou por isso também.

Por isso é que eu sinto muito em lhe informar: perdemos o futebol.

Ele morreu. Foi embora, perdeu-se no tempo. Não foi ontem, na Arena Joinville. Como em tudo na vida, isso veio acontecendo há tempos. Desde aquela tarde de 20 de agosto de 1995, quando um torcedor do São Paulo foi espancado até a morte no Pacaembu, durante a Supercopa SP de Futebol Júnior, o futebol adoeceu. Perdeu seu objetivo. Nas Laranjeiras em 1996, a doença cresceu. Nas inúmeras e incontáveis brigas entre torcidas organizadas nas ruas das capitais, ela ganhou corpo. Em 2009, no Couto Pereira, se tornou incurável. Neste ano, matou Kevin Espada em Oruro, na Bolívia. E neste domingo chegou ao ápice, em Joinville. Nesses anos todos, de maneira passiva e muitas vezes partidária, assistimos impávidos a morte da nossa grande paixão.

Dirigentes coniventes e omissos, mesmo os mais radicais, se atrelam aos organizados por poder e manutenção de um colégio eleitoral favorávael. Dirão, pela milésima vez, que não é possível generalizar, que existem projetos sociais nas organizadas, blablabla. Pois lá estão elas, de novo, envolvidas em mais uma vergonha. Os rostos estão aí. O poder público não prende ninguém; se a polícia o faz, acaba tendo de soltá-los. Na próxima partida, estão lá. Você, não. A não ser que não tenha amor à vida.

Vampirizam os clubes, amedontram famílias e seguem impávidos no alto de seus tambores, marcando brigas e estabelecendo um reinado de terror nas ruas e nos estádios do Brasil. Perdi a conta das mortes. Ninguém se salva. Nenhuma cor, nenhuma camisa, nenhuma facção. Basta andar por uma delas e ver o consumo pesado de drogas, o uso desenfreado de bebidas alcoólicas. E você lá, proíbido até de tomar a sua cervejinha, “vilã” que saiu dos estádios, mas não levou a violência consigo.

Não tem mais fundo esse buraco. Não adianta falar, há que se agir. Identificar, punir e prender os vândalos, punir os clubes que lhes dão guarida, afastá-los do futebol. Na era das novas Arenas, o conceito está mais próximo do que era na Roma antiga. 

Culpados e inocentes

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Inocente em Joinville só mesmo os que assistiram horrorizados ao confronto nas arquibancadas. O Atlético e o Vasco concorrem com culpa indireta e devem ser punidos com o rigor da lei desportiva. As organizadas devem ser punidas também. Falar em fechamento é hipocrisia. Reunirão-se sob outro nome e outro símbolo, como já aconteceu, e seguirão nesse rentável negócio. é prender e multar o CNPJ da empresa que elas têm. Os sócios dos clubes, que perderão seu direito ao jogo, devem processar os clubes e as organizadas pela perda futura. Só doendo no bolso deste tipo de gente é que se muda algo.

O Ministério Público de Santa Catatina idealizou corretamente a ausência da Polícia Militar do mesmo Estado, dizendo o óbvio: evento particular, segurança particular. No entanto, erra também ao ignorar o risco de violência. Infelizmente, devemos assumir que não somos uma sociedade perfeita e que alguns animais devem ficar na jaula. No mundo ideal, a PM não deveria mesmo bancar babá de Organizada. Mas o Mundo está longe do ideal e é o cidadão comum que está sofrendo.

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