Contagem regressiva para o legado

Escavadeiras precisam de velocidade de Fórmula 1

São exatos 365 dias para a Copa 2014 enquanto eu escrevo este texto. Em todos os outros que antecederam este dia, desde o dia 30 de outubro de 2007 (você se lembra onde estava nesta data?), muito se discutiu o legado da Copa. Criou-se duas correntes, uma contrária e outra favorável ao Mundial. Boa parte da discussão ficou em cima dos estádios, o que gerou outra impressão errada: o clubismo. Quem tá dentro é a favor, quem tá fora, contra.

Foi onde erramos. Estádios são vitais para a realização da Copa, mas não são o mais importante para o Brasil. Faltando um ano para a Copa, estamos correndo atrás do que realmente importa: a infraestrutura. Enquanto brigamos pelos campos, nossas ruas, aeroportos, hotéis, tecnologia e profissionais de turismo ainda engatinham.

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Desde o começo fui favorável a Copa no Brasil. Sou militante do esporte. Jornalista esportivo que não quer o maior evento do planeta em seu país é contraditório; seria como um advogado trabalhar contra uma suposta vinda do Tribunal de Haia para o Brasil. O que não significa que não devamos permanecer vigilantes quanto ao uso dos recursos, tampouco concordemos com todas as imposições. Temos, novamente, duas correntes: a que acha tudo maravilhoso e a que não vê nada bom em coisa alguma. Falta ponderação.

O legado esportivo é inegável. Receberemos os melhores atletas, teremos uma nova visão do negócio. As 12 cidades-sedes terão novos estádios. Mesmo os “elefantes brancos” podem dar àquelas praças uma nova perspectiva. Cuiabá, por exemplo, lentamente começa a esboçar um trabalho profissional com o Cuiabá EC. As praças mais consagradas terão novos estádios; clubes se modernizaram e alguns rivais se espertaram a tempo e pegaram carona. O torcedor terá mais conforto. Não teremos alambrados e podemos começar a nos comportar como cidadãos, sem invadir campo, por exemplo. Foi a partir disso que a Bundesliga alemã se tornou uma das três maiores ligas de futebol no Planeta. E tenho certeza que todos os estádios estarão prontos.

Mas e as cidades? Enquanto se debatiam os estádios, o que foi feito pelas cidades? Um levantamento do jornal paranaense Gazeta do Povo aponta que dos 8.9 bilhões de reais previstos para mudar a cara da infraestrutura urbana do país, apenas 1,4 bilhão já foi investido. Boa parte, 6,1 bilhões, já foram contratados e devem ser o principal foco dos interessados no evento nestes 365 dias que restam. E os interessados somos todos nós. É a discussão da política: se você se omite, é conivente. Não existe apolítica – esta postura é uma postura política. A situação mais crítica é a dos aeroportos: 0,6 bilhão investido dos 7 bilhões previstos. Experimente pegar um avião aqui e também nos EUA para sentir o atraso que a Copa deveria acelerar. Já se sabe que muitos deles só estarão prontos anos depois do evento. Não cabe o comparativo de que o investimento na Copa tira dinheiro de hospitais e escolas. Existe orçamento para tudo. Talvez não fosse prioridade do País receber esses eventos; mas foi esse o plano do então presidente Lula para posicionar o Brasil como potência mundial. Cabe, porém, a cobrança forte para que os recursos sejam bem aplicados em todas as áreas. Ao invés de sair as ruas para vaiar a Seleção, vale sair às ruas, com ordem, pedindo melhores hospitais, escolas, etc. Uma coisa não exclui a outra.

Além disso há o componente político. Desde que o Governo proibiu o comércio de bebidas alcoólicas nos estádios, não se percebeu redução significativa na violência das torcidas, mas muitos comerciantes tiveram perdas substanciais nos lucros. Para a Copa, entretanto, o comércio está liberado. E depois? Restringe? Qual a diferença fundamental entre o consumo antes e durante o Mundial? A Fifa fez o que lhe cabia, é o Governo quem deve proteger o que interessa à nação. O mesmo vale para os movimentos populares, como as festas de São João e até as baianas do acarajé em Salvador (veja aqui).

Outra análise fria que precisa ser ponderada é a da vinda de turistas. Estudos apontam que o fluxo migratório começa dois anos após as Copas. Foi assim na Alemanha e na África do Sul. É o momento que os torcedores de outros países já assimilaram o que viram na TV. E ninguém é melhor que a Fifa para vender a imagem de um país próspero e agradável, com estádios moderníssimos. Em 2016, no entanto, o Brasil estará às voltas com as Olimpíadas – outro evento gigantesco. Até lá a estrutura estará pronta?

É preciso cobrar. Teremos eleições no próximo ano. Nada como uma enxurrada de obras, certo? Como separar o joio do trigo? Como identificar o verdadeiro legado da Copa? No momento, é decepcionante além do esporte. É um momento de reflexão.

Siga Napoleão de Almeida no Twitter: @napoalmeida

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