O Santa merece o Brasil

O Santa Cruz é tricampeão pernambucano de futebol. Bateu o Sport, como já havia feito ano passado. E retrasado. E nos seis jogos entre os rivais, quatro vitórias tricolores. O Santa já retomou o Pernambuco para si; falta o Brasil.

Longe dos holofotes nacionais desde 2006, quando foi o lanterna da Série A, o Santa Cruz comeu o pão que o diabo amassou. Mas parece ter reencontrado seu rumo. De fato, é até injustiça dizer que o Santinha passou tanto tempo longe da mídia. Foi carregado por seu povo em muitos desses anos de dificuldade, quando chegou a despencar para a Série D. Literalmente carregado: ignorando a divisão, o torcedor coral conseguiu a 39a média de público do Mundo, a 1a no Brasil, a frente do campeão da Libertadores, o Corinthians, por exemplo. Seus 36,9 mil torcedores por jogo foram mais fiéis que os torcedores da Roma, Juventus, Porto e todos os outros times sulamericanos – incluindo Flamengo e Boca.

Mas, em campo, o Santa não respondia.

Até que o clube começou a se reorganizar. Arrumou o Arrudão, longe ainda do ideal, mas melhor estruturado. Manteve uma linha de trabalho, que passou por Zé Teodoro e chegou a Marcelo Martelotte, com o goleiro Tiago Cardoso se tornando ídolo em Recife, com Denis Marques reencontrando seu bom futebol, com a diretoria de Sylvio Ferreira arrumando o clube. Mas falta algo.

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O Santa Cruz merece o Brasil. Um clube tricampeão pernambucano, Estado representativo no futebol brasileiro, não pode ficar escondido na Série C nacional. É difícil competir no mercado de hoje, com disparidade de renda, patrocínios milionários e concorrência desleal na base. Mas um clube que tem rivais em divisões acima e manda dentro de Pernambuco há três temporadas pode mais. O Santa Cruz precisa ao menos estar na Série B em 2014, entendendo o seu desafio de crescer e marcando presença, para deixar de ser só “o clube que leva mais gente aos estádios” e passar a ser um adversário que incomode os grandes do País também em campo.

  • “O Santa é lindo!”

Era 1999 e eu, ainda acadêmico de Publicidade, sequer pensava em cursar também jornalismo. Mas já gostava de futebol. E em um congresso de comunicação em Maceió, resolvi ir ao estádio assistir CRB x Santa Cruz, no Rei Pelé, pela terceira rodada da Série B daquele ano. No comando de ataque do Santa, Grafite – aquele mesmo.

Não me recordo porque cargas d’água, mas eu e alguns amigos resolvemos desafiar a regra número um de qualquer torcedor sadio em campo desconhecido: ao invés de irmos na torcida da casa, ousamos entrar nos visitantes. Aderimos a massa do Santinha.

O jogo não estava lá essas coisas. O CRB era melhor na partida e o Santa era um amontoado em campo. Não demorou até que o time da casa fizesse 1-0. O gol, de fato, parece que incendiou ainda mais a numerosa torcida coral presente ao estádio. Maceió fica a apenas 265km do Recife. A galera foi em peso. E passava raiva.

Lá pelos 30 do segundo tempo, um lance raro do Santa no ataque resultou em pênalti. Vibração intensa. É aquele momento em que as classes sociais se misturam: rico abraça pobre, branco abraça negro, não há distinção sexual ou qualquer outro tipo de preconceito. É o que faz o futebol ser o que é. “É pênalti pro Santa!!” berrou do meu lado um senhor barbudo, já desfalcado do zagueiro central e do ponta direita entre seus dentes, com um hálito não tão leve que indicava o grau de empolgação. “O Santa é lindo! O Santa é lindo!”, gritava, esperançoso pelo empate. Grafite pegou a bola.

O coração bateu mais forte. O gol é aquele momento especial. Me peguei torcendo pelo Santa Cruz. “O Santa é lindo”, insistia o amigo, já quase naquela intimidade que dispensa o “senhor” antes das frases. Em campo, Grafite colocava a bola na cal e dirigia-se até a meia lua, mãos na cintura.

Grafite foi pra bola.

Andou um, dois, três passos. Olhou para o goleiro. Armou o chute. Tropeçou. Pegou mal na bola. O goleiro defendeu sem dificuldades.

A expressão do Barba (já estavamos como velhos amigos) foi mudando lentamente, na medida do desenrolar da jogada. Da euforia à decepção. Minutos depois, o CRB faria 2-0. O Santa – e Barba – voltariam ao Recife vencidos. Mas nunca derrotados.

No fim do ano, Barba ficou mais alegre: o Santa foi vice-campeão da Série B e voltou à elite nacional.

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